terça-feira, abril 07, 2009

Um Apanhado Que Vale A Pena Ver

JÁ SE TINHA LEMBRADO DESTAS SOLUÇÕES?




MORT SHUMAN - UN ÉTÈ DE PORCELAINE

LABELLE - LADY MARMALADE

THE TOKENS - THE LION SLEEPS TONIGHT


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 94


CAPÍTULO ONDE TIETA BUSCA DEFINIR O AMOR E NÃO CONSEGUE



Tieta deixa os namorados na porta da rua, sozinhos, livres para a despedida. Da sombra do corredor, porém, espicha o olho para ver o que se passa, onde as mãos vão parar, a força dos beijos, os lábios vorazes, as línguas se enrolando, aqueles primeiros passos no caminho do resto. Decepção completa e inquietante. Viu apenas um roçar dos lábios de Ascânio na face de Leonora, receoso e apressado, aquilo não era beijo coisíssima nenhuma, perdera o tempo a espionar o mais completo e acabado par de idiotas. Da porta, onde demora até perde-lo de vista, Leonora acena longo adeus, certamente respondido por Ascânio. Mau sinal, não agrada a Tieta o rumo do idílio.

Leonora não correrá perigo de maior se terminarem, ela e Ascânio, na Bacia de Catarina, em noite sem lua, por entre a penedia, no bem-bom. Depois, é lavar o xibiu bem lavado, acabou-se. Quando chegar a hora do retorno a São Paulo, derramará algumas lágrimas de tristeza e saudade no ônibus de volta – c’est finie la comedie, como dizia Madame Georgette e Madame Antoinette repete quando enfrenta xodós e rabichos das meninas.

O perigo reside exactamente nos leves beijos medrosos, nesse namoro tonto, de caboclo, que já não se usa mais. Em Agreste, quando se namora assim, no respeito, contendo os impulsos, é porque se tem em mira noivado e casamento. Casamento, vida em agreste: ilusões absurdas, sonhos delirantes. Em tais casos, não basta lavar a xoxota bem lavada. A separação custa duro sofrimento, não se reduz a umas poucas de lágrimas no ônibus de volta.

Naquele dia, quando Tieta chegara de Mangue Seco, estuante de vida, vibrando de animação ao falar do terreno e da casa de praia, mais magra, o corpo no ponto exacto, Leonora caíra-lhe nos braços, murmurando-lhe ao ouvido, ansiosa:

- Preciso muito de conversar com você, Mãezinha.

Durante o dia não tiveram ocasião, porém, de ficarem sós. Perpétua sempre presente, a adular a irmã, já não lhe regateava louvores. Antigo poço de iniquidades, Antonieta passara a ser poço de Jacó, misericórdia dos sedentos, turris ebúrnea. Para gabá-la gastava até as poucas expressões latinas que decorara em tantos anos de sacristia, antes reservadas à exaltação do Senhor e dos santos sendo, turris ebúrnea exclusiva de Virgem Maria. Agora, tudo era pouco para as virtudes de Tieta.

Na hora do almoço, a mesa completa: Zé Esteves e Tonha, Elisa e Astério, Peto a pedir a bênção à tia, a regalar os olhos da carnação morena e farta. Fazendo-lhe companhia na praia, quem estava bem situado para brechar até fartar-se, para bispar os mínimos detalhes, era Ricardo; mas o idiota do irmão desviava a vista para não enxergar, tirado a ermitão, a místico. Devia estar de venda nos olhos em Mangue Seco, o bobalhão; Deus dá nozes a quem não tem dentes, queixara-se Osnar. Falou, pô!

À tarde foram a casa de dona Zulmira para confirmar o acerto e de lá ao cartório, deixar os dados para a escritura e marcar o dia de assiná-la – quanto antes melhor, pedira Tieta, com pressa de voltar a Mangue Seco. As paredes da choupana – assim designava a pequena casa da praia – começavam a subir, ela curtia cada tijolo, cada pá de massa, em companhia do sobrinho contagiado pelo seu entusiasmo. De noite a sala de visitas se enchera: dona Carmosina, dona Milú, Barbozinha, a tropa do bilhar escoltando Astério; Ascânio tinha aparecido ao fim da tarde, ficava para jantar, não desgrudava de Leonora.

Também dona Carmosina anunciara necessidade imperiosa e urgente de longa conversa reservada com Tieta. Marcaram para o dia seguinte. Amanhã sem falta! – recordara a agente dos Correios ao despedir-se – mil coisas a comentar. Com os olhos apontava o par de namorados no sofá, distanciados um do outro pelo menos um palmo, a paulista com um sorriso babado de admiração, ouvindo o discurso de Ascânio sobre o radioso futuro de Agreste.

Ascânio, o último a sair, quando já Perpétua se recolhera: às seis em ponto, ajoelhada na primeira fila, a devota ouve missa na Matriz, não pode dormir tarde. Tieta abandona-os na porta, à vontade para a despedida apaixonada. Que fracasso!

