quinta-feira, maio 07, 2009

VÍDEO
MÁGICOS DO VOLANTE

CANÇÕES QUE SEMPRE LEMBRAREMOS
GLADYS KNIGT & THE PIPS - I (WHO HAVE NOTHING)



DON MCLEAN - CRYING



CANÇÕES BRASILEIRAS


AO QUE VAI CHEGAR - TOQUINHO E MUTINHO (1984)
MÚSICA E LETRA - TOQUINHO E MUTINHO
INTERPRETAÇÃO - TOQUINHO


BAÚ DAS RECORDAÇÕES


THE CREW - SH BOOM (1959)



Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 124



DO REGRESSO A AGRESTE, CAPÌTULO NOTICIOSO POR EXCELÊNCIA NO QUAL TIETA CITA O EXEMPLO DO VELHO ZÉ ESTEVES


Ao regressar a Agreste para a festa da inauguração das benfeitorias na praça do Curtume, acompanhada pelo sobrinho Ricardo, Tieta quis saber de Leonora notícias de seus amores. A moça sorriu embaraçada, tomou das mãos da protectora:

- Não sei o que se passou, Mãezinha. Ascânio esteve fora durante dois dias, vendo uns trabalhos da prefeitura, voltou diferente. Sempre entusiasmado com a história do turismo, sempre terno, porém menos reservado. Me disse que, com a morte do prefeito, vai ser eleito para o cargo, a situação dele vai mudar. Está exaltado, nem parece o mesmo. Até me beija, sabe? Outro dia, dona Perpétua deu flagrante na gente… Estou tão contente, Mãezinha. Aproveite enquanto é tempo, mais dia menos dia a gente arruma as malas e capa o gato.

- Ai, Mãezinha, nesse dia vou morrer.

- Ninguém morre de amor, como é mesmo que Barbozinha diz? De amor a gente vive.

Boa, devotada Carmô! Com todo o seu diploma de sabida, deixara-se enrolar pela trama de Tieta e, para impedi-la de apressar a data da partida, revelara a Ascânio a situação de Leonora, deflorada pelo calhorda do noivo. Acontecera exactamente o que Antonieta desejava. Ascânio, a par do acontecido, mudara imediatamente de conduta, tornando-se audacioso e beijoqueiro. Não tarará a perder o resto do acanhamento e a chamar a namorada aos peitos, arquivando os planos de casamento e lar, interessado tão somente em cama. Na cama tudo se resolve.

Tudo. Basta citar o exemplo do sobrinho Ricardo, quase louco de remorso e medo, apavorado, querendo desistir do seminário, sentindo-se leproso e condenado às penas eternas após ter dormido com a tia no areal de Mangue Seco.

Agora não quer outra ocupação, se pudesse passava o dia no fuque-fuque, adolescente deslumbrado, força estuante, potência sem limite, desejo infinito, ilimitada, dulcíssima estrovenga. Um temporal, um terramoto, uma festa!

A qualquer momento, nas dunas, no banho de mar, onde quer que seja e possa, ele a derruba e monta. Tieta está quebrada, moída, mordida, sugada, satisfeita, trêfega menina em férias, saltitante cabrita. Cabrita? Cabra velha que antes jamais recebera bode novo, de trouxa apenas desatada, insaciável garanhão.

Fogoso e exigente, meigo e exultante, Ricardo também mudara. Perdera o medo, enterrara o remorso mantendo, ao mesmo tempo, a vocação sacerdotal. Descobrira a bondade de Deus.

No sábado, no fim da tarde, quando os operários regressaram ao arraial do Saco, Ricardo os acompanhou na canoa de Jonas. De volta, irradiava serenidade no rosto juvenil e, encontrando Tieta na praia, oferecida no maiô a mostrá-la mais que a vesti-la, desviando os olhos, informara:

- Hoje vou dormir a Agreste, Jonas me leva na canoa.

- Hoje, por quê? Daqui a mais uns dias a gente vai para ficar. O principal está feito, do resto o Comandante se ocupa, basta a gente vir uma vez ou outra, passar um dia e uma noite. Hoje, por quê? Já se fartou de mim?

- Não diga isso nem por brincadeira. É que hoje me confessei, amanhã vou comungar, e se dormir
aqui… Volto amanhã mesmo. Me dê licença, me deixe ir.

quarta-feira, maio 06, 2009

VÍDEO
QUE AS LOIRAS ME PERDÔEM...

CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS



MARY HOPKIN THOSE WERE THE DAYS (LE TEMPS DES FLEURES)



CLASSIC EAGLES - HOTEL CALIFÓRNIA



CANÇÕES BRASILEIRAS

ALCIONE - A LOBA

COMPOSIÇÃO: PAULINHO RESENDE/JUNINHOPERALVA
INTERPRETAÇÃO: ALCIONE NAZARÉ

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


NAT KING COLE - NATURE BOY (1948)



Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 123





- Ora, os jornais… Sempre sensacionalistas.

