sexta-feira, outubro 16, 2015

Não esqueça o recado
Tocaia Grande
(Jorge Amado)


Episódio Nº 364



















Soltaram-no por fim, bastante maltratado, e permitiram que montasse no burro em que chegara. Antes, porém, o desarmaram-no -  além do revólver abandonado, portava punhal, navalha e um arsenal de balas - , e o desvestiram, deixando-o nu como viera ao mundo.

 Na sela do outro animal, amarraram o corpo do finado matador de porcos e por despedida o Capitão recomendou ao apavorado fiscal de ruas:

- Diga a quem lhe mandou que aqui, em Tocaia Grande, forasteiro nenhum põe o pé nem mete a mão. Quem tá mandando dizer é o capitão Natário da Fonseca e a prova tu tá levando.

Não esqueça do recado.


5


Finda a arrumação dos teréns indispensáveis para a temporada na fazenda, Zilda veio sentar-se junto a Natário, na varanda.

Os filhos, à exceção de Edu, na oficina ajudando Tição, subiam e desciam a ladeira, conduzindo as trouxas e os baús de flandre para o carro de boi, à espera, embaixo. Zilda permaneceu silenciosa durante um bom pedaço, afinal abriu o peito e falou:

- Vou a contragosto. Arrepiava carreira, se pudesse.

- Não vejo por quê. Pensei que tu tava contente. Desde que a casa ficou pronta tu só fala em ir pra roça.

- Isso era entonces. Depois que os fiscais apareceram por aqui, perdi a vontade. O que é que ocê acha da vinda deles?

Do alto do outeiro, sentado no banco na varanda de sua residência, o Capitão contemplava Tocaia Grande. Num dia distante, quando nem o cemitério ainda começara, dissera ao coronel Boaventura Andrade ao lhe ensinar a existência do vale desconhecido: "aqui é onde vou fazer minha casa, quando a peleja acabar e vosmicê cumprir o trato".

Voltou-se para a mulher, fitou-lhe a face em geral serena, naquele instante coberta por uma sombra de inquietação.

Zilda nunca fora uma formosura mas tinha os traços delicados e ainda lhe restavam, no rosto magro, uns laivos de juventude: os anos e os filhos, os que parira e os que adotara, não tinham conseguido quebrá-la, reduzir-lhe a têmpera e a disposição.

 Levado por Peba, o papagaio Vá-Tomar-no-Cu passou gritando palavrões de protesto. Mesmo nos momentos mais ruins de perigo, durante os barulhos, Natário jamais lhe faltara com a verdade quando Zilda, abandonando a contenção diária, indagava sobre contingências de barulho ou de mulher.

- Pode não ser nada, não passar de saimento do sargento Orígenes, querendo se mostrar, ou do Intendente, o doutor
Castro.

O Intendente de Itabuna continuava a ser o mesmo bacharel
Ricardo Castro que, dez anos antes, depois de ter servido o coronel Elias Daltro, se passara para o coronel Boaventura Andrade, com armas e bagagens.

Suas armas e bagagens eram a subserviência e a ambição: assim sendo, outro melhor para o cargo não podia haver e ele o revezava com Salviano Neves, um parente de dona Ernestina, dentista prático.

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