Leonora vem sentar-se na cama da alcova, enquanto Tieta desfaz a maquiagem. Abre o coração: apaixonada, que fazer? Paixão roxa, não banal aventura, simples chamego, ela não era disso, Mãezinha a conhecia, nesses três anos de refúgio jamais tivera um caso. Amo, pela primeira vez.

- Me diga como agir, Mãezinha. Contar a verdade, não posso.

- Não pode mesmo, nem pense nisso. Só se ficasse doida e me tivesse ódio.

- Nunca pensei, como poderia contar? Mas estou desarvorada sem saber o que fazer. Me ajude nesse transe, Mãezinha. Só tenho você no mundo.

segunda-feira, abril 06, 2009


A ELIMNAÇÃO DO SEGREDO BANCÁRIO


A Suíça tremula. Zurique alarma-se. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Este moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira. A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça - viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados para defraudar o fisco. O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos Estados Unidos. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente.
Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais. O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.
Mas como resistir! A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios.
Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714. No início do século 19, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas.
Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe econômica. Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 bilhões de francos suíços ou 201 milhões de dólares.
E não se trata apenas do UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem frutificar três trilhões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os ativos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são nitidamente minoritários.
Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros "offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou o extremo Oriente. Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos.
O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um carácter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e realizam-se em silêncio e recolhimento?...
Mas agora surge um outro perigo, depois deste duro golpe dos americanos. Na minicúpula europeia que se realizou em Berlim, em preparação ao encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. "Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional", vociferou a chanceler Angela Merkel.
No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, onde serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os paraísos fiscais.
Há muito tempo que se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise.Viva a crise!!!
Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade destes remansos de paz para o dinheiro corrompido. Hoje ele é presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país. Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal.


P.S. As Crises não trazem apenas coisas más. O mundo das finanças estava comprovadamente podre e, mais dia menos dia, o resultado seria este. Teve o mérito, e não foi pouco, de oferecer aos EUA e ao mundo um político da craveira de Obama. A eliminação do segredo bancário poderá ser a dádiva seguinte.

EXCELENTE GRUPO VOCAL

THE VOCALPEOPLE

IMAGENS MUITO CURIOSAS





NANA MOUSCURY / HARRY BELAFONTE - SEPTEMBRE

MICHAEL BUBLÉ - BUENA SERA

GERGELY ROBERT - EMANUELLE

NANA MOUSKURI - I HAVE A DREAM

JOHN LENNON - WOMAN


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 93




Somente uma semana depois Tieta regressou a Agreste, atendendo exactamente a uma chamada de Zé Esteves, transmitindo apelo urgente de dona Zulmira disposta a rebaixar o preço da casa, a entrar em acordo. Deixara Ricardo à frente das obras, as paredes subindo, sozinho na Toca da Sogra, pois havia três dias o Comandante voltara com dona Laura para o bangalô na cidade. Três dias, ou melhor três noites, durante as quais tia e sobrinho trocaram o romântico areal das dunas pelo conforto do colchão de crina da cama de casal do quarto do marujo.

Prosseguindo na educação do sobrinho, a lhe ensinar o bem – o bem e o bom – o colchão chegara na hora exacta, quando atingiam um estágio superior no estudo da matéria em que Tieta era mestra competente, emérita catedrática, honoris causa, como dizia em latim o padre Mariano. Ensinava-lhe em aulas práticas e intensivas quanto sabia, ou seja, tudo, o alfabeto inteiro, incluindo o ipicilone.

Tieta voltou a Agreste na manhã do dia do primeiro desembarque dos seres de espanto projectados do espaço, mas não os viu e deles só veio a ter noticias no fim da tarde por Ascânio exaltado, no auge do entusiasmo:

- Capitalistas do Sul, estudando a possibilidade de empregar capital aqui, no município, em empresas de turismo, coisa de grande vulto, querem asfaltar a estrada e construir hotéis. Que lhe parece dona Antonieta? Que diz a isso Leonora?

Empresa de turismo? Em Agreste, aproveitando água, o clima, a praia de Mangue Seco? Quem sabe, tudo é possível, por que não? Fizera bem em comprar terreno na praia, devia aceitar a proposta de dona Zulmira, abandonando a posição intransigente, os preços da terra e dos imóveis podem sofrer súbita valorização, em São Paulo, Tieta, assistiu a coisas de espantar. Com seu faro único, Felipe adquiriu a preço de banana terrenos e mais terrenos em áreas pelas quais ninguém oferecia nada. Poucos anos depois, ganhava fortunas na revenda. Tieta pediu a Perpétua papel e caneta, escreveu um bilhete a dona Zulmira fechando o negócio, mandou Peto levar.

Decidiu demorar-se em Agreste o tempo necessário para concluir o trato, lavrar escritura, tomar posse da casa. Mesmo sentindo o apelo ardente do corpo a reclamar a urgência do retorno, sabendo que o moço sofreria o fogo do inferno na noite insone, ainda assim resolveu cuidar antes do negócio. Aprendera a não perder a cabeça, a não permitir que xodó, por mais forte e exaltante lhe causasse prejuízo.