- Dizem que só existem cinco empresas dessas em todo o mundo, que nenhum país autoriza. Poluição, palavra suja, amedrontadora. Tremenda.

- Apenas cinco? Exagero dos jornais – rebate vitorioso – posso-lhe citar pelo menos seis.

- A diferença não é grande. Temo que… Os argumentos têm de ser de peso, sem o que não conseguiremos mover o nosso amigo e, se ele não se mover, não sei como obter autorização para o registro.

O Magnífico Doutor não é pastor de cabras mas também ele conhece o seu rebanho, para tanto é pago e bem pago. Para mercadejar, sabendo, quando indispensável, aumentar a parada e sabendo também até onde ir:

- Compreendo. Todavia não falta peso aos argumentos que já oferecemos à sua compreensão e à do nosso ilustre amigo.

- Insuficientes. Argumentos ridículos, disse-me ele. Ridículos, foi a palavra que ele usou. Mesmo porque, como é do seu conhecimento, não lhe cabe a decisão final, ele próprio deve argumentar, e para isso precisa de argumentos que convençam – serve-se de nova dose de uísque – Apenas cinco, cinco ou seis, no mundo inteiro… Está nos jornais. Apodrece a agua, mata os peixes, envenena o ar. Leu o artigo de O Estado de São Paulo? Na Itália, dá cana.

- Lança ao ar a fumaça azul do charuto cubano, subversivo porém inigualável.

O Magnífico Doutor baixa a voz apesar de estarem a sós na sala reservada do Refúgio dos Lordes onde não há perigo de ouvidos indiscretos, tampouco de microfones secretos como acontece nos romances de aventuras sobre petróleo árabe e contrabando de armas com espiões multinacionais e espiãs fabulosamente sexys.

- Os meus amigos estão dispostos a reforçar os argumentos – A voz amaneirada torna-se quase ininteligível: - Quanto?

O Jovem Parlamentar pensa, faz imaginárias contas nos dedos; calca no preço, pede alto. O Magnífico Doutor balança a cabeça negativamente.

- Metade.

- Metade? É muito pouco.

- Nem um centavo a mais. – A voz ainda mais afectada: - Tenho quem faça por menos.

- Vá lá… de acordo. Afinal os jornais mentem tanto e o estadão com essa mania que o Julinho Mesquita tem de democracia se coloca contra tudo que nos interessa. Vai acabar se dando mal…

Da pasta o Magnífico Doutor extrai um talão de cheque.

- Ao portador – recomenda o Jovem Parlamentar, revelando inexperiência. O Magnífico Doutor esconde um sorriso de debique.

O Jovem Parlamentar recebe, levanta-se, vai ao armário, guarda o cheque no bolso do paletó. Servem-se de mais uma dose, erguem os copos, num brinde mudo. Marcam novo encontro, em data próxima, ali mesmo, impossível local mais discreto e apropriado para assuntos de relevante importância para o desenvolvimento nacional. O Jovem Parlamentar bate palmas, a porta se abre, as meninas retornam. Afinal a vida não se resume a cuidar dos assuntos da pátria.

O Magnífico Doutor não aceita a gentil oferta da troca de parceiras. Apressado, reduz-se a coito rápido, deve pegar o avião, tem encontro marcado no Rio. Demora-se o Jovem Parlamentar, satisfeito da vida. Peixes, águas, caranguejos, ostras, algas marinhas… Tudo isso no Nordeste, vagamente. Existirá mesmo o Nordeste ou se trata de invenção subversiva de literatos e cineastas?

A rapariga a seu lado é loira como uma escandinava. No Nordeste uma sub-raça escura. O Jovem Parlamentar sente-se redimido, em paz com a consciência.

Na saída, a gerente vem despedi-lo: satisfeito, Deputado? O Deputado, cliente novo, ainda não um habitue, agradece e solicita notícias de Madame Antoinette:

- Madame está em Paris, visitando a família. O senhor sabe que Madame é filha de um General de França? La mère est de la Martinique. Très chic! – Começa a treinar o seu francês para um dia suceder à patroa actual na propriedade da casa. Quando Tieta se cansar de vez e resolver mudar para o sertão do Agreste.






"SAWABONA"












NOVO CONCEITO DE AMOR



Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milénio. As relações afectivas também estão a passsar por profundas transformações revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A ideia de uma pessoa ser o remédio para a nossa felicidade, que nasceu com o Romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.

O amor romântico parte da premissa que somos uma fracção e precisamos de encontrar a outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente tem atingido mais a mulher.

