terça-feira, outubro 07, 2008

Freddie Mercury -- Last Perfomance (Barcelona)

Abba -- Money

Queen -- Show Must Go On

Billi Ocean -- Caribbean Queen

A Grade Questão: Por que estamos aqui ( Parte 3/3))


A Espiral Imortal





Terminamos o texto anterior afirmando que nós, humanos, somos as máquinas de sobrevivência dos Replicadores que entretanto passaram a chamar-se Genes.

Mas não apenas as pessoas, todos os animais, plantas, bactérias e vírus, todos eles são máquinas de sobrevivência dos Genes e o número dessas máquinas é de tal forma grande que até mesmo o número total de espécies é desconhecido.

Esta enorme diversidade de espécies de seres vivos a que chamamos de Biodiversidade é uma consequência de erros de cópia no processo de reprodução que, posteriormente, a selecção natural vai determinar, pela competição que se estabelece entre eles, quais os mais aptos que continuam gerações fora e os que perdem essa luta e ficam pelo caminho.

Falando apenas de insectos, o número actual de espécies tem sido estimado em cerca de 3 milhões e o número total de insectos individuais poderá atingir um milhão de biliões.

As diferenças entre si apresentadas pelas máquinas de sobrevivência é enorme, não só externa como internamente.

Um rato não se parece com um polvo e ambos ainda se parecem menos com um carvalho ou uma oliveira mas todos são máquinas de sobrevivência com uma química que é bastante semelhante e comum a todos eles, particularmente ao nível dos genes, que são todos do mesmo tipo.

Existem, no entanto, no mundo, muitas “maneiras diferentes de ganhar a vida” e os Replicadores construíram uma gama muito vasta de máquinas dentro das quais se preservam e que, com este objectivo, as exploram.

Um macaco é uma máquina que preserva os genes em cima das árvores, um peixe é uma máquina que preserva os genes dentro de água e existe até uma minhoca pequena que preserva os genes em suportes de cortiça para copos de cerveja alemães.

O ADN trabalha de maneiras misteriosas.

Uma molécula de ADN é demasiada pequena para poder ser vista a olho nu e a sua forma exacta consiste num par de cadeias de nucleótidos, ambas torcidas numa espiral muito elegante que é chamada de «hélice dupla» ou a «Espiral Imortal».

Os nucleótidos, por sua vez, têm apenas 4 variedades: adosina, timidina, citosina e guanina que, abreviadamente, se denominam A, T, C e G e são exactamente os mesmos em todas as plantas e em todos os animais variando apenas na ordem pela qual se dispõem.

Por exemplo:

- Um bloco construtor G de um homem é, em todos os seus detalhes, idêntico a um bloco construtor G de um caracol mas a sequência de blocos construtores no homem é diferente não só da do caracol mas também (em muito menor grau) da de outro homem a não ser que se trate de um gémeo idêntico.

O nosso ADN vive no interior do nosso corpo, em nenhuma parte em particular mas distribuído pelas células, presente em cada uma delas, num total de cerca de 1.000 biliões.

Em todas elas, lá está uma cópia do ADN daquele corpo.

Bem vistas as coisas, o ADN pode ser considerado um conjunto de instruções sobre como construir aquele corpo escritas no alfabeto A, T, C, G dos nucleótidos.

Supondo que o nosso corpo é um prédio imenso, em cada quarto existe uma estante com os planos do arquitecto para a construção do prédio inteiro, planos esses que são constituídos, no caso do homem, por 46 volumes, noutras espécies será um número diferente.

À estante chama-se «Núcleo» e a cada “volume”, «Cromossoma» que, sendo visível ao microscópio, se apresenta como fios longos com os Genes, finalmente, alinhados ao longo deles segundo uma ordem precisa.

Aos Genes chamaremos também, metaforicamente, de «Página».

Desnecessário é dizer que não há nenhum “arquitecto”: as instruções do ADN foram compiladas pela selecção natural.

As moléculas do ADN realizam duas coisas importantes:

- Em primeiro lugar, replicam-se, fazem cópias de si mesmas e agora de uma forma muito mais eficiente do que nos tempos dos primeiros Replicadores.

- Em segundo lugar, supervisionam a construção porque uma coisa é ter os planos para construir o corpo e outra é pôr os planos em prática e aqui intervêm a imensa variedade de moléculas proteicas.

