quarta-feira, outubro 07, 2009

VÍDEO

É PRECISO AVALIAR OS RISCOS DO LOCAL DO TRABALHO...

CANÇÕES BRASILEIRAS

CLÁUDIO NUCCI - QUERO QUERO

HERMÍNIA SILVA - O FADO DA SINA
( Em homenagem à rainha do fado castiço que tive o prazer de conhecer pessoalmente quando foi cantar ao restaurante do meu irmão, A NORA, na Concavada, aldeia dos meus avós, na Beira - Baixa.)


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 253




Ricardo falara a frei Timóteo do engenheiro Pedro, materialista e ateu, a dissertar sobre as injustiças sociais, os crimes da burguesia e do capitalismo, a necessidade de transformar a sociedade.

- Também ele serve a Deus, pois deseja a justiça e felicidade dos homens.

- Sorrira o velho – Mesmo os que dizem não crer em Deus, podem servi-lo, desde que amem os homens e trabalhem por eles. Por que não trás o seu amigo aqui? Gostarei de conhecê-lo.

No arraial do Saco, Ricardo vive horas exaltadas acompanhando as conversas do engenheiro com o frade. Pedro, impetuoso, sincero e entusiasta, nega a existência de Deus e da alma, em inflamado discurso. O franciscano viera do tumulto e da ânsia do mundo para a meditação na cela do convento, disserta com voz mansa e usa imagens poéticas. Todavia, Ricardo descobre parecença e parentesco entre os dois, pontos de convergência, um objectivo comum: a preocupação com o ser humano. Busca passagem por entre contradições e coincidências, dispõe-se a sujeitar sua vocação às necessárias provas, a não se negar às discussões e aos actos. No momento certo, decidirá. Não antes, porém, de elucidar todas as dúvidas.

Na lancha, na noite dos tubarões e do medo, ao lado de Jonas, sentira quanto custa comandar, sobretudo se o preço do dever é a crueldade e a violência. Jonas é um homem bom e jovial, no entanto, naquela hora extrema, a face do pescador fizera-se sombria e implacável. Por onde passam os caminhos que conduzem à alegria e à justiça? Vendo os homens e mulheres em pânico, os tubarões à flor da água, vendo a tia, Jonas, Daniel, Isaías, Budião, pessoas de bondade comprovada, empunharem a morte para defenderem a vida, Ricardo sacudiu os últimos freios, tomou a rédea nos dentes, decidido a galopar por conta própria, livre de peias.

Acumula no peito, em pressa e confusão, palavras, ideias, acontecimentos. Tudo começou com a chegada da tia, há um mês e meio, se muito. No ponto da marinete, Ricardo aguardara o desembarque de uma anciã, mais que tia, avó, viúva em pranto e luto. Rezara por sua saúde, os joelhos sobre os grãos de milho, pagando promessa. Da marinete descera uma deusa. Ao mesmo tempo, imagem de santa e cabra de urbe farto, no dizer de Osnar, o boca suja. Santa e cabra, como pode ser? Assim é:

Muita coisa sucedera desde então. Da primeira noite nos cômoros com Tieta, subindo aos céus, baixando aos infernos, até aquela tarde de tempestade em meio às vagas e aos tubarões, ameaçando os apavorados funcionários da Brastânio, quando cumpriu duro dever de cidadão, obrigação tremenda. No Te Deum, abrindo as portas do Ano – Novo, sob o peso dos olhares das mulheres, enxergara Maria Imaculada. Um vínculo se rompera, formara-se outro anel, início de uma cadeia. Muita coisa em pouco tempo, a exaltação da vida, o horror da morte.

Outras experiências são mais fáceis, ai, são deleitosas! A senda da prova passa entre mulheres. A tia acendeu uma fogueira em seu peito, o incêndio se alastra, como apagá-lo? Não basta Tieta, não basta Maria Imaculada, pois a brasa queima e se inflama apenas Ricardo percebe um olhar molhado de desejo, a insinuação de um sorriso. Não sabe negar-se, não pensa negar-se. Por que fugir depois do que lhe foi dado ver e fazer?

Viera de Mangue Seco pela manhã devido ao aniversário de Peto mas na intenção da noite livre, inteira para Maria Imaculada. Perpétua reduzira as comemorações a um almoço para o qual convidara apenas padre Mariano, além de Elisa, Astério e mãe Tonha. Ao padre, queixara-se da ausência de Tieta e Leonora mas o fizera da boca para fora. Estivessem elas em Agreste, Perpétua seria obrigada a reunir em casa um mundo de gente, a começar pela antipática da Carmosina; um despesão. Assim, tudo correra pelo melhor. Tieta e Leonora não compareceram mas enviaram os presentes por intermédio de Ricardo. A tia rica dera novamente prova de generosidade e afecto para com os sobrinhos: o relógio ofertado a Peto mereceu encómios e considerações do pároco:

- Um presente régio, dona Perpétua. Dona Antonieta é mão – aberta e adora os sobrinhos. Seus filhos estão com o futuro garantido. Não duvido que venham a ser – e baixou a voz pois Elisa e
Astério estavam chegando
herdeiros priveligiados.

THE MANHATTAN - LEST JUST KISS AND SAY GOOD BYE


O PRESIDENTE CAVACO SILVA DE PORTUGAL


Desde que o Presidente Cavaco foi eleito ainda não lhe ouvi uma palavra de jeito. O Presidente alinhava umas palavras em forma de discurso, soletra umas solenidades de circunstância, meia dúzia de lugares-comuns da sensatez e outras tantas banalidades, junta uma pitada de preocupação social e vago fervor patriótico, acrescenta umas generalidades institucionais e já está.