Ela abandona as suas características para se amalgamar ao projecto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobreviver e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é Parceria. Estamos trocando o amor de necessidades pelo amor de desejo.

Eu gosto e desejo companhia mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço da tecnologia, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas e a aprender melhor a conviver consigo próprias. Elas estão a começar a perceber que se sentem fracção mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fracção, não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma, é apenas um companheiro de viagem.

O Homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de se reciclar para se adaptar ao mundo que fabricou.

Estamos entrando na época da individualidade que não tem nada a ver com o egoísmo: o egoísmo não tem energia própria, alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor tem outra feição e significado: visa aproximar dois inteiros e não a unir duas metades e isto só é possível para os que conseguem trabalhar a sua individualidade.

Quanto mais um indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afectiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso, pelo contrário, dá dignidade à pessoa.

As boas relações afectivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.

Por vezes julgamos que o outro é a nossa alma gémea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro de si mesmo, e não a partir do outro.

Desta forma, ele torna-se menos crítico e mais compreensivo às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação há aconchego, o prazer da companhia e o respeito de ser amado.

SAWABONA - É um cumprimento usado na África do Sul que significa:

- “Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim”.

Depois da leitura atenta deste trecho da autoria de FLÁVIO GIKOVATE, médico Psicanalista, estamos em melhores condições para dizer aos outros, especialmente aos de quem se gosta: Sawabona!




terça-feira, maio 05, 2009

VÍDEO
A PROPÓSITO DE BEBEDEIRA...

CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS

BRENDA LEE - I' SORRY

MICHAEL RAITNER - ON DOIT SAVOIR PARTIR



CANÇÕES BRASILEIRAS


ALMA GÉMEA - FÁBIO JR. (1995)
MÚSICA: PENINHA
INTERPRETAÇÃO: FLÁVIO AIROSA CORREIA GALVÃO (FÁBIO JR.)


BAÚ DAS RECORDAÇÕES


DORIS DAY - SOMEWHERE OVER THE RAINBOW (1937)



Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 122







DA PRIMEIRA CONVERSA ONDE SE DECIDE DO DESTINO DAS ÁGUAS, DAS TERRAS, DOS PEIXES E DOS HOMENS – COM A GENTIL ASSISTÊNCIA PROFISSIONAL DAS COMPETENTES MENINAS DE MADAME ANTOINETTE



O jovem Parlamentar fez um gesto, as meninas levantam-se nuas e obedientes, abandonando os primeiros excitantes toques, sorriem e se afastam. Esperarão na sala ao lado, sabem guardar as conveniências, uma loira e a outra ruiva. O jovem Parlamentar, ainda não tão rico e poderoso quanto desejaria, confidenciara ao Magnífico Doutor a possibilidade de trocarem as parceiras após a primeira etapa. Antes de sair, a loira observou a reserva de uísque na garrafa, seria suficiente? Também os dois cavalheiros estão nus, como convém, mas o Magnífico Doutor guarda a negra pasta 007 a seu lado.

Quarentão bem cuidado, o jovem Parlamentar não possui no entanto a classe do magnífico Doutor, que é um galã de novela, se quisesse poderia ganhar a vida exibindo-se no vídeo. Certa tendência a engordar, um começo de gordura que a sauna não consegue controlar, nos olhos a cobiça e a manha, o jovem Parlamentar possui reputação duvidosa, discutida nos bastidores da Câmara Federal. Nos bastidores, jamais em público, quem se atreveria a acusá-lo? Passa por bem visto nos altos escalões e sobretudo nos reservados círculos que realmente dispõem do poder. Seu começa a repontar no noticiário como candidato a elevados cargos; o mandato parlamentar, ultimamente bastante desacreditado, já não basta para conter-lhe o prestígio em ascensão. Obtivera promessa firme de ser incluído na turma a cursar a escola Superior de Guerra.

O Magnífico Doutor, habituado ao trato com os grandes, em nenhum momento pronunciou-lhe o nome por desnecessário e imprudente. Tampouco durante a conversa citaram quantia ou falaram em pagamento. Apenas, em certo instante, abriu-se um sorriso amplo no rosto calculador do jovem Parlamentar: nem sempre aparece nos tempos actuais transacção assim rendosa. Em termos de legítimo patriotismo, o jovem Parlamentar desenvolve cauteloso trabalho de contactos e acertos, com reconhecida habilidade. Propina seria palavra escandalosa e indigna para designar a expressiva gratidão daqueles que lhe utilizam os méritos e as relações. Se respeitável bolada lhe advém, trata-se de merecida pecúnia – finalmente a palavra certa! - Pois um passo em falso, um erro de pessoa, pode custar mandato e carreira: os da linha dura são infensos à corrupção e vivem de olho atento, desconfiadíssimos. Tarefa delicada, exige alta recompensa.

