quarta-feira, maio 07, 2008

A Religião

A Religião



“A religião convenceu efectivamente as pessoas de que existe um homem invisível que vive no céu e que vê tudo o que fazemos, a cada minuto do dia. E o homem invisível tem uma lista de dez coisas que não quer que façamos. E se fizermos algumas dessas coisas, ele tem um lugar especial, repleto de fogo e fumo e calor e abrasamento e dor para onde nos manda viver e sofrer e arder e sufocar e gritar e chorar para todo o sempre, até ao fim dos tempos…
…Mas ele ama-nos!”
(George Carlin)






George Carlin vai falar connosco a seguir:

domingo, maio 04, 2008


Deus Existe?


Será que Deus existe?

Vejamos, sobre esta questão, como se dividem as pessoas:

Teísmo - Que agrupa todos aqueles que acreditam numa inteligência sobrenatural que, além de ter criado o universo, se encontra por perto para vigiar e influenciar o destino subsequente da sua criação inicial.

Em certos casos, a divindade está intimamente envolvida nos assuntos humanos, responde às preces, perdoa ou castiga pelos pecados, opera milagres e agita-se tanto com as boas como com as más acções que praticamos ou mesmo quando nos limitamos a pensar em praticá-las;

Deístas – Todos aqueles que acreditam numa inteligência sobrenatural que criou o universo e as leis que o regem e por aqui se terá ficado num aparente desinteresse pelos destinos humanos;

Panteístas - Aqueles que não acreditam num Deus sobrenatural mas usam a palavra Deus como sinónimo não sobrenatural da natureza ou do universo ou da legitimidade que rege o seu funcionamento.

Este Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz do Deus bíblico interventivo, milagreiro, leitor dos pensamentos, punidor de pecados, atendedor de preces e que é o Deus dos padres, mulás e rabinos.

Como exemplo de panteístas referiremos Carl Sagan e Einstein:

Escreve Carl Sagan:…” se com “Deus” nos referimos ao conjunto de leis físicas que regem o universo, então há claramente um “Deus”, um “Deus” que é emocionalmente insatisfatório…não faz muito sentido rezar à lei da gravidade.”

Einstein, por sua vez, escrevia; “Sentir que por detrás de qualquer coisa que possa ser experimentada há algo que a nossa mente não consegue compreender e cuja beleza e sublimidade nos atinge apenas indirectamente como um débil reflexo, isso é religiosidade. Neste sentido sou religioso”.

Ateísmo – Que agrupa os que recusam a existência de uma entidade sobrenatural e não utilizam a palavra Deus para designar o que quer que seja para que não se preste a confusões.

Agnósticos - Aparecem no fim do século XIX e representam uma corrente de pensamento que, em síntese, afirma o seguinte; se o que determina a crença em Deus é a fé e esta não é baseada na razão logo, do ponto de vista racional, não se pode demonstrar a existência ou inexistência de Deus.


Há, no entanto, uma outra categoria de pessoas que se afirmam como crentes e seguidores desta ou daquela religião mas que, no fundo, não fazem mais do que “mentir” à sociedade por uma questão de conveniência pessoal. São os falsos religiosos.

O actual presidente da Royal Society confessou a Richard Dawkins que vai à Igreja como “anglicano descrente…por lealdade com a tribo.”

Mas não será só por uma questão de “lealdade com a tribo” mas também por medo das represálias da sociedade como se pode deduzir pelos resultados de uma sondagem efectuada em 1999 pela Gallup e na qual se perguntava aos americanos se eles votariam numa pessoa bem habilitada e que fosse mulher:

95% Responderam afirmativamente; se fosse católica 94%; se fosse judia, 92%; se fosse negra, 92%; se fosse homossexual, 79%; se fosse ateu, 49%.

A mentira está, portanto, explicada e justificada como igualmente se percebe melhor os cuidados e a atenção, por vezes demasiada, com que os candidatos à Casa Branca se referem e tratam o tema religião nas suas campanhas eleitorais.

Consequentemente, os não crentes têm muita dificuldade em assumirem-se, sobretudo entre a elite mais instruída e não é só de hoje.

