With Out You - Mariah Carey
Memórias Futuras
Olhar o futuro pelo espelho retrovisor da história. Qual história? Que futuro?
quarta-feira, janeiro 07, 2009
terça-feira, janeiro 06, 2009

A História de Israel
O primeiro registo histórico antigo com o nome de Israel remonta a 1210 A. C. e refere-se a um povo (aquele que luta ao lado de Deus) sem estar associado a um lugar geográfico em especial.
Surgiu de grupos nómadas que existiam na Mesopotâmia há cerca de 5.000 anos e que rumaram para leste mas, por questões de uma fome, emigraram para o Egipto no fim do séc. XVII A.C.
Escravizados pelos faraós do Egipto os judeus, que entretanto, sob a égide de Saúl, tinham unificado as suas doze tribos formando um único reino para melhor enfrentarem os povos vizinhos, reconquistaram parte dos seus antigos territórios.
A Saúl sucedeu o seu filho David que expandiu o território de Israel e conquistou Jerusalém onde instalou a capital.
Sob o reinado de Salomão, Israel atinge o apogeu entre 966 e 926 A.C. porém, um pouco mais tarde, o reino divide-se em dois: a Norte, o Reino das Dez Tribos, também chamado de Reino de Israel e a Sul o Reino das Duas Tribos, chamado de Reino de Judá, que deu o nome de judeus e judaísmo, cuja capital ficou sendo em Jerusalém.
Em 586 A.C. o Imperador babilónico Nabucodonosor invade Jerusalém e destrói o primeiro Templo e obriga os judeus ao seu primeiro exílio.
Levados à força como prisioneiros para a Babilónio passaram 50 anos como escravos.
Terminado este Primeiro Êxodo e regressados de novo a Jerusalém, reconstruíram a cidade e erigiram um novo Grande Templo.
Entretanto, o território dos judeus foi sendo conquistado e influenciado por diversas potências da sua época: Assírios, Persas, Gregos e Romanos ao longo de cuja dominação aconteceram duas revoltas e surgiu o Cristianismo.
Os Romanos estabeleceram no reino judeu um Protectorado que interferia na prática da religião hebraica atacando e profanando os locais de culto e a primeira revolta, a chamada Grande Revolta Judaica, teve lugar no ano 66 da nossa era e duraria até ao ano 70 quando o general Tito invade a região, destrói Jerusalém e o segundo Templo.
Cerca de um milhão de judeus teriam então sido mortos e a região foi transformada numa província Romana com o nome de Província Judaea.
A segunda e última revolta contra os romanos foi a Revolta de Bar Kochba que foi esmagada pelo imperador Adriano em 135, os sobreviventes feitos escravos e expulsos da sua terra e a Província Judaea mudou de nome para Província Síria Palaestina, numa tentativa de desligar a terra do seu passado judaico. Depois dos Romanos tivemos os Bizantinos e, finalmente, os Muçulmanos que conquistaram a palestina em 638.
De então para cá teve lugar um novo êxodo ao longo do qual a presença de judeus em Jerusalém foi diminuta. Entre 1517 e 1917 fez parte do Império Otomano.
Os judeus exilados viveram sob o domínio de vários povos, culturas e religiões mas nunca encontraram um clima de liberdade plena. Aceites, é certo, mas hostilizados sob as mais diversas acusações e pretextos, a sua religião e cultura se, por um lado, garantiam a sua sobrevivência como povo, por outro, estavam na origem das perseguições de que eram vítimas.
No século VII, na península Arábica, onde provavelmente chegaram após a destruição do 2º Templo, viram-se envolvidos nas lutas entre Maomé e os habitantes de Meca.
Nesse envolvimento, duas tribos judaicas foram expulsas de Medina e uma terceira foi executada com excepção das mulheres e crianças mas, este episódio está integrado nas lutas ente Meca e Medina, na mentalidade do século VII, e nada tem a ver com as manifestações de anti – semitismo.
Em 1066 ocorre o massacre de Granada e entre os séculos XII e XV os judeus são expulsos do norte da Europa dominada pelos Cristãos.
Os grandes massacres de judeus sucedem-se em vários países: 1290, na Alemanha e Inglaterra, 1390 e 1394 na França e na Espanha em 1391, culminando na expulsão em 1492 e no grande massacre de Lisboa de 1506.
Os judeus passam então a habitar os países da Europa oriental.
Com o fim da Idade Média e o Iluminismo as perseguições diminuem. Durante a Era Moderna os judeus da Rússia e de toda a região leste da Europa são constantemente perseguidos e massacrados sob os mais diversos pretextos e acusações.
Em meados do séc. XIX os “pogroms” (ataques violentos a pessoas e ao seu ambiente: casa, negócios e centros religiosos) deram lugar a ondas de emigração judaica para a América e fomentam o aparecimento dos primeiros movimentos sionistas.
O “Sionismo” de Sion (nome de uma colina da antiga cidade de Jerusalém) surgiu na Europa em meados do séc. XIX, tinha um carácter religioso e pregava o regresso dos judeus à Terra de Israel, como forma de estreitar os laços culturais do povo judeu à volta da sua religião e cultura ancestral.
Entre os séculos XVIII e XIX os judeus que fizeram “aliá” que significa, literalmente, ascensão – o acto de um judeu imigrar para a Terra Santa - foi constante e crescente, estimulado pelo aparecimento periódico de crenças messiânicas e de perseguições anti-judaicas que tinham, quase sempre, motivações religiosas.
Ou eram acusações de “deicídio”, a morte de Jesus, ou lendas sobre envenenamento de poços, uso de sangue de crianças cristãs em rituais judaicos e de heresias.
E foi durante a primeira metade do séc. XIX que a migração judaica para a Palestina sofreu o seu maior incremento constituindo mesmo a maioria da população de Jerusalém em 1844 convivendo com muçulmanos, cristãos, arménios, gregos e outras minorias, sob o domínio Turco – Otomano.
A estes migrantes religiosos vieram depois juntar-se, na segunda metade do século, migrantes seculares que eram, no geral, da Europa central e adeptos de ideologias socialistas.
O primeiro Kibbutz que os judeus estabeleceram na Palestina foi a colónia Mikveh Israel, (esperança de Israel, em hebraico) em 1870.
Em 1895, surge em França o caso do capitão Alfredo Dreyfus, judeu, do exército francês, que foi acusado de traição, julgado e condenado à morte num processo em que era evidente a falta de provas e a inocência do capitão mas sobrava o carácter anti – judaico.
Este processo foi acompanhado por Theodor Herzl, jornalista Húngaro, de origem judaica, que fez a cobertura deste caso para os jornais e que percebeu que estas perseguições aos judeus só terminariam quando estes reconquistassem a sua autonomia nacional.
Nesse mesmo ano escreveu um livro, publicado em Viena, “O Estado Judeu”, onde expôs a sua concepção de uma nação judaica.
Com o fim da 1ª Grande Guerra e a queda do Império Otomano a antiga província da Palestina passou para o domínio da Inglaterra que, atendendo às solicitações sionistas, promulgaram em 1917 a Declaração Balfour pela qual a Inglaterra se comprometia a ajudar a construir um “lar judaico” na Palestina, com a garantia de que este não pusesse em causa os direitos políticos e religiosos das populações não judaicas.
Esta Declaração provocou uma enérgica reacção dos árabes a partir de 1920 e levou os ingleses a recuarem implementando políticas que contrariavam a imigração de judeus para a Palestina.
Mas, com a ascensão do Nazismo assiste-se a uma perseguição aos judeus de uma dimensão nunca vista até então… uma grande tragédia humana vivida por outros povos envolvidos na 2ª Grande Guerra Mundial.
A morte maciça de judeus denominou-se de Holocausto.
Na Palestina, nacionalistas árabes, Mohammad Amim, Grão - Mufti de Jerusalém, (máxima autoridade religiosa), aliam-se aos nazis e promovem, também, a perseguição aos judeus.
As tensões entre judeus e a população árabe da Palestina eram uma realidade e aconteceram incidentes violentos em Jerusalém, Haifa, Hebron e Jaffa, como o massacre, em 1921, de dezenas de idosos judeus em Hebron após o que se constituíram grupos clandestinos de judeus com o objectivo de retaliarem desses ataques.
Um desses grupos, o Irgun, realizou a acção mais espectacular ao atacar Hotel King David em Jerusalém onde funcionava o Quartel General do Mandato Britânico na Palestina e no qual morreram 91 pessoas.
Estes grupos clandestinos judaicos, que os britânicos consideravam como terroristas, não eram aceites tanto pelo Haganá, embrião do que viria a ser o futuro exército israelita, como pela Agência Judaica e pela Organização Sionista que recusavam os seus métodos violentos e que procuravam trabalhar de harmonia com o Mandato Britânico.
Com o fim da 2ª grande Guerra Mundial, o mundo tomou conhecimento da dimensão do holocausto e da morte de 6 milhões de judeus exterminados pelos Nazis.
Com a Europa destruída e os sentimentos anti – semitas ainda exaltados, uma massa de milhões de exilados deixava a Europa para se unirem aos sionistas na Palestina mas a política de restrição à imigração judaica era mantida pelo Mandato Britânico e os grupos militantes judaicos procuravam, clandestinamente, levar o maior número possível de refugiados judeus na Palestina.
(continua)
Surgiu de grupos nómadas que existiam na Mesopotâmia há cerca de 5.000 anos e que rumaram para leste mas, por questões de uma fome, emigraram para o Egipto no fim do séc. XVII A.C.
Escravizados pelos faraós do Egipto os judeus, que entretanto, sob a égide de Saúl, tinham unificado as suas doze tribos formando um único reino para melhor enfrentarem os povos vizinhos, reconquistaram parte dos seus antigos territórios.
A Saúl sucedeu o seu filho David que expandiu o território de Israel e conquistou Jerusalém onde instalou a capital.
Sob o reinado de Salomão, Israel atinge o apogeu entre 966 e 926 A.C. porém, um pouco mais tarde, o reino divide-se em dois: a Norte, o Reino das Dez Tribos, também chamado de Reino de Israel e a Sul o Reino das Duas Tribos, chamado de Reino de Judá, que deu o nome de judeus e judaísmo, cuja capital ficou sendo em Jerusalém.
Em 586 A.C. o Imperador babilónico Nabucodonosor invade Jerusalém e destrói o primeiro Templo e obriga os judeus ao seu primeiro exílio.
Levados à força como prisioneiros para a Babilónio passaram 50 anos como escravos.
Terminado este Primeiro Êxodo e regressados de novo a Jerusalém, reconstruíram a cidade e erigiram um novo Grande Templo.
Entretanto, o território dos judeus foi sendo conquistado e influenciado por diversas potências da sua época: Assírios, Persas, Gregos e Romanos ao longo de cuja dominação aconteceram duas revoltas e surgiu o Cristianismo.
Os Romanos estabeleceram no reino judeu um Protectorado que interferia na prática da religião hebraica atacando e profanando os locais de culto e a primeira revolta, a chamada Grande Revolta Judaica, teve lugar no ano 66 da nossa era e duraria até ao ano 70 quando o general Tito invade a região, destrói Jerusalém e o segundo Templo.
Cerca de um milhão de judeus teriam então sido mortos e a região foi transformada numa província Romana com o nome de Província Judaea.
A segunda e última revolta contra os romanos foi a Revolta de Bar Kochba que foi esmagada pelo imperador Adriano em 135, os sobreviventes feitos escravos e expulsos da sua terra e a Província Judaea mudou de nome para Província Síria Palaestina, numa tentativa de desligar a terra do seu passado judaico. Depois dos Romanos tivemos os Bizantinos e, finalmente, os Muçulmanos que conquistaram a palestina em 638.
De então para cá teve lugar um novo êxodo ao longo do qual a presença de judeus em Jerusalém foi diminuta. Entre 1517 e 1917 fez parte do Império Otomano.
Os judeus exilados viveram sob o domínio de vários povos, culturas e religiões mas nunca encontraram um clima de liberdade plena. Aceites, é certo, mas hostilizados sob as mais diversas acusações e pretextos, a sua religião e cultura se, por um lado, garantiam a sua sobrevivência como povo, por outro, estavam na origem das perseguições de que eram vítimas.
No século VII, na península Arábica, onde provavelmente chegaram após a destruição do 2º Templo, viram-se envolvidos nas lutas entre Maomé e os habitantes de Meca.
Nesse envolvimento, duas tribos judaicas foram expulsas de Medina e uma terceira foi executada com excepção das mulheres e crianças mas, este episódio está integrado nas lutas ente Meca e Medina, na mentalidade do século VII, e nada tem a ver com as manifestações de anti – semitismo.
Em 1066 ocorre o massacre de Granada e entre os séculos XII e XV os judeus são expulsos do norte da Europa dominada pelos Cristãos.
Os grandes massacres de judeus sucedem-se em vários países: 1290, na Alemanha e Inglaterra, 1390 e 1394 na França e na Espanha em 1391, culminando na expulsão em 1492 e no grande massacre de Lisboa de 1506.
Os judeus passam então a habitar os países da Europa oriental.
Com o fim da Idade Média e o Iluminismo as perseguições diminuem. Durante a Era Moderna os judeus da Rússia e de toda a região leste da Europa são constantemente perseguidos e massacrados sob os mais diversos pretextos e acusações.
Em meados do séc. XIX os “pogroms” (ataques violentos a pessoas e ao seu ambiente: casa, negócios e centros religiosos) deram lugar a ondas de emigração judaica para a América e fomentam o aparecimento dos primeiros movimentos sionistas.
O “Sionismo” de Sion (nome de uma colina da antiga cidade de Jerusalém) surgiu na Europa em meados do séc. XIX, tinha um carácter religioso e pregava o regresso dos judeus à Terra de Israel, como forma de estreitar os laços culturais do povo judeu à volta da sua religião e cultura ancestral.
Entre os séculos XVIII e XIX os judeus que fizeram “aliá” que significa, literalmente, ascensão – o acto de um judeu imigrar para a Terra Santa - foi constante e crescente, estimulado pelo aparecimento periódico de crenças messiânicas e de perseguições anti-judaicas que tinham, quase sempre, motivações religiosas.