É reconfortante vê-los ali, no fim da tarde, estendidos nus e cómodos em amplos divãs em uma das salas à prova de som reservadas por Madame Antoinette para ruidosas surubas, mandando as meninas embora, adiando o deleite, sacrificando o tempo de lazer ao trato de superiores interesses, conscientes ambos dos seus graves deveres.

- Aqui estamos a coberto da curiosidade e indiscrição – freguês recente e vaidoso, o jovem Parlamentar louva as virtudes do Refúgio.

Essas salas reservadas antes de tudo à confraternização sexual, em moda desde os banhos romanos, servem igualmente para importantes conversas de negócios entre magnatas desejosos de sossego e reserva. Como bem diz o jovem Parlamentar, no Refúgio dos Lordes estão acoberto da curiosidade e da indiscrição.

O Magnífico Doutor abre a pasta, retira um estojo de couro, oferece charutos. Conhece hábitos e preferências dos parceiros, estudou, entre divertido e enojado, a biografia do jovem Parlamentar.

- Cubanos… - esclarece a seguir, pois sendo Cuba matéria proibida em qualquer sector da vida nacional, a oferta ganha importância.

O jovem Parlamentar não se contenta com um, empalma três:

- Antes, só fumava cubanos. Agora andam difíceis, culpa da canalha comunista – aspira o odor do charuto – Sublime! Precisamos libertar Cuba das garras de Fidel de Castro, varrer do continente essa ameaça vil e constante de subversão – Um pouco retórico, fala como se estivesse na tribuna da Câmara.

- Mais dia, menos dia, os americanos acabarão com ele. – O Magnífico Doutor estende o isqueiro de ouro, acende o charuto do interlocutor. – Mas, quando quiser charutos cubanos, não faça cerimónia, tenho sempre um estoque.

O Jovem Parlamentar não pode esconder o laivo de inveja nos olhos gulosos: esses tipos sabem gozar a vida, nada lhes falta, dão-se a todos os luxos. E este é apenas um testa de ferro, imagine-se os outros, os patrões. Decide fazer o trato mais difícil, aproveitar a oportunidade:

- Obrigado. Mas vamos ao que importa, não devemos deixar as garotas esperando por muito tempo. Devo dizer-lhe que as coisas não se apresentam fáceis, há obstáculos sérios, diria mesmo: quase intransponíveis. O nosso amigo declara que não deseja envolver-se no caso.

- Mas há poucos dias as notícias eram outras.

-
Os jornais ainda não haviam falado no assunto. Leu o que andaram escrevendo?

segunda-feira, maio 04, 2009

VÍDEO
TAL ERA A BEBEDEIRA...

SANDIE SHAW - LOVE ME, PLEASE, LOVE ME


JENNIFER RUSH - THE POWER OF LOVE


CANÇÕES BRASILEIRAS

BETH CARVALHO - 1800 COLINAS (1974)

MÚSICA E LETRA: GRACIA DO SALGUEIRO
INTÉRPRETE: ELIZABETH SANTOS LEAL DE CARVALHO (BETH CARVALHO)

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


AL BOWLLY - BLUE MOON (1936)



Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 121




ONDE O AUTOR PROCURA E NÃO ENCONTRA TERMO JUSTO PARA DESIGNAR O REFÚGIO DOS LORDES


Não, não deverei usar nenhuma das palavras clássicas: prostíbulo, lupanar, bordel, serralho, alcoice, conventilho, pensão de mulheres, casa de putas, nem mesmo randevu, para classificar o Refúgio dos Lordes, na capital do glorioso Estado de São Paulo, abrigo luxuoso, discreto, fechadíssimo. Maison de repôs, talvez, não fosse o termo servir também sanatório destinado a malucos endinheirados e enrustidos. Enrustidos, os seleccionados fregueses do Refúgio, mas dificilmente fracos da cabeça, quase sempre cérebros privilegiados, de elevadíssimo QI, sagazes financistas quando não prudentes e esclarecidos pais-da-pátria. Funcionasse na Bahia, seria castelo, a designação soa bem, recorda nobreza e fausto. Em São Paulo, o Refúgio dos Lordes participa da medicina e da bolsa de valores, não se reduzindo a satisfazer necessidades dos ricos e poderosos – dos mais ricos e dos mais poderosos – pois atende e trata com terapêutica própria melindrosos complexos, atende a graciosas taras, indo da massagem sueca ou nipónica ao divã de irresistíveis psicanalistas com escola completa, faculdades nacionais e por vezes estrangeiras, ditas BBC: boca, boceta e cu. Serve também, quando necessário, como local de encontro o mais conveniente pela discrição, para o trato e conclusão de assuntos reservados, referentes à economia, às finanças e à política. Ali discutem-se superiores interesses, fundam-se bancos, erguem-se indústrias, escolhem-se candidatos a governador.