Estas moléculas não só constituem grande parte do suporte material do corpo como também exercem um controle importante sobre todos os processos químicos que ocorrem no interior da célula.

Saber como tudo isto conduz a um bebé é uma história que ainda vai levar muito tempo a ser desvendada mas uma coisa é certa:

- Características adquiridas não são herdadas. Não importa quanto conhecimento e sabedoria adquirimos em vida, nem uma só gota será transmitida aos nossos filhos por meios genéticos; cada nova geração vai ter de começar do zero porque, não nos esqueçamos, o nosso corpo é a forma de os genes se preservarem inalterados.

A circunstância dos Genes controlarem o desenvolvimento embrionário significa que, pelo menos parcialmente, eles passam a ser responsáveis pela sua sobrevivência no futuro na medida em que ela depende da eficiência dos corpos que habitam e ajudam a construir.

Cada vez mais a selecção natural favorece os Replicadores que sejam bons a construir máquinas de sobrevivência, genes que sejam hábeis a controlar o desenvolvimento embrionário.

Longe vão os tempos da selecção automática entre moléculas vivas de acordo com a sua longevidade/fecundidade/fidelidade de cópia, agora as coisas já não são tão simples como eram, quando bastava aos Replicadores, para se protegerem a si próprios, usarem meios químicos ou erguerem uma simples barreira física de proteína à sua volta.

Nos últimos 600 milhões de anos os Replicadores alteraram completamente características fundamentais do seu modo de vida, tornaram-se altamente gregários.

Uma máquina de sobrevivência é um veículo que contém não um mas milhares de genes e a manufactura de um corpo é um empreendimento cooperativo tão complexo que é quase impossível distinguir a contribuição de cada gene.

Este, terá efeitos sobre diferentes partes do corpo, uma certa parte do corpo será influenciada por muitos genes e o efeito de qualquer deles dependerá da sua interacção com todos os outros e alguns comportam-se como Genes-Directores que controlam a acção de um grupo de outros genes.

Alcançaram triunfos tecnológicos notáveis relativamente às suas máquinas de sobrevivência tais como o músculo, o coração e o olho que evoluíram independentemente, por várias vezes.

A Reprodução Sexuada teve como efeito misturar e baralhar os genes, os seus caminhos cruzam-se e voltam a cruzar-se constantemente ao longo de gerações.

A vida física de qualquer molécula de ADN é bastante curta, talvez uma questão de meses, não mais que a duração de uma vida mas, teoricamente, ela pode viver, na forma de cópias de si mesma, durante 100 milhões de anos.

Nós, quando tivermos cumprido a nossa missão somos postos de lado mas os genes são cidadãos do tempo geológico, os genes são para sempre, como os diamantes são eternos mas não da mesma forma.

Os diamantes são cristais que permanecem como padrões inalterados de átomos enquanto que as moléculas de ADN não têm esse tipo de constância.

Mas esta capacidade da vida de um gene se prolongar, através das suas próprias cópias por milhões de anos é «potencial».

É verdade que ele pode viver durante todos esses anos mas muitos genes novos não passam sequer da primeira geração.

Um gene novo “com futuro” tem que exercer um efeito sobre o desenvolvimento embrionário que contribua para que a sua máquina de sobrevivência se revele mais eficiente em termos de sobrevivência.

Suponhamos que um gene novo contribui para pernas mais compridas num corpo que precisa de correr muito para escapar aos seus predadores, naturalmente, esse seria um gene “bom” porque ajudaria à sobrevivência da sua “máquina”.

Mas se esse gene aparecesse numa toupeira, as pernas compridas só iriam atrapalhar e seria então considerado “mau” e posteriormente eliminado porque toupeiras com pernas mais compridas não sobreviveriam.

Não esqueçamos que os «erros de cópia» são aleatórios e na maioria esmagadora dão lugar a casos de insucesso.

Mas esqueçamos os “genes das pernas compridas” e pensemos antes em qualidades universais que fazem um gene “bom” ou seja, de vida longa, ou um gene “mau”, de vida curta.

Uma dessas propriedades universais do gene “bom”, (de vida longa) dá o título ao livro de R. Dawkins: o Gene Egoísta por oposição ao Altruísta.

