sexta-feira, agosto 01, 2014

Na Sala do Tribunal
   













Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia.

     D - Delegado
     L - Ladrão

      D - Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!

      L - Não era para mim não. Era para vender.

      D - Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!

      L - Mas eu vendia mais caro.

      D - Mais caro?

      L - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.

      D - Mas eram as mesmas galinhas, safado.

      L - Os ovos das minhas eu pintava.

      D - Que grande pilantra... (mas já havia um certo respeito no tom do delegado...)

      D - Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...

      L - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio..

      D - E o que você faz com o lucro do seu negócio?

      L - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.

      O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:

      D - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?

      L - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.

      D - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?

      L - Às vezes. Sabe como é.

      D - Não sei não, Excelência. Me explique.

      L - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.

      D - O que é isso,  Excelência? O senhor não vai ser preso não.

      L - Mas fui pegado em flagrante pulando a cerca do galinheiro!

      D - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes... e respectivas equivalências ... Prof. DOUTOR ... preso ???... Nem pensar!!


    Luís Fernando Veríssimo



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