Ascânio prosseguia a traçar as vias do radioso futuro do Agreste. A mudança começara com a chegada das duas paulistas à cidade, tudo se fazendo agora mais fácil, devido à decisão da Companhia do Vale de São Francisco de incluir Agreste entre os municípios com a energia de
Paulo
Afonso, a Luz de Tieta.

domingo, abril 05, 2009

CHARLES AZNAVOUR - QUE CEST TRISTE VENICE

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL - BAD MOON RISING

ELIS REGINA / TOM JOBIM - ÁGUAS DE MARÇO

O Toque do Silêncio é universal. Toca-se em quase todas as Forças Armadas do Mundo. As modulações podem variar mas esta é a versão completa. É um toque lúgubre mas muito bonito. Quem, há muitos anos, viu o filme "Até à Eternidade" lembra-se dele como o momento mais dramático da história. A garota tem um fôlego imenso e é acompanhada pela orquestra de André Rieu.

O TOQUE A SILÊNCIO


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 92


Antes de regressar no fim da tarde a Mangue Seco, fugindo às manifestações dos seus conterrâneos, cercada pela família, Tieta ainda recebeu a visita do padre Mariano. O reverendo agradeceu-lhe, em nome dos fiéis, a graça da iluminação nova que ia modificar a fisionomia da cidade, mudar-lhe os hábitos, imenso serviço prestado à comunidade. Beneficiando a todos, dona Antonieta criara, no entanto, sério problema para a paróquia, pois a instalação eléctrica da Matriz encontrava-se em petição de miséria, incapaz de suportar o impacto da energia de Paulo Afonso. Um engenheiro da Hidrelétrica que ele consultara dissera-lhe ser absolutamente necessário mudar toda a instalação para impedir um curto-circuito e evitar grave perigo de incêndio. Onde buscar o dinheiro necessário? A quem recorrer senão a ela? Muito já lhe devia a Matriz, a começar pela imagem nova da Padroeira, o ostensório trazido de São Paulo, o padre era quem mais sabia mas sabia também da generosidade da dona Antonieta, alma de escol, ademais viúva de comendador de Papa, ou seja, pessoa graduada na hierarquia da Igreja. Com um sorriso ambíguo, Tieta ouviu em silêncio, na presença do pai, da madrasta, das irmãs e de Leonora. Perpétua repetiu as palavras do pároco, pensando na caderneta de poupança:

- Alma se escol, o senhor disse tudo, padre Mariano.

O reverendo não conseguia ler resposta positiva no sorriso equívoco a entreabrir os lábios carnudos; apenas podia constatar que Tieta remoçara nesses dias em Mangue Seco, o ar satisfeito, bonito como nunca, o sol pusera tons de ouro no cobre da pele.

- Não se aflija, padre, pode mudar os fios.

Tranquilizado, ia o cura agradecer quando ela prosseguiu, a voz se abrindo em riso, em tom de brincadeira:

- Faço isso em pagamento à Senhora Sant’Ana por lhe ter roubado o sacristão por alguns dias, meu sobrinho Ricardo, que está em Mangue Seco me ajudando.

Estremeceu Perpétua dentro do vestido negro, do luto fechado, da compostura devida ao sacerdote, não conseguindo esconder a satisfação de súbito reflectida do rosto carrancudo, num olhar de vitória. Ligando o sobrinho aos donativos feitos à Igreja, designando-o intermediário nas suas relações com Deus e os santos. Tieta dava largo passo no caminho a conduzir à adopção e à herança. Deus acabara de passar à categoria de devedor, ao receber, pela mão de Ricardo, a doação das novas instalações eléctricas da Matriz.

Igualmente radiante, padre Mariano ergueu a voz, escolhendo os termos do louvor:

- Deus não esquece quem ajuda a Santa Madre Igreja, multiplica cada óbolo em perenes benesses. As bênçãos da Virgem, dona Antonieta, protegerão a si e aos seus familiares – elevou a mão, abençoando os Esteves e as Cantarelli, sorriu beatificamente. – De parte da Senhora Sant’Ana posso adiantar que ela lhe cede de bom grado o escudeiro. Estando Ricardo em companhia tão sacrossanta, só poderá aprender a praticar o bem.

Ao despedir-se, o reverendo referiu-se à aparência de Tieta: louça, garbosa. Os dias na praia, disse, tinham sido para ela um verdadeiro tónico, ressumava saúde e júbilo, aprazimento, a beleza do rosto reflectindo a pureza da alma, tota pulchra, benedicta Domini. Que Deus assim o preserve.

Zé Esteves foi o único a demonstrar insatisfação, remoendo críticas ao peditório e ao atendimento!

- Esse urubu de batina é um sabido: com a língua doce e o latinório vai arrecadando um dinheirão para a Igreja, os tolos caem como patinhos. Me perdoe, minha filha, mas você precisa de prestar mais atenção ao seu dinheiro. Não se esqueça que vai comprar casa, não pode estar desperdiçando.