Em síntese, diz Richard Dawkins:

- Os Genes competem directamente com os seus “alelos”(formas alternativas do mesmo gene) pela sobrevivência. Uma vez que esses “alelos” do “pool” (espécie de população) são seus rivais na conquista de posições nos cromossomas das gerações futuras, qualquer Gene que se comporte de forma a aumentar as suas probabilidades de sobrevivência no “pool” genética à custa dos seus “alelos” tenderá, por definição, a sobreviver, logo, o Gene é a Unidade Básica do Egoísmo.


Mas, se construir um bebé é uma tarefa cooperativa e se cada gene precisa de vários milhares de outros genes para completar a sua tarefa como se concilia isto com a ideia de que eles são agentes livres e interesseiros?

Vejamos as coisas através de um exemplo:

- Um remador não ganha sozinho as regatas de Oxford ou de Cambridge, precisa de oito colegas e no seu lugar cada um é especialista: o proa, o timoneiro, o voga, etc.

Remar é um empreendimento cooperativo mas alguns dos homens são melhores do que outros.

Suponhamos então que treinador tem que escolher a sua equipa ideal a partir de um “pool” de candidatos em que alguns são especialistas na posição de proa, outros de timoneiro e por aí fora e procede da seguinte forma:

- Constitui equipas experimentais com os vários especialistas em cada lugar e faz com que elas compitam entre si e no fim de várias semanas fica claro que o barco vencedor terá tendência para conter os mesmos indivíduos;

- Outros indivíduos que aparecem consistentemente nas equipas mais lentas serão rejeitados;

- Pode acontecer que um remador excepcionalmente bom seja membro de uma equipa mais vagarosa ou por inferioridade dos outros membros da equipa ou por simples pouca sorte, como seja apanhar vento contrário muito forte e por isso, só em média, é que os melhores se encontrarão no barco vencedor.

Transportando este exemplo para a genética, os remadores são os genes, os concorrentes a cada lugar no barco serão os alelos potencialmente capazes de ocupar a mesma posição no cromossoma e remar rapidamente será construir um corpo que seja bem sucedido na luta pela sobrevivência, sendo que, nesta luta; todos os remadores, ou sejam, todos os genes estão no mesmo barco.

Finalmente, o vento que dificulta a progressão do barco é o meio ambiente externo.

No corpo de uma criança muitos genes bons estão na companhia de um gene letal que mata o corpo durante a sua infância e a criança, ao morrer, mata o gene letal que é destruído com tudo o resto mas, muitas outras cópias de genes bons continuam a viver em corpos onde o gene letal não está presente.

Os genes letais terão, assim, tendência para serem eliminados da “pool” de genes mas, se sua acção for tardia, isto é, se ele exercer a sua influência negativa numa fase avançada da vida do corpo este já terá procriado e esse gene letal terá sido bem sucedido porque cópias suas aparecerão pelo menos em alguns descendentes.

Vamos, portanto, supor um gene que faça desenvolver um cancro num corpo velho, um outro que faça desenvolver um cancro num corpo de um adulto jovem e, finalmente, um terceiro que actuasse em crianças jovens.

O primeiro poderia ser transmitido a muitos descendentes, o segundo a alguns, bastante menos, e o terceiro, simplesmente, não se transmitiria.

Temos, assim, que a selecção natural favoreceu genes de acção letal simplesmente porque são de acção tardia.

Apenas por especulação, se quiséssemos prolongar a duração da vida humana, impediríamos a reprodução antes de uma certa idade, por hipótese, 40 anos.

Depois, ao fim de alguns séculos essa idade seria aumentada para os 50, e assim por diante até que a longevidade se prolongasse por vários séculos…pelo menos até que a deterioração senil acabasse por produzir os seus efeitos.

Finalmente, a reprodução sexuada.

Porque terá surgido o sexo?

Propagar apenas 50% dos nossos genes quando poderíamos fazer brotar filhos que fossem a nossa réplica exacta com 100% dos nossos genes?

É exactamente isso que faz o pulgão verde do sexo feminino que pode gerar descendentes vivos do mesmo sexo, sem pai, ou então o olmo em que podemos encontrar uma floresta de olmos em que os rebentos se mantêm ligados à planta “mãe” podendo ser considerada um único indivíduo.

E portanto a pergunta é: se os pulgões e os olmos não o fazem porque fomos, o resto de nós, ao ponto de misturar os nossos genes com os de outra pessoa antes de fazermos um bebé?

Não será isto uma perversão da replicação directa?

Para que serve o sexo?

Richard Dawkins afirma que para um evolucionista esta é uma pergunta de resposta muito difícil e a maioria das tentativas sérias para lhe responder envolvem raciocínios matemáticos muito sofisticados.

