(Domingos Amaral)
Episódio Nº 25
Pai, onde estamos?
Já perto do rio o Peida
Gorda avançou primeiro, com a sua habitual coragem. Grande e obeso, o seu rabo
era tão volumoso que transbordava pela traseira da sela, gerando risos nos
outros.
Mas tinha o espírito forte,
nunca sentia medo de nada e por isso todos ficaram petrificados quando
regressou muito pálido e disse:
- Deus lhes perdoe, é terrível.
Lentamente, aproximaram-se.
Estavam a pouca distância das ruínas de uma pequena povoação e já podiam ver o
Nabão mas, à direita deles, numa clareira, um aterrador espectáculo
aguardava-os.
Espetadas no chão estavam
nove lanças sarracenas, onde nove cadáveres masculinos se encontravam
empalados. E pousadas aos pés dos nove desgraçados, viam-se nove cabeças.
Os templários de Soure
benzeram-se e rezaram preces silenciosas. Depois de desmontarem verificaram que
os mortos eram companheiros do primeiro sem cabeça, que devia ter sido enviado
por Zhakaria como mensageiro da matança.
Por respeito aos defuntos
cavaram uma cova, mas mesmo para homens habituados à guerra, aquele foi um
trabalho horrível.
Os galegos haviam sido
empalados vivos, tinham as lanças enfiadas pelos ânus acima, cortando os
músculos e as entranhas enquanto morriam, o que se notava pela forma como se
haviam contraído, explicou o Velho, dizendo que só depois os haviam degolado.
- Zhakaria está furioso.
Esta violência não é hábito dele – concluiu o Rato depois de sepultarem os
galegos.
Preocupado, Ramiro observou
o rio Nabão e as ruínas.
- Alguém sabe como se chama
este sítio?
Ninguém sabia mas o Velho
disse que aqueles casebres, assim tão degradados, deviam estar abandonados há
centenas de anos.
Porque vieram até aqui os galegos? – interrogou-se Ramiro.
Sem maneira de esclarecer o
mistério, os templários decidiram regressar a Soure e montaram de novo nos seus
cavalos. O bastardo de Paio Soares foi o último a fazê-lo, mantendo-se algum
tempo a examinar as redondezas.
Pai, foi aqui que
haveis vindo?
Embora fosse de estatura
média, Ramiro andava sempre muito direito, parecendo mais alto do que era.
Tinha os ombros largos e as ancas sólidas e o Rato admirou-o, imaginando-o um
comandante militar nobre, às portas da glória.
Porém, espantou-se quando
apenas ouviu Ramiro murmurar:
- Pai, é aqui ?
Subitamente ouviu-se um
esgar, seguido de alguém a tombar. Ramiro e o Rato voltaram-se para trás e
viram o Velho no chão. Caíra do cavalo e parecia não só magoado como deveras
surpreendido, como se o corpo o houvesse traído.
Com pena, Ramiro desmontou,
correu para ele e percebeu quanto a idade lhe pesava. Orgulhoso, o Velho
afastou-o e tentou levantar-se sozinho, mas a sua perna direita cedeu e quase
voltou a tombar, só não caindo desamparado porque Ramiro não deixou.
Preocupado o Rato, que
também acorrera, perguntou:
- Companheiro, que se passa?
O Velho fechou os olhos,
estava com dores. Então, o Peida Gorda, apesar da sua lendária timidez, disse:
- É a minha vez de vos ajudar.
Anos antes o Velho
sarara-lhe a ferida de uma flecha e o tempo de retribuição havia chegado.
Aquele homem, forte e grande, cujo rabo mais parecia um barril e cujo tronco
tinha a largura de um penedo granítico, levantou o cambalido e colocou-o a
cavalo.
Desconsolado, quase
envergonhado, o Velho baixou os olhos.
- Chegou a minha hora.
Declarou que a sua carreira
de soldado estava no fim. Ninguém sabia quantos anos ele já vivera, mas Ramiro
calculava que ele tivesse mais de oitenta invernos no lombo, pois combatera com
El Cid sessenta anos antes.
Agora dizia-se farto de
piolhos e feridas, epidemias e casotas, empalados e decapitados.
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