Ao abandonar a simplicidade de Agreste, onde a casa de Zuleika Cinderela é apenas puteiro e nada mais, para envolver-me com os grandes do sul, com a intelectualidade dos tecnocratas, empresários, homens de Estado, altas patentes, os dirigentes dos destinos pátrios, sinto-me acanhado, faltam-me conhecimento e inspiração à altura do nobre tema. Como designar o pequeno império dirigido em francês com competência, dedicação e toute la delicatesse por Madame Antoinette?

Perdoem-me senão encontro a palavra justa, sinto-me embaraçado, tento cometer imperdoável erro, rude narrador habituado a chão árido e a vidas modestas, de dinheiro parco e duro trabalho. Aliás, para que classificar este aprazível local de relax, onde os grandes do mundo distendem os nervos e recuperam as forças? Nesse bendito recanto, segundo consta, figurões já de todo impotentes se reerguem pururucas e obtêm satisfação nas mãos sábias e belas das meninas, quando não nos lábios de carmim. Ah!, quanto custa ser pobre e inédito. Digo inédito porque sei que as portas do Refúgio dos Lordes excepcionalmente se abrem para aqueles escribas de fama e glória, uns poucos privilegiados. Um dia lá chegarei, quem sabe, se a sorte
ajudar. Poderei então encontrar a
designação exacta. Por ora, não.

domingo, maio 03, 2009

VÍDEO

NUNCA MAIS ALGUÉM FARÁ ISTO

GIGLIOLA CINQUETTI - NON HO L' ETA PER AMARTI



RENEE & RENATO - SAVE YOUR LOVE


MÚSICAS BRASILEIRAS

APESAR DE VOCÊ 1972

MÚSICA/LETRA/INTÉRPRETE - CHICO BUARQUE DA HOLANDA


BAÚ DAS RECORDAÇÕES


TED LEWIS - JUST A GIGOLO 1931



Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº120




- E conseguiu?

- Não sei, não posso te dizer. Só poderia tirar a limpo se a coisa acontecesse e eu tivesse de resolver, de enfrentar o problema.

Acontecera com ele, Ascânio, tantos anos depois, quando não tem máximo a seu lado para o debate, a conversa, o conselho. Formados, Aparecida e Máximo já não são os radicais de ontem se bem não houvessem renegado os dias da juventude; ele se acomodara na Justiça do Trabalho, advogado de sindicados e operários, ela pendurara o diploma para dedicar-se ao marido e aos filhos. Sozinho, Ascânio deve enfrentar e resolver o problema.

Na noite sem descanso, em nenhum momento culpou Leonora, a seu ver incauta vítima do canalha. Não a julgando culpada ou indigna, sofria tão-somente por sabê-la deflorada, incompleta. Dilacerado pela dúvida: prosseguir desejando-a como esposa, sonhando noivado e casamento ou desaparecer para sempre da sua frente? Terá forças para fitá-la, sabendo que ela foi possuída por outro, desonrada?

Nesse dilema debateu-se noite afora, o coração opresso, as lágrimas impondo-se sobre o orgulho masculino, vacilando entre a força do preconceito e a força do amor. Uma única solução não lhe ocorreu em momento algum, exactamente a desejada por Tieta: transformar o idílio casto em agradável aventura casual, trocar o sonho do casamento pela possibilidade de dormir com Leonora enquanto ela permanecesse em agreste, aproveitando-se do conhecimento do seu estado, encerrando o caso na porta da marinete, num rápido ou prolongado beijo de despedida.

Quando a madrugada nasceu sobre o rio, o amor vencera a primeira batalha: Ascânio não conseguira arrancar Leonora do coração, nem a ela nem ao propósito de tê-la como esposa, senhora do seu lar. Não obstante, a ferida estava aberta, sangrando, e ele temeu encontrá-la imediatamente. Talvez não conseguisse esconder o sofrimento, sobretudo, não desejava que ela o soubesse a par da verdade. Não era homem de dissimular os seus sentimentos, não sabia usar a máscara, tudo o que ia por dentro dele se reflectia no rosto.

Não estando certo de poder controlar face e coração, guardando ainda lágrimas por chorar, decidiu ir fiscalizar algumas obras da prefeitura em Rocinha, pontilhões e mata-burros. Acordou o moleque Sabino que dormia na sala do cinema, numa cama de vento, deixou com ele um recado para Leonora: chamado urgente obrigava-o a afastar-se da cidade por um ou dois dias; partindo ao romper do sol, não pudera despedir-se. Apenas voltasse iria vê-la.

