sexta-feira, junho 17, 2016

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 34



















O bispo Bernardo suspirou, aquele rapaz conhecia mal a alma humana. Por isso deu-lhe um longo sermão, sugerindo que seguisse os seus avisados conselhos, coisa que Ramiro aceitou de imediato, extraindo finalmente do religioso a absolvição desejada a que somou a obrigação de rezar todas as noites o terço.

Assim farei, prometeu Ramiro.

Pai, vou mudar...


Terminado o ministério do sacramento, falaram acerca da busca da relíquia, da troca proposta por Ermígio Moniz. Do fossado que se preparava, bem como sobre as selvajarias que Abu Zhakaria cometera junto ao Nabão.

- Era um local estranho, umas ruínas macabras. Mesmo que não tivesse lá encontrado os empalados sentiria receio -  confessou Ramiro.

O bispo aconselhou-o a concentrar-se no seu novo desígnio de pureza, exigindo que voltasse daí a um mês, para partilhar os progressos. No momento em que o musculado mas frágil templário se despedia dele, beijando-lhe o anel, ouviram uma porta atrás de ambos a abrir-se e, para espanto de Ramiro, saíu por ela a princesa Zaida que também se mostrou surpreendida ao vê-lo.

- Ramiro... – murmurou Zaida, sem sorrir.

O bastardo de Paio Soares desviou o olhar, não gostava daquelas raparigas mouras, que tanto trabalho lhe tinham dado no passado.

Pai, é uma mentirosa...

Para surpresa do bispo Bernardo, Zaida também não foi, como habitualmente, simpática e afável. Apenas lhe atirou um adeus apressado, que levou o prelado a comentar, enquanto ela saía da Sé:

 - A Zaida já conhece o livro de Génesis de trás para a frente. Ramiro confessou a sua falta de estima pelas duas princesas mouras, mas o bispo repreendeu-o, alegando que ele devia extinguir no seu coração a animosidade às mulheres, para se ver livre dos seus demónio interiores.

- Com a Zaida é fácil. A irmã é mais arisca – opinou o bispo.

Para ele era impossível não gostar de Zaida, nem uma única pessoa tinha algo de mau ou errado a apontar à rapariga.


É surpreendente como tantos em Coimbra se equivocaram em relação a Zaida. A sua simpatia a todos havia conquistado, submergindo a profundidade daquela oculta sabedoria e sobretudo a inteligência fina dos seus habilidosos estratagemas.

Certas mulheres são assim, a doçura é uma arma de distracção, um manto amável debaixo do qual se escondem insondáveis propósitos

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