Analistas políticos esparsos e à míngua de assunto e de política, desempregados de um regime sem ideologia, pragmático e material, que não pensa, não discute, não argumenta e apenas age e reage, tentam desesperados encontrar em Cavaco um pensamento, uma coerência ideológica ou, dada a necessidade de drama, uma ameaça.

Trabalhos ingratos porque Cavaco nada disto tem para dar. Nunca teve. A sua mediania coloca-o a salvo das grandes perplexidades contemporâneas e o seu desinteresse pela cultura política, ou outra, abrigam-no das interrogações que perturbaram Soares ou Sampaio, infinitamente mais cultos e mais cosmopolitas. Cavaco é o sucessor de Eanes sem a educação sociológica e histórica de Eanes.


Ou seja, Eanes tornou-se um quase-intelectual com a passagem do tempo, e Cavaco permaneceu igual a si mesmo, modesto e frugal, limitado e deslocado, amarrado à âncora da sua ignorância. Cavaco detesta tempestades e mar largo, prefere porto seguro e águas calmas. Não seria o Presidente que eu quereria eleger, é o Presidente eleito. Tanto Manuel Alegre como Mário Soares teriam sido melhores Presidentes. Como dizem os cavaquistas conformados, Cavaco não tem mundo. O mal nem é este, o mal é que ele continua a não ter mundo. E o mundo não o tem a ele.

Daí os episódios paroquiais da viagem à Índia, com as queixas do "picante", ou as caricaturas de jornada onde Cavaco seja obrigado a descontrair e fazer humor. Não é o seu género. O seu género é a casa e a família, com umas incursões no país que ele genuinamente sente como seu, a seu modo. Um herói local. E um herói local incensado por um partido fundado por um homem forte e brilhante, Francisco Sá Carneiro.

Um PSD que nunca encontrou substituto para o fundador e confundiu pequenas manifestações de autoritarismo e irritação com autoridade e carisma. O PSD inventou Cavaco: barões e intelectuais, bases e cúpulas, populistas e elitistas inventaram um chefe que foi rodar o carro à Figueira da Foz. Ele foi - de facto - rodar o carro à Figueira da Foz e o partido fez o resto. Faz lembrar um filme de Hal Ashby, adaptado de um romance de Jerzy Kozinsky, que conta a história de um homem simples e dado a pequenos aforismos, o jardineiro Mr. Chance, que ascende a Presidente dos Estados Unidos por um conjunto de circunstâncias. "Being There", ou "Bem-vindo Mr. Chance". É a obra-prima do grande Peter Sellers.

Passava-se aquilo num tempo em que Portugal e o mundo eram mais simples e da Europa escorria leite e mel. Cavaco administrou a fortuna misturando a parcimónia e o escrúpulo moral com a amoralidade e a rapina de negociantes políticos que ascenderam a milionários graças ao Estado. Foi um período de fartar vilanagem, e chegou para todos e para duas maiorias absolutas. O currículo académico de Cavaco, um economista mediano, ajudou-o num tempo em que começava o primado da economia sobre a política e em que o défice entrou no léxico nacional.
Desígnio para o país Cavaco nunca teve, e plano para o famigerado "desenvolvimento" também não. Ninguém soube ou quis saber o que seria de Portugal daí a vinte anos porque a política portuguesa caracterizava-se pela miopia e o resultado eleitoral. O curto prazo. Pagamos hoje, duramente, as consequências desta ignorância. Sempre imaginei, academicamente, o que teria achado Sá Carneiro do seu sucessor.

O mundo entretanto mudou e o estatuto de Cavaco também. De primeiro-ministro activo passou a Presidente corta-fitas. É um lugar onde ele não faz o dano que faria como chefe do Executivo. As suas inexistências ontológicas continuam, com certa ternura, a mobilizar oráculos e análises com tanto rigor como a astrologia. Ler o desígnio de Cavaco é como ler o horóscopo. Interpretar o seu silêncio é como olhar para as estrelas. Um passatempo inofensivo que se tornou profissão. Os pequenos anúncios dos jornais estão cheios de sábios e professores que lêem o destino alheio. Inventaram a coabitação, como agora inventam o ódio.



Nem Sócrates nem Cavaco têm a profundidade que os politólogos desocupados lhes querem atribuir. Embora Sócrates navegue em águas mais fundas que Cavaco. Por tudo isto, devo ser uma das pessoas que não sentiu irritação com o discurso de Cavaco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. É mais uma cena paroquial e uma anedota de Verão. Não estava à espera que ele fosse falar sobre o mundo complexo em que vivemos e vamos viver, com a perspicácia e a inteligência de um homem de Estado. Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade. O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é. Num grande país europeu como a França, a Alemanha ou a Grã-Bretanha, Cavaco seria um apêndice, nunca um órgão político.

Clara Ferreira Alves


A RELIGIÃO E O EVOLUCIONISMO




“O conceito de uma vida eterna gloriosa foi inventado para mitigar o nosso medo da morte”.

Esta é uma teoria dezenas de vezes repetida e aceite porque, aparentemente, faz sentido. E digo aparentemente uma vez que, posta a questão aos enfermeiros e assistentes sociais em lar de idosos, os testemunhos vão no sentido inverso, ou seja: os crentes apresentavam maior receio da morte.

