terça-feira, janeiro 05, 2016

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)

Episódio Nº 146





















Reparei que Afonso Henriques a mirava, subjugado, num enamoramento evidente, que mortificava minha prima.

Nesse momento o prior questionou o meu pai:

 - Há algum parentesco entre vós?

Todos se riram, e naturalmente ele negou, tal como Teresa. O mesmo se passou comigo e com Maria. Esclarecido, Teotónio perguntou:

- Amais Teresa de Celanova?

Meu pai e Teresa confirmaram o seu sentimento mútuo, tendo eu e Maria jurado de forma idêntica.

Agradado, Teotónio fez um sinal e dois paraninfos trouxeram cada um a sua salva de prata, onde se via um anel e um pergaminho.

O prior de Viseu pegou primeiro no pergaminho, as arras de meu pai e leu:

 - Doo a Teresa de Celanova...

Além de terras e um castelo, a minha futura madrasta recebia maravedis, animais e vinho e ainda um anel de ouro cravejado de pedras preciosas.

Nos olhares das mulheres, houve brilhos ligeiramente invejosos, pois era um dote valioso e Teresa de Celanova corou, emocionada e agradecida.

De seguida, Teotónio pegou no anel e aproximou-o da mão dela que estava enluvada pois nunca antes casara.

O prior orou à Santíssima Trindade e foi colocando a anel à vez, primeiro no polegar, depois no indicador e, finalmente, no dedo maior de Teresa, onde o deixou.

Então, meu pai recitou:

 - Com este anel vos esposo, com este ouro vos honro, com este dote vos doto!

A assistência aplaudiu, enquanto Teotónio abençoava as aras.

Depois o ritual repetiu-se comigo e com minha Maria. Devo confessar que estava muito nervoso. Atrapalhado troquei as palavras “esposo” e “honro”, e Teotónio obrigou-me a repetir a frase certa, para gáudio da plateia, em especial de Chamoa, que se ria muito, embora lhe corressem lágrimas pela cara, comovida com a felicidade da irmã.

A missa foi dita ali mesmo, em frente da porta principal da igreja, onde havia sido colocado um altar improvisado. Depois de rezado o Padre-Nosso, nós, os quatro nubentes, deitámo-nos no chão.

Dei a mão a Maria e meu pai deu a sua a Teresa de Celanova. Os paraninhos reapareceram então, trazendo dois grandes lençóis brancos.

O primeiro cobriu meu pai e Teresa e o segundo tapou-me a mim e a Maria; ficando apenas as nossas quatro cabeças de fora.

A multidão bateu palmas, mais uma vez, e Teotónio deu-nos a bênção nupcial, gesto com que terminou a cerimónia.

A meio do jantar que se seguiu, meu tio Ermígio Moniz, protestou junto do príncipe a ausência de Dona Teresa, mas ele apenas comentou:

 - Não vos incomodeis. Assim, humilha várias famílias. E o Trava também, nem ao casamento da sobrinha veio!

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