quinta-feira, abril 07, 2016

Tieta do Agreste
(Jorge Amado)


EPISÓDIO Nº120


















- E conseguiu?

- Não sei, não posso te dizer. Só poderia tirar a limpo se a coisa acontecesse e eu tivesse de resolver, de enfrentar o problema.

Acontecera com ele, Ascânio, tantos anos depois, quando não tem máximo a seu lado para o debate, a conversa, o conselho. 

Formados, Aparecida e Máximo já não são os radicais de ontem se bem não houvessem renegado os dias da juventude; ele se acomodara na Justiça do Trabalho, advogado de sindicados e operários, ela pendurara o diploma para dedicar-se ao marido e aos filhos. Sozinho, Ascânio deve enfrentar e resolver o problema.

Na noite sem descanso, em nenhum momento culpou Leonora, a seu ver incauta vítima do canalha. Não a julgando culpada ou indigna, sofria tão-somente por sabê-la deflorada, incompleta.

Dilacerado pela dúvida: prosseguir desejando-a como esposa, sonhando noivado e casamento ou desaparecer para sempre da sua frente? Terá forças para fitá-la, sabendo que ela foi possuída por outro, desonrada?

Nesse dilema debateu-se noite afora, o coração opresso, as lágrimas impondo-se sobre o orgulho masculino, vacilando entre a força do preconceito e a força do amor.

Uma única solução não lhe ocorreu em momento algum, exactamente a desejada por Tieta: transformar o idílio casto em agradável aventura casual, trocar o sonho do casamento pela possibilidade de dormir com Leonora enquanto ela permanecesse em agreste, aproveitando-se do conhecimento do seu estado, encerrando o caso na porta da marinete, num rápido ou prolongado beijo de despedida.

Quando a madrugada nasceu sobre o rio, o amor vencera a primeira batalha: Ascânio não conseguira arrancar Leonora do coração, nem a ela nem ao propósito de tê-la como esposa, senhora do seu lar.

Não obstante, a ferida estava aberta, sangrando, e ele temeu encontrá-la imediatamente. Talvez não conseguisse esconder o sofrimento, sobretudo, não desejava que ela o soubesse a par da verdade. Não era homem de dissimular os seus sentimentos, não sabia usar a máscara, tudo o que ia por dentro dele se reflectia no rosto.

Não estando certo de poder controlar face e coração, guardando ainda lágrimas por chorar, decidiu ir fiscalizar algumas obras da prefeitura em Rocinha, pontilhões e mata-burros. Acordou o moleque Sabino que dormia na sala do cinema, numa cama de vento, deixou com ele um recado para Leonora: chamado urgente obrigava-o a afastar-se da cidade por um ou dois dias; partindo ao romper do sol, não pudera despedir-se. Apenas voltasse iria vê-la.

Iria vê-la ou não, tudo dependeria da reflexão e da decisão dela decorrente. Selou o cavalo – dádiva do coronel Artur de Tapitanga à prefeitura – e tocou-se para os matos, levando na garupa o hímen roto de Leonora. Ia com ele no passo lento do cansado animal, levantando detalhes, dúvidas, indagações.

Uma única vez ou muitas vezes? Muitas não teriam sido pois o embusteiro fora desmascarado e expulso; talvez algumas poucas, mais de uma porém. Que importa quantas vezes? O terrível é ter ela se dado a outro, não se haver conservado íntegra e pura.

Fizera-o, todavia, antes de conhecer Ascânio, nada a assemelhava à traidora Astrud, a escrever-lhe cartas de amor enquanto se rebolava com o outro e dele engravidava. Leonora apenas se entregara em momento de desvario; quando a paixão falou mais alto que a decência.

Teria apenas deixado se possuir, enganada pela lábia do miserável ou, no prosseguimento dos embates, conhecera a violência e a doçura do prazer, desmanchando-se em gozo?

No dorso do cavalo, no meio das plantações de mandioca ou do verde milharal, ouvindo queixas e pedidos dos roceiros, as indagações o prosseguiram e revolveram, o hímen de Leonora atado à garupa do cavalo, mil vezes deflorado na viagem lenta, no combate longo.

Do dilacerado hímen o amor cresceu vitorioso. Ascânio, aos poucos, sem a ajuda dos hipies, de padres progressistas e de proféticos canoeiros acalmou o coração, reteve as lágrimas e enterrou o preconceito.

Passou a imaginá-la viúva, uma jovem, formosa e infeliz viúva. Imbatível dona Carmosina, cabe-lhe sempre a derradeira palavra. A uma viúva não se reclama a virgindade, apenas decoro e amor. Decidiu prosseguir no sonho – de tão difícil consecução – de um dia pedir a mão de Leonora em casamento.

Sabê-la enganada e violada fez com que a sentisse ainda mais próxima e querida, mais amada.

De regresso a Agreste, foi em seguida visitá-la a casa de Perpétua. Leonora achou-o abatido, sem dúvida cansado da viagem, tantas léguas a cavalo, sob o sol ardente, cuidando dos interesses do município. Passou-lhe a mão na face, brandamente, em inocente agrado. Violada, sim, porém perfeita de candura e pureza, casta mais que qualquer virgem.

Depois, com o recado do magnata do turismo e o suicídio do prefeito, a certeza da eleição próxima para o cargo, as novas perspectivas abertas para o município e para ele próprio, Ascânio sentiu-se com esperanças válidas

O facto de Leonora não ser mais virgem facilitava, inclusive, a boa solução. No mercado do matrimónio, o valor da jovem… Meu Deus, como pensar em termos de mercado quando se trata de amor, tão forte amor a ponto de matar e enterrar o mais antigo e arraigado preconceito?

Vitorioso, sim, mas não em paz, tinha razão o Comandante. Ainda não, pois a película do novo hímen na chaga aberta no peito de Ascânio renasce pouco a pouco, lentamente. 

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