Ou eram acusações de “deicídio”, a morte de Jesus, ou lendas sobre envenenamento de poços, uso de sangue de crianças cristãs em rituais judaicos e de heresias.
E foi durante a primeira metade do séc. XIX que a migração judaica para a Palestina sofreu o seu maior incremento constituindo mesmo a maioria da população de Jerusalém em 1844 convivendo com muçulmanos, cristãos, arménios, gregos e outras minorias, sob o domínio Turco – Otomano.
A estes migrantes religiosos vieram depois juntar-se, na segunda metade do século, migrantes seculares que eram, no geral, da Europa central e adeptos de ideologias socialistas.
O primeiro Kibbutz que os judeus estabeleceram na Palestina foi a colónia Mikveh Israel, (esperança de Israel, em hebraico) em 1870.
Em 1895, surge em França o caso do capitão Alfredo Dreyfus, judeu, do exército francês, que foi acusado de traição, julgado e condenado à morte num processo em que era evidente a falta de provas e a inocência do capitão mas sobrava o carácter anti – judaico.
Este processo foi acompanhado por Theodor Herzl, jornalista Húngaro, de origem judaica, que fez a cobertura deste caso para os jornais e que percebeu que estas perseguições aos judeus só terminariam quando estes reconquistassem a sua autonomia nacional.
Nesse mesmo ano escreveu um livro, publicado em Viena, “O Estado Judeu”, onde expôs a sua concepção de uma nação judaica.
Com o fim da 1ª Grande Guerra e a queda do Império Otomano a antiga província da Palestina passou para o domínio da Inglaterra que, atendendo às solicitações sionistas, promulgaram em 1917 a Declaração Balfour pela qual a Inglaterra se comprometia a ajudar a construir um “lar judaico” na Palestina, com a garantia de que este não pusesse em causa os direitos políticos e religiosos das populações não judaicas.
Esta Declaração provocou uma enérgica reacção dos árabes a partir de 1920 e levou os ingleses a recuarem implementando políticas que contrariavam a imigração de judeus para a Palestina.
Mas, com a ascensão do Nazismo assiste-se a uma perseguição aos judeus de uma dimensão nunca vista até então… uma grande tragédia humana vivida por outros povos envolvidos na 2ª Grande Guerra Mundial.
A morte maciça de judeus denominou-se de Holocausto.
Na Palestina, nacionalistas árabes, Mohammad Amim, Grão - Mufti de Jerusalém, (máxima autoridade religiosa), aliam-se aos nazis e promovem, também, a perseguição aos judeus.
As tensões entre judeus e a população árabe da Palestina eram uma realidade e aconteceram incidentes violentos em Jerusalém, Haifa, Hebron e Jaffa, como o massacre, em 1921, de dezenas de idosos judeus em Hebron após o que se constituíram grupos clandestinos de judeus com o objectivo de retaliarem desses ataques.
Um desses grupos, o Irgun, realizou a acção mais espectacular ao atacar Hotel King David em Jerusalém onde funcionava o Quartel General do Mandato Britânico na Palestina e no qual morreram 91 pessoas.
Estes grupos clandestinos judaicos, que os britânicos consideravam como terroristas, não eram aceites tanto pelo Haganá, embrião do que viria a ser o futuro exército israelita, como pela Agência Judaica e pela Organização Sionista que recusavam os seus métodos violentos e que procuravam trabalhar de harmonia com o Mandato Britânico.
Com o fim da 2ª grande Guerra Mundial, o mundo tomou conhecimento da dimensão do holocausto e da morte de 6 milhões de judeus exterminados pelos Nazis.
Com a Europa destruída e os sentimentos anti – semitas ainda exaltados, uma massa de milhões de exilados deixava a Europa para se unirem aos sionistas na Palestina mas a política de restrição à imigração judaica era mantida pelo Mandato Britânico e os grupos militantes judaicos procuravam, clandestinamente, levar o maior número possível de refugiados judeus na Palestina.
(continua)

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nª 11
Conhece-lhe a letra, grande, de escolar, incerta, enchendo com poucas palavras a bonita folha de papel, ora azul, ora laranja, ora verde cana, chique a valer. A letra e o perfume, fragrância rara para narinas habituadas ao fedor das velas consumidas, à morrinha das emboloradas alfaias, das fanadas flores, ao pobre odor das sacristias, das suarentas salas de aulas, à fumaça do incenso.
Ao remeter a bola de futebol, a tia rabiscara uma página dirigida a Cardo: Para meu sobrinho querido, pálida lembrança da tia Tieta. Feliz, colocara o papel lilás dobrado em quatro entre as folhas do livro da missa e às escondidas aspirava-lhe o perfume. Num assomo de orgulho, exibiu dedicatória e aroma a Cosme, amigo predilecto, companheiro de devoções e retiros espirituais, vizinho de carteira. Cosme, um asceta, recusou-se a cheirar; em tudo via pecado, tentação do demónio. Perfume? Pecado mortal; para os servos de Deus basta o incenso. O padre confessor tranquilizou Ricardo; casto perfume da velha tia, não continha pecado, mortal nem venial.
Esses olhos misericordiosos a vós volvei – como seriam os olhos, a face da tia Antonieta? Austera como a da mãe, rígida e devota? Inquieta, melancólica, igual à da tia Elisa? Ou semelhante à do avô, dura carranca de caboclo?
Certa feita, há vários anos, meninote ainda, mostraram-lhe de relance uma foto da tia numa revista do Rio – revista da qual Elisa se apoderou e nunca mais ninguém a viu. Ricardo guardou memória apenas dos cabelos loiros, encaracolados novelos de ouro – como explicá-los se todos na família eram bem morenos? Soube então que as mulheres oxigenavam e até pintávamos cabelos, sobre o assunto discutiram a mãe e a tia Elisa. Moda condenável na opinião de Perpétua: Deus designa a cor dos cabelos de cada um, ninguém tem o direito a mudá-la. Elisa retrucara, tachando a irmã de atrasadona, rata de igreja. Dos olhos, da boca, Ricardo não se lembra; recorda somente os novelos de ouro puro. Agora, à luz das velas, ele os enxerga brancos de algodão, tantos anos se passaram – era um menino, agora é um rapaz.
E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, há quantos anos dura o desterro da tia? Quando Ricardo nasceu Tieta partira há muito e jamais ele ouvira da mãe, de tia Elisa, do avô e de sua segunda mulher, vó Tonha, a menor referência àquela outra parenta; jamais escutou nome ou apelido a recordá-la. Da tia de São Paulo, só veio a saber depois da primeira carta e ainda hoje sabe tão pouco, além da riqueza, da bondade, da velhice.
Se a Virgem a salvar, pode ser que ela um dia apareça de visita, em pele e osso, anciã amorável, de tão velha quase avó. Ricardo não conheceu avó verdadeira, a materna falecida antes do casamento tardio de Perpétua com o major, cujos pais já repousavam no Cemitério das Quintas, na Baía, quando o aposentado militar surgiu no Agreste, por acaso e de chofre se curou da asma, recuperou as forças, clima de sanatório.
Tia Antonieta preenche o vazio dos avós, Senhora Sant’Ana, a matriarca, a protectora da família. Se ela sarar, se a Virgem lhe restituir a saúde, Ricardo, após cumprir promessa, poderá lhe escrever outra carta, solicitando uma vara de pesca, molinete, fio e iscas artificiais, semelhante à do anúncio na reviste caça e Pesca, folheada no Correio com permissão de dona Carmosina. Implorando segredo à tia – se a mãe soubesse o mundo viria abaixo.
Em troca dos joelhos macerados, da semana inteira de orações, não era pedir muito; vara de pesca, molinete, fios e iscas e um segredo a mais entre os dois. Coisa boa, um segredo. Ricardo tem segredos em comum com alguns santos, com a Virgem e sobretudo com Santa Rita de Cássia, de quem é devoto.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
Na vela acesa a mando da mãe pela alma da irmã, o fogo da morte vacila e se apaga sozinho. Esbugalham-se os olhos de Ricardo no assombro do milagre. Só a chama da vida persiste na outra vela, poderosa é a santa Mãe de Deus, Amem.
Ao remeter a bola de futebol, a tia rabiscara uma página dirigida a Cardo: Para meu sobrinho querido, pálida lembrança da tia Tieta. Feliz, colocara o papel lilás dobrado em quatro entre as folhas do livro da missa e às escondidas aspirava-lhe o perfume. Num assomo de orgulho, exibiu dedicatória e aroma a Cosme, amigo predilecto, companheiro de devoções e retiros espirituais, vizinho de carteira. Cosme, um asceta, recusou-se a cheirar; em tudo via pecado, tentação do demónio. Perfume? Pecado mortal; para os servos de Deus basta o incenso. O padre confessor tranquilizou Ricardo; casto perfume da velha tia, não continha pecado, mortal nem venial.
Esses olhos misericordiosos a vós volvei – como seriam os olhos, a face da tia Antonieta? Austera como a da mãe, rígida e devota? Inquieta, melancólica, igual à da tia Elisa? Ou semelhante à do avô, dura carranca de caboclo?
Certa feita, há vários anos, meninote ainda, mostraram-lhe de relance uma foto da tia numa revista do Rio – revista da qual Elisa se apoderou e nunca mais ninguém a viu. Ricardo guardou memória apenas dos cabelos loiros, encaracolados novelos de ouro – como explicá-los se todos na família eram bem morenos? Soube então que as mulheres oxigenavam e até pintávamos cabelos, sobre o assunto discutiram a mãe e a tia Elisa. Moda condenável na opinião de Perpétua: Deus designa a cor dos cabelos de cada um, ninguém tem o direito a mudá-la. Elisa retrucara, tachando a irmã de atrasadona, rata de igreja. Dos olhos, da boca, Ricardo não se lembra; recorda somente os novelos de ouro puro. Agora, à luz das velas, ele os enxerga brancos de algodão, tantos anos se passaram – era um menino, agora é um rapaz.
E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, há quantos anos dura o desterro da tia? Quando Ricardo nasceu Tieta partira há muito e jamais ele ouvira da mãe, de tia Elisa, do avô e de sua segunda mulher, vó Tonha, a menor referência àquela outra parenta; jamais escutou nome ou apelido a recordá-la. Da tia de São Paulo, só veio a saber depois da primeira carta e ainda hoje sabe tão pouco, além da riqueza, da bondade, da velhice.
Se a Virgem a salvar, pode ser que ela um dia apareça de visita, em pele e osso, anciã amorável, de tão velha quase avó. Ricardo não conheceu avó verdadeira, a materna falecida antes do casamento tardio de Perpétua com o major, cujos pais já repousavam no Cemitério das Quintas, na Baía, quando o aposentado militar surgiu no Agreste, por acaso e de chofre se curou da asma, recuperou as forças, clima de sanatório.
Tia Antonieta preenche o vazio dos avós, Senhora Sant’Ana, a matriarca, a protectora da família. Se ela sarar, se a Virgem lhe restituir a saúde, Ricardo, após cumprir promessa, poderá lhe escrever outra carta, solicitando uma vara de pesca, molinete, fio e iscas artificiais, semelhante à do anúncio na reviste caça e Pesca, folheada no Correio com permissão de dona Carmosina. Implorando segredo à tia – se a mãe soubesse o mundo viria abaixo.
Em troca dos joelhos macerados, da semana inteira de orações, não era pedir muito; vara de pesca, molinete, fios e iscas e um segredo a mais entre os dois. Coisa boa, um segredo. Ricardo tem segredos em comum com alguns santos, com a Virgem e sobretudo com Santa Rita de Cássia, de quem é devoto.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
Na vela acesa a mando da mãe pela alma da irmã, o fogo da morte vacila e se apaga sozinho. Esbugalham-se os olhos de Ricardo no assombro do milagre. Só a chama da vida persiste na outra vela, poderosa é a santa Mãe de Deus, Amem.
segunda-feira, janeiro 05, 2009

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 10DA PRECE PELA SAÚDE DA VELHA TIA DESCONECIDA, CAPÍTULO CASTO E NOVO
…vida, doçura, esperança nossa, salve! As palavras da oração nascem sinceras e sentidas da incómoda espinha, do nebuloso pesar. Maquinais, no entanto, solta-se livre o pensamento em busca da tia nas vascas da morte ou já no caixão – dela pouco sabe, praticamente nada.
Vida, doçura e esperança, a tia de São Paulo, que não esteja defunta como garante a mãe – a mãe vê tudo em luto – que se afirme a crença da tia Elisa e o perigo desapareça, a Vós bradamos os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos e oferecemos pela saúde da tia Antonieta um rosário rezado de joelhos sobre grãos de milho. Promessa mixa, mísera oferta em paga de portentoso milagre.
Dá-se conta e, exagerado, amplia para uma semana inteira de rosários completos e macerados joelhos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, salvai da morte a tia Antonieta.
Que doença a matara ou a estava matando? Nenhuma referência ouvira, a mãe e a tia Elisa devem saber mas guardam segredo, na certa por se tratar de doença ruim, cujo nome não se pronuncia, tísica ou câncer.
Quem comunicara a notícia, como chegara, em carta, em telegrama? Quando o pai de Austragésilo faleceu, houve um primeiro telegrama anunciando estado de saúde grave com hemoptise. Duas horas depois o Reitor do Seminário viera em pessoa com um segundo telegrama, o fatal, e palavras de consolo. Apertara Austragésilo contra o peito, falara sobre o reino dos céus. Do mesmo modo agora, o primeiro telegrama já chegara comunicando doença e diagnóstico pessimista.
A mãe, experiente da vida, percebera o engodo, a intenção de prepará-los para o pior; tia Elisa só perderia a esperança quando o segundo afirmasse a verdade nua e crua. Neste vale de lágrimas eis pois advogada nossa, para Vós Mãe de Nosso Senhor o impossível não existe; podeis interromper o custo dos telegramas, revogar sentenças de morte, o Filho atende todos os Vossos pedidos. Contrito, Cardo renova a promessa sete vezes maior. Promessa e tanto.
Zero sobre a doença, e sobre tia Antonieta? Zero vezes zero, imprecisas, fugazes notícias, tia desconhecida, quase uma abstracção. Não obstante ninguém tão concreto, presente, indispensável na vida de cada um deles, de toda a família. A tia de São Paulo, a ricaça.