John Stuart Mill, já no sec. XIX afirmava:”O mundo ficaria espantado se soubesse quantos dos seus melhores ornatos, dos que mais se distinguem pelo apreço popular, sabedoria e virtude são completamente cépticos”.

Aqui, neste ponto, levanta-se a questão de saber se para sermos bons precisamos de Deus ou se uma crença religiosa é necessária para que tenhamos preceitos morais.

Vale a pena transcrever, a propósito da razão de sermos bons, este notável pensamento de Albert Einstein:

“Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê, por vezes parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos outros homens – acima de tudo por aqueles de cujos sorrisos e bem-estar depende a nossa própria felicidade”.

Há pessoas religiosas que têm dificuldade em imaginar como é que alguém sem religião pode ser bom e para que há-de querer ser bom.

E depois, há outras ainda, que desenvolvem ódio contra aqueles que não partilham a sua fé, um ódio violento, de morte sem contemplações e isto na defesa da religião que professam!

Por que é que se acredita que para se defender Deus é preciso ser-se tão feroz?

Há estudos e experiências efectuadas com ateus e crentes religiosos que permitem concluir não existirem diferenças estatísticas significativas entre uns e outros quanto a juízos morais pelo que não precisamos da religião para sermos bons ou maus.

Mas então se Deus não existe para quê ser bom?

A este propósito dizia Einstein: “Se as pessoas são só boas porque temem o castigo e esperam a recompensa, então somos mesmo uma triste cambada.”

O grande filósofo Emanuel Kant, embora religioso, como era quase inevitável à época, baseou toda a moralidade no dever pelo dever e não em função de Deus.

É verdade que a filiação num partido político nos EUA não é um indicador perfeito do factor religiosidade mas não é segredo nenhum que os estados republicanos são fortemente influenciados pelos cristãos conservadores pelo que seria de esperar uma sociedade mais saudável relativamente aos estados democratas onde a influencia do conservadorismo cristão não se faz tanto sentir.

Essa não é, no entanto, a realidade. Das 25 cidades com mais baixos índices de crimes violentos 62% acontecem nos estados democratas e 38% nos republicanos. Das 25 cidades mais perigosas 76% estão em estados republicanos e 24% nos democratas.

Na verdade, 3 das 5 cidades mais perigosas do EUA situam-se no devoto estado do Texas e dos 22 estados com índices de homicídio mais elevado, 17 são republicanos.

No jornal of Religion and Society (2005), Gregory S. Paul levou a cabo um estudo comparativo sistemático de 17 nações economicamente desenvolvidas, chegando à devastadora conclusão que:

“Nas democracias prósperas, índices mais elevados de crença e adoração de um criador correlacionam-se com índices mais elevados de homicídio, mortalidade juvenil e precoce, índices de contágio de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e aborto”.

Estes resultados atingiram tão profundamente as propaladas pretensões de superior virtude moral por parte das pessoas religiosas que se assistiu de imediato a um acréscimo da investigação desencadeada por organizações religiosas que os tentaram refutar…mas até à data ainda nada apareceu que desmentisse os dados do estudo referido e as conclusões a que eles conduzem.

Mas, regressemos de novo à pergunta inicial acerca da existência de Deus e sobre ela vamos abrir um leque de probabilidades de 0 a 100%.

1º -Ateu convicto - “Sei que Deus não existe com o mesmo grau de convicção com que Carl Gustav Jung “sabe” que ele existe;

2º -Ateu de Facto – Uma probabilidade muito baixa mas acima do zero. “Não tenho a certeza, mas acho muito improvável Deus existir e vivo a minha vida no pressuposto de que ele não existe”.

3º-Tecnicamente Agnóstico – Abaixo dos 50% mas não muito, tende para o ateísmo. “Não sei se Deus existe, mas inclino-me para o cepticismo”.

4º- Agnóstico Completamente – Exactamente 50%. “A existência ou a não existência de Deus são igualmente incomprováveis.

5º- Tecnicamente Agnóstico - Acima dos 50% mas não muito elevado a tender para o teísmo. “Estou muito indeciso, mas inclinado a acreditar em Deus”.