De qualquer forma a crença numa religião é uma inevitabilidade ou, com uma cotação negativa, uma fatalidade.

Recebemo-la logo após o nascimento como uma herança cultural (o crucifixo na parede e o rosário pendurado na cabeceira da cama) e ao longo da vida, ou se instala e nos comanda, ou por ali fica num "faz de conta" para não destoar dos outros. Raramente temos coragem para a renegar quando ela já pouco ou nada nos diz.

Não esqueçamos que tanto os nossos sentidos como as nossas crenças são ferramentas para a nossa sobrevivência e evoluíram para se alimentarem mutuamente. Sem os sentidos não podíamos conhecer o mundo perceptível e sem as crenças não poderíamos saber o que está fora do alcance dos sentidos, nem sobre significados e causas. Por isso elas persistem apesar das evidências contraditórias.

Eu próprio já desisti, relativamente à minha neta, quatro anos acabados de fazer, de outra explicação que não seja “enviar para o céu” os parentes e pessoas conhecidas que, entretanto, vão falecendo.

É um assunto que mais tarde ela terá que descodificar. Para já vão todos para o céu e ponto final. De resto, para dificultar as coisas, as crianças revelam uma tendência natural para adoptarem a teoria dualista da mente que consiste em aceitar que esta é uma espécie de espírito incorpóreo que habita o corpo mas pode existir em qualquer outro lado.


Portanto, aos quatro anos, o melhor é mandá-los todos para o céu… lutar por crenças racionais no imaginário de uma criança de 4 anos não é tarefa fácil. No melhor dos casos, não estimular crenças irracionais e ensiná-la a pensar com lógica, o resto ficará para mais tarde.

Esta é mais uma razão pela qual as religiões se “colam”: dão explicações simples e directas para as almas simples…e levam a não pensar mais no assunto.

Mas esta relação da religião com o além, relação vertical, talvez não seja a mais importante. As religiões são imensamente eficazes na formação de relações sociais conferindo coesão às sociedades e, nesta medida, fomentam a sobrevivência naquela a que podemos chamar a relação horizontal.

Se o desejo de servir um Deus for mais motivador do que o desejo de ajudar os outros então a solidariedade será, pelo menos, reforçada pelo facto de se ser crente.

É claro, que também podemos concluir como Einstein:
“Se as pessoas só são boas (solidárias) porque temem o castigo e esperam recompensa, então somos mesmo uma triste cambada”.

As religiões, dentro de si próprias evoluem, adaptam-se, ajustam-se e tiram partido de novas realidades sociais. O Deus hebraico era essencialmente um guerreiro que comandava o seu povo para combater e prometia-lhe a vitória no futuro por muitas derrotas que tivesse sofrido no passado. O Deus cristão, por outro lado, reflectia a realidade da vitória militar já não ser possível e a única estratégia de sobrevivência envolver uma coexistência mais pacífica.

O Deus cristão baixou as armas numa estratégia tão radicalmente diferente que era possível afirmar que o seu Deus era completamente distinto do Deus hebraico, como alguns especialistas afirmaram.

No entanto, quando os cristãos se tornaram politicamente poderosos, a evolução cultural promoveu a retoma das estratégias militares, como foi o caso das cruzadas, esquecida, então, a política da “outra face”.

Hoje, de novo, a Igreja de Roma, força a componente pacifista entre os homens e o respeito das religiões umas pelas outras, o chamado ecumenismo, com o objectivo primeiro de manter os homens como pessoas crentes contra o pensamento ateu que é, sem dúvida, o principal inimigo.

E como a propensão para as crenças, como já vimos, parece ligar-se à própria sobrevivência, são já os ateus, alguns, que se atrevem a apresentar o seu pensamento como uma “religião” de crenças racionais.

Os cépticos, na opinião de Gregory W. Lester, Prof. de Psicologia da Universidade de St. Thomas em Houston, devem adoptar uma estratégia de longo prazo afirmando as suas crenças racionais sem entrar em lutas de morte numa batalha com pessoas que têm convicções únicas.

Os cépticos ou não crentes, constituem o exemplo vivo que é possível, por “uma alta função do cérebro”, vencer e modificar crenças irracionais no sentido em que vai contra algumas das urgências biológicas fundamentais.

Acredito que esta aptidão, uma vez disseminada, pode ser assustadora para os líderes das religiões, mais de umas que de outras, e por isso novas estratégias, permanente evolução...

terça-feira, outubro 06, 2009

AMÁLIA RODRIGUES - A CASA DA MARIQUINHAS

CANÇÕES BRASILEIRAS

RAÚL SEIXAS - EU NASCI HÁ DEZ MIL ANOS ATRÁS



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 252



DE COMO O SEMINARISTA RICARDO, PONDO À PROVA (INTENSAMENTE) SUA VOCAÇÃO, COMETE UMA IMPRUDÊNCIA


Ao retirar a alva e a estola, no domingo, após a missa, padre Mariano observa Ricardo movimentando-se na sacristia, transmitindo ordens a Vavá Muriçoca, opinando sobre o inventário encomendado pela Arquidiocese:

- Você hoje não comungou, Ricardo. Por quê?

- Ontem à noite eu pequei, padre, e não tive tempo de me confessar. Discuti com seu Modesto Pires, fiquei com raiva, desfeiteei ele…

- Desfeiteou seu Modesto Pires? Você? – boquiaberto, o reverendo balança a cabeça, incrédulo.

