sábado, outubro 24, 2015

Tocaia Grande foi nós que fez
Tocaia Grande
(Jorge Amado)


Episódio Nº 371



















Inda assim, Jãozé, sou de opinião que vale a pena e o compadre Fadul mais o amigo Tição pensam o mesmo.

Nós decidiu que vai comprar a briga.

Demorou a vista na face da velha, marcada pela vida.

- Tocaia Grande foi nós que fez, nós e vosmicê, tia Vanjé.

E mais os finados Ambrósio e Altamirando, a finada Merenda, os defunto que tão no cemitério. Estou mentindo?

Enquanto eu viver, ninguém vai abusar de nós.

Agnaldo quis interromper, o Capitão fez um gesto pedindo-lhe paciência:

- Tou acabando, Agnaldo, depois tu fala. Cada um é livre de fazer o que quiser, minha tia. Assim vosmicê como seus filhos.

Fazer trato, ir embora de vez ou pra voltar depois, ou bem pegar no pau-furado.

- Por mim, sei o que vou fazer. Não vai ser como da outra vez que elas não deixaram... — explodiu Agnaldo quase aos gritos.

Vanjé retomou a palavra, não alterou á voz:

- Se lembra, Capitão, quando vosmicê encontrou nós na estrada, corridos de Sergipe? Comigo era pela segunda vez, já tinha acontecido com a terra de meu pai.

Sei o pensar de Agnaldo, ele nunca se esqueceu. Não sei dos outros, cada um sabe de si.

Mas posso lhe dizer, capitão Natário, a vosmicê que foi um pai pra nós: do proveito dessa terra que era mato fechado quando nós chegou, não vou dar a ninguém nem meia nem terça. A ninguém.

E só saio dela morta. Os outros, eu não sei.

- Nós faz o que vosmicê mandar, Mãe. Jãozé se levantou, não podia deixar os roçados no abandono. Vamos trabalhar.

- Deus lhe pague, Capitão -  disse Vanjé e saiu seguida pelos filhos. Mas Aurélio, o mais moço, que durante o encontro não pronunciara uma única palavra, deixou-se ficar para trás:

- Vosmicê me arranja uma arma, Capitão? Lá em casa, só quem tem é Agnaldo. E eu não sou ruim de pontaria.


12


A lei, comadres e compadres. No cano da repetição, no gatilho dos revólveres, na boca dos clavinotes, a lei se anunciava.

Após a enchente e a febre.

Quem quiser pode ir embora, tomar rumo, ganhar a estrada, ficar de longe esperando que o barulho acabe, para voltar de mansinho, o cangote baixo, a fim de receber a canga e obedecer as ordens do senhor.

Quem quiser pode capar o gato, botar sebo nas canelas, arrebanhar os teréns e cair fora. Não há mais lugar em Tocaia Grande para os velhacos e os cagões.

Tendo decidido o que fazer, antes de tomar as últimas providências, o capitão Natário da Fonseca, antigo comandante de jagunços, cabra sarado, ora acompanhado de Castor, ora de Fadul, se não dos dois, foi de casa em casa, nas duas margens, e explicou a cada criatura o que estava acontecendo e o que iria acontecer.

A muitos, inclusive, por conhecê-los bem, aconselhou a prudência e exortou à fuga; se lhes faltava o destemor, tampouco possuíam as mesmas razões para assumir as armas e resistir.

Era mais difícil - ai, muito mais, sem comparação! - do que enfrentar a enchente: mais mortal a lei do que a peste.

Só pagava a pena para aqueles que tinham um pacto a honrar.

Um pacto com Deus, com o bom Deus dos maronitas, era o caso de Fadul. Ou com a liberdade, era o de Castor. Com a terra ganha com o suor do rosto, no caso de Vanjé. No de Coroca, um pacto firmado com a vida. Ou quando alguém, tendo conquistado mando e autoridade, contraiu obrigações e deve cumpri-las. Era o caso do capitão Natário da Fonseca.

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