quinta-feira, agosto 11, 2016

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 60






















Todos os familiares de Sohba tinham morrido, desde o pai Hixam III, o último califa de Córdova, até ao irmão Hisham de Hisn, passando por uma filha que a criada nunca conhecera e que se dizia ter falecido jovem, sendo essa a primordial razão da loucura de Shoba.

A criada apontou um olhar triste na direcção dos túmulos e comentou:

 - Uma grande desgraça abraçou os Bem Ummeya.

Depois de um suspiro, prosseguiu:

 - Quem larga um trono, como Hisham III fez, condena a família.

A idosa acrescentou que o maldito Ali Yusuf não descansaria enquanto não os degolasse a todos.

- Já aviou Zulmira e Taxfin, só faltam as minhas meninas.

Com o olhar embaciado que sempre exibia, aconselhou Zakaria:

 - Ide falar com Ismar. É andaluz e é fino, hábil e firme. Desde Taxfin que não se via governador tão bom em Córdova.

De seguida, a celha criada descreveu ao cordovês o que se estava a passar na Andaluzia muçulmana, que sofria uma inesperada mutação.

Sinto-o, pela primeira vez em muitos anos.

Mesmo aquela mulher, que vivia em Hisn como um eremita, notara o califado de Ali Yusuf em perda. O respeito ao reino de Marraquexe já não era o de outrora.

Pelas taifas de Sevilha, Córdova, Mértola ou Badajoz corria já um claro, embora ainda ténue, rumor de revolta.

Ismar sabe do que falo – avisou a criada.

Incentivado por ela, Abu Zakaria foi ao encontro daquele príncipe de Córdova, que viria a ser um dos mais ferozes inimigos de Afonso Henriques e do nosso futuro reino de Portugal-


Córdova, Fevereiro de 1133


- Já vos esperava.

O Governador levantou-se ao ver Abu Zakaria entrar no seu salão privado, situado no primeiro andar do magnífico Azzahrat.


Construído dois séculos antes pe3lo mãos célebre califa da Andaluzia, o valorosa e sapiente Abd al Rahman III, aquele grandioso palácio destinara-se a albergar o detentor do trono de Córdova e a sua família, os seus infindáveis criados e o seu bem recheado harém.

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