O seu protegido transformou-se durante as férias em Mangue Seco. Ao chegar dos exames ainda era um meninão, de físico avantajado, risonho e afável, preocupado apenas com a pesca e a bola de futebol, quando não estava em casa fazendo banca ou na Matriz ajudando. De repente virara um rapagão, sempre risonho, afável, porém com outros modos e com outro ar., interessando-se por assuntos sérios, vibrando indignado contra a instalação da fábrica de dióxido de titânio, atrevendo-se a discutir com Modesto Pires e a criticá-lo. Que bicho o teria mordido?

- Disse o que pensava dessa fábrica e dos que são a favor dela. Cometi o pecado da ira, padre.

Ao responder, comete o pecado da mentira. Trocara realmente umas palavras com Modesto Pires mas sem chegar ao insulto. Ao desrespeito, certamente: menos pela agressiva conversa na rua do que pela discreta actividade no cinema; ao lembrar-se, sente um arrepio de prazer. Aconteceram pecados, sim, a impedir a comunhão, porém à tarde e à noite, os da carne; na torre da igreja, no escuro do cinema, nas ribanceiras do rio. O padre sente a transformação ocorrida mas não sabe quanto mudou o compasso da vida do seu pupilo. Envolvido num turbilhão de acontecimentos, Ricardo põe à prova a sua vocação, atravessa um caminho de luz e trevas. Ah!, padre, não queira saber que bicho o mordeu!

- Tem-se confessado com Frei Timóteo? Ele continua seu director espiritual?

- Sim, Padre. Está passando o verão no arraial.

- E como vai esse santo varão? Sempre delicado de saúde?

- Diz que na praia tem melhorado.

- Deus o conserve. É um luminar da igreja.

Padre Mariano repete o que ouve dizer em Aracaju e em Salvador. Todos louvam as virtudes e o saber do frade, mesmo quando discordam das suas teses, Ricardo aprova o elogio com entusiasmo, por sabê-lo merecido. Frei Timóteo lhe revelou a existência de realidades e problemas sobre os quais padre Mariano nunca lhe falara, certamente por jamais ter reflectido neles. Deu-lhe nova compreensão dos deveres do sacerdócio, cujos limites não se restringem ás obrigações do culto, cumpridas com rigor pelo padre do Agreste. Aproximara-o de Deus.

No seminário Ricardo concebera um Deus terrível e abstrato, desligado da vida e dos homens, a quem se é obrigado a servir para não sofrer as penas do inferno durante a eternidade. O Deus de Frei Timóteo participa da vida, compreende os problemas dos homens, entre familiar e concreto, amorável. As palavras das orações, repetidas no seminário, soavam ocas, agora ele aprendeu sua significação real, com o Franciscano. Amantíssimo coração, por exemplo: Deus é amor e paz, disse-lhe o velho monge. Quando Ricardo se julgara indigno de continuar aspirando ao sacerdócio por haver pecado, o frade aconselhara:

- Você ainda tem tempo de sobra para provar sua vocação, antes de se decidir. Se o mundo se impuser, escolha outro ofício, sirva a Deus como um simples cristão, nem por não usar batina e não dizer missa, será menor seu merecimento. Caso sua vocação permaneça viva e você a sinta como uma exigência interior, então prossiga de batina, cumpra seu destino e a lei de Deus. Mas
nunca tenha medo, não fuja, não se esconda nem se negue. Amantíssimo é o coração de Deus.

segunda-feira, outubro 05, 2009

UM CLÁSSICO...

OLGA MARIA RAMOS - LA VIE EN ROSE

VÍDEO

MUITOS PAIS NÃO TÊM ESTA PACIÊNCIA...

LAURA PAUSINI - EMERGÊNCIA DE AMOR

CANÇÕES BRASILEIRAS

CAETANO VELOSO - SAMPA



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 251



O Zíper descendo, o corpo nu surgindo diante dos olhos de Peto. Com um movimento de ombros Zuleika se desprende do vestido, o menino pode vê-la toda, como é bonita!

- Tu me acha bonita?

- Demais.

- Está com vontade?

- Nem pergunte.

- Vem.

Sobe para a cama, faz lugar para Peto. Estão deitados de lado, olhando-se. Ele estende a mão, meio sem jeito, toca-lhe o seio. Menor do que o da tia, maior do que o de Leonora, diferente dos dois, redondo, parece uma broa saída do forno. Zuleika suspira ao toque, cada gesto tímido, cada avanço, é um prazer divino.

Me diga é mesmo a primeira vez?

- Com mulher, é sim.

- Andou botando em algum menino?

- Só na cabra.

- Em Negra Flor, não foi?

- Foi nela, sim.

- Bicha safada, ordinária. Peto é o terceiro, entre recentes, a lhe contar da cabra. Mais uma vez Negra a precedera.

- Com mulher é diferente, tu vai ver.

- Muda de posição, agora de barriga para cima, os olhos de Peto pousam-se na senda de pelos negros. A mão de Zuleika Cinderela vai buscá-lo.

- Vem meu macho, traz essa rola gostosa para comer sua mulherzinha. Beija-o ternamente, acaricia-o de manso, faz com que ele a monte, suspende o ventre para facilitar o abraço, mete a língua dentro da orelha de Peto e murmura:

- Que gostoso, sou capaz de me enrabichar contigo.

Cruza as pernas sobre as costas do menino

- Mete, enfia tudo.