JÚLIO IGLÉSIAS - LA PALOMA

sábado, abril 04, 2009

FRED ASTER / ELEONORA PARKER (1949). Ele, talvez o melhor bailarino de todos os tempos.

LEONARDO FAVIO - FUISTE MIA UN VERANO

CREDENCE CLEARWATER REVIVAL - DOWN ON THR CORNER

CLAUDE BARLOTTI - AIME MOI


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 91




Ideia de Ascânio contara com o apoio geral, na boca do povo Tieta era a heroína da cidade. Não a tinham ainda colocado no altar-mor da Matriz, ao lado da Senhora de Sant’Ana, como previra Modesto Pires, mas pouco faltava. Ao passar na rua, no princípio da tarde, na companhia de Leonora e de Perpétua, a caminho do cartório onde marcara encontro com o dono do trapiche, das casas saíam pessoas para cumprimentá-la, para lhe agradecer: houve quem lhe beijasse a mão. Ao sabê-la no Agreste, o coronel Artur de Tapitanga abandonou a casa grande da fazenda, andando o quilómetro a separá-lo da rua, veio abraçar a benemérita cidadã:

- Minha filha, Deus escreve certo por linhas tortas. Quando Zé Esteves lhe tocou daqui, era porque Deus a queria fazer voltar como rainha. – Punha-lhe uns olhos de bode velho e lúbrico já sem força nos ovos mas ainda com apetite no coração. – Quando vai-me visitar ver minhas cabras?

Também Bafo de Bode (na imagem) a homenageou à sua maneira, ao vê-la na porta do cinema:

- Viva dona Tieta que manda um bocado e é um pedaço de mau caminho!

Tieta, ao passar, na mão negra de sujo deixa o necessário para uma semana de cachaça farta e ao adiantar-se, na intenção de alegrar-lhe os olhos, soltou as cadeiras em requebro de proa de barco em meio de vendaval.

Concluída a escritura, lavrado o termo da compra do terreno, completado o pagamento em moeda viva, Tieta, antes de voltar para casa, passou na Agência dos Correios para abraçar dona Carmosina e despachar uma carta. Já agora acompanhada também por Ascânio e pelo bardo De Matos Barbosa, atacado de saudade e reumatismo: tua presença Tieta, é sol e medicina, basta-me fitar teu rosto para me sentir curado.

Dona Carmosina anunciou:

- De noite, vou lhe ver para a gente conversar. Tenho muitas novidades… os olhos indicavam Leonora e Ascânio, assunto predilecto.

- Não estarei. Volto hoje mesmo, daqui a pouco, para Mangue Seco. Passei para lhe ver e saber notícias de dona Milú.

- Volta hoje? Por que toda essa pressa?

- Estou levantando minha choupana, já comecei. Tu me conhece , quando quero um coisa, quero logo, tenho pressa. Desejo ver as paredes de pé antes de ir embora.

Você não pode ir embora tão cedo. Nem fale nisso.

- Por que não?

- Antes da inauguração da luz? O povo não vai deixar.

Tieta riu:

- Até me sinto candidata a deputado… Você me representa na festa. – Mas, quem sabe, talvez eu fique, prolongue as férias, não tanto pela festa mas para ver a minha casinha de pé, em Mangue Seco.

- Fica, sim, com certeza. Ficam as duas… - Fitando a face melancólica de Leonora, dona Carmosina não resistiu: - Sei de alguém que talvez fique para sempre. – Os olhos miúdos faiscavam malícia.

Em casa, a sós com Perpétua, Tieta dera-lhe notícias de Ricardo: menino bom, sobrinho querido, estava sendo de inestimável ajuda. Sob a orientação do Comandante, tomava iniciativas e providências, atravessara duas vezes para o arraial do Saco onde contratara o pessoal necessário, pedreiros e carpinas, mestre-de-obra, gente habituada a trabalhar com troncos de coqueiro sobre areia movediça. Adiantara todos os detalhes, a construção iniciara-se na véspera. Ela o prenderia em Mangue Seco ainda uns dias, nomeara-o seu lugar-tenente.

- O tempo que você quiser, mana, ele está de férias.

Por falar de férias, Ricardo mandara pedir os livros de estudo, nem na praia descuidava dos deveres escolares. Dormia na sala da Toca da Sogra, numa rede, menino de ouro, Tieta queria ajudá-lo e para tanto decidira abrir uma caderneta de poupança em nome dele, num banco em São Paulo. Na carta que deixara na Agência dos Correios, dava ordens à sua gerente para abrir a caderneta em nome do sobrinho com considerável depósito inicial – Perpétua estremeceu ao ouvir a quantia – ao qual todos os meses ela acrescentaria determinada importância, ainda não decidira quanto. Assim, quando Ricardo se ordenasse padre, somando capital, juros e correcção monetária, teria um bom pecúlio.