6º- Teísta de Facto – Grande probabilidade mas aquém dos 100%. “Não posso ter a certeza, mas acredito firmemente em Deus e vivo a minha vida no pressuposto de que ele existe”

7º- Teísta Convicto – 100% de probabilidades da existência de Deus. Nas palavras de C. G. Jung, “Eu não acredito, eu sei”.

Reflectindo sobre este leque de hipóteses sobre a existência de Deus, e embora admita que existem pessoas para cada uma das sete hipóteses, a primeira e a última são, para mim, as mais credíveis e as mais sinceras.

Acreditar ou não acreditar em Deus tem a ver com uma questão de fé que não é possível existir em pequenas, médias ou grandes doses, ou se tem fé ou não se tem.

Se sim, acredita-se em Deus a 100%, na modalidade teísta ou deísta.

Se não se tem fé, coerentemente, só se pode ser ateu.

As hipóteses intermédias têm a ver com a delicadeza do tema:

Todos nascemos em sociedades mais ou menos religiosas e há um grau de religiosidade que, diria, nos é insuflado logo após o primeiro choro e que cada um de nós desenvolve em maior ou menor grau em função das características da nossa própria personalidade e do contexto social em que a nossa vida decorre.

E, em certos contextos sociais, não é fácil, muitas vezes é impossível, que alguém se consiga libertar totalmente de um elemento que insuflado à nascença é como se fosse constitutivo de si próprio e por isso aquele limbo de incerteza, de cepticismo, de dúvida tão difícil de quebrar e que não é mais do que um refúgio onde escondemos todos os “diabinhos” que nos assaltam.

Eu penso que a fragilidade do ser humano, este nosso intelecto que nos superioriza tão claramente aos restantes animais mas que não chega para fazer de nós deuses, este ficar a meio caminho, nem animal nem deus, se traduz, de facto, numa fragilidade.

Ser ateu, é um acto de coragem, é regressar definitivamente à terra e aos animais a que pertencemos e cuja evolução encabeçamos.

Ser ateu, é um acto de humildade para com a vida, é deixar de ser pretensioso e “convencido” sobre aquilo que, de facto, não somos por muito que gostássemos de o ser.

Ser ateu, é perceber que a vida desenrola-se à nossa volta e é nela que temos de concentrar todas as nossas energias e capacidades.

Ser ateu é respeitar a natureza como um legado dos nossos antepassados a transmitir aos nossos descendentes com o máximo respeito por todas as formas de vida.

Ser ateu é respeitar todas as pessoas independentemente de elas o serem ou não.

Ser ateu, é amar a vida e os outros muito em especial “aqueles de cujos sorrisos e bem-estar a nossa felicidade depende”

Nesta perspectiva, eu sou ateu.

Poemas de Guerra
(José Niza )


CORRE CORRE SOLDADINHO


Corre corre soldadinho
Que a vida é corrida louca
Para onde vais soldadinho
Com esse cravo na boca?

Corro para o meu amor
Com este cravo na boca
Levo comigo saudades
E a minha vida que é pouca

Para onde vais soldadinho
Com essa corrida louca?
Vou ao encontro da morte
E levo um cravo na boca.


O Magalinha

Era uma vez um magalinha
Que tinha uma galinha

Veio uma guerra daninha
E levou o magalinha

Comeram a galinha
Morreu o povo

E só se salvou
Um ovo



A Construção do Silêncio

Já pensaste
Na imensidão dos gritos sofreados
Que são necessários para construir o silêncio?

Já alguma vez calculaste
Quantas mordaças apertadas
E quantas bocas esmagadas
São indispensáveis para construir o silêncio?

Acaso algum dia imaginaste
Os queixumes abafados dos humildes
Que são fundamentais para construir o silêncio?

E contudo
Quando nos beijávamos
Quando nos amávamos
Era nesse silêncio que habitávamos

sábado, maio 03, 2008

A DESILUSÂO DE DEUS


“A DESILUSÃO DE DEUS”
(Ritchard Dawkins)


Poder-se-ia esperar que não ser crente é uma opção de vida tão válida como a de o ser mas, efectivamente, estamos longe disso.

A religião, como herança cultural, tem uma força e um tal impacto na sociedade que, dir-se-ia, ela própria faz parte dos alicerces que a constituem e se desmoronaria sem o cimento da religião.