Mantendo-o preso entre as coxas, beija-o no rosto e na boca, remexe as ancas, oferece-lhe o seio; xoxota de chupeta, especial para rola em crescimento, morde e afaga. Precisa conseguir que ele aprenda e goste, sinta quanto é bom, se faça macho inteiro e íntegro, para isso o confiaram a ela. Ao mesmo tempo Zuleika, a velha Cinderela, se embriaga de prazer, saboreia e degusta o cabaço do menino. Não pode haver na vida ou na eternidade prazer que a esse se compare.

- Goze comigo que estou gozando.

A vitória obtida cada vez, o debutante acabando junto com ela, no mesmo instante, no mesmo grito, renascendo na mesma hora da morte.

Quando Peto, orgulhoso e feliz, sai do quarto e entra na sala, estrugem aplausos, frenéticos. Casa cheia, ocupadas todas as mesas, presente a malta do bar, seu Barbozinha, o árabe Chalita, com uma meninota sobre os joelhos, o moleque Sabino, sócio na Negra Flor, a quem Zuleika, uma semana atrás, descabaçara por prazer, sem que ninguém pagasse. Por Peto, quem paga é Osnar, regiamente. Entre os demais reuniram dinheiro para a festa.

As mulheres vêem uma a uma e o beijam na boca. A falsa loira o chama de pitéu, outra de doce de coco, a novinha que saíra e voltara, o trata de cunhado, cada qual mais louca e linda. Peto senta-se ao lado de Aminthas, recende a brilhantina e a fêmea.

Osnar labuta com a rolha da garrafa de champanhe – champanhe nacional, é evidente, pois estamos na pensão de Zuleika Cinderela, em Agreste, e não no refúgio dos Lordes, de Madame Antoinette, em São Paulo. O poeta De Matos Barbosa estufa o peito, pigarreia para limpar a voz, retira do bolso uma folha de papel e, em meio ao silêncio mais respeitoso e absoluto declama o Soneto do Himeneu, composto para a ocasião, uma beleza! Neco Suruba trás o bolo de aniversário e casamento.

Zuleika Cinderela ainda encharcada de prazer, exige uma cópia do soneto, manda que coloquem um tango na vitrola e volteando no vestido azul sai a dançar com Barbozinha, rostos colados, as coxas entrelaçando-se naqueles passes floreados e difíceis. Peto, apaixonado, acompanha os
volteios da dança morto de ciúmes.

MERCEDES SOSA - DUERME NEGRITO
(Poente máximo da música da Argentina, voz forte e potente que lutou contra todas as ditaduras fascistas da América Latina. Faleceu neste Domingo, com 74 anos...duerme Mercedes.)

domingo, outubro 04, 2009

AMÁLIA RODRIGUES - CANÇÃO DO MAR (A preto e branco em sinal de luto.Passam hoje 10 anos sobre a sua morte)

JULIO IGLESIAS - ME OLVIDE DE VIVIR


A GOLPADA!



Acompanhado de uma belíssima mulher, o sujeito entrou na joalharia e mandou que ela escolhesse a jóia que quisesse, sem se preocupar com o preço.
Examina daqui, experimenta uma, depois outra, ela finalmente decide-se por um colar de ouro com diamantes e rubis. Preço: 458 mil.


Ele manda embrulhar, saca um talão de cheques e começa a preencher.
Assina, destaca e ao estendê-lo, percebe a fisionomia constrangida e preocupada do vendedor enquanto examina o cheque.


O cliente, então, num gesto de gentleman, toma a iniciativa:


-Vejo que está a pensar que o cheque pode não ter cobertura, não é?
É natural, eu também desconfiaria? Afinal, uma quantia tão grande...


Tudo bem, façamos o seguinte: hoje é sexta-feira e o banco já fechou, você fica com o cheque e com a jóia, na segunda-feira vai ao banco, levanta o dinheiro e manda entregar a jóia em Casa desta senhora, ok?


Cheio de mesuras e agradecimentos pela compreensão, o vendedor encaminha o casal até a saída, desejando-lhes um bom fim-de-semana.

Na segunda-feira, o vendedor liga ao cliente para dizer-lhe que, infelizmente, deveria ter havido algum equívoco do banco pois o cheque não tinha cobertura.

Ouviu, então, uma voz meio sonolenta:

Não há problema! Pode rasgar o cheque que eu já comi a gaja...


JÚLIO IGLESIAS - DEVANEIOS


CANÇÕES BRASILEIRAS

RITA LEE - BALADA DO LOUCO



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 250




Na sala, Osnar dirige-se a Neco Suruba, garçon imemorial, entrou no emprego molecote, está de cabelos brancos.

- Cadê Zu?

Uma das mulheres adianta a resposta:

- Dona Zuleika está tomando banho, não vai tardar.

Tanto ela como a colega sorriem para Peto e o examinam. O cheiro de brilhantina faz-se sentir, familiar, os feirantes usam da mesma marca, vendida em latinhas pequenas. Barata e forte.

- Recebeu a encomenda? – Osnar volta a dirigir-se a Neco.

- Está na geladeira – Além do bar, somente a residência de Modesto Pires e a pensão de mulheres da vida possuem geladeira (a querosene) na cidade.

Apenas sentam-se na mesa onde estão as duas mulheres, Zuleika Cinderela entra na sala e com ela um aroma a bom sabonete e água-de-colónia a suavizar o cheiro poderoso a brilhantina. Os sapatos de salto alto aumentam-lhe a estatura, cabelos escorridos de índia, corpo bem torneado, convidativo; anel e pulseira de fantasia, um vestido azul – hortênsia solto e decotado, com bolsos brancos, toda ela é limpeza e dengo.