Mas ele avança com a explicação de que devemos considerar o indivíduo como uma máquina de sobrevivência construída por uma confederação efémera de genes de vida longa e, sendo assim, a “eficiência” do ponto de vista do indivíduo é considerada irrelevante.

A sexualidade versus assexualidade será considerada um atributo controlado por um único gene, tal como olhos azuis versus olhos castanhos.

Um gene “para” sexualidade manipula todos os outros para os seus próprios fins egoístas e se a sexualidade beneficiar um gene para a reprodução sexuada isso será o suficiente para a explicar não interessando se ela beneficia ou não o conjunto de genes do indivíduo no seu todo.

Do ponto de vista do gene egoísta o sexo, afinal, não é assim tão bizarro… ou não fosse ele, o Gene, a Unidade Básica do Egoismo.

domingo, outubro 05, 2008

Billi Ocean -- Suddenly

ABBA -- I Have a Dream

Q

Barcelona /92

Queen -- I want to break free

quinta-feira, outubro 02, 2008


A Origem da Vida – Os Replicadores



Recuemos, então, na companhia do nosso inseparável Richard Dawkins, cerca de 4.000 milhões de anos, para ele nos explicar, com base nos actuais conhecimentos científicos, como terá aparecido a vida no planeta Terra.

Por definição ninguém estava presente para assistir ao que aconteceu e por isso existem algumas teorias rivais mas todas elas com características comuns e aquela que é apresentada por R. Dawkins não andará muito longe da verdade.

No último texto, referimos que a evolução por selecção natural é satisfatória porque nos mostra uma forma pela qual a simplicidade se poderia ter transformado em complexidade, com átomos desordenados a agruparem-se em estruturas cada vez mais complexas e como tudo terá começado pela sobrevivência das «coisas estáveis» o que, de acordo com a Teoria de Darwin, corresponde à «sobrevivência do mais apto» com a eliminação das «coisas instáveis», menos aptas.

Vamos, agora, falar dos Replicadores que são os antepassados dos Genes.

Antes da vida aparecer sobre a Terra não sabemos bem que matérias-primas abundavam mas entre as mais plausíveis teríamos a água, o dióxido de carbono, o metano e a amónia que são compostos simples que sabemos estarem presentes em alguns dos outros planetas do nosso sistema solar.

Recentemente, fizeram-se experiências laboratoriais simulando as condições químicas da Terra antes do aparecimento da vida e foi possível produzir substâncias orgânicas chamadas «purinas» e «pirimidinas» que são já blocos da construção da molécula genética do próprio ADN.

Tivéssemos nós encontrado estes elementos em Marte e logo diríamos que eles eram um sinal da presença de vida naquele planeta.

Processos análogos a estes desenvolvidos agora em laboratório devem ter originado um «caldo primitivo» que, na opinião de biólogos e químicos, constituíram os mares de há 4.000 milhões de anos atrás.

Essas substâncias orgânicas concentravam-se localmente, talvez na espuma que secava nas margens desses mares e sob a influência posterior de energia, como a luz ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores.

Se fosse hoje, essas moléculas orgânicas não durariam sequer o tempo suficiente para serem notadas porque logo outras bactérias ou outros seres vivos as absorveriam, mas quando essas moléculas boiavam no caldo primitivo mais nada ainda existia pois tudo o resto só apareceria posteriormente e portanto elas podiam boiar nesse caldo cada vez mais denso sem serem molestadas.


Num determinado momento, por acidente, formou-se uma molécula particularmente notável a que vamos chamar o Replicador porque tinha essa propriedade extraordinária de ser capaz de criar cópias.

Este acidente, que está na origem do aparecimento do Replicador, tinha muito poucas probabilidades de acontecer, provavelmente tantas quantas aquelas que nós temos de acertar no jackpot do euromilhões, quase impossível nos poucos anos de vida que temos para apostar.

Mas tempo era aquilo que não faltava ao planeta Terra e por essa razão, no decorrer dos muitos milhões de anos da sua existência, surgiu um dia essa molécula, que não terá sido necessariamente nem a maior nem a mais completa, mas que criava cópias de si própria.

Tivesse o homem a possibilidade de apostar todas as semanas durante 100 milhões de anos e o improvável, quase impossível, tornar-se-ia mais que provável e ganharíamos não um mas vários prémios.