Por isso, quando é ela mesma que está na origem das cisões e rupturas, sempre violentas e difíceis, que mais se assemelham ao tal desmoronamento, logo se fala de “limpezas étnicas”, “guerras civis sectárias” e outros eufemismos como “lealistas” contra “nacionalistas”ou ainda “guerras inter comunitárias” mas o objectivo é sempre o mesmo: expurgar da denominação dessas situações a verdadeira razão que as explica: “guerras religiosas”.

Foi assim na Irlanda do Norte, relativamente à luta entre católicos e protestantes, na guerra da ex-Jugoslávia entre sérvios ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos e no Iraque, após a invasão dos americanos, a guerra entre sunitas e chiitas.

O fundamento da fé religiosa, a sua força e glória resultam do facto de não dependerem de uma justificação racional. Os outros que defendam os seus preconceitos mas pedir a uma pessoa religiosa que justifique a sua fé é atentar contra a “liberdade religiosa”.

Douglas Adams, escritor inglês falecido em 2001, e que ficou célebre por ser o autor dos textos para a série televisiva Os Monty Pyton’s, num discurso improvisado em Cambridge, pouco antes de morrer, exprimiu muito bem esta situação de privilégios da religião:

“ A religião tem no seu âmago algumas ideias a que chamamos sagradas ou santas ou seja o que for. O que significa o seguinte: Aqui está uma ideia ou uma noção sobre a qual não nos é permitido falar mal; pura e simplesmente. Porquê? - Porque não.

Se alguém vota num partido com o qual não concordamos, somos livres de discuti-lo tanto quanto nos apetecer, todos terão algo a dizer mas ninguém se sentirá agastado por isso.

Se alguém acha que os impostos devem subir ou descer, somos livres de ter uma opinião.

Mas, por outro lado, se alguém diz “não devo se quer rodar um interruptor ao Sábado” nós dizemos: “Respeito isso”.

Quando olhamos racionalmente para esta questão vemos que não há razão para que estas ideias não possam ser discutidas como quaisquer outras só que, de alguma forma, concordámos entre nós que não o devemos fazer.

Há, portanto, um pretensioso respeito da nossa sociedade pela religião que afecta o comportamento e a atitude de todos nós dando origem a que se encubra aquilo que muitos de nós, verdadeiramente, sentimos relativamente à religião e fazendo com que as hostes dos não religiosos seja muito maior do que muitas pessoas se julgam.

O fundamentalismo, que não tem nada a ver com paixão, é o “segredo” de todas as religiões. Eles sabem aquilo em que acreditam e sabem também que nada os fará mudar de ideias.

Veja-se o que escreve Kurt Wise:

“…se todas as provas do universo acabassem por contrariar o Criacionismo, eu seria o primeiro a admiti-lo, mas continuaria a ser criacionista porque é para aí que a Palavra de Deus parece apontar e daqui não saio.”

Ora, por mais que um verdadeiro cientista acredite apaixonadamente no Evolucionismo ele sabe precisamente o que o faria mudar de ideias: provas.

Perguntaram uma vez a J. B. S. Haldane que provas poderiam contradizer a evolução e ele respondeu: “Fósseis de coelho no Pré-Câmbrico”.

É esta a diferença entre o fundamentalista e o apaixonado: o primeiro nunca muda, o segundo muda se lhe provarem que ele está errado.

Ritchard Dawkins, o autor de “A Desilusão de Deus”, foi criticado por outros intelectuais, também ateus, por entenderem que este livro é uma tentativa pretensiosa para mudar o mundo.

Em tom de desafio disseram-lhe:

-“ Eu próprio sou ateu, mas a religião veio para ficar, há que aceitar o facto”;

-“Quer ver-se livre da religião? Pois muito boa sorte!”

-“Acha que consegue ver-se livre da religião? Em que planeta vive? A religião já faz parte da mobília. Esqueça!”

-Vai substitui-la porquê? Como se confortam depois os enlutados? Como satisfazer depois essa necessidade?

Estas pessoas podem não ser religiosas mas adoram a ideia de que outras pessoas o sejam, é a chamada “crença na crença”.