Perpétua elevou os olhos gratos para o céu, o Senhor começava a cumprir sua parte no trato feito. Depois de agradecer a Deus, fitou Tieta e a ela se dirigiu:

- Não sei o que lhe dizer, mana. Deus lhe há-de pagar. – Tomou, num gesto inopinado a mão da irmã, levou-a ao peito apertando-a contra o coração. Usava corpete de tecido grosso, duro como um peitoril. Com o lenço negro enxugou os olhos lacrimosos.



sexta-feira, abril 03, 2009

PAUL ANKA - PUT YOUR HEAD ON MY SHOULDER (1959)

FRANK SINATRA - BLUE MOON

DANIEL GERARD - BUTTERFLY

MICHEL SARDOU - MALADIE D'AMOUR

TALENT 2008 - ROBOTSBOYS

TALENT 2008 FINAL


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 90



DA LUZ E DAS VIRTUDES DE TIETA, COM CITAÇÔES EM LATIM



Plantadores de mandioca, criadores de cabras, os pescadores e os contrabandistas, na cidade do Agreste e nos povoados vizinhos, das margem dos rio às encapeladas vagas da barra, ninguém deixou de tomar conhecimento do espantoso evento e o beato Possidônio, em Rocinha, anunciou o Apocalipse e o fim do mundo, assuntos da sua particular predilecção. Apoiava-se nas escrituras, no Velho Testamento.

Eis que de repente, conforme constataram os habituês no Areópago, começavam a suceder coisas em Agreste, arrancando o burgo da pasmaceira habitual, provocando agitados comentários, suscitando discussões.

Os fios eléctricos, suspensos sobre postos colossais, caminhavam pelo sertão no rumo do município e, em obediência às ordens superiores, o faziam com rapidez anormal em obras públicas. De quando em quando, um jip com engenheiros e técnicos desembocava nas ruas tranquilas, o bar de seu Manuel ganhava animação. O engenheiro-chefe garantia que dentro de mês e meio, dois meses no máximo, os fios chegariam à cidade, trabalho concluído, podendo-se marcar a data para a festa da inauguração. Em se tratando de município de tanto prestígio federal, talvez comparecessem figuras da alta direcção da Companhia do Vale de São Francisco, quem sabe até o director-presidente vindo especialmente de Brasília.

Já não duvidava de nada o engenheiro-chefe depois que o informaram ter sido uma viúva em férias na terra natal que obtivera, por intermédio de amigos do finado, em vida milionário e influente, as ordens preferenciais mandando reformar o projecto para que nele coubesse, com prioridade absoluta, o município de Sant’Ana do Agreste. Difícil de acreditar mas sendo a afirmação unânime, o engenheiro terminara demonstrando interesse em conhecer e saudar a ilustre dama capaz de modificar projectos aprovados, removendo postes, determinando rotas para luz e força.

Pessoas dada e simples, conforme lhe informou Aminthas. Nem por ser riquíssima viúva de comendador do Papa e frequentar a alta sociedade do sul, possuindo as melhores relações – das quais a prova mais concreta era o falado engenheiro estar ali no bar do lusitano, bebericando cerveja – nem por tudo isso carrega o rei na barriga. Com dois telegramas resolvera o assunto, dera uma bofetada no director cheio de si que tratara o representante da cidade, Ascânio Trindade, secretário da prefeitura, como se ele fosse um joão-ninguém e Agreste não passasse de terra esquecida por Deus. Sem levar em consideração as credenciais de Ascânio, o facto do moço encontrar-se em Paulo Afonso em defesa de interesses legítimos de sua terra, o director-presidente deixara-o mofar à espera antes de despachá-lo com redonda negativa, recusando-se a ouvir os seus argumentos. Agreste, para ele, não passava de árido pasto de cabras e assim o disse. Indignou-se dona Antonieta ao saber do acontecido, telegrafou. Foi tiro e queda.

Aminthas enfeitara a história ao contá-la ao engenheiro-chefe, rindo-lhe nas fuças:

- Dona Antonieta Esteves Cantarelli é o nome dela. Naturalmente o amigo já ouviu falar no Comendador Cantarelli, grande industrial paulista. Empacotou recentemente.

O engenheiro, vencido, escondeu o desconhecimento: o nome lhe soava, disse, com o mesmo acento dos Mattarazzo, dos Crespi, dos Filizzola. Ergueu o copo da cerveja, em respeitoso brinde à senhora Cantarelli. Não só Aminthas o acompanhou, todos os presentes associaram-se à homenagem. O povo, agradecido, ainda no espanto da dádiva inesperada, ao referir-se à nova iluminação não a designava Luz de Paulo Afonso, Luz da Hidrelétrica ou Luz da Companhia Vale São Francisco, como seria justo e correcto e em toda a parte se dizia. Para a gente de Agreste era a Luz de Tieta.

