sábado, janeiro 17, 2015

Ele, Pedro Cigano, colocava-se às ordens.
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 149



















Devido a razões de sobejo conhecidas, não se pode esquecer a ajuda do capitão Natário da Fonseca. Lastimando não poder participar da festa, alargou os cordões da bolsa: contribuiu em seu nome e nos de Bernarda e de Coroca.

Nem por isso as duas raparigas -  e quase todas as demais deixaram de colaborar com alguma moeda ganha com o xibiu, escondida nas profundas da penúria, oferecida com satisfação.

O milho e o coco, o açúcar e o sal tinham sido distribuídos entre as mulheres; os jenipapos sobravam encarquilhados sob as árvores. Cada pessoa se encarregava dessa ou daquela tarefa, em geral de mais de uma.

 Para executá-las juntavam-se em grupo animados: conversavam, caçoavam, discutiam, reclamavam, riam, emborcavam uma lapada de cachaça para matar o bicho - os bichos ruins do inverno: a chuva aborrecida, o frio cortante -  não eram de ferro.

Não havia obrigação nem horário de trabalho. Nem feitor nem capataz, nenhum patrão. Se Fadul e Tição orientavam e dirigiam, faziam-no discretamente sem dar mostras e também eles pegavam no pesado.

 Ninguém mandava em ninguém. Assim vinha acontecendo desde que, no almoço dominical, Castor propusera festejarem o São João.

Encontrando vago o posto de comando, Pedro Cigano o ocupou e seus alvitres tiveram a ver com a ampliação da festa; apontando uma deficiência, corrigindo uma injustiça. Brincar o São João, feliz ideia. Mas por que discriminar os outros santos de Junho, se eram os três iguais na devoção e nos prodígios?

 Por que não começar festejando Santo Antônio, santo casamenteiro, patrono das noivas, e terminar louvando São Pedro, padroeiro das viúvas?

 O fato de não haver ainda em Tocaia Grande donzela candidata ao matrimónio nem viúva lacrimosa nada significava: um dia, com a graça de Deus, sobrariam umas e outras a dar com os pés.

 Ele, Pedro Cigano, colocava-se às ordens com a sanfona para animar de graça um dançarás na noite de Santo António.

Acenderiam uma pequena fogueira, provariam um pedaço de canjica, um trago de licor de jenipapo, dançariam o coco miudinho, a polca e a mazurca, num ensaio preparatório da grande noite, a da véspera de São João. Para ela guardariam os fogos e a quadrilha.

Não foi difícil convencer a povo. Naquele solitário e carente fim de mundo nada despertava mais entusiasmo do que um forró, um bate-coxas.

 Acontecia de raro em raro, quando Pedro Cigano se bandeava por ali ou quando um sanfoneiro, um tocador de violão ou de cavaquinho pernoitava por acaso em Tocaia Grande.

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