Vem direita a Peto, seu sorriso é um dom do céu que ela distribui:

- Boa noite, Peto, seja bem-vindo. Quer tomar alguma coisa? Meus parabéns pelo aniversário. Tenho um presente guardado para você – Pisca o olho.

Como Peto lhe recusa a oferta da bebida, ela lhe estende a mão e o convida com um leve gesto de cabeça. Osnar e as duas mulheres seguem a cena, a loira de Leléu voltou-se para ver. Peto levanta-se, sente a curiosidade a rodeá-lo. Osnar pede cerveja.

Fechada a porta do quarto, Zuleika toma do lampião pendurado na parede, coloca-o sobre a mesinha de cabeceira, junto à cama, assim ela pode enxergar melhor. Peto está de pé os olhos baixos. São os dois da mesma altura ou quase.

- Tu é bonito como o quê! Já te vi na rua muitas vezes. Sempre pensava: quando é que ele vem me ver? – Doce e terna: - Pedi a Osnar: traga ele aqui para festejar aniversário.

Desabotoa a camisa nova do menino:

- Quanto nome de cidade. Paris, Roma. O Papa vive aqui. Ganhou de presente?

Peto confirma com a cabeça, quase diz: de minha prima, mas se contem a tempo. Zuleika enfia a mão por baixo da camisa aberta, acaricia o peito e as costelas magras, aproxima-se mais e beija Peto atrás da orelha antes de lhe tomar a boca. Quando o solta, Peto arranca os sapatos, Cinderela retira-lhe a camisa, ajuda-o a arriar as calças compridas. Peto as segura para que não caiam no chão e se sujem: calças compridas, as primeiras. Sacudindo os pés, Zuleika livra-se dos sapatos, encosta-se em Peto, desce a mão pelo corpo do menino, abre-lhe a cueca, toca-lhe os bagos, brinca com eles:

- Rola mais linda – Na mão a toma e afaga, devagar, oferecendo ao mesmo tempo a boca para o beijo.

Afasta-se, vota-se de costas:

- Puxe o zíper de meu vestido. Amorzinho.

sábado, outubro 03, 2009

CHARLES AZNAVOUR - THE OLD FASHIONED WAY


CANÇÕES BRASILEIRAS


MARIA BETÂNIA / ALCIONE - O MEU AMOR



AINDA A PROPÓSITO DOS OLHOS
NOS OLHOS


A vida moderna está muito distante da sociedade de pequena escala e às vezes torna-se tão hirárquica e competitiva que mais parece um bando de chimpanzés ou uma matilha de lobos.

O que acontece quando atravessamos a divisória da cooperação em sentido contrário? Deixamos de falar e pomo-nos a apontar para mostrar as coisas uns aos outros? Evitamos o contacto visual?

Pergunto-me se os óculos de sol não serão uma maneira moderna de correr as cortinas sobre as janelas da alma, como os olhos opacos dos nossos parentes primatas. Quando não se destinam a proteger do sol, não serão usados sobretudo em ambientes sociais competitivos e hierárquicos?

Cheio de curiosidade a este respeito, David Sloan Wilson, enviou um e-mail a Mike Tomaselo, exactamente o cientista que desenvolveu a teoria "do olho cooperativo" para explicar como os nossos olhos se tornaram tão diferentes dos dos outros primatas, e recebeu a seguinte resposta:

- "Não conheço dados, mas vi o Campeonato Mundial de Pocker na televisão e todos eles usavam óculos escuros de sol."

Estes comportamentos revelam uma preocupação competitiva prevalecente que é o contrário da que teve por base a evolução dos nossos olhos. Incapazes de os tornar opacos, como os dos chimpazés, tapamo-los com óculos escuros.

A humanidade evoluiu, cresceram os grupos sociais, hierarquizaram-se inevitàvelmente, as "cartas" do evolucionismo estavam lançadas, a humanidade encontrava-se por sua conta... , o igualitarismo das sociedades primitivas dos Bosquímanos do Kalahari ficou desadequado, milhões de anos de evolução tornaram os nossos olhos perigosos aos nossos intentos... a competição veio para ficar, resta saber se para nos destruir.

Certo, é que nos continuamos a extasiar perante uns olhos bonitos, expressão máxima da beleza natural do rosto humano. A evolução fez o seu trabalho, levou-nos, dentro dos nossos pequenos grupos sociais, com o toque de beleza dos nossos olhos, à igualdade, entreajuda e harmonia, e nós, para além de nos continuarmos a apaixonar por eles, vamos continuar a escondê-los para surpreendermos o nosso adversário?

Música dedicada pelo Jumento, no actual contexto, a Cavaco Silva:

IRIS - Oh MÃE


Retirado do Blog do Jumento:


É bom ver como os intelectuais do PSD respeitam os portugueses:

«O povo português acaba de demonstrar a sua fatal propensão para viver num mundo às avessas. Não há nada a fazer senão respeitá-la. Mas nenhum respeito do quadro legal, institucional e político me impede de considerar absolutamente vergonhosa e delirante a opção que o eleitorado acaba de tomar e ainda menos me impede de falar dos resultados com o mais total desprezo.