Iria vê-la ou não, tudo dependeria da reflexão e da decisão dela decorrente. Selou o cavalo – dádiva do coronel Artur de Tapitanga à prefeitura – e tocou-se para os matos, levando na garupa o hímen roto de Leonora. Ia com ele no passo lento do cansado animal, levantando detalhes, dúvidas, indagações.

Uma única vez ou muitas vezes? Muitas não teriam sido pois o embusteiro fora desmascarado e expulso; talvez algumas poucas, mais de uma porém. Que importa quantas vezes? O terrível é ter ela se dado a outro, não se haver conservado íntegra e pura.

Fizera-o, todavia, antes de conhecer Ascânio, nada a assemelhava à traidora Astrud, a escrever-lhe cartas de amor enquanto se rebolava com o outro e dele engravidava. Leonora apenas se entregara em momento de desvario; quando a paixão falou mais alto que a decência.

Teria apenas deixado se possuir, enganada pela lábia do miserável ou, no prosseguimento dos embates, conhecera a violência e a doçura do prazer, desmanchando-se em gozo?

No dorso do cavalo, no meio das plantações de mandioca ou do verde milharal, ouvindo queixas e pedidos dos roceiros, as indagações o prosseguiram e revolveram, o hímen de Leonora atado à garupa do cavalo, mil vezes deflorado na viagem lenta, no combate longo.

Do dilacerado hímen o amor cresceu vitorioso. Ascânio, aos poucos, sem a ajuda dos hipies, de padres progressistas e de proféticos canoeiros acalmou o coração, reteve as lágrimas e enterrou o preconceito. Passou a imaginá-la viúva, uma jovem, formosa e infeliz viúva. Imbatível dona Carmosina, cabe-lhe sempre a derradeira palavra. A uma viúva não se reclama a virgindade, apenas decoro e amor. Decidiu prosseguir no sonho – de tão difícil consecução – de um dia pedir a mão de Leonora em casamento. Sabê-la enganada e violada fez com que a sentisse ainda mais próxima e querida, mais amada.

De regresso a Agreste, foi em seguida visitá-la a casa de Perpétua. Leonora achou-o abatido, sem dúvida cansado da viagem, tantas léguas a cavalo, sob o sol ardente, cuidando dos interesses do município. Passou-lhe a mão na face, brandamente, em inocente agrado. Violada, sim, porém perfeita de candura e pureza, casta mais que qualquer virgem.

Depois, com o recado do magnata do turismo e o suicídio do prefeito, a certeza da eleição próxima para o cargo, as novas perspectivas abertas para o município e para ele próprio, Ascânio sentiu-se com esperanças válidas. O facto de Leonora não ser mais virgem facilitava, inclusive, a boa solução. No mercado do matrimónio, o valor da jovem… Meu Deus, como pensar em termos de mercado quando se trata de amor, tão forte amor a ponto de matar e enterrar o mais antigo e arraigado preconceito?

Vitorioso, sim, mas não em paz, tinha razão o Comandante. Ainda não, pois a película do novo
hímen na chaga aberta no peito de Ascânio renasce pouco a pouco, lentamente.

sábado, maio 02, 2009

VÍDEO
FUGIR DAS MANIFESTAÇÕES...

BOBBY VINTON - MISTER LONELY


DON MCLEAN - CRYING



CANÇÕES BRASILEIRAS
ELIS REGINA - ARRASTÃO (1965)

MÚSICA - EDU LOBO
LETRA - VINÍCIO DE MORAIS

BAÚ DAS RECORDAÇÕES
JIMMY DORSEY-BOB EBERL- HELEN O'CONNEL - GREEN EYES
(1957)


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 119



- Namoro em São Paulo, Ascânio, não é como aqui, noivado, muito menos – recordava as palavras de Tieta e as repetia – Lá os noivos vão a festas sozinhos, a boates, voltam pela madrugada, até viajam juntos. No Sul, moça para casar não precisa ser virgem. O preconceito da virgindade, porque é simples preconceito… É como se ela fosse viúva…

- Leonora? O tal noivo não é mais…

Leu a resposta nos olhos mínimos de dona Carmosina. Cobriu o rosto com as mãos, de súbito esvaziado e inerme. Um desejo único o assaltou: matar o canalha que conspurcara a pureza de Nora e, que ao fazê-lo, destruíra o mais belo dos sonhos.

Dona Milú vinha da cozinha com uma bandeja, cafezinho acabado de coar, bolos de milho e puba. Ascânio levantou-se e partiu, sem uma palavra.

Sabê-la deflorada foi dura prova. Atravessou os quintos do inferno e não pôde conter as lágrimas por mais se acreditasse macho, infenso ao choro.