Para Ricardo apenas um nome, um apelido de infância, Tieta, vagas e entusiásticas referencias ao marido milionário e comendador, mensalmente a carta e o cheque, os presentes a bola de futebol número cinco, dando solidez e contorno a uma imagem, que imagem?
Olhos misericordiosos a nós volvei, neste vale de lágrimas, de pobreza e limitações, a imagem da santa padroeira, a protectora a possibilitar pequenas regalias e o dinheiro que a mãe deposita na Caixa Económica para a festa da primeira missa, ainda tão distante, e para os estudos de Peto se um dia Peto se dispuser a estudar. Ao pensar na tia jamais vista, não a compara com a Virgem a quem roga por ela e, sim, com a Senhora Sant’Ana, padroeira da cidade, protectora da família, da sagrada família e de todas as demais. Na chama das velas enxerga a imagem da velha senhora, de mãos generosas, plena de ternura, doce patrona.
Será assim débil anciã ou ainda se mantém rija e disposta, igual à mãe? Qual das duas a primogénita? Sobre a idade da tia, Ricardo nunca ouviu a menor referencia, a mãe diminui a sua quando perguntada. A ausente deve ser bem mais velha, não é ela a rica, a poderosa, a doadora, o verdadeiro chefe da família, a quem o próprio avô reverencia? Boca de praga e maldições, a resmungar queixas e ameaças, o avô desmancha-se em louvores ao pronunciar o nome de Tieta.
Deus lhe dê saúde e aumente a fortuna, ela merece a boa filha. Anciã de passo cansado, cabelos brancos – ou ela ainda pinta os cabelos como outrora? Na chama das velas são brancos os cabelos da tia Antonieta.
…vida, doçura, esperança nossa, salve! As palavras da oração nascem sinceras e sentidas da incómoda espinha, do nebuloso pesar. Maquinais, no entanto, solta-se livre o pensamento em busca da tia nas vascas da morte ou já no caixão – dela pouco sabe, praticamente nada.
Vida, doçura e esperança, a tia de São Paulo, que não esteja defunta como garante a mãe – a mãe vê tudo em luto – que se afirme a crença da tia Elisa e o perigo desapareça, a Vós bradamos os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos e oferecemos pela saúde da tia Antonieta um rosário rezado de joelhos sobre grãos de milho. Promessa mixa, mísera oferta em paga de portentoso milagre.
Dá-se conta e, exagerado, amplia para uma semana inteira de rosários completos e macerados joelhos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, salvai da morte a tia Antonieta.
Que doença a matara ou a estava matando? Nenhuma referência ouvira, a mãe e a tia Elisa devem saber mas guardam segredo, na certa por se tratar de doença ruim, cujo nome não se pronuncia, tísica ou câncer.
Quem comunicara a notícia, como chegara, em carta, em telegrama? Quando o pai de Austragésilo faleceu, houve um primeiro telegrama anunciando estado de saúde grave com hemoptise. Duas horas depois o Reitor do Seminário viera em pessoa com um segundo telegrama, o fatal, e palavras de consolo. Apertara Austragésilo contra o peito, falara sobre o reino dos céus. Do mesmo modo agora, o primeiro telegrama já chegara comunicando doença e diagnóstico pessimista.
A mãe, experiente da vida, percebera o engodo, a intenção de prepará-los para o pior; tia Elisa só perderia a esperança quando o segundo afirmasse a verdade nua e crua. Neste vale de lágrimas eis pois advogada nossa, para Vós Mãe de Nosso Senhor o impossível não existe; podeis interromper o custo dos telegramas, revogar sentenças de morte, o Filho atende todos os Vossos pedidos. Contrito, Cardo renova a promessa sete vezes maior. Promessa e tanto.
Zero sobre a doença, e sobre tia Antonieta? Zero vezes zero, imprecisas, fugazes notícias, tia desconhecida, quase uma abstracção. Não obstante ninguém tão concreto, presente, indispensável na vida de cada um deles, de toda a família. A tia de São Paulo, a ricaça.
Para Ricardo apenas um nome, um apelido de infância, Tieta, vagas e entusiásticas referencias ao marido milionário e comendador, mensalmente a carta e o cheque, os presentes a bola de futebol número cinco, dando solidez e contorno a uma imagem, que imagem?
Olhos misericordiosos a nós volvei, neste vale de lágrimas, de pobreza e limitações, a imagem da santa padroeira, a protectora a possibilitar pequenas regalias e o dinheiro que a mãe deposita na Caixa Económica para a festa da primeira missa, ainda tão distante, e para os estudos de Peto se um dia Peto se dispuser a estudar. Ao pensar na tia jamais vista, não a compara com a Virgem a quem roga por ela e, sim, com a Senhora Sant’Ana, padroeira da cidade, protectora da família, da sagrada família e de todas as demais. Na chama das velas enxerga a imagem da velha senhora, de mãos generosas, plena de ternura, doce patrona.
Será assim débil anciã ou ainda se mantém rija e disposta, igual à mãe? Qual das duas a primogénita? Sobre a idade da tia, Ricardo nunca ouviu a menor referencia, a mãe diminui a sua quando perguntada. A ausente deve ser bem mais velha, não é ela a rica, a poderosa, a doadora, o verdadeiro chefe da família, a quem o próprio avô reverencia? Boca de praga e maldições, a resmungar queixas e ameaças, o avô desmancha-se em louvores ao pronunciar o nome de Tieta.
Deus lhe dê saúde e aumente a fortuna, ela merece a boa filha. Anciã de passo cansado, cabelos brancos – ou ela ainda pinta os cabelos como outrora? Na chama das velas são brancos os cabelos da tia Antonieta.


O Pecado Original
Quando se iniciaram os primeiros passos para o que seria a instalação de um Estado judaico numa região onde viviam populações árabes, estava cometido o pecado original cujas consequências, de então para cá, nunca mais cessaram constituindo-se no problema político de mais difícil resolução da actualidade.
Neste momento, depois de vários dias de bombardeamentos, o exército judeu entrou na faixa de Gaza para a erradicação do poder do Hamas e, desta forma, por termo aos rockets que caem nas cidades de Israel afastadas mais de 40 Km.
O escritor Amoz Oz é israelita e foi um dos fundadores da organização pacifista Schalom Achschaw (Paz Agora). Ele foi entrevistado dias antes da actual ofensiva:
- “Vai haver muito pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar. Israel é um país; o Hamas um gang. Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel tem de agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção”
Na verdade, o Hamas, o grande inimigo de Israel, responsável pela flagelação de cidades israelitas com cerca de setenta rockets diários, não tem exército, nem marinha ou aviação e isso levanta tremendos problemas porque um exército é concebido para se confrontar com outro exército e não guerrilheiros, num palco urbano, que se misturam com a população, homens, mulheres e crianças e se dissolve como por artes mágicas.
Sendo assim, apenas soluções políticas, podem resolver este diferendo e estas têm a ver com pessoas, de uma parte e de outra, e não das armas que são inadequadas, mas se as pessoas, porque estão desesperadas, fazem opções suicidas arrastadas por líderes fanáticos com apelos de natureza religiosa que potenciam aos limites o desespero e o ódio, então, inevitavelmente, vamo-nos confrontar com muitas vítimas inocentes, “transformados em troféus de guerra” para mobilizarem a opinião pública internacional.
Mas não esqueçamos o “pecado original” que, não obstante agora irreparável, foi sendo progressivamente agravado pelas enormes injustiças cometidas pelos judeus ao longo dos anos contra as populações palestinianas numa relação de mais força e melhor tecnologia e enquanto esta situação não for minimamente reparada estaremos sempre e apenas a adiar a solução.
As injustiças alimentam os ódios e, neste caso, corremos o risco de ele se tornar crónico, geracional e a paz ser cada vez mais difícil e longínqua.
É mais fácil, apesar de tudo, aos israelitas porem termo aos rockets do que ao ódio e este é que deve ser a grande preocupação dos judeus.
Israel não precisa de heróis militares, ao longo da sua história eles conduziram-nos a esta situação…o que ele precisa é de heróis políticos que convençam todo o povo israelita que a sua segurança e futuro não reside na força do seu exército e muito menos nas suas bombas atómicas.
Uma atitude de “humildade” para com os seus vizinhos palestinianos será a sua grande demonstração de força.
É estranho que um povo tão antigo e experiente tenha sido tão pouco sábio na forma como se tem conduzido, desde a criação do seu país (pecado original), nas relações com os seus vizinhos.
Neste momento, depois de vários dias de bombardeamentos, o exército judeu entrou na faixa de Gaza para a erradicação do poder do Hamas e, desta forma, por termo aos rockets que caem nas cidades de Israel afastadas mais de 40 Km.
O escritor Amoz Oz é israelita e foi um dos fundadores da organização pacifista Schalom Achschaw (Paz Agora). Ele foi entrevistado dias antes da actual ofensiva:
- “Vai haver muito pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar. Israel é um país; o Hamas um gang. Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel tem de agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção”
Na verdade, o Hamas, o grande inimigo de Israel, responsável pela flagelação de cidades israelitas com cerca de setenta rockets diários, não tem exército, nem marinha ou aviação e isso levanta tremendos problemas porque um exército é concebido para se confrontar com outro exército e não guerrilheiros, num palco urbano, que se misturam com a população, homens, mulheres e crianças e se dissolve como por artes mágicas.
Sendo assim, apenas soluções políticas, podem resolver este diferendo e estas têm a ver com pessoas, de uma parte e de outra, e não das armas que são inadequadas, mas se as pessoas, porque estão desesperadas, fazem opções suicidas arrastadas por líderes fanáticos com apelos de natureza religiosa que potenciam aos limites o desespero e o ódio, então, inevitavelmente, vamo-nos confrontar com muitas vítimas inocentes, “transformados em troféus de guerra” para mobilizarem a opinião pública internacional.
Mas não esqueçamos o “pecado original” que, não obstante agora irreparável, foi sendo progressivamente agravado pelas enormes injustiças cometidas pelos judeus ao longo dos anos contra as populações palestinianas numa relação de mais força e melhor tecnologia e enquanto esta situação não for minimamente reparada estaremos sempre e apenas a adiar a solução.
As injustiças alimentam os ódios e, neste caso, corremos o risco de ele se tornar crónico, geracional e a paz ser cada vez mais difícil e longínqua.
É mais fácil, apesar de tudo, aos israelitas porem termo aos rockets do que ao ódio e este é que deve ser a grande preocupação dos judeus.
Israel não precisa de heróis militares, ao longo da sua história eles conduziram-nos a esta situação…o que ele precisa é de heróis políticos que convençam todo o povo israelita que a sua segurança e futuro não reside na força do seu exército e muito menos nas suas bombas atómicas.
Uma atitude de “humildade” para com os seus vizinhos palestinianos será a sua grande demonstração de força.
É estranho que um povo tão antigo e experiente tenha sido tão pouco sábio na forma como se tem conduzido, desde a criação do seu país (pecado original), nas relações com os seus vizinhos.
No dia dos festejos da criação do Estado de Israel, 14 de Maio de 1948, no meio dos festejos e da alegria, Ben Gurion desabafava: "não sinto alegria dentro de mim, apenas uma ansiedade profunda..."
Não tenho dúvidas de que o exército israelita irá derrotar o Hamas, custe o que custar, mas se as razões do ódio não forem extirpadas entraremos num novo período de paz imposta até… aos próximos rockets. Será, mais uma vez, uma questão de tempo.
domingo, janeiro 04, 2009

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 9
Ricardo não entende os motivos da discordância, e antes mesmo de condoer-se pela morta, sente pena da tia Elisa, assim desolada igual à imagem de Santa Maria Madalena, num nicho da capela do seminário.
Perpétua não se abala:
- Nunca é cedo demais para pedir um bom conselho. O que está esperando aí, Cardo? Não ouviu o que mandei fazer?
- Já vou, Mãe…
Deseja acrescentar uma palavra condizente com a notícia, o pensamento voltado agora para a tia desconhecida, de morte anunciada e discutida, nome obrigatório em suas orações; não enviava ela dinheiro todos os meses? Quando ingressara no seminário, menino ainda, recebera mandado de São Paulo, um breviário rico, lombada dourada, papel fino, letras de cor, numa caixa de veludo vermelho, coisa mais linda, presente da tia Antonieta para o futuro padre que mal viu e tocou preciosidade tamanha, logo ofertada por Perpétua ao bispo Dom José por intermédio do padre Mariano. A bola de futebol número 5 também fora ela que mandara; às escondidas da mãe, Cardo escrevera uma cartinha à tia pedindo bola e segredo, se mamãe souber arranca meu couro.
Recebeu bola, calção e camisola do Palmeiras. Tinham um segredo em comum, ele e tia Tieta. Levanta a cabeça, enfrenta Perpétua:
- Tomara não seja verdade.
Sai em busca das velas. Já não está alegre e, se não espreme lágrimas, sente um ardor nos olhos, uma espinha nasce-lhe no coração, incómoda como as do rosto. Por sua conta acenderá uma vela aos pés da Virgem e lhe prometerá um rosário de cinco terços, rezado de joelhos sobre grãos de milho, para que a má notícia não se confirme.
Na sala cai o silêncio entre as duas irmãs, sobre as duas e a outra – múltiplas a face e a postura da ausente. Moça formosa e atrevida, enfrentando a ira do pai e a denúncia da irmã; tu tem é inveja porque nenhum homem repara em ti, tribufu; atrevida desde menina, pastora de cabras nos oiteiros da terra safara de Zé Esteves; a saltar, adolescente, a janela nocturna para encontrar-se com homens, o caixeiro-viajante não fora o primeiro, Perpétua tem certeza; audaciosa, desleixada dos preceitos de Deus, igreja só para namorar; a rir tão cínica e bela, na boleia do caminhão, rumo da Baía, indo embora para sempre; irmã rica, esposa de comendador, em São Paulo, a mandar mesada para pai e sobrinhos, merecedora de toda a consideração, esquecido o feio passado, enterrada a louca adolescência, tia presente na oração das crianças, elogiada pelo padre Mariano; fada generosa dos sonhos de Elisa, a feliz e atenta benfeitora, a âncora da esperança; na cidade, exemplo de boa filha e boa irmã, uma zelação, uma lenda, inesgotável assunto.
