quinta-feira, novembro 05, 2015

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)



Episódio Nº 102



















- Podemos voltar a passear? - sugeriu Afonso Henriques fixando os olhos verdes da rapariga.

Chamoa corou batendo as pestanas. O príncipe amava-a, queria voltar a encontrar-se com ela, e sentiu o coração a acelerar. Nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer, o seu sonho de criança tornava-se realidade!

Eufórica, sorriu e aprovou.

 - Sim, iremos ao rio da Loba.

Afonso Henriques mergulhou a colher na escudela, enchendo-a de sopa e Chamoa imitou-o.

Os dois encostaram os ombros, sentindo o calor do corpo do outro, e ela riu-se, divertida e enamorada.

O príncipe levou a colher à boca, sorveu o líquido e depois sorriu-lhe, mas a rapariga franziu a testa. Com a mão direita pegou numa napeira, que estava pousada na mesa, e ergueu-a à boca de Afonso Henriques, limpando-a enquanto dizia:

 - Tenho de cuidar de vós.

O príncipe piscou-lhe o olho e acrescentou:

 - Espero que a vida inteira.

Chamoa riu-se e corou de novo, mas de repente alguém lhe lançou um elogio, talvez Gonçalo ou mesmo o Braganção e ela distraiu-se, enquanto continuava a comer a sopa.

A seu lado, Afonso Henriques, reparou que a mãe estava atarefada a verificar se as pedras serpentinas mudavam de cor quando mergulhadas nos caldos de amêijoa ou berbigão, vigiando possíveis envenenamentos.

Abanou a cabeça, e piscou-lhe o olho, enquanto eu notava que o prudente Paio Soares não tornava público o seu agastamento, pois um desaguisado com Afonso Henriques colocaria em risco a sua eminente promoção a mordomo-mor.

Em esforço, só vendo as costas de Chamoa, mordia o ciúme e conversava com o pai dela sobre a caça aos ursos em Tui.

Na tenda, as agrestes palavras de Teotónio, começavam já a ser esquecidas, até porque o Trava, sempre sorrateiro, pedira aos taberneiros que juntassem menos água ao vinho, como se fazia na Galiza, e os efeitos sentiam-se, nobres e senhoras falavam mais depressa e riam mais alto.

A crueldade dos súbitos suspende-se quando são bem tratados.

No final do jantar foram servidos pão de ló e os biscoitos de flor de laranjeira,  e Dona Teresa que se poupara no vinho sabendo que ia discursar, levantou-se e informou a alegre assembleia que Bermudo, marido da sua filha Urraca Henriques, seria o novo governador de Viseu, o que originou as primeiras palmas da tarde.

O visado corou, ergueu-se e fez uma pequena vénia à sua antiga esposa, agradecendo a honra, e depois beijou a actual na face, o que a deixou também ruborizada.

Preparava-se Bermudo para realizar um discurso de gratidão quando Dona Teresa, revelando o apreço que sempre tivera por ele, mandou-o com um gesto, sentar e calar-se, o que ele fez de pronto, mostrando a todos que nada mudara no trato entre os antigos, mas mal sucedidos amantes.

De seguida, Dona Teresa encarou Paio Soares que se levantou para que todos o pudessem ver, ao mesmo tempo que sacudia do balandrau as migalhas e os bocados de comida, por forma a que o seu reluzente tecido mais se realçasse.

A notícia foi esperada: iria ser o Mordomo-Mor do Condado!

O senhor da Maia executou uma vénia pomposa, agradecendo o título ao mesmo tempo que exibia a vestimenta, provocando risinhos em Chamoa.

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