segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Os cartoons da discórdia. Notas sobre a Liberdade

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Façamos o jogo do “faz de conta” como quando éramos jovens e percebíamos que as brincadeiras só eram verdadeiramente divertidas quando nos metíamos na pele de alguém, do género: eu sou o xerife, tu és o bandido e por aí fora…Quer isto dizer que o entendimento dos comportamentos de alguém que não era a nossa própria pessoa só era possível através de um esforço de abstracção em que se deixa ser quem se é para se ser outra pessoa.

Os grandes actores fazem isto tão bem nas suas representações que enquanto os vemos e ouvimos não nos passa sequer pela cabeça que eles não sejam exactamente as personagens que temos perante nós e por isso nos envolvemos com elas partilhando o mesmo mundo de emoções e sentimentos.

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Vem isto a propósito dos cartoons sobre o profeta Maomé.

Suponhamos, então, que em vez de sermos católicos, agnósticos ou ateus, somos, “faz de conta”, seguidores da religião do profeta Maomé, nascemos e vivemos num país do norte de África e como todos os nossos concidadãos, todos os dias, cinco vezes por dia, nos ajoelhamos virados na direcção de Meca e respeitosamente rezamos a Alá e todos os anos respeitamos escrupulosamente o 9º mês do calendário muçulmano, o mês do Ramadão, durante o qual entre o nascer e o pôr-do-sol, não se ingerem alimentos sólidos e finalmente, entre outras práticas religiosas, tentaremos ir, pelo menos uma vez na vida, rezar a Alá na cidade de Meca.

Entre outros preceitos e obrigações manda ainda o Corão que o profeta não possa ser figurado, desenhado, retratado, seja lá o que for.

Este exercício do “faz de conta”serviu para interiorizarmos melhor o comportamento, as reacções e a forma de sentir de um povo cuja cultura está toda ela profundamente impregnada por uma fé e preceitos religiosos num grau que não tem nenhuma comparação com o que acontece na cultura ocidental de que fazemos parte e este é um bom ponto de partida para uma reflexão sobre este problema.

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Os Muçulmanos são nossos vizinhos, temos com eles laços históricos de séculos e se devemos conhecer e compreender todos os povos e culturas e agora muito mais em época de globalização que dizer então dos nossos vizinhos tão próximos.

E falar de vizinhos é falar de relações de vizinhança e eu pergunto se há alguém de bom senso que não goste de se dar bem com o seu vizinho mais não seja por uma questão de harmonia e paz para as nossas próprias vidas.

Nós sabemos que neste momento há problemas graves no mundo que professa a religião de Maomé e não vale apenas referi-los aqui para esta reflexão mas é importante levar em linha de conta que nunca como agora forças radicais, fundamentalistas, procuram tirar partido do sentimento profundamente religioso comum a todo o povo muçulmano para o arrastar para soluções políticas de natureza teocrática de que tivemos exemplo no Afeganistão com o regime dos Talibãs e aquele que parece desenhar-se agora no Irão ou na Palestina com a ascensão ao poder do Hamas etc.

Há grupos de pessoas que querem liderar não um país mas todo o mundo árabe empunhando numa mão a espingarda e o chicote e na outra o Corão, o seu Corão e que nos consideram a nós e a todos os que não os sigam cegamente, como infiéis, inimigos do seu deus, gente a abater.

Acredito que seja uma guerra perdida para eles mas as acções terroristas já levadas a cabo um pouco por todo o lado, as matanças diárias no Iraque que de rotineiras até já deixaram de ser notícia, as ameaças do actual 1º Ministro do Irão, dizem bem que há um grau de perigosidade em toda esta situação que dispensa perfeitamente estas pequenas “ofertas” ao inimigo constituídas pelos cartoons.

É claro que não está em causa a nossa liberdade de expressão, o direito dos nossos criativos à sátira, ao humor e à crítica, que não existem temas tabus e que os directores dos jornais só devem ter como limites o que estiver estabelecido na lei e quem gosta, aprecia e bate palmas e outros ou não dizem nada ou protestam, manifestam-se, desfilam ordeiramente pelas ruas, agitam cartazes e gritam palavras de ordem.

Esta é a nossa sociedade, estes são nossos valores de hoje conquistados ao longo de muitos anos pelo contributo de muitos homens brilhantes pela sua inteligência e coragem e que nos permitem viver agora em liberdade, democracia e no primado do Estado de Direito.

Mas o que se passou com a história, triste, dos cartoons não é uma questão de direitos nem uma questão jurídica, é mais comezinho, ao nível do bom senso que aconselha que não se devem dar trunfos ao inimigo porque se pensarmos bem, a situação em que todos nós, mundo ocidental, vivemos, é uma situação de guerra, diferente das anteriores, mas de guerra.

A propósito deste assunto não pude deixar de me congratular com a leitura do texto do Miguel Sousa Tavares no Expresso que sob o título “ O CERCO”, naquele seu estilo frontal, aguerrido, quase que desabrido mas sincero e apaixonado que herdou do seu pai dizia a certa altura:

“…formei-me em direito mas tornei-me descrente da lei e da justiça das suas minudências, espertezas e falta de objectividade social e hoje acredito apenas em três fontes legítimas da lei: a natureza, a liberdade e o bom senso”.