Quando, na quarta-feira seguinte aos festivos acontecimentos de domingo, Tieta viera a Mangue Seco para assinar no cartório a escritura dos terrenos, fora surpreendida com uma faixa colocada na praça da Matriz, entre dois carunchosos postes de iluminação antiga, nas proximidades da casa de Perpétua. O povo de Agreste saúda agradecido dona Antonieta Esteves Cantarelli. Apenas um senão: a palavra Esteves havia sido acrescentada, por exigência de Perpétua e Zé Esteves, depois da faixa concluída. Colocaram-na entre os outros nomes mas acima deles, defeito pequeno, não empanava o efeito impressionante das letras vermelhas sobre o fundo branco do madrasto.

quinta-feira, abril 02, 2009

Veja Esta Jogada de Ténis de Mesa

Quem Imita Quem


IRMANADOS NA FÉ



IMAGENS CURIOSAS












NANA MOUSKOURI - SOLEI, SOLEI

CLAUDE FRANÇOIS - COMME D'HABITUDE

SALVATORE ADAMO - ALINE


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 89


- Vamos lá… - Concorda o Comandante.

Mas quando chegam à praça, já o casal de super heróis, cercado de curiosos está de partida, na máquina refulgente. Ascânio ainda tenta dialogar mas eles levam pressa, vão chegar a Salvador tarde da noite.

- Em breve voltarei e então aí conversaremos. Quero tomar nota do seu nome – extrai uma caderneta de misterioso bolso na perna da calça, a caneta pendurada no pescoço parece um microfone de romance de espionagem.

A máquina de retrato, pequeníssima e potentíssima, funciona nas mãos finas, de dedos longos, libertas de luvas, de Miss Vénus.

- Meu nome? Ascânio Trindade. Este aqui é o comandante Dário de Queluz.

- Comandante?

- Sim, da Marinha de Guerra.

- Reformado – esclarece o Comandante.

- Ah! – depois de uma pausa, credencia-se: - doutor Mirko Stefano. A bientôt. So long.

- Adeus paixão! – chora Miss Vénus, os olhos em orgasmo.

Parte a máquina, levantando poeira, o ruído estourando os ouvidos mais sensíveis. Doutor? Parece um astronauta, um capitão de nave espacial. Um moderno empresário desses que transformam a terra e a vida. Sobre o veículo a informação exacta foi dada por Peto – ainda não conseguiu terminar o primário, não tem pressa, já sabe tudo sobre carros e pistas. Trata-se de um Bug com rodas de magnésio, tala larga, dupla carburação, Kits 1600, a buzina incrementada. Tudo incrementado, aliás, motor envenenado, o entusiasmo de Peto não tem limites. Corre para casa, vai contar as novidades à tia Antonieta e a Leonora.

Sobre os seres superiores souberam pela boca de Elieser, de mau humor.

- O tipo estava interessado era nas áreas da beira do rio, no coqueiral, nas terras devolutas. Me perguntou de quem eram, eu disse que ninguém nunca soube que tivessem dono. Fizeram fotografias às pampas. Em Mangue Seco, tiraram as roupas e tomaram banho nus…

- Nus?

- Os dois… Como se eu não estivesse ali. A tipa é ousada, enfrentou a rebentação. – Vê você, Ascânio? Nudismo para começo de conversa. Graças a Deus eu não estava lá, não iria permitir – Igual a Edmundo Ribeiro, o comandante Dário também não é puritano mas nudismo em Mangue Seco, ah!, isso jamais! Não enquanto ele viver!

Ascânio vai responder mas Elieser não lhe dá tempo:

- O tipo perguntou quanto me devia, eu disse-lhe que não era nada, como você mandou. Quem vai pagar meu trabalho e a gasolina, Ascânio? Tu ou a prefeitura?

Osnar, a ouvir em silêncio, comenta escandalizado:

- Tu vê um mulherão daquele nua em pelo e ainda quer dinheiro, Elieser? Pois eu pagava para espiar… Tu é um degenerado!


O Meu Comentário à Resolução do Conselho dos
Direitos Humanos da ONU


Perante as evidências históricas dos malefícios das religiões que ao longo dos tempos estiveram na origem da ruptura da sociedade humana em grandes grupos que se guerrearam entre si a propósito de terem crenças diferentes ou ligeiramente diferentes, concentrando o ódio e a intolerância que explodiram em guerras e sacrifícios humanos incontáveis;

Face à realidade dos noticiários dos nossos tempos em que homens, mulheres e crianças, em nome de Deus, explodem enrolados em bombas, em casos repetidos, quase diários, provocando a morte de centenas de pessoas seus concidadãos;

Perante o espectáculo triste e degradante de pessoas que se arrastam de joelhos em Fátima, ou que se chicoteiam com correntes de ferro nas ruas de Bagdad, ou se crucificam em certos países da América Latina;

Quando o chefe máximo da igreja católica, Bento XVI, vai de visita a África e condena o uso do preservativo numa daquelas “subtilezas” da doutrina que pode, indirectamente, condenar à morte milhares de pessoas;

Perante tudo isto, que acontece nome de Deus e das Religiões, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprova uma Resolução que condena “a difamação da religião”.

