quinta-feira, agosto 11, 2016

Portugal a Arder





















Ontem, Portugal, teria feito a felicidade de Nero, o que foi imperador de Roma, meio tonto, mais tonto que meio.

A avaliar pelas imagens da televisão, o país era um fogo pegado e a ilha da Madeira uma tocha acesa no meio do Atlântico.

É o drama do costume, uns anos mais, como é agora o caso, outros menos, mas quando chega por estas alturas, desata tudo a arder.

Há momentos em que chego a pensar: “prontos”, ardeu tudo, para o ano que vem não há fogos... mas é engano meu. Se há coisa que se dá bem neste país são os fogos, nascem e renascem, teimosos, nunca morrem definitivamente.

Nem sempre foi assim, que eu lembro-me quando era jovem e passava as férias de Verão na aldeia dos meus avós que era no campo, na província da Beira-Baixa, ainda não havia televisão e tudo se passava como em qualquer outra época apenas com mais calor, dias maiores e sem chuva.

Quanto ao resto, quais fogos, quais carapuça, não me lembro nem de um.

- Mas então, por quê? – A resposta é simples e curta: a vida era diferente e o país era outro.

Lembro-me, ainda, que tempos antes, tinha aparecido em Portugal, uma árvore nova a que a minha avó chamava de “calitres”, talvez porque na sua criação ainda não as havia muito em Portugal, tendo começado a sua disseminação em finais do Séc. XIX.

Desenvolvia-se rapidamente de tal forma que, diziam maliciosamente, que os seus donos estavam na cama e o pau a crescer. Para além disso, quando os cortavam rebentavam dois e três.

Para além disto o eucalipto tem a particularidade de fingir que arde mas não arde, volta a rebentar e as suas folhas são setas de fogo apontadas às outras árvores, para elas não se ficarem a rir...

Mas há uma outra razão, mais importante: os homens e mulheres da minha meninice, para o bem ou para o mal, mas de certo contra a vontade daquela que era a vontade de Salazar, abandonaram os campos, deixaram as árvores entregues a si próprias, cheias de mato à sua volta que deixou de ser cortado porque já não servia para a cama dos animais que, entretanto, foram substituídos pelos tractores.

Foi o princípio de uma nova vida que, entre outras coisas, trouxe consigo a praga anual dos fogos.

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