segunda-feira, dezembro 17, 2012


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 166


 - Os jagunços estavam de Atalaia, prontos para descer. Os meus e os de outros amigos. Para acabar com a eleição – olhou com seu olho são para o exportador, sorriu – Havia um cabra, bom na pontaria, meu conhecido velho, determinado para o senhor.

Mundinho ouvia muito sério. Amâncio pitou o cigarro:

 - Agradeça estar vivo ao compadre, seu Mundinho. Se ele não tivesse morrido, quem estava no cemitério era o senhor. Mas Deus não quis, chamou ele primeiro.

Silenciou, talvez a pensar no amigo desaparecido. Mundinho esperou, um pouco pálido.

 - Agora, tudo acabou. Fiquei contra o senhor porque para mim o compadre era mais do que um irmão, era como se fosse meu pai. Nunca me importei de saber quem tinha razão. Para quê? O senhor estava contra o compadre, eu estava contra o senhor. E, se ele fosse vivo eu estava ele contra o Diabo em pessoa. Nas férias meu filho mais velho…

 - Eu o conheci – conversámos mais de uma vez.

 - Sei disso. Ele discutia comigo: que o senhor estava com a razão. Não era por isso que eu ia mudar. Também não forcei a natureza do menino. Quero ele independente, pensando pela cabeça dele. Para isso trabalho, ganho dinheiro. Para que meus filhos não precisem de ninguém, possam tomar a atitude que quiserem.

Fez novo silêncio, fumava. Mundinho não se moveu.

 - Depois o compadre morreu. Fui para a roça, comecei a pensar. Quem vai ficar no lugar do compadre? Alfredo? – Fez um gesto de pouco caso com a mão – É bom rapaz, cura doença de menino.

Fora disso, é o retrato da mãe, uma santa mulher. Tonico? Esse não sei a quem saíu. Dizem que o pai do compadre era mulherengo. Mas não era safado. Fiquei matutando e só vi em Ilhéus um homem para substituir o compadre. E esse homem é o senhor. Vim aqui lhe dizer. Para mim acabou, já não combato o senhor.

Mundinho continuou ainda uns minutos em silêncio. Pensava nos irmãos, na mãe, na mulher de Lourival. Quando o empregado lhe anunciara o coronel Amâncio, ele tirara o revólver da gaveta, pusera no bolso. Até pela vida temera.

Esperava tudo menos a mão estendida do coronel. Agora era o novo chefe da terra do cacau. No entanto, não se sentiu alegre ou orgulhoso. Já não tinha com quem lutar. Pelo menos até que lhe aparecesse alguém para lhe fazer frente quando os tempos novamente mudassem, ele já não servisse para governar. Como sucedera ao coronel Ramiro Bastos.

 - Coronel, eu lhe agradeço. Eu também lhe combati e ao coronel Ramiro. Não por questão pessoal. Eu admirava o coronel. Mas não concordávamos a respeito de Ilhéus.

 - Sei disso.

 - Nós também estávamos com os nossos jagunços preparados. Não sei quem iria botar Ilhéus pelo direito depois de o termos posto do avesso. Também havia um homem designado para o senhor. Não era meu conhecido velho mas era de um amigo meu. Agora, tudo isso acabou para mim também.

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