terça-feira, janeiro 05, 2016

O velho me quebrou no pau e eu fui embora...
Tieta do Agreste
(Jorge Amado)

EPISÓDIO Nº 45





















NOVO FRAGMENTO DA NARRATIVA, NA QUAL – DURANTE A LONGA VIAGEM DE ÔNIBUS LEITO DA CAPITAL DE SÃO PAULO À DA BAÍA – TIETA RECORDA E CONTA EPISÓDIOS DE SUA VIDA À BELA LEONORA CANTARELLI




- Fui gulosa, gulosa de homens, quanto mais melhor. Pai tinha muitas cabras, bode inteiro só um Inácio. Eu era cabra com vários bodes, montada por esse ou por aquele, no chão de pedra, em cima do mato, na beira do rio, na areia da praia. 

Para mim, prazer de homem, só isso e nada mais: deitar no chão e ser coberta. Na mesa do Velho, sempre a mesma coisa, feijão, farinha, carne seca. Quem primeiro me ensinou os pratos finos, os que aumentam a gula em vez de saciá-la, foi Lucas de Lima, na cama do finado doutor Fulgêncio.

Jovem médico em busca de trabalho, doutor Lucas de Lima bateu-se para Agreste ao saber do falecimento do doutor Fulgêncio Neto.

A viúva o hospedou na alcova pois nunca mais ali dormira, desde a morte do marido. Mostrou-lhe o gabinete, as notas do meticuloso clínico sobre cada cliente.

Antigamente, antes de Judas descalçar as botas em Agreste, contaram-se até cinco médicos exercendo na cidade, ganhando bom dinheiro, construindo casa e pecúlio. Foram morrendo com o lugar, sem substitutos. Ficara doutor Fulgêncio, sozinho, no lombo do cavalo, no banco da canoa, tantas vezes de noite.

A simples presença do ancião com a maleta preta bastava para aliviar dores e curar enfermos. Remédios simples e poderosos: óleo de rícino, Maravilha Curativa, Saúde da Mulher, Emulsão de Scott, Bromil, chá de sabugueiro. Aplicados com economia: o melhor remédio eram as águas e o ar do Agreste, a brisa do rio, o vento do mar.

Dona Eufrosina mandara buscar as malas do doutor na pensão de dona Amorzinho. Não iria deixar um colega do marido pagando hospedagem.

Cozinhou para ele galinha de parida, prato preferido do doutor Fulgêncio, escalfado de pitu com ovos, carne-de-sol com pirão de leite. Na falta de doentes, os petiscos, os doces, as frutas.

Nem Tieta o segurou ali, naquele mundo saudável e agonizante. Talvez ficasse se a natureza, o rio, o mar, significassem alguma coisa para ele. Outra, sua paisagem, noctívago, boémio, nos castelos e cabarés da capital. Médico em Agreste não pode ser solteiro, deve ter esposa, constituir família, não tem direito a frequentar casa de mulher-dama, a entregar-se à farra.

- Lucas tinha medo da língua das xeretas, todas de olho nele, dia e noite. Querer me agarrar, ele queria. Mas não na beira do rio, nem arriscar uma fugida a Mangue Seco. Quando eu soube que dormia na alcova, na cama do doutor Fulgêncio ri e disse: deixe a janela aberta. Saltar janela sem ser vista, sem fazer barulho, era comigo.

Quando Lucas se deu conta, Tieta estava na cama, estendida no colchão de lã de barriguda, afundando. Mole, não tinha a solidez do chão. Ela se abriu para ser montada.

- Pra ser coberta, outra coisa não sabia. Quando ele veio com os dedos me tocar, com a boca me beijar o corpo inteiro, a lâmina da língua e o hálito quente, quis impedir sem entender. 

Com ele aprendi, na cama do doutor e da dona Eufrosina, os molhos e os temperos, e soube que homem não é apenas bode. 
Com ele virei mulher. Mas penso que ainda hoje há em mim uma cabra solta que ninguém domina.

Nem mesmo Tieta o reteve. Quando no meio da noite ela chegou, deu com a janela fechada. Lucas beijara a face maternal de dona Eufrosina, vou-me embora enquanto é tempo. Apesar de Tieta, engordara quilos e começara a gostar daquela pasmaceira, fugiu antes que fosse tarde.

Já não fui a mesma, diferente a minha gula. Não demorou, veio o caso do caixeiro-viajante; quando ele apareceu rondando a casa, Perpétua pensou que fosse por ela, a infeliz. 

Logo se deu conta, seguiu meus passos. O Velho me quebrou no pau e eu fui embora. Só queria reencontrar Lucas em qualquer parte da Baía. Não vi ele nunca mais, em troca fiz a vida no interior, vida de rapariga, em Jequié, em Milagres, em Feira, por aí fora. Eu te digo que escola de verdade é casa de mulher à-toa no sertão.

Aí, sim, se aprende o ofício. Quebrei a cabeça nesse mundéu até que me toquei para o sul, cansada de sofrer. Queria a boa vida, comer do bom e do melhor, beber champanha, provar as iguarias do homem. Não feijão e carne seca.

- Quem me dera o feijão e a carne seca, um filho, um casal. Era tudo o que eu queria – disse a bela Leonora Cantarelli.

- Cada qual carrega seu castigo, nem as cabras são iguais em seu desejo, quanto mais as criaturas. Conheço cabra e gente, posso te dizer. 

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