É que os conceitos de provável e de improvável têm a distingui-los apenas o factor tempo porque ambos se referem a coisas possíveis de acontecerem.

Depois, era apenas necessário que essa molécula aparecesse uma vez…o resto seria com ela.

Temos, portanto, vários tipos de blocos moleculares no tal caldo primitivo onde, a partir de um determinado momento, circulava o Replicador e suponhamos agora que cada um desses blocos tem afinidades para com os seus iguais e, sendo assim, quando um bloco, vindo do caldo, se encontrar próximo de uma parte do Replicador para o qual tenha afinidade, tenderá a aderir a ele.

Os blocos que aderirem ao Replicador dispor-se-ão, automaticamente, numa sequência idêntica à do próprio Replicador numa cadeia estável semelhante ao Replicador original.

Este processo poderia continuar com um empilhamento progressivo, camada após camada pois é também assim que se formam os cristais.

As duas cadeias podiam separar-se e passaríamos a ter dois Replicadores, cada um dos quais poderia continuar a produzir outras cópias de si mesmo.

Uma possibilidade mais complexa é a de que a afinidade acontecesse, igualmente, não para os seus iguais mas para um outro tipo particular de bloco e sendo assim, o Replicador actuaria como padrão não para uma cópia idêntica mas para uma espécie de «negativo» exactamente igual ao positivo original.

Neste momento, para os nossos propósitos, não importa muito que este processo de replicação original fosse positivo-positivo ou positivo-negativo, pois o importante a salientar é que, subitamente, uma nova forma de estabilidade apareceu no mundo.

Antes das moléculas replicadoras terem aparecido, muito naturalmente, nenhum outro tipo de molécula seria muito abundante no “caldo primitivo” porque tudo estava dependente dos blocos moleculares assumirem, de forma acidental, configurações estáveis, mas quando surgiu o Replicador este deverá ter espalhado pelo mar as suas cópias e os outros blocos de moléculas mais pequenos tornaram-se um recurso escasso até chegarmos a uma grande população de réplicas idênticas.

Mas, qualquer processo de replicação obedece a uma regra: nada é perfeito, ocorrem erros.

Vamos dar um exemplo de erros num processo de replicação:

- Antes da invenção da tipografia os livros eram copiados à mão e isso aconteceu com os Evangelhos mas todos os escribas, por mais cuidados que tivessem, cometiam erros e outros até nem resistiam à tentação de fazerem pequenos «melhoramentos» nos textos.

Se todos copiassem de um único original o sentido não seria grandemente deturpado mas sendo as cópias feitas de outras cópias os erros começariam a acumular-se e tornar-se-iam sérios.

A primeira ideia que temos do erro é que ele é prejudicial e no caso de documentos humanos é difícil pensar em exemplos em que o erro possa ser encarado como um benefício.

Os eruditos da versão grega do Antigo Testamento traduziram erradamente a palavra hebraica para «mulher jovem» pela palavra grega para «virgem» e com este erro foram reproduzidos todos os textos de então para cá dando origem à seguinte profecia: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho…” o que é consideravelmente diferente, com as inevitáveis consequências, de uma outra profecia que teria rezado assim: “Eis que uma mulher jovem conceberá e dará à luz um filho…”

Mas se saltarmos dos documentos humanos para a biologia e, neste caso concreto para os Replicadores, o erro pode, em vez de ser uma desvantagem, representar uma melhoria essencial para a evolução progressiva da vida.

Os descendentes dos Replicadores, as actuais moléculas de ADN, são admiravelmente fiéis mesmo comparando com a mais alta-fidelidade, mas mesmo elas cometem erros de cópia que estão na origem da diversidade dos seres vivos e consequentemente da evolução possível.

Muito provavelmente, os Replicadores originais era bem mais imprecisos e os erros davam origem a cópias imperfeitas que se formavam e propagavam enchendo o «caldo primitivo» não de réplicas idênticas mas de diversas variedades de moléculas replicadoras todas “descendentes” do mesmo antepassado.

Estas diversas variedades de moléculas replicadoras entraram em «competição», em primeiro lugar porque não tinham todas a mesma «longevidade» e as que duravam mais, logicamente, tinham mais tempo para produzir cópias de si próprias dando lugar a uma tendência evolutiva na direcção de uma maior longevidade.

Mas a longevidade não era o único factor com influência no maior ou menor número de uma determinada variedade de moléculas replicadoras, a «fecundidade» era outro.