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…de acordo, nesta história dos cartoons, só faltou o bom senso porque a natureza e a liberdade estiveram lá.
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  • Notas sobre a Liberdade:
    Pelos vistos todos apreciam e se afirmam defensores da liberdade como a seguir se pode constatar:

    -Os compradores dos meus automóveis são livres de escolherem a cor de que mais gostarem….desde que seja preta. (Henry Ford, 1921 )

    -As pessoas são livres de expressarem as suas ideias desde que…. eu goste delas. ( Hitler e Goebbls )

    - Se prometessem perdoar-me desta vez na condição de eu não voltar a dizer o que penso…dir-vos-ia: “ Homens de Atenas, devo obedecer aos deuses e não a vós”. ( Sócrates )

    - Detesto o que o senhor escreve mas daria a minha vida para tornar possível que continuasse a escrever…( Voltaire)

    -A liberdade de expressão é exactamente para as opiniões que se desprezam… (Noam Chomsky) filósofo.

    -O princípio do pensamento livre não significa pensamento livre para os que concordam connosco, mas liberdade para o pensamentos que detestamos…( Oliver Wendell Holmes ) Juiz do Supremo dos EUA.

    -Por que motivo deveria o governo alemão pedir desculpas se o que aconteceu foi apenas a manifestação da liberdade de expressão? (Wolfgang Schauble) Ministro do governo alemão a propósito dos cartoons.

    -Num Estado livre também as línguas devem ser livres…( Erasmo de Roterdão)

    Estamos na presença de dois grupos de pessoas representativas de pensamentos opostos e todas têm o direito à liberdade de expressarem o seu pensamento desde que aceitem o próprio jogo da liberdade…não sejamos ingénuos, a primeira obrigação que a liberdade impõe é a da sua própria defesa.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Fute-neve

Image Hosted by ImageShack.us - Sábado à noite, no ninho da águia, o maior ajuntamento de Benfiquistas, mais de 65000 com um pequenino reduto de heróicos sportinguistas apinhados lá num cantinho, preparava-se para assistir ao massacre do ano desportivo frente ao eterno rival, especialmente depois de se apanharem a vencer por um a zero logo aos cinco minutos da primeira parte com aquele penalty provocado infantilmente pelo Custódio que para cortar uma bola na sua pequena área foi-se a ela com cabeça, tronco e membros numa completa demonstração de azelhice, imaturidade e nervosismo.

Rejubilaram os benfiquistas, nos seus rostos não se reflectia apenas a simples alegria de vencer mas a sede de uma vitória histórica que constituísse, finalmente, a resposta condigna à derrota dos 7 a 1 anos atrás no Estádio José Alvalade.

Mas tudo aquilo que os benfiquistas esperavam da sua equipa: determinação, vontade, empenho, ambição espírito vencedor, jogo de equipa, qualidade, foi posto em campo, surpreendentemente, pelo Sporting.

Apanhando-se a vencer logo aos primeiros minutos do jogo o Benfica deu a iniciativa ao Sporting: se já estava a ganhar o adversário que fizesse pela vida porque os golos, esses, continuariam a aparecer em consequência do adiantamento do Sporting, obrigado “a ter de correr atrás do prejuízo”.

E assim aconteceu….o Sporting correu e continuou a correr,”fez pela vida”, “foi-se a eles” e os golos que se esperavam que aparecessem na baliza do Ricardo, ao contrário, para completa estupefacção da “população” benfiquista e surpresa de todos os analistas, comentadores e demais entendidos na ciência do futebol, foram-se anichar: um, dois, três e mais deveriam ter sido face às oportunidades, na baliza do Benfica.

E nessa noite de sábado para domingo, que se esperava que fosse de júbilo e consagração de um treinador holandês e de uma equipa reforçada e moralizada por uma série de vitórias consecutivas, uma das quais ao grande Manchester United…. foram os “lagartitos”, do outro lado da circular, com um treinador que ainda “ontem” era jogador da equipa, com jovens jogadores saídos das suas escolas e outros adquiridos mais para fazer número porque o dinheiro é pouco e as dívidas são muitas, que cantaram vitória enchendo o pequeno mundo sportinguista de orgulho e alegria.

Mas também a “mãe natureza” que como todos sabem é uma “leoa” ferrenha a tal ponto que pintou de verde os prados de todo o mundo, não resistiu e logo no Domingo pela manhã, não muito cedo que a noite anterior tinha sido de grande excitação, resolveu festejar pintando de branco o centro e sul do país num espectáculo surpreendente para gáudio de sportinguistas e benfiquistas, sem discriminação, gente do sul, para fazer inveja ao Pinto da Costa que não tinha nada a ver com esta festa.

Foi lindo de se ver: durante mais de uma hora, aqui em Santarém, Cartaxo e Vale da Pedra, só para citar os locais onde estive, à boa maneira das estâncias de turismo dos Alpes Suíços, a neve caiu ininterruptamente e só faltou ver cair nos braços uns dos outros benfiquistas e sportinguistas esquecidos das emoções da noite anterior, irmanados agora pelo entusiasmo da neve.

E se na noite anterior o Sporting tinha ganho 3 a 1 ao Benfica a Mãe Natureza arrasou por 10 a 0 oferecendo-nos e surpreendendo-nos com um espectáculo que só está ao alcance dela.

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