Um Apanhado Que Vale A Pena Ver
Olhar o futuro pelo espelho retrovisor da história. Qual história? Que futuro?



O TOQUE A SILÊNCIO



EPISÓDIO Nº 90


Perante as evidências históricas dos malefícios das religiões que ao longo dos tempos estiveram na origem da ruptura da sociedade humana em grandes grupos que se guerrearam entre si a propósito de terem crenças diferentes ou ligeiramente diferentes, concentrando o ódio e a intolerância que explodiram em guerras e sacrifícios humanos incontáveis;
De: Carlos Esperança (w.w.w.ponteeuropa.blogspot.com)

Cresce a concentração na praça, pequena multidão acotovelando-se em torno ao veículo.
- Veja os pneus. Que brutalidade!
- Que beleza!
- Você ouviu a buzina? Tocou o começo da Cidade Maravilhosa.
- Cada coisa!
No bar, é grande o movimento. Os comerciantes abandonaram lojas e armazéns. Plínio Xavier orgulha-se de ter sido o primeiro a ver a máquina e a perceber os pilotos.
- Estava bem do meu, fazendo contas de uns fiados…
O riso de Osnar, ri de quê? Os olhares se desviam: na porta da Igreja, Cinira conversa com as beatas. Ainda não assentou praça no batalhão mas não vai tardar.
- …quando ouvi aquele barulho horrível, larguei tudo…
Astério e Elisa somam-se ao grupo. Na hora do perigo, ele fora correndo para casa, preocupado com a esposa: Elisa, na lua-de-mel da chegada da irmã, anda nervosa, aflita, num pé e noutro. Juntos vieram para a praça, espiar a máquina, ela tão nos trinques a ponto de quase botar no chinelo a Rainha do Espaço de mancha platinada nas ruivas melenas. A mancha platinada alucina Osnar que confidencia a Seixas e a Fidélio:
- Eu juro a vocês que se eu pegasse aquela marciana começava a lamber da ponta do dedo grande do pé. Levava bem três horas até chegar ao umbigo… Dava-lhe uma surra de língua…
- Porcalhão! Seu Edmundo Ribeiro não é exactamente um puritano mas certos hábitos sexuais lhe parecem indignos de homem macho e honrado. Pegar mulher na cama, montá-la, muito que bem. Mas por a língua… Beijos, só na boca e em boca limpa.
Edmundinho, meu filho, não venha me dizer que você nunca fez um minete na vida… nunca chupou um favo…
- Me respeite, sou homem honesto sério e asseado.
Na Agência dos Correios e Telégrafos, ferve a discussão. Ascânio Trindade apresenta minucioso relatório a dona Carmosina, na presença do comandante Dário de Queluz que prevê a voz da lástima:
- Você, meu querido Ascânio, com essa mania de turismo em Agreste, ainda vai pagar caro, você e todos nós. Um dia, um maluco qualquer lê essas bobagens que você e Carmosina mandam para os jornais, leva a sério, bota de pé um negócio para explorar a praia de Mangue Seco, a água e o clima de Agreste e nós vamos terminar mal. Em dois tempos, isso vira logo um inferno.
- Um inferno, por que, Comandante? Nunca ouvi dizer que uma estação de águas fosse um inferno. Ao contrário é um local de descanso, de repouso – intervém dona Carmosina – Você sabe bem que ninguém defende mais a natureza do que eu, a natureza, a atmosfera e a beleza de Agreste. Mas que mal existe numa estação de águas?
- Uma estação de águas na cidade, vá lá. O pior é a praia que Ascânio quer engolir de gente, de toda a espécie de porcaria…
Salta Ascânio:
- Que porcaria? Casas de veraneio para turistas, hotel, restaurantes. A praia de Acapulco, a de Saint-Tropez, a de Arembepe, são por acaso porcarias, infernos? O futuro de Agreste, Comandante, está no turismo.
- São infernos, sim, são porcarias. Ainda outro dia A Tarde publicou uma reportagem sobre Arembepe: virou a capital dos hipies, a capital sul-americana da maconha. Você já pensou Mangue Seco repleto de cabeludos e maconheiros? Deixe nosso paraíso em paz, Ascânio, pelo menos enquanto a gente viver.
- Quer dizer que o senhor prefere, Comandante, que Agreste continue a ser um bom lugar para se esperar a morte.
- Prefiro sim, meu filho. A morte aqui tarda e retarda, não desejo mais que isso. O ar puro sem contaminação. A praia limpa.
Ascânio olha para dona Carmosina, aliada, ela toma a palavra:
- Quem falou em contaminar? Hipies não digo, se bem a filosofia deles seja também a minha, paz e amor, a coisa mais bonita que se inventou neste século! O diabo é a droga. Mas turistas com dinheiro, não vejo mal, Comandante. Boas casas de veraneio, comércio animado, bons filmes, e então? Ninguém pode ser contra.
Arranha-céus, hotéis, a corrida imobiliária, o fim do coqueiral, das árvores, do sossego, da paz! Deus me livre e guarde! Felizmente isso não passa de delírio de vocês…