Suponhamos que a molécula reprodutora do tipo A forma cópias de si própria uma vez por semana, em média, e as do tipo B formam cópias de hora a hora.

É evidente, numa hipótese destas, que a molécula do tipo A, mesmo com maior longevidade do que a do tipo B, ficaria em minoria.

Finalmente, um terceiro factor nesta competição pelo predomínio:

Suponhamos que as variedades de moléculas reprodutoras do tipo X e Y apresentam a mesma longevidade e a mesma velocidade de se copiarem, mas a do tipo X comete menos erros de cópia pelo que terá mais «descendentes» do que a do tipo Y que, no lugar daqueles, terá mais “mutantes” que terão outras descendências.

A cópia de erros é um requisito para que ocorra evolução e esta pode parecer uma “coisa boa”, especialmente porque nós somos filhos dela, mas na realidade não há nada que queira evoluir.

A evolução é qualquer coisa que acontece quer queiramos ou não, apesar de todos os esforços dos replicadores para evitar que ela aconteça.

Voltando ao «caldo primitivo», se tivesse sido possível colher duas amostras retiradas em dois momentos diferentes separados de alguns milhões de anos, verificar-se-ia que a segunda amostra conteria uma maior proporção de variedades de moléculas replicadoras com mais elevada longevidade/fecundidade/fidelidade de cópia e este é, essencialmente, o sentido da evolução do ponto de vista biológico no que se refere aos seres vivos e ao mecanismo da selecção natural.

Mas será que as moléculas originais replicadoras estavam vivas?

Que importa isso?

Seja qual for a resposta não altera os factos, a história das moléculas replicadoras terá sido, sensivelmente, aquele que foi descrito independentemente de considerá-las «vivas» ou não.

Elas foram os antepassados da vida; foram os nossos fundadores.

Finalmente a competição para a qual Darwin chamou a atenção, não a pensar em moléculas, mas em plantas e animais.

O «caldo primitivo» tinha uma capacidade limitada para conter moléculas replicadoras, não só porque a Terra é um espaço finito, mas também porque os blocos construtores devem ter sido utilizados a um ritmo tal pelas replicadoras quando elas eram já muito abundantes que se tornaram num bem escasso e precioso e daí a competição por eles.

Nessa «luta» os Replicadores menos favorecidos diminuíram de número e muitos ter-se-ão extinguido.

Eles não sabiam que estavam a lutar, tão pouco se preocupavam com isso, era luta sem ressentimentos, aliás, sem sentimentos de qualquer espécie mas lutavam, porque qualquer erro de cópia que resultasse num maior nível de estabilidade relativamente aos seus rivais era preservada e multiplicava-se automaticamente.

Com o tempo, esta luta foi-se aperfeiçoando e alguns dos Replicadores devem mesmo ter «descoberto» como quebrar quimicamente moléculas de variedades rivais e como usar os blocos construtores assim libertos para produzir as suas próprias cópias.

Estes protocarnívoros, em simultâneo, obtinham alimento e removiam competidores.

Outros Replicadores talvez tenham «descoberto» como se protegerem a si próprios quer quimicamente, quer erguendo uma barreira física de proteína à sua volta constituindo, assim, as primeiras células vivas.

Começa aqui uma nova fase em que os Replicadores já não se limitam a existir mas também a construir invólucros, veículos para a preservação da sua existência, transformando-se em «Máquinas de Sobrevivência».

Inicialmente, essa máquina de sobrevivência teria sido constituída apenas por um revestimento protector mas com o aumento progressivo da competição essas máquinas tornaram-se maiores e mais elaboradas num processo cumulativo e progressivo.

Teria de haver algum fim para o aperfeiçoamento gradual das técnicas e dos artifícios usados pelos Replicadores para assegurarem a sua continuidade no mundo?

Haveria tempo de sobra para aperfeiçoamentos e por isso perguntamos:


Que máquinas bizarras de auto preservação trariam consigo nos milénios seguintes?

Qual terá sido o destino, 4.000 milhões de anos depois, dos primeiros Replicadores?

Não se extinguiram, pois são mestres antigos nas artes da sobrevivência mas também não andam para aí a flutuar livremente no mar porque há muito tempo que abandonaram essa sua liberdade de cavaleiros andantes.