Veja-se a resposta de Richard:

-“Que paternalismo! Você e eu somos, é claro, demasiado inteligentes e instruídos para precisarmos de religião mas as pessoas comuns, hoi polloi, as proles orwellianas os semi-idiotas deltas e ípsilones de Huxley, precisam da religião.”

- “Quanto á necessidade de conforto da humanidade, é óbvio que ela é real, mas não existirá algo de infantil na crença de que o universo nos deve conforto como se um direito nosso se tratasse?”

Inspeccionem-se todos os elementos da pseudo ciência e encontrar-se-á um manto protector, um polegar para chuchar, uma saia para agarrar.

Alem disso, é assombroso o número de pessoas incapazes de compreender que aquilo que é reconfortante não implica ser verdadeiro.”

Um outro argumento a favor das religiões e que tem algo a ver com o do consolo é o de ter um “objectivo” na vida.

Diz um crítico canadiano:

-“ Pode ser que os ateus tenham razão acerca de Deus, quem sabe? Mas quer haja Deus quer não, torna-se claro que alguma coisa na alma humana exige uma crença de que a vida tenha um objectivo que transcenda o plano material. Seria de pensar que um empirista ultra racional como Dawkins estaria em condições de reconhecer este aspecto inalterável da natureza humana…será que Dawkins pensa mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se, na nossa busca da verdade e conforto, fossemos agora todos trocar a Bíblia por A Desilusão de Deus?

“Efectivamente, e já que fala de “humano”, penso que sim, que seria, mas devo repetir, uma vez mais, que a eventual carga de consolo de uma determinada crença não faz subir o respectivo valor em termos de verdade.

É evidente que existem excepções, mas eu desconfio de que, para muitas pessoas, a principal razão pela qual se mantêm agarradas à religião não é o facto de esta dar consolo, mas o de lhes ter faltado o apoio do sistema educativo e de ensino e de não terem, sequer, a consciência de que a não-crença é uma opção.

O que lhes aconteceu, pura e simplesmente, foi que não lhes ensinaram de maneira adequada a espantosa alternativa proposta por Darwin.

E sucede que as pessoas, quando devidamente incentivadas a pensar pela sua cabeça com toda a informação actualmente disponível, muitas vezes não acreditam em Deus e levam vidas realizadas, felizes efectivamente libertas”

quinta-feira, maio 01, 2008


Falando sobre Religiões…

Nasci e a religião caiu-me, literalmente, em cima. Na parede do quarto, em frente do berço, um crucifixo pendurado, na cabeceira da cama dos pais um rosário, em cima da mesa-de-cabeceira uma bíblia e quando, tempos mais tarde, a minha avó morreu disseram-me que tinha ido para o céu onde me esperava para me contar mais histórias.

Dir-se-ia que eu era uma criança católica, no entanto, não passava de uma criança filha de pais católicos da mesma forma que seria islamita se tivesse nascido de pais islamitas no Afeganistão e assim, para mim o islamismo era falso e o cristianismo verdadeiro e o contrário para o menino islamita.

A religião começa, pois, por ser uma herança cultural que os nossos pais nos transmitem ao nascer exactamente como fizeram com eles, com o apoio da estrutura social, maior ou menor, em função da sociedade de que fazemos parte.

E, como qualquer herança, quem a recebe toma-a como sua e assim, sem que pudéssemos ter tido uma palavra a dizer por sermos demasiado crianças, passamos a ter uma religião e a ser religiosos para o resto da vida com mais ou menos convicção ou mesmo sem convicção nenhuma e isto ao longo de gerações e gerações.

Entre nós, parece que a religião como legado tem vindo a perder valor pois, para além da crise de vocações de que a hierarquia da Igreja tanto se queixa, também o nível de conhecimento de aspectos básicos da religião católica anda muito por baixo.

Em 300 entrevistas efectuadas em Maio do ano passado na Universidade Lusófona a maioria dos entrevistados revelou um confrangedor desconhecimento sobre as datas em que se celebram os feriados religiosos da Páscoa, Corpo de Deus e Imaculada Conceição, quem é a Santíssima Trindade, qual é o primeiro Mandamento ou como se chama o Papa, e sobre outras religiões o panorama não é diferente.