Quando recebera a carta de Astrud, rompendo o noivado e comunicando o próximo casamento, e logo depois a soube grávida do outro, sofrera como um cão danado mas nem assim chorara. Na noite indormida porém, após a notícia pungente, o ardor dos olhos fixos dissolve-se em pranto.
Noite de pesadelo, de lágrimas e meditação, de luta consigo mesmo. Antes de ouvir a sentença de morte da boca de dona Carmosina, Ascânio deixara Leonora na porta, a acenar adeus da casa de Perpétua, íntegra, pura, perfeita. Imagem para sempre perdida, jamais a reverá assim completa. Agora, manchada, penetrada, rota, desonrada, nem por inocente vítima deflorada. Noite em que o amor foi medido, pesado, confrontado, sujeito a todas as provas de uma vez, noite da batalha inicial contra o preconceito. Preconceito, simples preconceito, dissera dona Carmosina e tinha razão. Muitas vezes, na faculdade, Ascânio participara em discussões sobre o candente tema: virgindade e casamento. Teoricamente, tudo simples e fácil: mero preconceito feudal.

Citando o exemplo dos Estados Unidos e dos países mais adiantados da Europa: França, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Noruega, sem falar nos países socialistas, onde, segundo os reaccionários, campeava o amor livre, os estudantes progressistas, entre os quais Ascânio, defendiam o direito da mulher à vida sexual antes do matrimónio. Por que apenas o homem tem esse direito? Preconceito patriarcal, machismo, opressão do homem sobre a mulher, atraso social, os argumentos sucediam-se esmagadores mas, ainda assim, a maioria se mantinha apegada à exigência secular: a mulher deva chegar virgem ao leito conjugal, deixar sobre o alvo lençol as gotas de sangue, dote do marido. Não adiantavam sequer as perguntas irónicas dos mais exaltados e cáusticos, querendo saber a diferença entre a cópula e as desenfreadas sacanagens de todo o tipo empreendidas por namorados e noivos, a bolinação levada aos últimos extremos, dedo e língua, pau nas coxas, na bunda e etecetera e tal. Que adianta respeitar o hímen e conspurcar o resto? Argumentos todos eles irrespondíveis mas nem por isso convincentes para a maior parte dos universitários. Exaltadas e inconsequentes, as discussões acabavam descambando para o relato de anedotas frascarias sem que chegassem a acordo.

Ao rememorar na noite interminável de amargura e indagação, os debates com os colegas, Ascânio lembrou-se da surpreendente declaração de máximo Lima, tanto mais inesperada por ser o colega líder inconteste da esquerda estudantil, celebrada pelo radicalismo de suas posições ideológicas, expostas em inflamados discursos contra a economia e moral burguesas. Amigos fraternos desde o tempo de ginásio, Ascânio via em Máximo a expressão mais alta e sincera do revolucionário, liberto de abusões e convencionalismos, lúcido e consciente. Ele próprio, Ascânio, se bem solidário com as reivindicações do movimento estudantil, não se comprometera com nenhuma organização estudantil, não se comprometera com nenhuma organização ou grupo político, nem sequer apoiava todas as posições de máximo, contando-se em admirá-lo e defendê-lo quando a direita atacava, acusando-o de inimigo de Deus, da Pátria e da Família.

Haviam saído juntos de acalorado debate sobre divórcio, virgindade, direitos da mulher, Máximo ainda exibia nos olhos um resto da exaltação com que defendera a igualdade dos sexos em todos os domínios humanos.

Rindo, em tom de pilhéria, para divertir-se Ascânio lhe perguntara:

- Me diga a verdade, mano velho. Se um dia você viesse a saber que Aparecida – Aparecida era a noiva de Máximo, colega de faculdade e de ideário político – não era virgem, tivera um caso antes, você assim mesmo casava com ela?

- Se casaria com ela, sabendo que não era virgem? É claro que sim. – Respondeu sem vacilar. Em seguida, porém, deixando cair os braços e a exaltação, honradamente confessou. – Para falar verdade, não sei. Nunca pensei no assunto em termos pessoais. Uma coisa é certa, Ascânio: o preconceito vive dentro da gente. Você pensa uma coisa, defende seu pensamento, ele é correcto,
você sabe disso, mas na hora de aplicá-lo… Casaria mas, antes, teria de esmagar o preconceito…

sexta-feira, maio 01, 2009

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DALIDA - JE NE SAIS PLUS


DICK RIVERS - C'EST PAS SERIEUX



CANÇOES BRASILEIRAS


PAULINHO MOSKA - A FLOR E O ESPINHO


Samba (1964) - NELSON CAVAQUINHO/ GUILHERME DE BRITO/ ALCIDES CAMINHA


BAÙ DAS RECORDAÇÕES


JOLIO - PEG O MY HEART (1947)



Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 118



DO HÍMEN NA GARUPA DO CAVALO



Por uma porta saía das profundas dos infernos o seminarista Ricardo, por outra nelas penetrava, atravessando as chamas eternas, desvairado, Ascânio Trindade, secretário da prefeitura do município de Sant’Ana do Agreste, amoroso votado à decepção. Liberto de condenação e pena, ressuscitado no campo dos hipies, na aura da santidade do frade, na força dos remos de Jonas, o seminarista cedeu sua vaga nos infernos ao amargurado sofredor, reincidente vítima dos descabaçadores profissionais.