Perpétua guarda o lenço, cumprido o ritual, pergunta:
- E Astério?
- Passei na loja…sabe que a carta não chegou mas hoje é sábado, não pode sair nem para o almoço. Por falar nisso, vou indo, tenho de mandar a marmita.
- De noite passo em casa de vocês, digo o que o padre aconselhou. Vamos decidir o que fazer.
Elisa, de pé, um soluço a sacode:
- Por que a gente não espera até ao fim do mês?
- Já se esperou até demais. Vamos logo discutir o que fazer. Eu não vou ficar de braços cruzados, não lhe disse? Quero minha parte – Já sem lágrimas, suspiros, lamentações, Perpétua troca o lenço pelo terço. Mais valem as orações.
Elisa gasta o derradeiro argumento:
- Quem sabe, a carta se perdeu no caminho…
- Carta registada não se perde. Nestes anos todos já perdeu alguma? Tolice. Diga a Astério que me espere, nada de bilhar hoje. Com a cunhada morta…
- E o pai?
Perpétua começa a passar as contas do terço:
- Amanhã a gente avisa a ele.
- É capaz de ter uma coisa…
- Quem? O Velho? Vai ficar uma fera, vai querer tomar dinheiro da gente, o mais que puder, isso sim. Se prepare, o tempo das larguezas se acabou.
Ao passar em frente ao corredor, Elisa enxerga ao fundo a chama das velas iluminando os santos no oratório. Uma, pela salvação da morta, aos pés de Cristo crucificado; a outra pela vida da tia, aos pés da Virgem. Ouve a voz do rapazola rezando Salve-Rainha, mãe de misericórdia.
Misericórdia, meu Deus!
Perpétua não se abala:
- Nunca é cedo demais para pedir um bom conselho. O que está esperando aí, Cardo? Não ouviu o que mandei fazer?
- Já vou, Mãe…
Deseja acrescentar uma palavra condizente com a notícia, o pensamento voltado agora para a tia desconhecida, de morte anunciada e discutida, nome obrigatório em suas orações; não enviava ela dinheiro todos os meses? Quando ingressara no seminário, menino ainda, recebera mandado de São Paulo, um breviário rico, lombada dourada, papel fino, letras de cor, numa caixa de veludo vermelho, coisa mais linda, presente da tia Antonieta para o futuro padre que mal viu e tocou preciosidade tamanha, logo ofertada por Perpétua ao bispo Dom José por intermédio do padre Mariano. A bola de futebol número 5 também fora ela que mandara; às escondidas da mãe, Cardo escrevera uma cartinha à tia pedindo bola e segredo, se mamãe souber arranca meu couro.
Recebeu bola, calção e camisola do Palmeiras. Tinham um segredo em comum, ele e tia Tieta. Levanta a cabeça, enfrenta Perpétua:
- Tomara não seja verdade.
Sai em busca das velas. Já não está alegre e, se não espreme lágrimas, sente um ardor nos olhos, uma espinha nasce-lhe no coração, incómoda como as do rosto. Por sua conta acenderá uma vela aos pés da Virgem e lhe prometerá um rosário de cinco terços, rezado de joelhos sobre grãos de milho, para que a má notícia não se confirme.
Na sala cai o silêncio entre as duas irmãs, sobre as duas e a outra – múltiplas a face e a postura da ausente. Moça formosa e atrevida, enfrentando a ira do pai e a denúncia da irmã; tu tem é inveja porque nenhum homem repara em ti, tribufu; atrevida desde menina, pastora de cabras nos oiteiros da terra safara de Zé Esteves; a saltar, adolescente, a janela nocturna para encontrar-se com homens, o caixeiro-viajante não fora o primeiro, Perpétua tem certeza; audaciosa, desleixada dos preceitos de Deus, igreja só para namorar; a rir tão cínica e bela, na boleia do caminhão, rumo da Baía, indo embora para sempre; irmã rica, esposa de comendador, em São Paulo, a mandar mesada para pai e sobrinhos, merecedora de toda a consideração, esquecido o feio passado, enterrada a louca adolescência, tia presente na oração das crianças, elogiada pelo padre Mariano; fada generosa dos sonhos de Elisa, a feliz e atenta benfeitora, a âncora da esperança; na cidade, exemplo de boa filha e boa irmã, uma zelação, uma lenda, inesgotável assunto.
Perpétua guarda o lenço, cumprido o ritual, pergunta:
- E Astério?
- Passei na loja…sabe que a carta não chegou mas hoje é sábado, não pode sair nem para o almoço. Por falar nisso, vou indo, tenho de mandar a marmita.
- De noite passo em casa de vocês, digo o que o padre aconselhou. Vamos decidir o que fazer.
Elisa, de pé, um soluço a sacode:
- Por que a gente não espera até ao fim do mês?
- Já se esperou até demais. Vamos logo discutir o que fazer. Eu não vou ficar de braços cruzados, não lhe disse? Quero minha parte – Já sem lágrimas, suspiros, lamentações, Perpétua troca o lenço pelo terço. Mais valem as orações.
Elisa gasta o derradeiro argumento:
- Quem sabe, a carta se perdeu no caminho…
- Carta registada não se perde. Nestes anos todos já perdeu alguma? Tolice. Diga a Astério que me espere, nada de bilhar hoje. Com a cunhada morta…
- E o pai?
Perpétua começa a passar as contas do terço:
- Amanhã a gente avisa a ele.
- É capaz de ter uma coisa…
- Quem? O Velho? Vai ficar uma fera, vai querer tomar dinheiro da gente, o mais que puder, isso sim. Se prepare, o tempo das larguezas se acabou.
Ao passar em frente ao corredor, Elisa enxerga ao fundo a chama das velas iluminando os santos no oratório. Uma, pela salvação da morta, aos pés de Cristo crucificado; a outra pela vida da tia, aos pés da Virgem. Ouve a voz do rapazola rezando Salve-Rainha, mãe de misericórdia.
Misericórdia, meu Deus!
sábado, janeiro 03, 2009

O Discurso de Fim da Ano do Sr. Presidente da República
O Presidente da República fez o discurso que eu esperava que fizesse: deu palavras de esperança, solidarizou-se com as pessoas que se encontram em piores condições e maiores dificuldades, reafirmou a crise com que nos estamos a debater e que se vai agravar no próximo ano com maior risco de desemprego, de pobreza, exclusão social e falou da verdade…da necessidade de falar verdade.
Depois, referiu-se à dívida, à enorme dívida que temos para com o estrangeiro, ao facto de continuarmos a gastar em cada ano muito mais do que aquilo que produzimos, (penso ter sido também assim nos vários anos em que foi 1º Ministro, época de “vacas gordas” com os dinheiros da CEE, muito dele esbanjado pelos portugueses que não estavam preparados para “digerirem” correctamente somas tão avultadas).
E falou também, que quando a capacidade de endividamento se esgotar resta-nos “vender os bens e as empresas nacionais ao estrangeiro”…suprema humilhação, ao fim de mais de oito séculos de história acabamos entregues aos credores!
Finalmente, segundo lhe parece, ainda há um caminho para Portugal sair da quase estagnação, um caminho estreito, é certo, mas que existe e para o qual ele tem vindo insistentemente a chamar a atenção mas, pelos vistos, os políticos, vendedores de ilusões, preocupados em brigas internas e uns com os outros, não lhe têm dado ouvidos.
Acreditemos num futuro melhor e para todos… BOM ANO DE 2009, desejou o Sr. Presidente.
O Presidente da República é só um homem e como se sabe, não é uma pessoa entusiasmante, não empolga, não mobiliza, de resto, a ter podido fazer alguma coisa de verdade, foi há uns anos atrás, também ele, tal como Sócrates, a governar o país com maioria na Assembleia.
Mas o problema não está nele, está em todos nós e muito em especial nas elites deste país a quem falta competência, seriedade, determinação e a força necessária, e já vimos que as maiorias absolutas não são suficientes porque, mais poderosas que elas, são os interesses há muito instalados e os privilégios que se tornaram moedas de troca.
Reformas importantes da Administração Pública? Impossível, só por cima dos cadáveres dos senhores dos Sindicatos apoiados pelo PCP.
Não vale a pena, viu-se com o anterior Ministro da Saúde:
- O povinho, grandes manifestações orquestradas com as televisões para a abertura dos Telejornais, as mulheres à frente a protestarem, o Louça ou o Jerónimo a darem uma ajuda, o ministro a explicar, inutilmente, que a medida era necessária, tinha a ver com a reorganização dos serviços para optimizarem recursos humanos e tecnológicos…que não senhor, eles, que são dali daquela terra é que sabem o que é bom para eles e não o ministro que tem de governar todo o país.
Resultado? – Ministro para a rua!
- Que não há dinheiro? – Mas quem acredita nisso? Quanto gastavam as pessoas que geriram a Gebalis, empresa responsável pela gestão dos bairros camarários de Lisboa, só em almoços, prendas e viagens?
- Quanto ganham os administradores das empresas públicas?
- Quanto levam para casa os administradores dos bancos?
- Como é possível administradores reformarem-se por motivos de saúde de um banco e com as reformas no bolso irem gerir outros bancos, acumulando pensões, ordenados e tudo o mais, confessando-se depois os responsáveis por estas situações… “muito incomodados”(coitadinhos, como os lamento!).
Senhor Presidente da República, pela parte que me toca, agradeço-lhe os votos para um Bom Ano de 2009 mas, com toda a verdade também lhe digo, que as suas palavras não vão contribuir para alterar nada, tal como todos os anteriores discursos de fim de ano.
Depois, referiu-se à dívida, à enorme dívida que temos para com o estrangeiro, ao facto de continuarmos a gastar em cada ano muito mais do que aquilo que produzimos, (penso ter sido também assim nos vários anos em que foi 1º Ministro, época de “vacas gordas” com os dinheiros da CEE, muito dele esbanjado pelos portugueses que não estavam preparados para “digerirem” correctamente somas tão avultadas).
E falou também, que quando a capacidade de endividamento se esgotar resta-nos “vender os bens e as empresas nacionais ao estrangeiro”…suprema humilhação, ao fim de mais de oito séculos de história acabamos entregues aos credores!
Finalmente, segundo lhe parece, ainda há um caminho para Portugal sair da quase estagnação, um caminho estreito, é certo, mas que existe e para o qual ele tem vindo insistentemente a chamar a atenção mas, pelos vistos, os políticos, vendedores de ilusões, preocupados em brigas internas e uns com os outros, não lhe têm dado ouvidos.
Acreditemos num futuro melhor e para todos… BOM ANO DE 2009, desejou o Sr. Presidente.
O Presidente da República é só um homem e como se sabe, não é uma pessoa entusiasmante, não empolga, não mobiliza, de resto, a ter podido fazer alguma coisa de verdade, foi há uns anos atrás, também ele, tal como Sócrates, a governar o país com maioria na Assembleia.
Mas o problema não está nele, está em todos nós e muito em especial nas elites deste país a quem falta competência, seriedade, determinação e a força necessária, e já vimos que as maiorias absolutas não são suficientes porque, mais poderosas que elas, são os interesses há muito instalados e os privilégios que se tornaram moedas de troca.
Reformas importantes da Administração Pública? Impossível, só por cima dos cadáveres dos senhores dos Sindicatos apoiados pelo PCP.
Não vale a pena, viu-se com o anterior Ministro da Saúde:
- O povinho, grandes manifestações orquestradas com as televisões para a abertura dos Telejornais, as mulheres à frente a protestarem, o Louça ou o Jerónimo a darem uma ajuda, o ministro a explicar, inutilmente, que a medida era necessária, tinha a ver com a reorganização dos serviços para optimizarem recursos humanos e tecnológicos…que não senhor, eles, que são dali daquela terra é que sabem o que é bom para eles e não o ministro que tem de governar todo o país.
Resultado? – Ministro para a rua!
- Que não há dinheiro? – Mas quem acredita nisso? Quanto gastavam as pessoas que geriram a Gebalis, empresa responsável pela gestão dos bairros camarários de Lisboa, só em almoços, prendas e viagens?
- Quanto ganham os administradores das empresas públicas?
- Quanto levam para casa os administradores dos bancos?
- Como é possível administradores reformarem-se por motivos de saúde de um banco e com as reformas no bolso irem gerir outros bancos, acumulando pensões, ordenados e tudo o mais, confessando-se depois os responsáveis por estas situações… “muito incomodados”(coitadinhos, como os lamento!).
Senhor Presidente da República, pela parte que me toca, agradeço-lhe os votos para um Bom Ano de 2009 mas, com toda a verdade também lhe digo, que as suas palavras não vão contribuir para alterar nada, tal como todos os anteriores discursos de fim de ano.
Seremos vítimas daquilo que tiver que ser!
Somos assim… egoístas, cada um por si e para si, muitos, mesmo sem escrúpulos e vergonha nenhuma, indisciplinados, em suma, ingovernáveis… até quando?
BOM ANO também para si, Senhor Presidente!

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 8
ONDE RICARDO, SOBRINHO E SEMINARISTA, ACENDE VELAS CONTRADITÓRIAS AOS PÉS DOS SANTOS; CAPÍTULO BANHADO EM LÁGRIMAS, ALGUMAS DE CROCODILO
- Então? Cadê? – interroga Perpétua e ela própria responde vitoriosa, aflita vitória: - Carta e cheque, babau, minha miss Baía! – derrama sobre a irmã o fel a lhe amargar a boca: - Se eu fosse Astério, você não saía para a rua nesses trajes indecentes, de peitos de fora. Mas agora tudo vai acabar. Vai começar o tempo da pobreza.
Eliza deixa-se cair na cadeira, cobre o rosto com as mãos, não retruca: poderia lembrar que, na hora da divisão dos presentes, Perpétua não critica os vestidos, trata de empalmar os mais finos e ousados para vendê-los a bom preço em Aracajú, a senhoras ricas. Cala-se, porém; gostaria, isso sim, de tapar os ouvidos para não escutar; a voz avinagrada da irmã torna as palavras mais cruéis.
