sábado, junho 18, 2016

TIETA DO AGRESTE
(Jorge Amado)




EPISÓDIO Nº 168























REFLEXÃO DO AUTOR A PROPÓSITO DE NOMES E TÉCNICOS




Cansado do esforço feito para manter incólume minha propagada e prudente posição de narrador objectivo, evitando envolver-me na polémica ao resumir e transcrever opiniões, expostas em crónicas, editoriais, tópicos e entrevistas, permito-me curta reflexão sobre nomes de família e maneiras de agir de técnicos fora de série, famosíssimos, cujas conclusões ditam lei. Faço-o no desejo de evitar ao leitor engano e confusão.

Em tempos bicudos, quando o livro se transforma em artigo de luxo em lugar de ser, como deveria ser, objecto de primeira necessidade igual ao pão e à agua (aliás, também absurdamente caros, não existe mais nada barato a não ser aporrinhações e tristezas), não posso permitir que o leitor, tendo aplicado seu rico dinheirinho na compra de exemplar deste empolgante e volumoso folhetim – duas qualidades intrínsecas aos bons folhetins – seja levado a conclusões erróneas.


O que poderia suceder se não for esclarecido de imediato detalhe referente ao cientista Karl Bayer, cuja entrevista a uma folha de Salvador teve o essencial de seu profundo conteúdo incluído em capítulo anterior.

Sintetizado, pois sendo a entrevista longa e prenhe de ciência física, química, ecológica e quejandas, sua transcrição na íntegra não me pareceu recomendável. Para dizer a verdade, a ciência do doutor Bayer, de tão volumosa e maciça, torna-se maçuda e enfadonha. Deixemos, porém, esse detalhe de lado e falemos do nome de família do doutor, assunto primeiro desta reflexão. Bayer - sobrenome famoso ostentado por Her Professor Karl.

Famoso, conhecidíssimo, por isso mesmo dando facilmente lugar a confusões de perigosas consequências. Apresso-me assim a dizer que, até onde posso assegurar, não é o professor membro da família de nacionalidade alemã, proprietária de grandes indústrias e empórios químicos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Nacionalidade significando, no caso, capital social e de giro; em tempo de multinacionais, ainda mais que o local de nascimento e o sangue, o dinheiro determina a nacionalidade.

Ao topar com Her Professor Karl Bayer ditando regras no capítulo anterior, gritei aleluia, sonhei imortalidade académica e prémios literários (em pecúnia, se possível), pensando estivesse nosso folhetim cumulado de honra devido à presença entre a pobre humanidade de Agreste de um dos grandes do mundo, um Bayer.

 Nas páginas iniciais deste fiel relato das aventuras de Tieta, expressei a esperança de que, no decorrer da narrativa, nela surgisse, para glória de quem a redige (mal e porcamente), a figura de um magnata, de um dos verdadeiros donos da Brastânio. Um grande patrão, não um barrabotas qualquer, Magnífico Doutor, Managerial Sciences Doctor, Moço ou Velho Parlamentar, Sua Excelência, todos assalariados, ocupando altos postos, todos muito bem pagos em divisas, mas nenhum deles um verdadeiro patrão.

Ao ler o nome Bayer encimando a entrevista, pulsou-me disparado o coração, imaginando estar diante de um dos legendários reis da indústria mundial. Fatal engano: trata-se apenas de mais um testa de ferro, técnico reputado e alemão porém Bayer bastardo, não passando de simples coincidência.

Busco esclarecer o detalhe pois, segundo li alhures, estão os Bayer legítimos associados à indústria de dióxido de titânio em mais de um país. A transcrição da entrevista do Bayer espúrio poderia sugerir, por consequência, solerte e malévola intenção de caracterizar a existência na Brastânio de capitais germânicos, majoritários e colonizadores.

Site Meter