Ou seja, nos termos desta resolução, não só são aprovados
todos estes comportamentos como igualmente é condenada a sua denúncia.

Vindo de um Organismo Internacional como a Organização das Nações Unidas, que deveria ser referência para todos os países do mundo, esta resolução, entre outras coisas, significa um atraso civilizacional.

As pessoas não são crentes porque o queiram ser, obedecem a impulsos de crença que estão fora do seu controle os quais, já nos foi explicado, se abriram no nosso cérebro como espaços de fé.

No início da humanidade, a sobrevivência da nossa espécie foi muito difícil e periclitante e todas as tentativas dos nossos primos humanóides falharam. Finalmente, uma sobreviveu: a nossa e isso só foi possível pelo triunfo da razão, da inteligência, do raciocínio que fizeram dos homens os únicos seres racionais.

Mas o caminho foi longo e no início qualquer pequeno contributo significava a diferença entre a extinção e a continuação.

Fisicamente éramos seres frágeis, à mercê de todos os perigos e para os evitar eram necessários cuidados, previsões de risco com comportamentos adequados, que eram ensinados às crianças pelos pais e pessoas mais velhas. Aquelas que acreditavam e seguiam escrupulosamente os comportamentos recomendados tiveram mais hipóteses de procriarem e ao longo de centenas de gerações, por questões de sobrevivência da espécie, num processo vulgar de selecção, o nosso cérebro desenvolveu essa característica.

Mas se a crença naquilo que os nossos pais e pessoas mais velhas nos diziam contribuiu para a nossa sobrevivência, foram a razão, a inteligência e o conhecimento que ditaram, mais do que o triunfo, o extraordinário sucesso da nossa espécie.

O dispositivo da crença instalado no nosso cérebro “manda-nos” acreditar mas não nos diz em quê e por isso é um mecanismo perigoso, porque é “cego”.

Repito aqui, o que o perspicaz Lutero escreveu:

- “Não se pode ser cristão sem cortar a cabeça à razão”.

E não resisto a transcrever Steven Weinberg, físico norte-americano, galardoado com o prémio Nobel:

- “A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, haveria sempre gente boa a fazer o bem e gente má a fazer o mal. Mas é preciso a religião para por gente boa a fazer o mal”

Blaise Pascal disse algo semelhante:

-“Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”

A religião não liberta, aprisiona, condiciona. Não se pode ser livre quando estamos obrigados a obedecer a imperativos que não compreendemos e repudiamos mesmo do ponto de vista da
nossa razão.

quarta-feira, abril 01, 2009

A INACREDITÁVEL RESOLUÇÃO:
GENEBRA
O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou nesta quinta-feira, 26, uma resolução que condena a "difamação da religião" como sendo uma violação dos direitos humanos, apesar da preocupação de que isso possa ser usado como justificativa para coibir a liberdade de expressão em países islâmicos.

Comentário Exemplar:

A proposta apresentada pelo Paquistão e co-patrocinada pela Venezuela – dois países de sólidas tradições democráticas, um islâmico e outro cristão –, foi aprovada por 23 votos a favor e 11 contra, num conselho formado por 47 países.

Esta vitória muçulmana, uma religião com lúgubres tradições no respeito pelos direitos humanos, arrepia quem defende o livre-pensamento. A Liga Islâmica defende o Corão em toda a sua crueldade: lapidação, amputação de membros e decapitação de infiéis. Não Pode zelar pela igualdade de sexos, laicidade do Estado e emancipação da mulher.

Se o Islão, secundado por outras religiões, visse cumprida a resolução aprovada, nos países laicos, a democracia seria a primeira vítima. Não pode ser delito denunciar a moral anacrónica, delito é pactuar com os crimes que as religiões cometem, com a ignorância que cultivam e a superstição a que sujeitam os seus crentes.

Se o cristianismo considera o Antigo Testamento como parte da Bíblia é cúmplice do racismo, da xenofobia e da crueldade, inspirados naquele livro hediondo.

Ridicularizar o bispo que atribuiu a destruição de Nova Orleães a castigo de Deus, pelos pecados dos homens, talvez venha a ser difamação religiosa mas é um acto de higiene. Acusar o Papa Bento XVI de troglodita por mentir em relação à eficácia do preservativo e, sobretudo, por condenar a sua utilização, é um dever de quem apoia o combate contra a disseminação da epidemia e não pode intimidar os que combatem a sida.

Duvidar da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus por intercessão de santo Pereira pode virar delito e a gargalhada ser punível com prisão. Negar que o arcanjo Gabriel soubesse árabe e tivesse ditado o Corão a Maomé pode tornar-se perigoso mas a sanidade mental exige que não se acredite em anjos.

A religião que permite e impõe os casamentos combinados, que legaliza matrimónios de meninas de 9 anos, discrimina as mulheres, assassina infiéis, adúlteras e apóstatas passa a merecer respeito e a poder retaliar contra quem aprecie presunto e vinho do Porto.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, em vez de proteger os Direitos Humanos, como lhe compete, fragilizou-os de forma beata e deu razão a extremistas violentos e perigosos.