Antes Elisa passara na loja, naquela hora já repleta, Osnar escornado na cadeira. Trocara apenas um olhar com o marido, suficiente para Astério largar o metro e a peça de madrasto. Osnar pusera-se de pé: bom dia, dona Elisa. Bom dia, patroa – Sabino brechou rápido do decote no alto às ancas em baixo, salve, salve quem inventou estes vestidos justos, colados ao corpo, marcando até as pregas da bunda, moda mais jeitosa. Um felizardo, o patrão.
- Três metros… - reclamou a freguesa a reparar também na elegância de Elisa, aquilo sim era fazenda.
Astério voltara a medir, mal sustendo metro e tesoura.
- Vou até casa de Perpétua, daqui a pouco mando Araci com a marmita – avisara, despedindo-se: - Até lá seu Osnar, esteja a gosto.
Durante o percurso, não pudera impedir as lágrimas. Cada palavra, na loja, custara-lhe esforço e contenção. Agora, arreia na cadeira sob a voz de Perpétua a criticar-lhe o decote como se não bastassem as mãos vazias de carta e cheque.
- Bateu a caçoleta, eu disse. Tu ainda duvida? – além da voz sibilante, o dedo em riste.
Elisa descobre a face, balança a cabeça, vencida, as lágrimas escorrem.
Lágrimas, de que adiantam? Não resolvem nenhum problema, não substituem o cheque, não ressuscitam a morta, não determinam as medidas a tomar. Perpétua, no entanto, conhece e respeita as conveniências, exigente nas formalidades. Do bolso da saia negra retira o lenço e com ele toca o canto dos olhos – nem por invisíveis deixam de ser lágrimas de luto. Coloca um acento de dor na rispidez da voz, ao gritar pelo filho mais velho:
- Cardo! Vem aqui, depressa! Ai, meu Deus!
Leva o lenço novamente aos olhos, Elisa deve ver, testemunhar o sentimento a afligi-la quando a hipótese se confirma e a morte de Antonieta já não admite controvérsia. Deus a tenha em sua guarda e lhe perdoe os pecados; a assistência ao pai e às irmãs há de contar a seu favor na hora do juízo final.
Surge correndo um rapagão suado, os pés descalços. Forte, alto, bonito, dezassete anos desabrochando em espinhas no rosto. Sobre o lábio risonho, a sombra de buço. Vestido apenas um calção – estava chutando bola no quintal.
- Tá me chamando, mãe? – ao notar Elisa, acrescenta: - Bênção, tia.
Respira saúde e satisfação, não percebe de imediato a atmosfera fúnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presença do filho, Perpétua enxuga lágrimas escassas mas finalmente visíveis. O adolescente dá-se conta, põe-se sério:
- Aconteceu alguma coisa ao avô? De manhã cedinho, quando foi ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras…
Perpétua ordena:
- Vá buscar uma vela benta, acenda no oratório. Tua tia Antonieta, coitada…
- Tia Tieta? Morreu?
Vencida, sim, convencida, não, Elisa levanta a cabeça, rebela-se:
- Ainda não se sabe de nada certo…de nada!
Perpétua nem responde, reafirma a ordem:
- Faça o que estou mandando, sei o que digo: uma vela nos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo pela alma de Antonieta. Em seguida, tome banho, vista a batina, por hoje o recreio terminou. Cadé Peto?
- Foi pescar no rio…
- Diga a ele para vir para casa. Depois do almoço vamos falar com o padre Mariano. – Um suspiro, a mão sobre o peito, a conter certamente o coração.
Atónito, Ricardo, sem palavras, preso à sala pela notícia. Volta-se para Elisa. Os ombros curvos acentuam o decote no colo moreno. Apesar das críticas constantes da mãe, o moço jamais reparara na elegância da tia. Pela primeira vez dá-se conta de como ela veste bem e se enfeita; parece uma santa, ali desamparada na cadeira, sofrida, a recusar a morte da irmã, lutando contra a evidência reflectida na fisionomia e nos gestos da mãe. Na voz da tia, abafada de choro, um pedido, uma súplica:
- Vamos esperar ter certeza para falar nisso com o Reverendo… por que tanta pressa?
(continua)
- Então? Cadê? – interroga Perpétua e ela própria responde vitoriosa, aflita vitória: - Carta e cheque, babau, minha miss Baía! – derrama sobre a irmã o fel a lhe amargar a boca: - Se eu fosse Astério, você não saía para a rua nesses trajes indecentes, de peitos de fora. Mas agora tudo vai acabar. Vai começar o tempo da pobreza.
Eliza deixa-se cair na cadeira, cobre o rosto com as mãos, não retruca: poderia lembrar que, na hora da divisão dos presentes, Perpétua não critica os vestidos, trata de empalmar os mais finos e ousados para vendê-los a bom preço em Aracajú, a senhoras ricas. Cala-se, porém; gostaria, isso sim, de tapar os ouvidos para não escutar; a voz avinagrada da irmã torna as palavras mais cruéis.
Antes Elisa passara na loja, naquela hora já repleta, Osnar escornado na cadeira. Trocara apenas um olhar com o marido, suficiente para Astério largar o metro e a peça de madrasto. Osnar pusera-se de pé: bom dia, dona Elisa. Bom dia, patroa – Sabino brechou rápido do decote no alto às ancas em baixo, salve, salve quem inventou estes vestidos justos, colados ao corpo, marcando até as pregas da bunda, moda mais jeitosa. Um felizardo, o patrão.
- Três metros… - reclamou a freguesa a reparar também na elegância de Elisa, aquilo sim era fazenda.
Astério voltara a medir, mal sustendo metro e tesoura.
- Vou até casa de Perpétua, daqui a pouco mando Araci com a marmita – avisara, despedindo-se: - Até lá seu Osnar, esteja a gosto.
Durante o percurso, não pudera impedir as lágrimas. Cada palavra, na loja, custara-lhe esforço e contenção. Agora, arreia na cadeira sob a voz de Perpétua a criticar-lhe o decote como se não bastassem as mãos vazias de carta e cheque.
- Bateu a caçoleta, eu disse. Tu ainda duvida? – além da voz sibilante, o dedo em riste.
Elisa descobre a face, balança a cabeça, vencida, as lágrimas escorrem.
Lágrimas, de que adiantam? Não resolvem nenhum problema, não substituem o cheque, não ressuscitam a morta, não determinam as medidas a tomar. Perpétua, no entanto, conhece e respeita as conveniências, exigente nas formalidades. Do bolso da saia negra retira o lenço e com ele toca o canto dos olhos – nem por invisíveis deixam de ser lágrimas de luto. Coloca um acento de dor na rispidez da voz, ao gritar pelo filho mais velho:
- Cardo! Vem aqui, depressa! Ai, meu Deus!
Leva o lenço novamente aos olhos, Elisa deve ver, testemunhar o sentimento a afligi-la quando a hipótese se confirma e a morte de Antonieta já não admite controvérsia. Deus a tenha em sua guarda e lhe perdoe os pecados; a assistência ao pai e às irmãs há de contar a seu favor na hora do juízo final.
Surge correndo um rapagão suado, os pés descalços. Forte, alto, bonito, dezassete anos desabrochando em espinhas no rosto. Sobre o lábio risonho, a sombra de buço. Vestido apenas um calção – estava chutando bola no quintal.
- Tá me chamando, mãe? – ao notar Elisa, acrescenta: - Bênção, tia.
Respira saúde e satisfação, não percebe de imediato a atmosfera fúnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presença do filho, Perpétua enxuga lágrimas escassas mas finalmente visíveis. O adolescente dá-se conta, põe-se sério:
- Aconteceu alguma coisa ao avô? De manhã cedinho, quando foi ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras…
Perpétua ordena:
- Vá buscar uma vela benta, acenda no oratório. Tua tia Antonieta, coitada…
- Tia Tieta? Morreu?
Vencida, sim, convencida, não, Elisa levanta a cabeça, rebela-se:
- Ainda não se sabe de nada certo…de nada!
Perpétua nem responde, reafirma a ordem:
- Faça o que estou mandando, sei o que digo: uma vela nos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo pela alma de Antonieta. Em seguida, tome banho, vista a batina, por hoje o recreio terminou. Cadé Peto?
- Foi pescar no rio…
- Diga a ele para vir para casa. Depois do almoço vamos falar com o padre Mariano. – Um suspiro, a mão sobre o peito, a conter certamente o coração.
Atónito, Ricardo, sem palavras, preso à sala pela notícia. Volta-se para Elisa. Os ombros curvos acentuam o decote no colo moreno. Apesar das críticas constantes da mãe, o moço jamais reparara na elegância da tia. Pela primeira vez dá-se conta de como ela veste bem e se enfeita; parece uma santa, ali desamparada na cadeira, sofrida, a recusar a morte da irmã, lutando contra a evidência reflectida na fisionomia e nos gestos da mãe. Na voz da tia, abafada de choro, um pedido, uma súplica:
- Vamos esperar ter certeza para falar nisso com o Reverendo… por que tanta pressa?
(continua)
sexta-feira, janeiro 02, 2009

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 7
ONDE SE TRAVA CONHECIMENTO COM DONA CARMOSINA, CIDADÃ IMPORTANTE, AGENTE DOS CORREIOS, E SE TEM NOTÍCIA DOS FILHOS DE SEU EDMUNDO PACHECO, COLETOR, COMPENSANDO A FALTA DE CARTA E CHEQUE DE TIETA SOBRE CUJO ESTADO DE SAÚDE CRESCE O PESSIMISMO.
Ainda de longe, antes de transpor a porta dos Correios, Elisa lê, na atitude de Dona Carmosina, a comprovação do que já sabia com certeza: a carta não chegara. Braços caídos, semicerrados os olhos miúdos, o ar grave, a activa funcionária vive, ela também, o drama do inexplicável atraso. Faz-se mais pálida a face de Elisa, os pés de chumbo, a voz inarticulada, quase um gemido:
- Nada?
Cinquentona, sarará, corpulenta, cara larga, a voz rouca, dona Carmosina indica a correspondência do dia, escassa, espalhada no balcão:
- Nada! Hoje não veio nenhuma carta registada. Por via das dúvidas, passei as malas duas vezes, carta por carta. O que chegou está aí, pouca coisa. Ainda não entreguei nada, você é a primeira a aparecer. Vieram jornais e revistas, isso sim, hoje é sábado. – Repara na palidez da amiga: - Quer um pouco de água?
- Não, obrigado. – As palavras saem estranguladas.
- Que demora, hein? Em todos estes anos, nunca atrasou tanto…
- Mais de dez anos… - gemeu Elisa.
- Onze anos e sete meses – corrigiu dona Carmosina, escrupulosa nos detalhes: - Inda me lembro da primeira carta, como se fosse hoje. Quando abri o saco, senti logo o cheiro, naquele tempo ela usava um perfume mais forte do que o de agora, encheu a sala. Que carta será essa? Perguntei a mim mesma e li correndo o subscrito e o nome do remetente. Estava dirigida a seu pai ou a qualquer membro da família Esteves e quem enviava era Antonieta Esteves, Caixa Postal 6211, São Paulo, Capital. Vou buscar água para lhe dar, com esse calorão e nada de carta, coitadinha…
Enquanto de costas, dona Carmosina toma da moringa e enche o copo, Elisa curva-se sobre a correspondência, não por manter esperanças, mas por desencargo de consciência.
- Botei duas gotas de água de flor. Faz bem prós nervos.
Elisa bebe em pequenos goles, dona Carmosina retoma a narrativa:
- O envelope cor-de-rosa, lindo, parece que estou vendo. Pelo falecido seu Lima mandei recado para seu marido na loja, vocês estavam casadinhos de novo. Ele veio com Osnar, entreguei, leu aqui mesmo. Carta mais bonita, pedindo notícias, do pai, das irmãs, como iam de saúde e de vida, se precisavam de ajuda. Até colaborei na resposta, se lembra?
- Me lembro…o major era vivo, foi ele quem escreveu…
- Era burro que nem uma porta mas tinha a letra bonita… Letra dele, redacção minha De lá para cá nunca mais falhou. Todo o mês a carta com o cheque, o rico dinheirinho…
Empolgada, dona Carmosina nem sente o mormaço a entrar pelas duas portas asfixiante. Pensativa a olhar para Elisa:
- Nunca demorou desse jeito… esquisito mesmo.
Elisa percebe, na voz da amiga, inquietante sinal de alarme. Tenta acalmá-la e acalmar-se:
- Uma vez quando ela estava passeando em Buenos Aires…
- Chegou no dia dezassete…dezassete de Fevereiro, exactamente. Hoje estamos a vinte e oito de Novembro. A que você atribui? Doença? – Os olhos pequeninos de dona Carmosina observam Elisa que segura o copo vazio sem receber resposta, o choro preso na garganta.
Felizmente apareceu seu Edmundo, Edmundo Ribeiro, o coletor, enfarpelado, paletó, gravata e chapéu, deseja boa-tarde:
- Alguma coisa para mim Carmosina?
- Duas cartas, uma do filho, outra do genro… - ri com os lábios descorados, divertida: - Aposto que os dois estão pedindo dinheiro…
O coletor recolhe as cartas, olha através dos envelopes contra a luz, que pode impedir que dona Carmosina saiba e comente a visa alheia, não passam por suas mãos (e vistas) telegramas e cartas? Carmosina, quase albina, mais que ladina, voz masculina, língua ferina, doce assassina – declamava Aminthas, seu primo segundo e comensal assíduo. Dona Carmosina é de bom tempero, famosa no pirão de leite e no molho pardo. E o cuscuz de milho?
- Como se eu fosse um saco sem fundo, entupido de dinheiro… - seu Edmundo suspira, sem pressa de abrir os envelopes apesar do desejo de saber dos filhos, Dirige-se a Elisa: - Feliz é Zé Esteves, seu pai, dona Elisa. Tem filha rica que manda em vez de pedir. Comigo é o contrário…
Dona Carmosina relanceia a vista, considera Elisa, informa:
- Este mês a carta de Tieta ainda não chegou. Esquisito, não acha seu Edmundo? Um atraso desses…
O coletor não esconde a surpresa, um dos envelopes aberto:
- Ainda não? Que é que houve dona Elisa?
