sexta-feira, novembro 06, 2015

Assim Nasceu Portugal
 (Domingos Amaral)




Episódio Nº 103

















Terminadas estas proclamações, entraram na tenda jograis, trovadores e músicos. Uma imediata tensão se apoderou de mim e dos meus irmãos quando vimos aparecer Ordonho e Fruela.

Contudo os bobos galegos eram gordos mas não estúpidos e não repetiram as afiadas chalaças da véspera, brindando aquela nobre plateia com cantigas de amigo e trovas célebres da Galiza.

A dado momento, relembraram El Cid, o valente combatente que décadas antes tinha batido os árabes, e declararam-se orgulhosos por estarem entre eles um homem capaz de semelhantes feitos, uma óbvia e encomendada alusão a Fernão Peres de Trava, que sorria satisfeito.

A um canto da sala Ramiro e Raimunda, cúmplices desde o dia anterior, observavam o florir do encantamento de Afonso Henriques por Chamoa.

No entanto, ambos repararam que a rapariga galega parecia mais solta, talvez devido ao vinho, e sorria para os homens, pois vários lhe haviam dito que era a mais bela da tenda.

Quando terminou a actuação dos bobos, Dona Teresa voltou a levantar-se e proclamou.

 - Anuncio-vos o casamento religioso de minha filha Sanches Henriques com Fernão Mendes, senhor de Bragança!

Ouviu-se uma salva de palmas e o Braganção que bebera demais, enrolou a fala quando ergueu a taça na direcção da rainha.

Trôpego, ainda quis saudar a futura esposa, mas Gonçalo de Sousa colocou-lhe à frente mais um vaso de vinho, o que o acalmou imediatamente. Então Dona Teresa prosseguiu:

 - Anuncio igualmente outro augusto casamento religioso, de um dos mais importantes nobres do nosso Condado!

Afonso Henriques sentiu o nervosismo a crescer, pois pensou que a mãe se referia a Paio Soares. Na véspera, numa secreta conversa que tinham tido ao final da tarde, Dona Teresa mostrara-se irritada com o amuo do antigo alferes, julgando-o uma desconsideração, e dissera ao filho que estava adiado qualquer plano de casamento que lhe houvesse ocorrido para o seu novo Mordomo-Mor.

Mas Afonso Henriques temia que a mãe tivesse mudado de ideias, um desagradável hábito que mantinha há muitos anos e só se tranquilizou quando a ouviu dizer:

 - O meu estimado Egas Moniz, que tão bem tem educado o meu filho, irá casar-se com a bela Teresa Afonso de Celanova!

Houve novo aplauso geral e eu e meus irmãos juntámo-nos ao coro de felicitações ao nosso progenitor, que olhava para a noiva embevecido.

Afonso Henriques sorriu, também feliz. Depois de ter sofrido com a morte de Dórdia, que muito amava, o seu preceptor casava agora com uma bela mulher.

O encantamento justificava-se. Teres era jovem, inteligente, recatada, e ainda por cima herdeira de territórios consideráveis.

Dona Teresa fora esperta, dava a meu pai o que ele queria, mas dentro de um espaço onde ela também aspirava a mandar, a margem norte do rio Minho.

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