segunda-feira, junho 30, 2014

Deviam ser milionários, cogitava  o comandante...
OS VELHOS
MARINHEIROS

(Jorge Amado)

Episódio Nº 119









- Mas então, não sabe ainda?

- Estou tirando a prova...

Paciência, ela queria assim, que fosse. Em realidade não tinha importância, não era com o sobrenome dela, com os parentes que ia casar-se.

Ela tinha razão. Não podia, porém, deixar de fazer cogitações em torno daquele segredo. Pertenceria Clô, com certeza, a família ilustre e previdente, da alta roda, da elite paraense, riquíssima, com foros de nobreza como Madalena Pontes Mendes.

Aliás, no começo da viagem, quando apenas reparara nela, ouvira um passageiro a tecer comentários em torno da excelente situação financeira do irmão de Clô.

 Deviam ser milionários, cogitava o comandante: donos de extensões de terras vastas como países, com florestas inteiras de seringais, ilhas no Amazonas, índios, onças e serpentes de vinte metros.

Quem sabe, e todo aquele mistério era o receio que tinha de que o irmão se opusesse ao casamento de tão rica herdeira com um simples comandante de navio, aposentado capitão-de-longo-curso? Podiam imaginá-lo um aventureiro, sabido vigarista, querendo meter a mão na fortuna da noiva.

Mas, se era tão rica, por que dava aulas de piano? Por desfastio certamente, para matar o tempo e por amor à música. Na primeira oportunidade, fez-lhe saber não se reduzirem suas posses e haveres à aposentadoria. Tinha casa própria e excelente, em Periperi, uma das praias mais elegantes de Salvador, apólices do governo em quantidade, renda mais que necessária para garantir-lhe - e a ela - vida larga e confortável.

 Clô estendeu-lhe as mãos:

- Mesmo que você fosse pobre como Jó.

Em Fortaleza, naquele tempo, os navios não atracavam, não existia cais do porto. Era um espectáculo o desembarque dos passageiros, saltando da escada descida sobre as águas para os pequenos barcos veleiros.

Gritinhos de senhoras, risadas, indecisões e os remeiros de musculoso peito e pele de bronze a sustentar as embarcações junto da escada. O advogado paraense, na proa de um barco, equilibrado nas pernas semi-abertas, fez uma demonstração de força: tomou de Moema, a mameluca, parada no último degrau da escada, segurando-a pela cintura, elevando-a no ar e pousando o corpo trémulo ao seu lado.

Durante um minuto estiveram os dois de pé, firmes na proa que as ondas elevavam e baixavam, belos e fortes, batidos pelo vento. Tanto não podia fazer o comandante, não que lhe faltassem forças e disposição, mas não só era a risonha baqueana demasiado robusta para tais riscos, como não ficava bem.

Antes, quando se encontrava na ponte de comando, viera dona Domingas despedir-se, agradecer-lhe as atenções:

- O senhor foi um comandante perfeito, dá gosto viajar com o senhor. –
Estendia-lhe a mão formosa onde cintilava o anel. Cumprimentava o imediato, os pilotos, acrescentando: - Os senhores têm a sorte de possuir um capitão com a capacidade do Comandante Vasco.

- Um dia lhe farão justiça... - respondeu o imediato, frase um pouco esdrúxula, devida, com certeza, à atrapalhação das manobras.

Veio despedir-se também o atlético bancário. Passara todo o resto da viagem a escrever cartas para a moça pernambucana, em Natal enchera a caixa do correio.

- Senhorita muito distinta... - elogiava o comandante, ao abraçar o rapaz apaixonado.

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