Agora agrupam-se em colónias imensas, seguros no interior de gigantescos robots desajeitados, afastados do mundo exterior, comunicando com ele através de vias indirectas e tortuosas, manipulando-os por controlo remoto.

Estão dentro de si e de mim; criaram-nos, de corpo e de mente e a sua preservação é a razão da nossa existência.

Percorreram um longo caminho, esses Replicadores.

Agora respondem pelo nome de Genes e as suas «Máquinas de Sobrevivência»… somos nós.

Gene Kelly -- Im Singuing in the Rain

Gene Kelly -- Singuing in the Rain ( parte 2)

quarta-feira, outubro 01, 2008

Stevie Wonder - I Just called to say I love you


O Senador McCain





McCain, ao ter escolhido Sarah Pallin como sua candidata à Vice-Presidência dos EUA, aplicou um golpe baixo ao povo americano.

Não acredito que ele comungue das ideias extremistas, atrasadas e fundamentalistas do seu arreigado Criacionismo militante e que não perceba o perigo que uma pessoa destas representa para o país e para o mundo uma vez investida de poderes tão grandes como os de Vice ou, eventualmente, de Presidente dos EUA.

Mas o eleitorado da extrema-direita conservador, do «Círculo da Bíblia» das igrejas cristãs que se regem ainda pelo Velho Testamento de há mais de 3.000 anos, poderoso e influente estava órfão de candidato porque não acredita em McCain como fiel defensor dos seus interesses e das suas ideias.

Sarah Pallin preenchia todos os requisitos que agradavam a esse eleitorado e todas as dúvidas que pudessem existir no voto a McCain foram entusiasticamente superadas com a Srª Pallin.

Foi, aparentemente, um tiro na “muche” com aquela pontaria certeira com que a candidata, governadora do Estado do Alasca, costuma matar os pacíficos e simpáticos alces, e a subida imediata das sondagens provavam o “acerto” da escolha.

Quero continuar a acreditar que a Governadora do Alasca “não era a escolha” de McCain mas sim a da “máquina” que promove a sua candidatura embora a responsabilidade seja dele.

Depois da euforia inicial alguma coisa parece estar a voltar ao seu lugar e a cena filmada que correu o mundo através da Internet em que ela se submetia a uma autêntica sessão de bruxaria, pseudo-religiosa, deve ter constituído o primeiro grande alerta junto do eleitorado não completamente enfeudado ao fundamentalismo religioso e que ainda mantém alguma reserva de discernimento.

Entretanto, em várias entrevistas, a Srª Pallin começou a revelar, para além do mais, o seu grau de impreparação e hoje, no Diário de Notícias, surgem informações sobre o seu comportamento no exercício do poder que mostram que ela, para além de ser perigosa e fanaticamente religiosa, é desonesta e corrupta:

“Poucos dias depois de ter chegado a mayor de Wasilla, fez uso do seu voto de qualidade para desempatar a votação de uma proposta de isenção de impostos sobre aviões numa altura em que o seu sogro era proprietário de uma avioneta muito dispendiosa em termos fiscais.”

De acordo com as conclusões levadas a cabo pela investigação da Assciated Press, a candidata a Vice-presidente dos republicanos, não só obteve uma experiência executiva superior às de McCain e Obama mas também ganhou várias linhas escritas no seu Cadastro Ético.

“Um ano após ser eleita, apoiou uma proposta para o fim do imposto sobre aviões e máquinas de neve e sugeriu a revisão das leis sobre corridas na neve no sentido de uma maior liberalização e isto, quando o seu marido, que era um campeão das corridas, possuía também uma loja de vendas de máquinas de competição na neve.”

“Quando quis vender a sua casa em frente do lago, no último ano do mandato, conseguiu levar a Câmara a assinar um plano de excepção legalizando a sua habitação, a qual, segundo as regras em vigor, estaria demasiado perto da margem.”

“A lista de pequenos favores para vizinhos e amigos que precisavam de assuntos resolvidos na Câmara era já tão extensa que ela própria para evitar escândalos começou a refreá-los, como quando queria que fundos públicos patrocinassem a corrida na neve Iron Dog em que o marido participava.”

Na próxima 5ªfª terá lugar o debate televisivo com o seu adversário democrata, Joe Biden e veremos, dada a instabilidade da situação política e financeira nos EUA e neste mundo global, qual irá ser o desfecho das eleições americanas mas é provável que “o golpe baixo” que McCain aplicou ao povo americano lhe venha a sair furado.













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