Só o mais profundo analfabetismo político, de braço dado com a mais torpe cobardia, explica esta vitória do Partido Socialista.» [Diário de Notícias]
Comentário do Jumento:

Este merdas do Vasco Graça Moura (autor do Artigo do DN) foi deputado europeu e não conseguiu aprender a comer à mesa!

sexta-feira, outubro 02, 2009


PARABÉNS AO BRASIL




Parabéns ao Brasil e à cidade do Rio de Janeiro. Pela primeira vez os Jogos Olímpicos vão ter lugar, em 2016, na América do Sul, na cidade que é um autêntico capricho da natureza pelas belezas que reúne.

Tive oportunidade de a visitar em Dezembro de 1995, fiz a festa da passagem de ano, não à janela do hotel sobranceiro à praia de Copacabana, mas no próprio areal da praia para onde, minutos antes, centenas de milhares de pessoas ao longo dos seus cerca de seis quilómetros tinham sido autenticamente “despejados” pela estrada e passeio da marginal.

Vestidos de branco, com taças e garrafas na mão, ao soar da meia-noite, as pessoas abraçaram-se e beijaram-se numa irmandade de uma dimensão e euforia impossível de conceber fora daquele contexto.

Se existe algum sítio no mundo em que num espaço aberto, uma imensa praia de uma enorme baía, nos podemos sentir fazendo parte de uma família de quase um milhão de pessoas (leu bem, é este o número), esse sítio só pode ser a praia de Copacabana da cidade do Rio de Janeiro na noite de 31 de Dezembro.

O Comité Olímpico Internacional concedeu, com justiça, ao Rio de Janeiro, uma prenda que gostava de ter sido eu a dar pois ainda hoje sinto o calor e a espontaneidade dos abraços que recebi de tantas pessoas desconhecidas apenas porque estavam felizes e eu era só mais uma no meio delas.

Impossível esquecer esse momento que para mim foi uma surpresa de todo inesperada. Eu apenas tinha ido para a marginal para ver melhor, pensava eu, o fogo de artifício.

Vi pior o espectáculo pirotécnico pois o fumo dos foguetes, por cima de nós, a partir de certa altura, constituiu uma nuvem que se instalou e por falta de vento ali ficou a tapar o céu.

Mas, como dizia o nosso querido Vasco Santana: “fogos de artifício há muitos…”

Em contrapartida, aquele clímax de carinho fraternal que por minutos invade uma população inteira e nos mete dentro dela, nos integra como se fossemos dali… seus parentes ou conhecidos de longa data, esse clímax, com aquela força e dimensão, só na festas da Passagem do Ano, no Rio de Janeiro, na praia de Copacabana.

Mais uma vez, parabéns a todos os brasileiros, em especial aos cariocas. Pessoalmente, sinto-me reconfortado.

VÍDEO

MÃES ADOPTIVAS

CANÇÕES BRASILEIRAS

VANESSA RANGEL - PALPITE

LUIS MIGUEL - JURAME



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 249


DOS ESPONSAIS DE PETO


Nunca o tinham visto assim tão limpo, sério e elegante mas, por estranho que pareça, ninguém tirou pilhéria nem o levou na gozação, a não ser seu Manuel:

- Espera lá, Peto! Vais fazer primeira comunhão? Já passaste da idade. Ou vais casar?

Osnar interrompe o português:

- Não sabes, Almirante, que hoje é o aniversário do sargento? Oferece-lhe uma coca-cola pelo menos.

- Aniversário? Pois toque lá, meus parabéns. E ordene a bebida que quiser.

Realmente estava irreconhecível o desmazelado Peto. O cabelo por uma vez assentado à força de brilhantina; gastara uma latinha inteira, o singular odor supera o cheiro dos cigarros e charutos. Relógio no pulso, pálida lembrança da tia que te estima Antonieta, camisa nova, estampados na fazenda, em vermelho e azul, lêem-se os nomes das capitais e das cidades mais importantes do mundo, com os votos e os beijos da prima Leonora – presentes trazidos pelo irmão, entregues na hora do almoço comemorativo – sapatos lustrados e calças compridas, as primeiras; finalmente a mãe se convencera. Mesmo ao torcer por tio Astério na partida amistosa contra Seixas, Peto o faz com certa contenção de quem já não é criança irreflectida.

Quando o sino da Matriz toca as nove badaladas fatais e as luzes se apagam, enquanto seu Manuel trata de acender os lampiões, Osnar faz um sinal e Peto sai discretamente, vai esperar na Praça. Se alguém reparou fez que não viu, a conversa prossegue animada; caso tio Astério o procure, Aminthas dirá que ele já foi para casa.

Alcançando-o na Praça, Osnar busca encorajá-lo:

- Não tenha medo, Sargento.

- Quem falou em medo? Estou na minha.

No escuro, Osnar sorri. Todos repetem o mesmo, ele também garantira estar tranquilo quando acompanhara o primo Epaminondas, que Deus haja. Dentro do peito o coração a descompasso.

Antes de penetrar no sendeiro, avistam o pessoal saindo do Cine Tupy, único lugar iluminado da cidade além das nove e por pouco mais: possui motor próprio.

- Hoje o padre foi ao cinema – diz Osnar, enxergando uma batina.

- É o padre não. É Ricardo. Foi com mamãe. O filme trata de negócio de religião. Deve ser ruim para burro.

Para não despregar de Osnar, Peto faltara a uma sessão de cinema pela primeira vez em três anos. A confiar nos elogios feitos durante o almoço pelo padre Mariano, um careta, a película deve ser de amargar; filme, ao ver de Peto, se não tem tiro e sacanagem, não presta. De qualquer maneira vai assisti-lo amanhã, na matiné.