A religião do Dalai Lama revelou-se um mistério, apenas 18% souberam responder mesmo quando o líder Tibetano tinha acabado de visitar o país, e às perguntas sobre o Islão, se era uma religião monoteísta e qual a sua principal cidade santa, a maioria nem tentou responder.

Talvez um pouco por tudo isto o mediático Frei Bento Domingues se sinta na necessidade de escrever artigos intitulados “A religião não vai morrer”.

Como português, também eu recebi como herança dos meus pais, de resto foi a única, a religião católica e todos os seus sacramentos de vinculação me foram ministrados: baptismo, comunhão simples, comunhão solene, crisma e a sagrada união matrimonial.

Durante a minha juventude, enquanto aluno dos jesuítas, rezei terços, confessei-me, comunguei fiz retiros espirituais e peregrinações a Fátima.

Debalde, ao longo dos anos a vida foi perdendo sentido e tornou-se um monte de contradições e equívocos à luz da religião, desta, ou de qualquer outra.

Incapaz de me tornar adepto incondicional do que quer que seja pela crença, para alem dos valores da liberdade e do respeito pela dignidade da pessoa humana em que acredito indiscutivelmente, fiquei entregue a mim mesmo e, surpreendentemente, sinto-me bem e morrerei em paz quando chegar o momento porque não terei que me interrogar sobre o que me esperará exactamente porque nada estará à minha espera.

Ninguém nem nenhuma leitura em especial foram decisivos naquilo que sou hoje: crente na vida, descrente em Deus.

Imagine-se um mundo sem religião com as torres gémeas, sem bombistas suicidas, sem ataques ao Metropolitano de Londres, sem cruzadas, caça às bruxas, divisão da Índia, guerras israelo palestinianas, massacres de sérvio/croatas/muçulmanos, perseguição de judeus enquanto “assassinos de Cristo”, “assassinatos por motivos de honra”, televangelistas de fato lustroso e cabelo armado a tosquiar o dinheiro de rebanhos ingénuos (“Deus quer que dê até doer”).

Imagine-se um mundo sem “talibãs” a fazerem explodir estátuas antigas, decapitações públicas de blasfemos, flagelação de mulheres por exibirem um centímetro de pele, imagine-se tudo isto e muito mais e facilmente se compreende porque, tendo nascido filho de pais católicos, não só deixei de o ser como também não sou crente em Deus.

Acrescentar, porque é justo e importante, que entendi a teoria evolucionista de Charles Darwim como a explicação racional para o desenvolvimento da vida ao cimo da terra, através dos fenómenos de mutação e selecção natural, teoria esta que hoje deixou de o ser por se ter constituído numa verdade científica obviamente comprovada.

“A vida é uma extraordinária oportunidade e eu que vou morrer considero-me bafejado pela sorte porque a maior parte das pessoas nunca vai morrer porque nunca vai chegar a nascer. As pessoas potenciais que poderiam ter estado aqui no meu lugar, mas que na verdade nunca verão a luz do dia, excedem em número os grãos de areia que existem no deserto do Sara. Seguramente que nesses fantasmas que nunca vão chegar a nascer incluem-se poetas maiores do que Keats e maiores cientistas do que Newton. Sabemos isto porque o conjunto de pessoas potenciais pelo nosso ADN é esmagadoramente superior ao conjunto de pessoas com existência efectiva. Não obstante esta ínfima probabilidade, sou eu, somos nós, que na nossa vulgaridade aqui estamos…

Como poderemos nós, então, os poucos privilegiados, que contra todas as probabilidades, ganhámos a lotaria do nascimento, atrever-nos a queixar-nos do nosso inevitável regresso a esse estado anterior do qual a vasta maioria nunca despertou?” (Richard Dawkins).

Continuaremos a falar deste assunto para que ele não seja mais tabu, especialmente para mim, precisamente a partir da obra de Richard Dawkins “A Desilusão de Deus” mas, antes de terminar, esta pergunta pertinente formulada por Douglas Adams:

“Não basta ver que um jardim é belo sem ter que acreditar que lá ao fundo também esconde fadas?”


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