- Quem sabe seu Edmundo? Para mim ela está viajando, esses passeios que faz todos os anos de navio…
- Cruzeiros marítimos… - esclarece dona Carmosina mas o olhar sob as sobrancelhas ruças exprime dúvida. Seu Edmundo balança a cabeça, não encontra comentário a fazer, retorna à cata do genro.
- Elisa despede-se, uma fraqueza nas pernas que nem Astério:
- Obrigada, Carmosina.
- Agora, querida, só terça-feira. – Para levantar-lhe o ânimo, não deixá-la partir tão por baixo, acrescenta: - Você hoje está uma tetéia. Esse vestido eu ainda não conhecia…
- Foi Tieta que mandou…
Seu Edmundo suspende a leitura da carta, escapa-lhe o desgosto da notícia:
- Suzana está esperando menino outra vez…
Elisa reúne forças:
- Parabéns, seu Edmundo. Quando escrever a Suzi mande um abraço meu…
- O quarto, não é? O senhor ainda tão moço e já cheio de netos. Bonito, acho isso bonito. – A voz rouca de dona Carmosina, sincera ou gozadora?
- Bonito, eu é que sei quanto me custa…falta de juízo.
- Que é caro, lá isso é…Logo agora tão fácil de evitar, com a pílula. Na Baía, se encontra em qualquer farmácia, a venda é livre…até a Igreja já aprova o uso – acentua dona Carmosina,
doce assassina.
Elisa diz até breve, atravessa a feira barulhenta, em direcção à casa de Perpétua. Não sente o peso do olhar do árabe, não lhe alisa a bunda a mirada de nenhum moleque nem lhe fere o ouvido a assobio do mendigo. Doença, insinuara Carmosina, para não falar no pior. Morta sim, Elisa já não duvida, Perpétua sabe o que diz.
Há vinte e três anos na agência dos Correios, dona Carmosina emite julgamentos definitivos sobre pessoas e factos:
- Moça boa e séria está aí, seu Edmundo. Conheço Elisa de menina, sempre direita, cumpridora. Faz tudo no capricho. Trabalhadeira, a casa dela é um brinco e gosta de se vestir, de se arrumar, não é como outras por aí, que vivem no desmazelo. Só que agora, pobrezinha…
Seu Edmundo, para melhor ouvir, interrompe a leitura da carta do filho estudante:
- A que atribui tanta demora?
- Se Tieta não morreu deve estar muito doente. O marido dela bem podia dar notícia mas ele nunca quis conversa com os parentes daqui. Vou aconselhar Elisa ou Perpétua a telegrafar.
De volta à carta o coletor explica:
- Idiota! Só serve para isso…
- O que é que Leléu fez dessa vez, seu Edmundo?
- Pegou numa carga de gonorreia; desculpe, Carmosina, quero dizer blenorragia, e pede dinheiro urgente para médico e remédios…
- Com duas doses de penicilina fica bom. É tiro e queda. Tratamento barato nem precisa de médico.
Dona Carmosina lê os jornais antes de entregá-los, sabe do que vai pelo mundo, entende de cinema, política, ciência. Acumula o cargo nos Correios com a representação de A Tarde, da Baía, de revistas do Rio e de São Paulo.
- Coitada da Elisa, ficou tão transtornada, nem levou as revistas. Depois deixo em casa dela
Separa a carta endereçada a Ascânio Trindade pois o vê do outro lado da rua; carta de Máximo Lira, um amigo da capital, sem interesse. Antigamente, sim, tão romântico: Quando Astrud escrevia cartas de amor e Ascânio em resposta enchia laudas de juras e saudades. Um poeta, Ascânio, pena não escreva versos, seriam lindos. Retorna dona Carmosina ao silêncio de Tieta.
- Quer saber minha opinião, seu Edmundo? Antonieta já não pertence a este mundo. Mortinha da silva.
(continua)
Ainda de longe, antes de transpor a porta dos Correios, Elisa lê, na atitude de Dona Carmosina, a comprovação do que já sabia com certeza: a carta não chegara. Braços caídos, semicerrados os olhos miúdos, o ar grave, a activa funcionária vive, ela também, o drama do inexplicável atraso. Faz-se mais pálida a face de Elisa, os pés de chumbo, a voz inarticulada, quase um gemido:
- Nada?
Cinquentona, sarará, corpulenta, cara larga, a voz rouca, dona Carmosina indica a correspondência do dia, escassa, espalhada no balcão:
- Nada! Hoje não veio nenhuma carta registada. Por via das dúvidas, passei as malas duas vezes, carta por carta. O que chegou está aí, pouca coisa. Ainda não entreguei nada, você é a primeira a aparecer. Vieram jornais e revistas, isso sim, hoje é sábado. – Repara na palidez da amiga: - Quer um pouco de água?
- Não, obrigado. – As palavras saem estranguladas.
- Que demora, hein? Em todos estes anos, nunca atrasou tanto…
- Mais de dez anos… - gemeu Elisa.
- Onze anos e sete meses – corrigiu dona Carmosina, escrupulosa nos detalhes: - Inda me lembro da primeira carta, como se fosse hoje. Quando abri o saco, senti logo o cheiro, naquele tempo ela usava um perfume mais forte do que o de agora, encheu a sala. Que carta será essa? Perguntei a mim mesma e li correndo o subscrito e o nome do remetente. Estava dirigida a seu pai ou a qualquer membro da família Esteves e quem enviava era Antonieta Esteves, Caixa Postal 6211, São Paulo, Capital. Vou buscar água para lhe dar, com esse calorão e nada de carta, coitadinha…
Enquanto de costas, dona Carmosina toma da moringa e enche o copo, Elisa curva-se sobre a correspondência, não por manter esperanças, mas por desencargo de consciência.
- Botei duas gotas de água de flor. Faz bem prós nervos.
Elisa bebe em pequenos goles, dona Carmosina retoma a narrativa:
- O envelope cor-de-rosa, lindo, parece que estou vendo. Pelo falecido seu Lima mandei recado para seu marido na loja, vocês estavam casadinhos de novo. Ele veio com Osnar, entreguei, leu aqui mesmo. Carta mais bonita, pedindo notícias, do pai, das irmãs, como iam de saúde e de vida, se precisavam de ajuda. Até colaborei na resposta, se lembra?
- Me lembro…o major era vivo, foi ele quem escreveu…
- Era burro que nem uma porta mas tinha a letra bonita… Letra dele, redacção minha De lá para cá nunca mais falhou. Todo o mês a carta com o cheque, o rico dinheirinho…
Empolgada, dona Carmosina nem sente o mormaço a entrar pelas duas portas asfixiante. Pensativa a olhar para Elisa:
- Nunca demorou desse jeito… esquisito mesmo.
Elisa percebe, na voz da amiga, inquietante sinal de alarme. Tenta acalmá-la e acalmar-se:
- Uma vez quando ela estava passeando em Buenos Aires…
- Chegou no dia dezassete…dezassete de Fevereiro, exactamente. Hoje estamos a vinte e oito de Novembro. A que você atribui? Doença? – Os olhos pequeninos de dona Carmosina observam Elisa que segura o copo vazio sem receber resposta, o choro preso na garganta.
Felizmente apareceu seu Edmundo, Edmundo Ribeiro, o coletor, enfarpelado, paletó, gravata e chapéu, deseja boa-tarde:
- Alguma coisa para mim Carmosina?
- Duas cartas, uma do filho, outra do genro… - ri com os lábios descorados, divertida: - Aposto que os dois estão pedindo dinheiro…
O coletor recolhe as cartas, olha através dos envelopes contra a luz, que pode impedir que dona Carmosina saiba e comente a visa alheia, não passam por suas mãos (e vistas) telegramas e cartas? Carmosina, quase albina, mais que ladina, voz masculina, língua ferina, doce assassina – declamava Aminthas, seu primo segundo e comensal assíduo. Dona Carmosina é de bom tempero, famosa no pirão de leite e no molho pardo. E o cuscuz de milho?
- Como se eu fosse um saco sem fundo, entupido de dinheiro… - seu Edmundo suspira, sem pressa de abrir os envelopes apesar do desejo de saber dos filhos, Dirige-se a Elisa: - Feliz é Zé Esteves, seu pai, dona Elisa. Tem filha rica que manda em vez de pedir. Comigo é o contrário…
Dona Carmosina relanceia a vista, considera Elisa, informa:
- Este mês a carta de Tieta ainda não chegou. Esquisito, não acha seu Edmundo? Um atraso desses…
O coletor não esconde a surpresa, um dos envelopes aberto:
- Ainda não? Que é que houve dona Elisa?
- Quem sabe seu Edmundo? Para mim ela está viajando, esses passeios que faz todos os anos de navio…
- Cruzeiros marítimos… - esclarece dona Carmosina mas o olhar sob as sobrancelhas ruças exprime dúvida. Seu Edmundo balança a cabeça, não encontra comentário a fazer, retorna à cata do genro.
- Elisa despede-se, uma fraqueza nas pernas que nem Astério:
- Obrigada, Carmosina.
- Agora, querida, só terça-feira. – Para levantar-lhe o ânimo, não deixá-la partir tão por baixo, acrescenta: - Você hoje está uma tetéia. Esse vestido eu ainda não conhecia…
- Foi Tieta que mandou…
Seu Edmundo suspende a leitura da carta, escapa-lhe o desgosto da notícia:
- Suzana está esperando menino outra vez…
Elisa reúne forças:
- Parabéns, seu Edmundo. Quando escrever a Suzi mande um abraço meu…
- O quarto, não é? O senhor ainda tão moço e já cheio de netos. Bonito, acho isso bonito. – A voz rouca de dona Carmosina, sincera ou gozadora?
- Bonito, eu é que sei quanto me custa…falta de juízo.
- Que é caro, lá isso é…Logo agora tão fácil de evitar, com a pílula. Na Baía, se encontra em qualquer farmácia, a venda é livre…até a Igreja já aprova o uso – acentua dona Carmosina,
doce assassina.
Elisa diz até breve, atravessa a feira barulhenta, em direcção à casa de Perpétua. Não sente o peso do olhar do árabe, não lhe alisa a bunda a mirada de nenhum moleque nem lhe fere o ouvido a assobio do mendigo. Doença, insinuara Carmosina, para não falar no pior. Morta sim, Elisa já não duvida, Perpétua sabe o que diz.
Há vinte e três anos na agência dos Correios, dona Carmosina emite julgamentos definitivos sobre pessoas e factos:
- Moça boa e séria está aí, seu Edmundo. Conheço Elisa de menina, sempre direita, cumpridora. Faz tudo no capricho. Trabalhadeira, a casa dela é um brinco e gosta de se vestir, de se arrumar, não é como outras por aí, que vivem no desmazelo. Só que agora, pobrezinha…
Seu Edmundo, para melhor ouvir, interrompe a leitura da carta do filho estudante:
- A que atribui tanta demora?
- Se Tieta não morreu deve estar muito doente. O marido dela bem podia dar notícia mas ele nunca quis conversa com os parentes daqui. Vou aconselhar Elisa ou Perpétua a telegrafar.
De volta à carta o coletor explica:
- Idiota! Só serve para isso…
- O que é que Leléu fez dessa vez, seu Edmundo?
- Pegou numa carga de gonorreia; desculpe, Carmosina, quero dizer blenorragia, e pede dinheiro urgente para médico e remédios…
- Com duas doses de penicilina fica bom. É tiro e queda. Tratamento barato nem precisa de médico.
Dona Carmosina lê os jornais antes de entregá-los, sabe do que vai pelo mundo, entende de cinema, política, ciência. Acumula o cargo nos Correios com a representação de A Tarde, da Baía, de revistas do Rio e de São Paulo.
- Coitada da Elisa, ficou tão transtornada, nem levou as revistas. Depois deixo em casa dela
Separa a carta endereçada a Ascânio Trindade pois o vê do outro lado da rua; carta de Máximo Lira, um amigo da capital, sem interesse. Antigamente, sim, tão romântico: Quando Astrud escrevia cartas de amor e Ascânio em resposta enchia laudas de juras e saudades. Um poeta, Ascânio, pena não escreva versos, seriam lindos. Retorna dona Carmosina ao silêncio de Tieta.
- Quer saber minha opinião, seu Edmundo? Antonieta já não pertence a este mundo. Mortinha da silva.
(continua)

Os senhores da iurd
Os senhores da iurd (igreja universal do reino de deus) são como os abutres que cheiram a quilómetros os animais mortos e de acordo com a sua estratégia começam por sobrevoar os céus antes de pousar nas árvores próximas e aguardarem aí o momento propício para atacar as carcaças.
Os abutres, no entanto, desempenham um papel muito útil na natureza livrando-a de restos de animais que os restantes predadores desprezaram ou mesmo antecipando-se a eles, são os chamados necrófagos.
Ao contrário, os senhores da iurd, não se interessam por cadáveres, apenas por pessoas no estertor dos problemas, da dor, das dificuldades, frágeis e fragilizadas, carentes de uma mão amiga, de uma palavra de carinho, de estímulo.
Atentos a estas situações, os seus dirigentes apresentaram agora na Banca um pedido de financiamento de não sei quantos milhões para construírem uma sede na cidade do Porto que, segundo as suas previsões, estará paga nos próximos 15 anos.
Estas previsões optimistas baseiam-se em perspectivas relacionadas com a crise que esperam, venha a abater-se sobre as pessoas.
“Dê até doer”… é a palavra de ordem dos mensageiros do além, espécie de cobradores de deus, para os quais haverá sempre, lá ao canto da gaveta, um dinheirinho para entregar, um anel para penhorar, ou uma necessidade que pode ficar por satisfazer.
Em troca, vendem ilusões, um discurso que foi estudado, ensaiado, experimentado e comprovado…nunca falha.
As suas fortunas crescem por todo o lado impunemente, com a cobertura da lei, no silêncio das autoridades, no receio da Igreja de Roma que se vê de mãos atadas perante estes assaltos às ovelhas do seu rebanho.
Infelizmente, bem vistas as coisas, o negócio é o mesmo. Um começou há 2.000 anos, o outro, há meia dúzia deles.
