quinta-feira, dezembro 18, 2014

... se ofendera, já não a queria de xodó.
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 127


















 - Afastou-se deixando a porta livre, o aço do parabelo cintilou no bruxuleio do fifó.

-  Pelo amor de Deus, não atire, Capitão!

Arrebanhou as calças e a camisa, disparou porta afora, sumiu no mato, só parou de correr quando se considerou a salvo.

Muita sorte tivera: enxergara o Capitão antes de cometer a loucura de meter-lhe a mão na cara e condenar-se à morte.

Com aquela desvairada, por melhor fêmea que fosse -  e era! -não voltaria a se deitar, nem de graça, Deus o livre e guarde.

Bernarda pôs-se de pé, atarantada, sem palavras, nem bênção lhe pediu. Natário guardou a arma, o rosto impenetrável, a voz severa, rigorosa:

- Avisei que vinha dormir aqui no dia de hoje. Se esqueceu?

- Padrinho disse que ia vir no domingo. Inda hoje espiei na folhinha de seu Gerino.

Do outro quarto chegou a voz de Coroca:

 - É deveras, fui junto com ela, marcava quinta-feira. - Tendo dito, voltou a seus cuidados: tranquilizar o parceiro.

Apavorado que propunha pagar e ir-se embora: — Fique descansado, moço, não tenha medo.

O Capitão sentou na cama, retirou o cinturão, começou a descalçar as botas:

 - Vá se lavar.

Bernarda saiu disparada em direcção ao rio mas voltou do meio do caminho na mesma correria em busca do sabão: a água não bastava para limpar a pele do suor e da lembrança do cagão.

Ao regressar molhada e imaculada, pronta e feita para as
núpcias com o padrinho, encontrou-o dormindo aparentemente a sono solto, nem sequer tirara a calça.

Bernarda ficou baratinada sem saber o que fazer. Sentou-se na viga da cama, tocou-lhe o rosto de leve com os dedos húmidos.

 Sem abrir os olhos, o padrinho virou-lhe as costas. Estaria realmente adormecido ou desapiedado a repelia? Na fumaça da candeia ele a enxergara debaixo de outro, se ofendera, já não a queria de xodó.

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