sexta-feira, dezembro 12, 2014

Fadul gostava de apreciar o trabalho de Castor
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)





Episódio Nº 122

















Carradas de razão tinha Coroca, reflectiu o carpinteiro: as ruas de frente são privativas das famílias, mesmo no cu do mundo.

Quando Tição chegou e acendeu a forja era cada um por si e
Deus por todos, como explicara o velho Gerino a Bernarda na noite de assalto e de vexame. Para não se transformar num vivente sombrio e triste, miserável, precisava modificar com urgência os hábitos e o procedimento dos minguados habitantes: implantar o convívio onde medrava a indiferença.

Em Tocaia Grande, Castor Abduim enfrentou a solidão com o mesmo risonho desassombro com que se exibiu no tálamo de Madama, desabotoou os seios de Rufina e garguelou o Senhor Barão, em priscas eras.

 Se não decorrera tanto tempo, ao menos parecia.


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Quem mais se alegrou com a presença de Tição Abduim em Tocaia Grande foi Fadul Abdala. Contente a ponto de destinar uma garrafa de cachaça para consumo grátis na tarde em que o negro suspendeu a pata do burro Charuto em meio à gritaria do festivo corrilho reunido diante da oficina.

Tinham-se conhecido na fazenda do coronel Robustiano: o negro ferrando animais, o turco expondo as mercadorias da mala de mascate.

Certa ocasião, estando os dois de passagem por Taquaras, juntos se encontraram em animado bailarico, prazenteiro dançarás na pensão da índia Alice: na hora de maior influência, apareceu uma súcia de desordeiros e o pacato bleforé acabou em água suja com pancadaria e tiros.

Escaparam ilesos e o negro, além de ter esborrachado a cara de um dos valentões, tomara-lhe o revólver - quem não tem competência para manejar um pau-defumaça não deve sacá-lo da cintura, pode facilmente perder a arma e a chibança.

Fadul via em Tição uma garantia a mais contra eventuais e sempre temidas ameaças à tranquilidade do lugar. É bem verdade que Coroca dava perfeita conta do recado quando, na ausência do proprietário, cuidava do armazém, e que nenhum jagunço voltara a sobressaltar os habitantes de Tocaia Grande: antes de se decidir a fazê-lo o façanhudo devia pensar ao menos duas vezes.

Os perigos haviam-se reduzido. De qualquer maneira, porém, a oficina aberta com o negro à frente significava mais uma razão de peso a desanimar ladrões e malfeitores.

 O comerciante e o ferreiro começaram por estabelecer um pacto: não se afastariam os dois ao mesmo tempo de Tocaia Grande; quando um deles necessitasse viajar, o outro se manteria a postos, pronto para intervir caso sucedesse novidade.

Entre o movimento noturno e o matinal ditados pela chegada e partida dos comboios, a insipidez se impunha, insuportável: os dois proscritos enchiam as horas mortas conversando fiado, permutando memórias, recordando peripécias e lambanças, narrando contos da carochinha. Ou apenas faziam-se companhia em silêncio: o árabe no apuro do narguilé, o negro rendilhando peças de ferro ou de latão.

Fadul gostava de apreciar o trabalho de Castor, ao mesmo tempo bruto e delicado, de vê-lo transformar inútil fragmento de ferro em prenda para mulher, anel ou broche, fazer de velho pedaço de lata útil vasilhame para o pote e o braseiro.

Em troca, não havia ouvinte mais atento do que Tição às narrativas do turco, episódios da Bíblia, fantasias do Oriente, com profetas e tetrarcas, magos prodigiosos e apreciáveis odaliscas de umbigo à mostra.

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