quarta-feira, outubro 28, 2015

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 95




















Em esforço rodou sobre si próprio no chão, tentando perceber quem lhe falava. A cerca de cinco metros, sentada num penedo, estava uma mulher totalmente vestida de negro, com um capuz sobre a cabeça, escondendo a cara.

Ela apontou para um local à sua esquerda e Mem viu os dois jumentos e a carroça e ouviu outra vez a voz:

- Tive de vos adormecer, não gosto de surpresas. Mas depois reconheci-vos.

O almocreve sentiu de novo um receio agudo a percorrer-lhe o corpo.

- Quem sois vós? - perguntou. - De onde me conheceis?

Então, a mulher falou pausadamente:

 - Fui eu que cremei o vosso pai.

Mem recordou-se: o pai a ser degolado pelo demónio de branco, o céu a ficar escuro e cheio de estrelas, uma mulher de negro colocando a cabeça junto do corpo do pai e depois dizendo-lhe que dirigisse a Coimbra, onde poderia recomeçar a sua vida, o que Mem fizera com o coração rasgado de dor.

Sentiu uma comoção interior.

- Nunca vos agradeci por me teres ajudado. Obrigado.

A mulher nada disse e por isso ele perguntou:

 - Como vos chamais?

Ela levantou-se pela primeira vez e reparou que não era tão alta como na sua memória. Ouvi-a afirmar, enquanto se aproximava, cautelosa, para evitar tropeçar nas pedras ou nas raízes.

- O meu nome não interessa.

Quando chegou perto dele, Mem viu-lhe a cara. Estava mais velha com mais rugas e verrugas e muito mais farripas de cabelo cinzento na testa, embora o pontiagudo nariz se mantivesse idêntico.

Continuava feia e se a tivesse visto pela primeira vez, Mem teria tido medo, mas agora ficara apenas intrigado com aquele reencontro.

- Viveis aqui? – perguntou.

A mulher sentou-se em frente dele, e dela emanava um cheiro a âmbar, o mesmo que Mem sentira antes de adormecer.

- Ninguém vive em Soure. Só há ursos e lobos. Foi um risco cá passardes com o vosso jumento magoado e a carroça cheia de carnes.

Explicou que era a fogueira flamejante e os seus pés perfumados que afastavam os animais.

 - Mas eles não têm medo de mim ao contrário das pessoas.

Mem suspeitou da saúde dela, sentindo um ligeiro desconforto.

 - Sois leprosa? – perguntou.

Ela negou que vivesse em gafarias e acrescentou:

- Não é disso que têm medo.

Um novo tremor percorreu Mem.

 - Sois uma bruxa?

Pela primeira vez a mulher sorriu, mas era um sorriso conformado, como se a pergunta dele fosse previsível.

- O povo chama bruxa a quem não entende.

Site Meter