E as receitas “deslumbrantes”do santuário de Fátima e de todos os outros santuários, e as dádivas, as bulas, as heranças, tudo o resto?
Ah!, mas aqui temos a meritória acção social da Igreja católica junto da sociedade no apoio aos mais carecidos…pois temos, a igreja de Roma refinou-se, atenta a uma sociedade cada mais crítica e atenta, mas o fenómeno da exploração da crença é o mesmo e por isso ela está de “mãos atadas” perante os senhores da iurd que, tal como os padres, dizem também falar em nome de deus, o mesmo deus pelo qual as pessoas se matam hoje, na Faixa de Gaza, no Iraque, no Paquistão, no Afeganistão, na Índia, tal como sempre se mataram ao longo dos tempos por causa de um deus qualquer.
O problema mergulha na noite dos tempos, no dealbar da humanidade, quando a sobrevivência da nossa espécie constituía um duro “osso de resolver”.
Frágeis à nascença, um longo período de dependência dos progenitores e perigos, muitos perigos a rodeá-los por todo o lado e nós sabemos bem como os miúdos são traquinas, curiosos, irrequietos…
E os pais, olhando para eles de dedo em riste diziam:
- “o menino não vai para o rio porque está lá um crocodilo e come-o; o menino não vai para trás daquela rocha porque está lá um precipício por onde pode cair”.
Havia, então, dois tipos de meninos: os que acreditavam no que os pais lhes diziam e não iam para o rio ou para junto do precipício e ficavam, por isso, com maiores probabilidades de sobreviverem e terem filhos, que também como eles, acreditariam no que lhes dissessem, e os outros, que não acreditaram e por isso não tiveram tantas probabilidades de sobreviver e terem filhos, como eles, não crentes.
E isto foi assim, geração após geração, dezenas de milhar de anos, atrás de dezenas de milhar de anos, por um processo de selecção natural, igual a tantos outros, que se criou no nosso cérebro um espaço para acreditarmos, como também se criou um espaço para nos apaixonarmos, tudo em nome da sobrevivência.
Mas esse espaço do nosso cérebro que nos “manda” acreditar, sim, “manda”, porque não é pelos bonitos olhos dos padres ou dos senhores da iurd que as pessoas acorrem a prostrarem-se aos seus pés e a darem-lhes dinheiro, por muita habilidade que eles tenham em sacá-lo e têm-na, sem dúvida.
O mecanismo da fé é cego, manda acreditar mas não diz em quê e por isso, quando os nossos antepassados selvagens disseram aos meninos que se eles cortassem o pescoço à cabra a próxima caçada seria um êxito, eles “não viram” nenhuma razão para não acreditarem como já tinham acreditado, e acertadamente, no perigo do crocodilo e do precipício.
A exploração do mecanismo da crença é o traço de união de todas as religiões, o chamado ecumenismo que salienta a necessidade de todas as religiões viverem em paz e repartirem entre si o “bolo” comum de acordo com os méritos de cada uma delas.
Como eles dizem: “com nomes diferentes, o Deus é o mesmo” e é precisamente o mesmo!
O mecanismo da crença é muito forte, está ligado a factores ancestrais de sobrevivência e embora a razão, a inteligência e as evidências constituam, igualmente, traços distintivos da nossa espécie, é mais fácil obedecer à crença instintiva do que à força da razão.
Hostilizar os senhores da iurd não é hostilizar as pessoas que são vítimas deles, porque os primeiros estão de má fé, foram industriados, preparados para um negócio de exploração da crença, os segundos são duplamente vítimas, da iurd e da crença com que nasceram e que tendo servido os objectivos da sobrevivência da espécie serviu, igualmente, um sub-produto chamado religião.
Dialogar com paciência, respeito e compreensão por todos os que se sentem ligados a crenças é o ponto de partida… na maioria dos casos elas acompanhá-los-ão até ao fim da vida.
Uma pequena percentagem libertar-se-á delas e os filhos dessas pessoas terão muito mais probabilidades de serem livres para viverem as suas vidas sem condicionantes religiosos.
Livres, para viverem a vida tal como ela é, respeitando a natureza e os outros, praticando com eles, todos eles, cristãos, maometanos, hindus, a amizade, a solidariedade, sem atacar ninguém pela sua forma de pensar e sentir.
Os bons sentimentos não são propriedade de ninguém, desta ou daquela religião, de crentes ou não crentes, simplesmente, e não é pouco, estes últimos estão livres e descomprometidos para os exercerem em melhores condições.
Os abutres, no entanto, desempenham um papel muito útil na natureza livrando-a de restos de animais que os restantes predadores desprezaram ou mesmo antecipando-se a eles, são os chamados necrófagos.
Ao contrário, os senhores da iurd, não se interessam por cadáveres, apenas por pessoas no estertor dos problemas, da dor, das dificuldades, frágeis e fragilizadas, carentes de uma mão amiga, de uma palavra de carinho, de estímulo.
Atentos a estas situações, os seus dirigentes apresentaram agora na Banca um pedido de financiamento de não sei quantos milhões para construírem uma sede na cidade do Porto que, segundo as suas previsões, estará paga nos próximos 15 anos.
Estas previsões optimistas baseiam-se em perspectivas relacionadas com a crise que esperam, venha a abater-se sobre as pessoas.
“Dê até doer”… é a palavra de ordem dos mensageiros do além, espécie de cobradores de deus, para os quais haverá sempre, lá ao canto da gaveta, um dinheirinho para entregar, um anel para penhorar, ou uma necessidade que pode ficar por satisfazer.
Em troca, vendem ilusões, um discurso que foi estudado, ensaiado, experimentado e comprovado…nunca falha.
As suas fortunas crescem por todo o lado impunemente, com a cobertura da lei, no silêncio das autoridades, no receio da Igreja de Roma que se vê de mãos atadas perante estes assaltos às ovelhas do seu rebanho.
Infelizmente, bem vistas as coisas, o negócio é o mesmo. Um começou há 2.000 anos, o outro, há meia dúzia deles.
E as receitas “deslumbrantes”do santuário de Fátima e de todos os outros santuários, e as dádivas, as bulas, as heranças, tudo o resto?
Ah!, mas aqui temos a meritória acção social da Igreja católica junto da sociedade no apoio aos mais carecidos…pois temos, a igreja de Roma refinou-se, atenta a uma sociedade cada mais crítica e atenta, mas o fenómeno da exploração da crença é o mesmo e por isso ela está de “mãos atadas” perante os senhores da iurd que, tal como os padres, dizem também falar em nome de deus, o mesmo deus pelo qual as pessoas se matam hoje, na Faixa de Gaza, no Iraque, no Paquistão, no Afeganistão, na Índia, tal como sempre se mataram ao longo dos tempos por causa de um deus qualquer.
O problema mergulha na noite dos tempos, no dealbar da humanidade, quando a sobrevivência da nossa espécie constituía um duro “osso de resolver”.
Frágeis à nascença, um longo período de dependência dos progenitores e perigos, muitos perigos a rodeá-los por todo o lado e nós sabemos bem como os miúdos são traquinas, curiosos, irrequietos…
E os pais, olhando para eles de dedo em riste diziam:
- “o menino não vai para o rio porque está lá um crocodilo e come-o; o menino não vai para trás daquela rocha porque está lá um precipício por onde pode cair”.
Havia, então, dois tipos de meninos: os que acreditavam no que os pais lhes diziam e não iam para o rio ou para junto do precipício e ficavam, por isso, com maiores probabilidades de sobreviverem e terem filhos, que também como eles, acreditariam no que lhes dissessem, e os outros, que não acreditaram e por isso não tiveram tantas probabilidades de sobreviver e terem filhos, como eles, não crentes.
E isto foi assim, geração após geração, dezenas de milhar de anos, atrás de dezenas de milhar de anos, por um processo de selecção natural, igual a tantos outros, que se criou no nosso cérebro um espaço para acreditarmos, como também se criou um espaço para nos apaixonarmos, tudo em nome da sobrevivência.
Mas esse espaço do nosso cérebro que nos “manda” acreditar, sim, “manda”, porque não é pelos bonitos olhos dos padres ou dos senhores da iurd que as pessoas acorrem a prostrarem-se aos seus pés e a darem-lhes dinheiro, por muita habilidade que eles tenham em sacá-lo e têm-na, sem dúvida.
O mecanismo da fé é cego, manda acreditar mas não diz em quê e por isso, quando os nossos antepassados selvagens disseram aos meninos que se eles cortassem o pescoço à cabra a próxima caçada seria um êxito, eles “não viram” nenhuma razão para não acreditarem como já tinham acreditado, e acertadamente, no perigo do crocodilo e do precipício.
A exploração do mecanismo da crença é o traço de união de todas as religiões, o chamado ecumenismo que salienta a necessidade de todas as religiões viverem em paz e repartirem entre si o “bolo” comum de acordo com os méritos de cada uma delas.
Como eles dizem: “com nomes diferentes, o Deus é o mesmo” e é precisamente o mesmo!
O mecanismo da crença é muito forte, está ligado a factores ancestrais de sobrevivência e embora a razão, a inteligência e as evidências constituam, igualmente, traços distintivos da nossa espécie, é mais fácil obedecer à crença instintiva do que à força da razão.
Hostilizar os senhores da iurd não é hostilizar as pessoas que são vítimas deles, porque os primeiros estão de má fé, foram industriados, preparados para um negócio de exploração da crença, os segundos são duplamente vítimas, da iurd e da crença com que nasceram e que tendo servido os objectivos da sobrevivência da espécie serviu, igualmente, um sub-produto chamado religião.
Dialogar com paciência, respeito e compreensão por todos os que se sentem ligados a crenças é o ponto de partida… na maioria dos casos elas acompanhá-los-ão até ao fim da vida.
Uma pequena percentagem libertar-se-á delas e os filhos dessas pessoas terão muito mais probabilidades de serem livres para viverem as suas vidas sem condicionantes religiosos.
Livres, para viverem a vida tal como ela é, respeitando a natureza e os outros, praticando com eles, todos eles, cristãos, maometanos, hindus, a amizade, a solidariedade, sem atacar ninguém pela sua forma de pensar e sentir.
Os bons sentimentos não são propriedade de ninguém, desta ou daquela religião, de crentes ou não crentes, simplesmente, e não é pouco, estes últimos estão livres e descomprometidos para os exercerem em melhores condições.
quinta-feira, janeiro 01, 2009

“O Menino Guerreiro Está a Passar Por Aqui”
“A escolha de Pedro Santana Lopes para candidato à Câmara de Lisboa coloca um problema ao eleitorado:
- Qual é o PSD que os portugueses preferem? O PSD populista e demagógico de Luís Filipe Menezes, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes, ou o PSD sério e credível de Manuela Ferreira Leite, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes?”
Esta é a pergunta que fica para 2009 formulada por Ricardo Araújo Pereira no seu comentário político do último número da Visão do ano que terminou.
Dê a sua própria resposta e veja na Revista aquela que foi dada pelo Ricardo Araújo.
- Qual é o PSD que os portugueses preferem? O PSD populista e demagógico de Luís Filipe Menezes, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes, ou o PSD sério e credível de Manuela Ferreira Leite, que aposta em Santana Lopes para cargos importantes?”
Esta é a pergunta que fica para 2009 formulada por Ricardo Araújo Pereira no seu comentário político do último número da Visão do ano que terminou.
Dê a sua própria resposta e veja na Revista aquela que foi dada pelo Ricardo Araújo.

Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 6DE ELISA, LINDA DE MORRER, DIANTE DO ESPELHO, E DO MARIDO ASTÉRIO, BOM DE TACO – CAPÍTULO ONDE NADA ACONTECE
Quando no dia seguinte a marinete de Jairo buzinou na curva próxima da cidade, Elisa, sentada à mesa antiga, quem sabe de valor, a servir de penteadeira, terminara de passar batom nos lábios e sorrio para a imagem reflectida no espelho barato pendurado na parede. Achou-se bonita. A negra, bravia cabeleira, agora cuidada, solta sobre os ombros, emoldura-lhe a face pálida, o langor dos olhos, a boca de lábios gulosos, acentuados pelo batom.
Linda de morrer, como diz, ao referir-se a estrelas de rádio, teve, cinema, o admirado locutor Mozart Cooper – pronuncia-se Cu…u…per - , voz de veludo nas ondas hertzianas a embalar os corações solitários. Coração solitário, linda de morrer.
Durante alguns minutos esqueceu-se de tudo quanto a afligia e ensaiou poses e trejeitos, imitados das cenas das fotonovelas: um muxoxo com os lábios, olhar apaixonado, sorriso tentador, a ponta da língua a surgir entre os lábios, vermelha e húmida. Beijar a quem? Num gesto cansado encolheu os ombros, os olhos cobriram-se de sombra. Volta a pensar na carta, busca tranquilizar-se: está chegando na mala do correio, trazida pela marinete, de hoje não passa. E se não chegar?
Na véspera, na mesa do almoço, Astério, comilão e apressado, a boca cheia, mastigando feijão e palavras repetia pergunta e lamúria:
- Porque tanta demora? Logo em Novembro, mês de pouca venda, quase nenhuma. Que diabo pode ter acontecido?
Elisa trancara os lábios, se lançasse a suspeita a queimar o peito o marido entraria em pânico. Esmorecido de natureza, incapaz de esforço e luta, o dia inteiro encostado ao balcão da loja à espera da minguada freguesia, animando-se apenas quando um dos parceiros de bilhar – Seixas, Osnar, Aminthas ou Fidélio – aparece para comentar apostas e jogadas; se Ascânio Trindade treinasse, Astério teria adversário pela frente. Osnar, desocupado, faz ponto na loja, o cigarro de palha pendurado no lábio. Infalível aos sábados, quando o movimento cresce por causa da feira. Após vender a farinha, a carne-de-sol, o feijão, as frutas, o cultivo das roças e o barro cozido em pequenos fornos rudimentares – moringas e quartinhas, cavalos e bois, jagunços e soldados, o padre cura e os noivos de mãos dadas, potes e panelas - , os sitiantes e roceiros enchem a loja a comprar fazendas, sapatos, calças e camisas, quinquilharias, vez por outra um rádio de pilha.