Para quem fora mais difícil a conversa? Para ele, sobre cuja cabeça ruiu o mundo pela segunda vez, ou para dona Carmosina, aplicada e atenta estudiosa das relações dos seres humanos, mas não fria, insensível analista. Sofrera com a dor do amigo, dilacerando-se ao dilacerá-lo, prendendo as lágrimas nos olhos húmidos ao revelar a verdade sobre as consequências físicas do infeliz noivado de Leonora. Desejara ser subtil e delicada, escolher as palavras, explodiu brusca e aflita:

- Seja homem!

Foi tudo quanto disse num arroubo infeliz. Explicação difícil, mesmo para dona Carmosina, de verbo fácil e eloquente. Quando Ascânio a viu cheia de dedos, vacilante, gaguejando, sem rumo para a confidência, pedira numa voz de condenado à morte:

- Diga de uma vez, seja o que for.

Pensava saber do que se tratava desde a tarde, quando dona Carmosina lhe avisara, em segredo, no Areópago:

- Tenho um assunto a falar com você. Passe lá em casa hoje à noite. Aqui não pode ser.

Certamente, ante as visitas diárias, as conversas na varanda da casa de dona Perpétua, a presença imposta a qualquer pretexto, as flores, o pássaro sofrê, o casal de noivos montado num burro, evidente insinuação em barro cozido, a noiva em branco, o noivo em azul, dona Antonieta ou a própria requestada tinha mandado dona Carmosina chamar a sua atenção para a desagradável inutilidade de tamanha insistência. Não se dava conta do abismo a separá-lo da moça paulista? Um pobretão do Agreste, reduzido a ínfimo salário de servidor municipal de prefeitura sem rendas, não tem direito a aspirar a mão de herdeira milionária, cobiçada por potentados e lordes do Sul. Não podia ser outro o tema da conversa.

Restava-lhe saber de quem a iniciativa. De dona Antonieta? De Leonora? Idêntica na terrível consequência, a punhalada causaria maior ou menor sofrimento, dependendo no entanto de quem a vibrasse. Ascânio esperava que partisse o recado de dona Antonieta, madrasta preocupada com o futuro da enteada, adoptada e amada como filha nascida do seu próprio ventre. Não nega razões ao amor materno: ele as compreende e agirá como homem de bem, afastando-se; antes de tudo a felicidade de Leonora.

Talvez ela também sofresse com a drástica medida e esse sofrimento da bem-amada ajudá-lo-ia a suportar a provação, a cumprir o sacrifício. Podia acontecer também – e por que não? – que Leonora se revoltasse contra a madrasta dinheirista e resolvesse lutar ao lado dele pela continuação do idílio.

Caber-lhe-ia então mostra dignidade e desprendimento, renunciando, imolando-se, já que não pode oferecer a quem tem tanto a dar. Exaltantes pensamentos a consolá-lo durante a desassossegada tarde de espera.

Apesar do corajoso apelo para desembuchar tudo de uma vez, fosse o que fosse, dona Carmosina continuou buscando forças, reunindo coragem, um nó na garganta. Não suportando mais tanta demora, Ascânio resolveu colocar as cartas na mesa, a voz lúgubre:

- Dona Antonieta mandou pedir que eu deixe Nora em paz, não foi?

Antes fosse tarefa assim tão fácil: junto com o recado, dona Carmosina daria opinião, conselho para que continuasse a luta, não abandonasse o campo de batalha. Vendo-a ainda calada, Ascânio adiantou a pior hipótese:

- Então foi Leonora mesmo quem mandou dizer… - voz de condenado à morte após a denegação do pedido de graça.

Dona Carmosina tenta falar, emite apenas um som gutural, Ascânio entra em pânico:

- Pelo amor de Deus, fale alguma coisa, Carmosina. Ela é doente? Pulmão? Já pensei nisso, não tem importância. Tuberculose, hoje, não mete medo a ninguém…

Dona Carmosina faz das fraquezas forças:

- Nora foi noiva, você sabe.

- De um canalha, sei. Queria avançar no dinheiro dela mas dona Antonieta o desmascarou, você me contou. Mas eu não quero dinheiro de ninguém, só lastimo que ela seja rica. Tem muita gente que casa com separação de bens.

- Também tem homens que casam com viúva…

- Com viúva? A que vem isso? Não entendo.

Tendo começado, dona Carmosina foi em frente:

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