É preciso estar atento à escalada religiosa que devora os direitos que a nossa civilização conquistou. A Idade Média durou mais do que devia e o regresso é intolerável.
De: Carlos Esperança (w.w.w.ponteeuropa.blogspot.com)

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Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 88




DOS COMENTÁRIOS E DA PRIMEIRA DISCUSSÂO
AINDA AMÁVEL



Cresce a concentração na praça, pequena multidão acotovelando-se em torno ao veículo.

- Veja os pneus. Que brutalidade!

- Que beleza!

- Você ouviu a buzina? Tocou o começo da Cidade Maravilhosa.

- Cada coisa!

No bar, é grande o movimento. Os comerciantes abandonaram lojas e armazéns. Plínio Xavier orgulha-se de ter sido o primeiro a ver a máquina e a perceber os pilotos.

- Estava bem do meu, fazendo contas de uns fiados…

O riso de Osnar, ri de quê? Os olhares se desviam: na porta da Igreja, Cinira conversa com as beatas. Ainda não assentou praça no batalhão mas não vai tardar.

- …quando ouvi aquele barulho horrível, larguei tudo…

Astério e Elisa somam-se ao grupo. Na hora do perigo, ele fora correndo para casa, preocupado com a esposa: Elisa, na lua-de-mel da chegada da irmã, anda nervosa, aflita, num pé e noutro. Juntos vieram para a praça, espiar a máquina, ela tão nos trinques a ponto de quase botar no chinelo a Rainha do Espaço de mancha platinada nas ruivas melenas. A mancha platinada alucina Osnar que confidencia a Seixas e a Fidélio:

- Eu juro a vocês que se eu pegasse aquela marciana começava a lamber da ponta do dedo grande do pé. Levava bem três horas até chegar ao umbigo… Dava-lhe uma surra de língua…

- Porcalhão! Seu Edmundo Ribeiro não é exactamente um puritano mas certos hábitos sexuais lhe parecem indignos de homem macho e honrado. Pegar mulher na cama, montá-la, muito que bem. Mas por a língua… Beijos, só na boca e em boca limpa.

Edmundinho, meu filho, não venha me dizer que você nunca fez um minete na vida… nunca chupou um favo…

- Me respeite, sou homem honesto sério e asseado.

Na Agência dos Correios e Telégrafos, ferve a discussão. Ascânio Trindade apresenta minucioso relatório a dona Carmosina, na presença do comandante Dário de Queluz que prevê a voz da lástima:

- Você, meu querido Ascânio, com essa mania de turismo em Agreste, ainda vai pagar caro, você e todos nós. Um dia, um maluco qualquer lê essas bobagens que você e Carmosina mandam para os jornais, leva a sério, bota de pé um negócio para explorar a praia de Mangue Seco, a água e o clima de Agreste e nós vamos terminar mal. Em dois tempos, isso vira logo um inferno.

- Um inferno, por que, Comandante? Nunca ouvi dizer que uma estação de águas fosse um inferno. Ao contrário é um local de descanso, de repouso – intervém dona Carmosina – Você sabe bem que ninguém defende mais a natureza do que eu, a natureza, a atmosfera e a beleza de Agreste. Mas que mal existe numa estação de águas?

- Uma estação de águas na cidade, vá lá. O pior é a praia que Ascânio quer engolir de gente, de toda a espécie de porcaria…

Salta Ascânio:

- Que porcaria? Casas de veraneio para turistas, hotel, restaurantes. A praia de Acapulco, a de Saint-Tropez, a de Arembepe, são por acaso porcarias, infernos? O futuro de Agreste, Comandante, está no turismo.

- São infernos, sim, são porcarias. Ainda outro dia A Tarde publicou uma reportagem sobre Arembepe: virou a capital dos hipies, a capital sul-americana da maconha. Você já pensou Mangue Seco repleto de cabeludos e maconheiros? Deixe nosso paraíso em paz, Ascânio, pelo menos enquanto a gente viver.

- Quer dizer que o senhor prefere, Comandante, que Agreste continue a ser um bom lugar para se esperar a morte.

- Prefiro sim, meu filho. A morte aqui tarda e retarda, não desejo mais que isso. O ar puro sem contaminação. A praia limpa.

Ascânio olha para dona Carmosina, aliada, ela toma a palavra:

- Quem falou em contaminar? Hipies não digo, se bem a filosofia deles seja também a minha, paz e amor, a coisa mais bonita que se inventou neste século! O diabo é a droga. Mas turistas com dinheiro, não vejo mal, Comandante. Boas casas de veraneio, comércio animado, bons filmes, e então? Ninguém pode ser contra.

Arranha-céus, hotéis, a corrida imobiliária, o fim do coqueiral, das árvores, do sossego, da paz!
Deus me livre e guarde! Felizmente isso não passa de delírio de vocês…

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