Na moita, equilibrado numa velha cadeira, Osnar espreita as caboclas novas, puxando conversa quando lhe parece valer a pena. Nos sábados, o moleque Sabino ganha cinco cruzeiros para ajudar, atendendo a maioria dos rudes fregueses – cinco cruzeiros e o que rouba no troco.
Se Eliza contasse a conversa com Perpétua, Astério seria capaz de ter um daqueles vexames repetidos a cada aperto maior de dinheiro, a cada problema com os fornecedores; suores frios, fraqueza nas pernas. Tontura, vómitos. Recolhe-se à cama, batendo o queixo, tiritando, a loja entregue a Sabino. Só Osnar consegue levantá-lo, arrastando-o para o bilhar, no Bar dos Açores, de seu Manuel Português.
No bilhar transforma-se, vira outro homem. Ri e graceja, arrota valentia, aposta sem medo, manda desafiar Ascânio, certo da vitória. Bom no taco. No taco do bilhar, somente no bilhar taco de ouro, surpreende-se Elisa a resmungar. Censuráveis resmungos, pensamentos ruins, surgiam assim de repente, perseguiam-na os malditos, cruz credo.
A face pensativa no espelho. Linda de morrer, ali perdida, a envelhecer naquelas ruas paradas, à espera da carta e do cheque. Não fossem o rádio de pilha e as revistas, que seria de Elisa?
Se revelasse a Astério o tema debatido com Perpétua, a probabilidade – para a irmã, a certeza – da morte de Tieta, ele vomitaria o feijão, o arroz, a carne, os pedaços de manga, ali mesmo em cima da mesa do almoço. Tirando o bilhar, um molengas, sem ânimo, sem ambição, sem conversa, sem alegria.
As raras prosas, as poucas risadas provinham ainda do bar, picantes histórias dos parceiros, de Seixas e Aminthas, raramente Fidélio, reservado de natureza e por cálculo, quase sempre Osnar, abastado, obsceno e mulherengo. As histórias de Osnar, entre as quais figura o notável caso da polaca, são de morrer de rir, em geral têm a ver com o descalibrado dos seus órgãos sexuais.
Estrovenga de jumento, afirma Astério, distanciando as mãos para indicar a medida espantosa: daqui para maior.
O cansado motor da electricidade deixa de trabalhar às nove da noite, marcando a hora de dormir, confirmada pelas badaladas do sino da Matriz. Astério conclui a partida, encosta o taco, recolhe ou paga as apostas, toma o caminho de casa. Vez por outra, se Elisa ainda não pegou no sono, Astério, ao despir-se, repete a mesma frase, prólogo do caso a narrar: Acontece cada uma!
Osnar ou Aminthas, Seixas ou Fidélio, fosse qualquer dos quatro o personagem, fosse outra figura da cidade, o enredo era quase sempre escabroso envolvendo mulher e cama – cama ou mato na beira do rio. Elisa ouve em silêncio, tensa, atrevendo-se de raro, a pedir detalhes, tão necessários no entanto à construção do imaginado mundo em que se trancara para subsistir, onde cada elemento importava; a grandeza de Antonieta, o postal de Buenos Aires, o perfume no envelope, as tramas de Seixas, os segredos de Fidélio, as patifarias de Aminthas, a anatomia de Osnar. Durante o dia, o rádio ligado sem parar, Elisa passa e remenda roupa, lava pratos, cozinha, lê e relê revistas, visita dona Carmosina no Correio, suporta, após o jantar, a lengalenga da vizinha, dona Lupicínia, cujo marido se mandara há mais de um lustro para as bandas do sul da Baía e não tinha previsão de regresso, vai ver não volta nunca.
Linda de morrer, só mesmo para morrer, para que outra coisa, qual? A boca ante o espelho abre-se ávida para o beijo. Qual beijo? Elisa levanta-se, ai quem lhe dera possuir um espelho onde pudesse se ver de corpo inteiro! Linda de morrer, no fino da moda.
Afinal, pergunta-se a encolher os ombros novamente, por que gasta esse tempão a pintar-se, em ajeitar a negra cabeleira, em fazer-se tão elegante no vestido restaurado, presente da Tieta como todos que possui, cada qual de melhor fazenda e de padrão mais moderno – usado mas pouco, quase novos.
Para que tanto apuro, tanto cuidado com a maquiagem, para que o decote a mostrar os ombros, o nascer dos seios?
Para atravessar as ruas desertas de passantes, perceber o peso do olhar do árabe Chalita, a bigodaça de sultão, a barba por fazer, eterno palito entre os dentes, dono do cinema Tupy e da sorveteria, velho e descuidado ou sentir sem ver a mirada matreira do moleque Sabino fixo no meneio das ancas da inacessível mulher do patrão, ouvir o pestilento assobio do Bafo-de-Bode, mendigo e bêbado? Tão podre e miserável, pode-se dar a todos os atrevimentos sem temer represálias. Esses três infelizes e acabou-se. Além disso, um boa-tarde dona; um chapéu levantado em muda saudação; a bênção do vigário e a incontida inveja das mulheres: Até parece que se vestiu para um baile, querida
Discreta e comedida, esposa honesta e virtuosa, ao passar Elisa recolhe no decote o cúpido olhar do levantino: ao vê-la certamente recorda tempos de antanho e corpos de mulheres; a cobiça do moleque acentua-lhe o requebro da bunda, assim de noite Sabino sonhará com ela. Não despreza sequer o assobio fétido do esmoler. Quanto à inveja das mulheres, tem igualmente merecimento e sabor, Modesta, Elisa responde: Vestido enviado por minha irmã Tieta, é dela o gosto e a elegância, hei-de botar fora? Louvam então em coro a ausente Antonieta, irmã generosa, filha exemplar, a infalível ajuda mensal, os presentes régios – régios, sim senhora, cada vestido desses vale um dinheirão!
Elisa recomenda à pequena Araci atenção na casa, fecha a porta da rua, dirige-se para o correio. Atravessará a feira, passará pelo árabe, pelo moleque, pelo maluco, pelas comadres no adro da Igreja. O rosto sério, como cumpre a uma senhora casada. O coração apertado, lá dentro a certeza de que a carta não chegou.
Linda de morrer, como diz, ao referir-se a estrelas de rádio, teve, cinema, o admirado locutor Mozart Cooper – pronuncia-se Cu…u…per - , voz de veludo nas ondas hertzianas a embalar os corações solitários. Coração solitário, linda de morrer.
Durante alguns minutos esqueceu-se de tudo quanto a afligia e ensaiou poses e trejeitos, imitados das cenas das fotonovelas: um muxoxo com os lábios, olhar apaixonado, sorriso tentador, a ponta da língua a surgir entre os lábios, vermelha e húmida. Beijar a quem? Num gesto cansado encolheu os ombros, os olhos cobriram-se de sombra. Volta a pensar na carta, busca tranquilizar-se: está chegando na mala do correio, trazida pela marinete, de hoje não passa. E se não chegar?
Na véspera, na mesa do almoço, Astério, comilão e apressado, a boca cheia, mastigando feijão e palavras repetia pergunta e lamúria:
- Porque tanta demora? Logo em Novembro, mês de pouca venda, quase nenhuma. Que diabo pode ter acontecido?
Elisa trancara os lábios, se lançasse a suspeita a queimar o peito o marido entraria em pânico. Esmorecido de natureza, incapaz de esforço e luta, o dia inteiro encostado ao balcão da loja à espera da minguada freguesia, animando-se apenas quando um dos parceiros de bilhar – Seixas, Osnar, Aminthas ou Fidélio – aparece para comentar apostas e jogadas; se Ascânio Trindade treinasse, Astério teria adversário pela frente. Osnar, desocupado, faz ponto na loja, o cigarro de palha pendurado no lábio. Infalível aos sábados, quando o movimento cresce por causa da feira. Após vender a farinha, a carne-de-sol, o feijão, as frutas, o cultivo das roças e o barro cozido em pequenos fornos rudimentares – moringas e quartinhas, cavalos e bois, jagunços e soldados, o padre cura e os noivos de mãos dadas, potes e panelas - , os sitiantes e roceiros enchem a loja a comprar fazendas, sapatos, calças e camisas, quinquilharias, vez por outra um rádio de pilha.
Na moita, equilibrado numa velha cadeira, Osnar espreita as caboclas novas, puxando conversa quando lhe parece valer a pena. Nos sábados, o moleque Sabino ganha cinco cruzeiros para ajudar, atendendo a maioria dos rudes fregueses – cinco cruzeiros e o que rouba no troco.
Se Eliza contasse a conversa com Perpétua, Astério seria capaz de ter um daqueles vexames repetidos a cada aperto maior de dinheiro, a cada problema com os fornecedores; suores frios, fraqueza nas pernas. Tontura, vómitos. Recolhe-se à cama, batendo o queixo, tiritando, a loja entregue a Sabino. Só Osnar consegue levantá-lo, arrastando-o para o bilhar, no Bar dos Açores, de seu Manuel Português.
No bilhar transforma-se, vira outro homem. Ri e graceja, arrota valentia, aposta sem medo, manda desafiar Ascânio, certo da vitória. Bom no taco. No taco do bilhar, somente no bilhar taco de ouro, surpreende-se Elisa a resmungar. Censuráveis resmungos, pensamentos ruins, surgiam assim de repente, perseguiam-na os malditos, cruz credo.
A face pensativa no espelho. Linda de morrer, ali perdida, a envelhecer naquelas ruas paradas, à espera da carta e do cheque. Não fossem o rádio de pilha e as revistas, que seria de Elisa?
Se revelasse a Astério o tema debatido com Perpétua, a probabilidade – para a irmã, a certeza – da morte de Tieta, ele vomitaria o feijão, o arroz, a carne, os pedaços de manga, ali mesmo em cima da mesa do almoço. Tirando o bilhar, um molengas, sem ânimo, sem ambição, sem conversa, sem alegria.
As raras prosas, as poucas risadas provinham ainda do bar, picantes histórias dos parceiros, de Seixas e Aminthas, raramente Fidélio, reservado de natureza e por cálculo, quase sempre Osnar, abastado, obsceno e mulherengo. As histórias de Osnar, entre as quais figura o notável caso da polaca, são de morrer de rir, em geral têm a ver com o descalibrado dos seus órgãos sexuais.
Estrovenga de jumento, afirma Astério, distanciando as mãos para indicar a medida espantosa: daqui para maior.
O cansado motor da electricidade deixa de trabalhar às nove da noite, marcando a hora de dormir, confirmada pelas badaladas do sino da Matriz. Astério conclui a partida, encosta o taco, recolhe ou paga as apostas, toma o caminho de casa. Vez por outra, se Elisa ainda não pegou no sono, Astério, ao despir-se, repete a mesma frase, prólogo do caso a narrar: Acontece cada uma!
Osnar ou Aminthas, Seixas ou Fidélio, fosse qualquer dos quatro o personagem, fosse outra figura da cidade, o enredo era quase sempre escabroso envolvendo mulher e cama – cama ou mato na beira do rio. Elisa ouve em silêncio, tensa, atrevendo-se de raro, a pedir detalhes, tão necessários no entanto à construção do imaginado mundo em que se trancara para subsistir, onde cada elemento importava; a grandeza de Antonieta, o postal de Buenos Aires, o perfume no envelope, as tramas de Seixas, os segredos de Fidélio, as patifarias de Aminthas, a anatomia de Osnar. Durante o dia, o rádio ligado sem parar, Elisa passa e remenda roupa, lava pratos, cozinha, lê e relê revistas, visita dona Carmosina no Correio, suporta, após o jantar, a lengalenga da vizinha, dona Lupicínia, cujo marido se mandara há mais de um lustro para as bandas do sul da Baía e não tinha previsão de regresso, vai ver não volta nunca.
Linda de morrer, só mesmo para morrer, para que outra coisa, qual? A boca ante o espelho abre-se ávida para o beijo. Qual beijo? Elisa levanta-se, ai quem lhe dera possuir um espelho onde pudesse se ver de corpo inteiro! Linda de morrer, no fino da moda.
Afinal, pergunta-se a encolher os ombros novamente, por que gasta esse tempão a pintar-se, em ajeitar a negra cabeleira, em fazer-se tão elegante no vestido restaurado, presente da Tieta como todos que possui, cada qual de melhor fazenda e de padrão mais moderno – usado mas pouco, quase novos.
Para que tanto apuro, tanto cuidado com a maquiagem, para que o decote a mostrar os ombros, o nascer dos seios?
Para atravessar as ruas desertas de passantes, perceber o peso do olhar do árabe Chalita, a bigodaça de sultão, a barba por fazer, eterno palito entre os dentes, dono do cinema Tupy e da sorveteria, velho e descuidado ou sentir sem ver a mirada matreira do moleque Sabino fixo no meneio das ancas da inacessível mulher do patrão, ouvir o pestilento assobio do Bafo-de-Bode, mendigo e bêbado? Tão podre e miserável, pode-se dar a todos os atrevimentos sem temer represálias. Esses três infelizes e acabou-se. Além disso, um boa-tarde dona; um chapéu levantado em muda saudação; a bênção do vigário e a incontida inveja das mulheres: Até parece que se vestiu para um baile, querida
Discreta e comedida, esposa honesta e virtuosa, ao passar Elisa recolhe no decote o cúpido olhar do levantino: ao vê-la certamente recorda tempos de antanho e corpos de mulheres; a cobiça do moleque acentua-lhe o requebro da bunda, assim de noite Sabino sonhará com ela. Não despreza sequer o assobio fétido do esmoler. Quanto à inveja das mulheres, tem igualmente merecimento e sabor, Modesta, Elisa responde: Vestido enviado por minha irmã Tieta, é dela o gosto e a elegância, hei-de botar fora? Louvam então em coro a ausente Antonieta, irmã generosa, filha exemplar, a infalível ajuda mensal, os presentes régios – régios, sim senhora, cada vestido desses vale um dinheirão!
Elisa recomenda à pequena Araci atenção na casa, fecha a porta da rua, dirige-se para o correio. Atravessará a feira, passará pelo árabe, pelo moleque, pelo maluco, pelas comadres no adro da Igreja. O rosto sério, como cumpre a uma senhora casada. O coração apertado, lá dentro a certeza de que a carta não chegou.
