quinta-feira, dezembro 12, 2013

A gente rebenta a cara deles...
JUBIABÁ

Episódio Nº 187




Passa o resto da noite na companhia do Gordo e de Joaquim pregando manifestos pela cidade, o manifesto que Severino redigiu e que explica os motivos da continuação da greve.

Todos os postes têm manifestos. Também nos muros do Ramos do Queiroz, da Baixa dos Sapateiros, pregaram manifestos.

Um grupo chefiado pelo negro Henrique foi para os lados do Rio Vermelho. Eles vão para a Estrada da Liberdade, outros seguem para a Calçada, outros estão na cidade baixa.

A cidade se enche de manifestos e todos sabem as razões por que os soldados continuam em greve. A companhia não é geralmente simpatizada e os pequenos comerciantes vêm de marineti para os seus negócios e olham os operários com simpatia.

A companhia fez espalhar o boato de que, se a greve vencesse, os preços das passagens nos bondes, as assinaturas da luz e telefone, subiriam.

Mas o golpe falha, apenas traz maior animosidade contra a companhia. O tempo continua claro conservando o bom humor da população. E este bom humor é aliado dos operários.



António Balduíno (quanta coisa ele aprendeu naquele dia e naquela noite) explica a greve ao Gordo e a Joaquim. E se espanta de Jubiabá não saber coisas da greve.

Jubiabá  sabia coisas de santos, histórias de escravidão, era livre mas nunca ensinara a greve ao povo escravo do morro. António Balduíno não compreendia.


Dos lados da Ladeira do Pelourinho vem um barulho, uma agitação. Homens passam correndo. Do sindicato ouvem o ruído de um tiro. Alguém entra e diz:

 - A polícia quer obrigar os padeiros a entregar pão.

Sai um grupo do sindicato. Mas o barulho já se desfez e no chão jazem cestos onde estavam pães envelhecidos que os donos das padarias querem obrigar os cesteiros a entregar.

Um cesteiro que está com um olho arroxeado de uma pancada explica:

 - Veio até soldado de Cavalaria. Mas a gente não entregou mesmo.

Um outro avisa que a “Padaria Galega” vai mandar entregar o pão dormido. Conta que eles foram contratar desempregados dando o duplo do salário. Demais garantiam o emprego para o resto da vida.

Um forneiro velho grita:

 - A gente não deve deixar.

Tem muita gente nas janelas da Ladeira do Pelourinho. E do Sindicato dos operários da Circular chegam a todo o momento novos grupos.

Vozes aplaudem o forneiro:

 - Vamos mostrar a eles que não se deve furar a greve…

António Balduíno convida:

 - A gente rebenta a cara deles.


Nada disso, diz Severino. Vamos lá e explicamos para eles. Que não devem servir de instrumento contra os operários como eles. Não é preciso barulho…   

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