terça-feira, setembro 15, 2015

Ao Sacerdócio feminino a Igreja disse Não
Sacerdócio Feminino















Até ao séc. V foi prática habitual na cristandade ordenar as mulheres como diaconisas (mulheres de conduta irrepreensível chamadas a participar dos serviços da igreja), um grau inferior ao dos sacerdotes com algumas funções na liturgia e na vida da igreja, embora estas funções fossem mais limitadas que as dos diáconos. A partir deste século esta prática desapareceu.


Em várias igrejas protestantes (luterana, anglicana, morava, episcopaliana, etc.) as mulheres começaram recentemente a ascender ao sacerdócio. A igreja católica é mais relutante nesta mudança.

A questão da ordenação das mulheres na igreja católica ganhou força nos meados do século XX pelo decréscimo das vocações sacerdotais. A igreja católica nos E.U. reflectiu pioneiramente sobre a conveniência do sacerdócio feminino.

As primeiras ordenações de mulheres na igreja anglicana, em Março de 1994, em Inglaterra, deram mais força ao debate. Em Carta Apostólica de Maio de 1994, o Papa João Paulo II quis deixar encerrado este assunto ao afirmar textualmente:“Declaro que a Igreja não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que este ditame deve ser considerado como definitivo para todos os fiéis”.

Em 1995, a Congregação para a Doutrina de Fé ratificou esta posição na Carta Apostólica “Ordenato Sacerdotalis” para tirar todas as dúvidas sobre uma questão de grande importância respeitante mesmo à constituição divina da Igreja.

Neste documento diz-se que a exclusão das mulheres do sacerdócio deve ser sempre respeitado, em todo o lado e por todos os fiéis na medida em que se trata de uma “questão de fé”. É uma recusa contundente já que, a expressão “questão de fé” representa o grau máximo da certeza teológica anterior á declaração oficial de um “dogma católico”. De facto, indica que essa doutrina se considera infalível e, por isso, garante que nenhum outro Papa a pode anular.

Por todos estes indícios doutrinais, deve entender-se que o sacerdócio das mulheres é um assunto arrumado entre os católicos.

Perante “este cerrar de portas”, a pergunta é: vale a pena lutar pelo sacerdócio feminino na igreja católica? Se as mulheres acederem hoje ao sacerdócio católico, tal como o conhecemos, transformá-lo-iam ou seria elas as transformadas?Contribuiriam as mulheres para a mudança ou simplesmente serviriam para alimentar com nova seiva um modelo contrário à mensagem de Jesus e do seu Movimento por separar o sagrado do profano e estabelecer uma hierarquia poderosa que Jesus recusou e o seu Movimento desconheceu?

O que está claro é que Jesus estava contra qualquer sacerdócio.


- Em todas as culturas – ocidentais, orientais, africanas, indo-americanas – em que existem sacerdotes considera-se que eles são os intermediários entre os humanos e a divindade a quem os sacerdotes aplacam ou satisfazem com determinados ritos, orações ou sacrifícios.


Em torno da cultura helenística, o sacerdote designava-se pela palavra “hiereus” que significa “santo”, “sagrado” e, por isso, “separado”, “segregado”, pertencente ao âmbito do divino. Em todas as culturas, o sacerdote é aquele que “sabe” das coisas de Deus e que tem o “poder” sobre o divino. Esse saber e esse poder dão-lhe direito a muitos privilégios sociais, políticos, económicos e culturais.


Uma Casta Poderosa

- No tempo de Jesus, a classe com mais influência social era a dos sacerdotes de Jerusalém, que serviam no Templo em cujo “santuário” o judaísmo localizava “a presença de Deus”. Nesse espaço só podiam entrar os sacerdotes. Ali realizavam-se os sacrifícios: queimando perfumes e matando animais. Como em todas as religiões, os sacerdotes eram considerados homens eleitos para estarem em contacto directo com o sagrado, o intermediário ante Deus, separados dos restantes e superiores. Ocupavam o cume de uma sociedade hierarquizada que descriminava a maioria. No tempo de Jesus os sacerdotes estavam divididos em 24 classes ou secções e em cada uma delas haviam 300 sacerdotes.

