terça-feira, março 29, 2016

O autor, esse calhorda...
Tieta do Agreste
(Jorge Amado)

EPISÓDIO Nº 112





















ONDE O AUTOR, ESSE CALHORDA, METE-SE COM ASSUNTOS QUE NÃO SÃO DE SUA CONTA E DOS QUAIS NADA ENTENDE





Ainda em vida e já em odor de santidade – retomo o pensamento do seminarista Ricardo, ao voltar à presença dos leitores para alguns rápidos e indispensáveis comentários com os quais busco fornecer base ideológica e consequência aos factos e às reacções dos personagens. Assim, evito que me acusem de não estar engajado, de não ser participante, de fugir a comprometimento.

Não podem os senhores me culpar de metido, importuno e maçador: a quantas páginas já andamos no terceiro episódio desse arrastado relato, sem que eu haja interrompido a narrativa? Afinal cabe-me o direito de fazê-lo, sou o autor e não posso permitir que os personagens se dêem ao luxo de conduzirem sozinhos os acontecimentos ao sabor das emoções e ponto de vista nem sempre os mais convenientes à mensagem desejada.

Desta vez quem me faz tomar da máquina de escrever é Frei Timóteo, frade franciscano, ao que tudo indica um desses muitos sacerdotes progressistas que estão tentando reformar a Igreja, partindo de teorias ditas ecuménicas.

Reclamam, exigem um cristianismo militante, situado ao lado dos explorados contra os exploradores, da justiça contra a iniquidade, da liberdade contra a tirania. Querem limpar a Igreja de antiga incriminação: a de servir aos interesses das classes dominantes, dos aristocratas e dos burgueses sendo ópio do povo, quando não é Santa Inquisição em caça às bruxas.

Contra tais avançados sacerdotes que estão rompendo preconceitos e reformulando teses, quem sabe reconduzindo a fé cristã às suas origens, levanta-se grita violenta e agressiva, formulam-se libelos provocadores, acusações perigosas, são tachados de subversivos, onde já se viu tal coisa depois de Nero e de Calígula?

Na discussão de dogmas não me envolvo, por não ser causa minha, se bem que em princípio a polémica travada contenha interesse geral. Em matéria de religião mantenho-me neutro por não possuir nenhuma, a todas respeitando.

Reportando-me, porém a conceitos expressos pelo frade e a casos narrados pelo canoeiro Jonas, quero dar meu testemunho sobre o problema em causa: as relações entre castidade e santidade, tão discutidas, e o faço com o espírito livre de prejuízo de qualquer ordem, apenas no interesse gratuito de concorrer para completo esclarecimento do assunto.

Durante séculos e séculos, a castidade constituiu elemento indispensável, ou quase, à produção de um santo ou de uma santa. Quanto mais flagelada a carne, maior a possibilidade de beatificação. Assim consta ao que parece do direito canónico.

Não aprovo o profeta Jonas, duvidoso profeta de contrabando surgindo sobre o dorso de vorazes tubarões em lugar de sair do ventre da bíblica baleia, quando afirma em frase chula, eivada de palavrões, que padre se não cheira a vagina, cheira a anús, tentando, sem dúvida, estabelecer discutível conotação entre o celibato clerical e a pederastia. Ora isso nem sempre acontece, a conotação é imprópria e forçada. Sobra razão, não obstante, ao rude marujo, ao garantir a Ricardo que o pecado contra a castidade não impede o sacerdote de atingir a bem-aventurança e o milagre.

Não me proponho analisar teses morais, preceitos religiosos, quem sou eu? Apenas desejo constatar a evidência acima enunciada, citando exemplos e apresentando provas. Posso começar pelo próprio Frei Timóteo, em odor de santidade ainda em vida, pois é casado e pai de filhos, provou do fruto e isso não impede que entendidos e leigos o consideram um eleito de Deus, e como tal o proclamem e venerem. Casamento e filhos aconteceram antes da ordenação? É certo, não discuto. Não serve de exemplo, portanto? Eu retiro, não preciso dele, existem muitos, passo a outro.

Passo ao padre Inocêncio, falecido há pouco mais de um decénio, na avançada idade de noventa e seis Janeiros, ainda lúcido, capaz de distinguir uns dos outros seus tetranetos. Vigário por mais de cinquenta anos na cidade de Laranjeiras, enterrou com devoção e lágrimas, três concubinas, que lhe deram um total de dezanove filhos. Cinco, Deus levou na primeira infância, padre Inocêncio criou e educou catorze, oito varões, todos direitos, e seis moças, todas bem casadas – excepto Mariquinha, muito dada a homens a ponto de Rubião perder a paciência e requerer o desquite.

Essa saiu a mim, disse o bom padre na ocasião, inocentando-a, tomando a si as culpas da filha: para quem já tinha tanto pecado, uns quantos a mais não aumentariam a pena. Na casa espaçosa cresceram netos e bisnetos, todos, portanto o honrado sobrenome do reverendo, Maltez, todos por Deus abençoados. Já avô de vários netos ainda fazia filhos, e quando lhe trouxeram o primeiro tetraneto, para que ele lhe deitasse a bênção e o batizasse, deu graças ao Senhor e o louvou em seu santo nome, não o fazendo em vão.

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