sábado, dezembro 22, 2012

Não, sereia não pode ser...

GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 171


Muita gente subia, na hora do aperitivo, a escada ligando os andares para extasiar-se ante a sala ornamentada de espelhos, o imenso fogão, o frigorífico, aquelas maravilhas.

O cozinheiro chegou, via Baía, junto com Mundinho Falcão, no mesmo navio. O exportador fora à capital, a convite do Governador, discutir a situação política e resolver problemas das próximas eleições. Levara Aristóteles, voltavam vitoriosos.

O Governador cedera em tudo: Victor Melo abandonado ao seu destino, Dr. Maurício igualmente. Quanto a Alfredo retirara a sua candidatura a deputado estadual, em seu lugar apresentara-se o Dr. Juvenal de Itabuna, sem nenhuma chance. Na realidade, a campanha eleitoral estava terminada, os oposicionistas passavam a ser governo.

Nacib embasbacou-se ante o cozinheiro. Estranha criatura: gordote e troncudo com um bigodinho encerado de pontas finas, tinha uns ademanes suspeitos, uns modos efeminados.

Importantíssimo, com uma arrogância de grão – duque, exigências de mulher bonita, preço alucinante.

João Fulgêncio dissera:

 - Isso não é um cozinheiro, é o próprio Presidente da República.

Português de nascimento, de sotaque pronunciado, muitas das palavras a caírem depreciativas de seus lábios, eram francesas. Nacib, humilhado, não as entendia. Chamava-se Fernand com d no fim.

O seu cartão de visita – guardado carinhosamente por João Fulgêncio para juntá-lo ao do «bacharéis» Argileu Palmeira – dizia: Fernand – Chef de cuisine.

Acompanhado de alguns curiosos fregueses do bar, Fernand subiu com Nacib a examinar o restaurante. Balançou a cabeça ante o fogão:

 - Três mauvais…

 - O quê? – sucumbia Nacib.

 - Ruim, merdoso… - traduzia João Fulgêncio.

Exigia fogão de metal, a carvão. Quanto antes. Deu prazo de um mês sem o que iria embora. Nacib suplicou dois meses, tinha de mandar vir da Baía ou do Rio. Sua Excelência concedeu num gesto superior, reclamando ao mesmo tempo uma série de apetrechos de cozinha.

Criticou as comidas baianas, indignas, segundo ele, de estômagos delicados. Criando logo profundas antipatias. O Doutor saltara logo em defesa do vatapá, do caruru, do efó.

 - Sujeitinho armado em besta – sussurrou.

Nacib sentia-se humilhado e amedrontado. Ia dizer qualquer coisa, o chef de cuisine aplicava-lhe um olho crítico, superior deixando-o gelado.

Não fosse o homem ter vindo do Rio, custar tanto dinheiro e, sobretudo, ter sido ideia de Mundinho Falcão, e o mandaria estourar-se no inferno com suas comidas de nomes complicados e suas palavras francesas.

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