Os relatos dos Evangelhos mostra Jesus confrontando-se muitas vezes com sacerdotes, discutindo com eles, contrariando-os, discordando, recusando os seus argumentos religiosos. Também vemos nos Evangelhos sacerdotes afirmando que Jesus está Endemoniado, que não tinha autoridade para falar como fala, recusando a sua mensagem e as suas atitudes e, finalmente, denunciando-o e condenando-o à morte.

Jesus Não Foi Sacerdote

- Jesus não foi sacerdote, foi um laico. No tempo de Jesus só eram sacerdotes os homens da tribo de Lei, considerados herdeiros de Aaron, o irmão de Moisés. Jesus não foi sacerdote mas opôs-se à casta sacerdotal e foi vilipendiado pelos sacerdotes do seu tempo. Jesus foi um laico (do grego “laicos” que significa “alguém do povo”)

Só na Carta aos Hebreus, que se atribui a Paulo – ainda que não tenha sido escrita por ele mas por algum dos seus discípulos – se nomeia Jesus como sacerdote da “Nova Aliança” abolindo, assim, a “Antiga Aliança” e o sacerdócio levítico fosse ele masculino ou feminino.


As Viúvas, Sacerdotizas Cristãs

Nas primeiras comunidades cristãs falava-se de presbíteros mais do que de sacerdotes. “Presbítero” significa “ancião” e num mundo onde as pessoas não viviam tantos anos como hoje e a sabedoria era recebida da própria vida e transmitida pelos mais velhos, a velhice chegava muito rapidamente e estava relacionada, precisamente, com sabedoria (no tempo dos meus avós dizia-se que o diabo sabia muito não por ser inteligente mas por ser velho).


O teólogo José Maria Marin explica:

- A mulher viúva correspondia ao presbítero masculino. O ministério das viúvas correspondia, provavelmente, a uma forma autónoma de um certo presbiterado feminino que perduraria até ao Séc. IV. Falava-se da viuvez como de um grupo apostólico reconhecido pela comunidade distinto. Estas viúvas eram denominadas anciãs ou presbíteras, nomes que se davam aos dirigentes das primeiras comunidades cristãs.

Desempenhavam várias funções: pastoral domiciliária entre mulheres, juntamente com serviços caritativos próprios dos diáconos (palavra que vem do grego e significa “servo” ou “ministro”), o ministério da oração, administração do baptismo e a celebração da eucaristia. A Igreja do Ocidente no Concílio de Leodicea no ano 343, acabou com o papel das viúvas nas comunidades cristãs.

E acrescentou ainda o teólogo:

- Se Jesus não tivesse posto as mulheres ao mesmo nível, em todas as ordens, com os homens não se poderia explicar como as primeiras comunidades cristãs tivessem dado às mulheres este protagonismo ministerial. Até Paulo, que se mostra tão intransigentemente misógino quando afirma que “não tolera que as mulheres falem no Templo” nem permite que “orem de cabeça descoberta”, não tem outro remédio que não seja citá-las como apóstolos e ministros dizendo que é “um preceito de Jesus”.


José Maria Marin

Este teólogo laico e ex-sacerdote católico expressa no seu texto “Sacerdócio Cristão ou Ministério da Comunidade”, de uma forma consistente que Jesus não foi sacerdote e que, seguindo Jesus, nas primeiras comunidades cristãs, não havia sacerdotes e que o sacerdócio provem de uma tradição alheia aos evangelhos.


Explica Marin:

- A chamada “ordenação” sacerdotal ou ministerial é um costume assumido do Império Romano, no qual “ordo” significava acesso a uma classe social determinada… Para os ministros religiosos estabeleceu-se a “Ordem dos Clérigos” que não passava de uma “casta” a que se chegava por uma “carreira”. O “ordo”, os filhos poderosos, notáveis, situados numa burocracia estável que se passou chamar “clero” que se considerava “sagrada” e que devia viver separada do resto, d0s laicos, do resto do povo.


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