Marcham na direcção oposta à entrada na cidade, encaminhando-se para as bandas da Jaqueira, onde, entre árvores, discreta, localiza-se a pensão de Zuleika Cinderela.

Na rotina da pensão, sábado é um dia especial, o de maior movimento. Pela tarde até ao começo da noite, frequentam-na os feirantes. Entram na sala, sentam-se para esperar ou escolher mulher, pedem uma cerveja ou um conhaque, contam e recontam o dinheiro, por vezes níqueis agarrados na ponta de um lenço. Alguns são fregueses certos desta ou daquela, outros preferem variar. A clientela rural dura até às sete, nuca vai além das sete e meia. A partir das nove, nove e meia, após o cinema, começam a chegar os moços da cidade.

Sábado é dia festivo, noite de dormir tarde, de vitrola e dança, de farto consumo de bebida. Entre as sete e meia e nove e meia há um tempo quase morto; as raparigas jantam, descansam, algumas vão ao cinema.

A sala está praticamente vazia quando Osnar e Peto aparecem na porta. Numa das mesas, duas mulheres conversam; noutra, Leléu cochila com uma falsa loira por quem anda de rabicho. Uma jovenzinha vai saindo, cruza com eles na entrada:

- Boa noite, seu Osnar. Tu é Peto, não é? Já ouvi falar.

- Onde vai, Maria Imaculada? – A pergunta inclui surpresa e reprovação.

- Vou ali, já volto, seu Osnar. Conte comigo.

quinta-feira, outubro 01, 2009

LEONA LEWIS - SUMMERTIME



CANÇÕES BRASILEIRAS


BETH CARVALHO - AS ROSAS NÃO FALAM



Redacção feita por uma aluna da Faculdade de Letras que obteve o 1º Prémio num Concurso promovido pelo Professor de Gramática Portuguesa



Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.

Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.

Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.


Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, sub-tónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto.
Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fernanda Braga da Cruz


ROY ORBISON - DREAM BABY




O Padre e a Pecadora



- Padre, perdoa-me porque pequei (voz feminina)

- Diga-me filha - quais são os teus pecados?

- Padre, o demónio da tentação se apoderou de mim, pobre pecadora.

- Como é isso filha?

- É que quando falo com um homem, tenho sensações no corpo que não saberia descrever...

- Filha, apesar de padre, eu também sou um homem...

- Sim, padre, por isso vim confessar-me contigo.

- Bem filha, como são essas sensações?

- Não sei bem como explicá-las - neste momento meu corpo se recusa a ficar de joelhos e necessito ficar mais a vontade.

- Sério??

- Sim, desejo relaxar - o melhor seria deitar-me...

- Filha, deitada como?

- De costas para o piso, até que passe a tensão...

- E que mais?

- É como um sofrimento que não encontro palavras.

- Continue minha filha.

- Talvez um pouco de calor me alivie...

- Calor?

- Calor padre, calor humano, que leve alívio ao meu padecer...

- E com que frequência é essa tentação?

- Permanente padre. Por exemplo, neste momento imagino suas mãos massajando a minha pele me dariam muito alívio...

- Filha?!

- Sim padre, me perdoa, mas sinto necessidade de que alguém forte me estreite em seus braços e me dê o alívio de que necessito...

- Por exemplo, eu?

- Sim padre, você é a categoria de homem que imagino poder me aliviar.

- Perdoa-me minha filha, mas preciso saber tua idade...

- Setenta e quatro, padre.

- Minha Filha, vai em paz ......... o teu problema é reumatismo...

DEMIS ROUSSOS - WHEN A CHILD IS BORN



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 248






ONDE O AUTOR SE DESMANDA EM INESPERADA LOUVAÇÃO – HÁ DE TER AS SUAS RAZÕES PARA FAZÊ-LA, COM CERTEZA.


Muito se tem falado acerca de patriotismo e de patriotas neste folhetim. No particular, torna-se indispensável reparar grave injustiça e devo corrigi-la com urgência antes de introduzir os leitores na animada e única pensão de mulheres da vida situada em Agreste, cuja direcção e propriedade Zuleika Cinderela assegura com delicadeza e eficiência.

Louvou-se com justiça o desprendimento do comandante Dário de Queluz, abandonando gloriosa carreira nos buques de guerra da Armada por amor às belezas, ao clima e à tranquilidade de Agreste. Cantaram-se loas aos poemas dedicados pelo aplaudido vate Gregório Eustáquio de Matos Barboza ao torrão natal, em cuja paisagem se inspirou; noticiou-se a importância para a cidade de seu retorno, abalado pela doença, portador de inestimável património: o sucesso, a fama, a recordação de amizades ilustres, os exemplares dos livros publicados. Traçaram-se amplas considerações em torno do apego de Ascânio Trindade ao município pobre e atrasado que ele deseja rico e progressista; morto o pai poderia ter retornado à faculdade e, após a formatura, desenvolver-se pelo Sul – não lhe faltam qualidades, reconhecidas, inclusivé, pelos directores da Brastânio. Foram lembrados nomes do passado, feitos e merecimentos.

Não se falou no entanto na dedicação, no devotamento incondicional a Sant’Ana do Agreste de Zuleika Rosa do Carmo, a Cinderela, à qual tanto devem a cidade e o município. Não somente seu nome deixou de figurar entre os dos patriotas comprovados, como sua presença nas inumeráveis páginas deste folhetim é raridade, quase sempre citação casual. Uma vez, foi vista na igreja, rodeada de raparigas, na noite de Ano-Novo; no bar os quatro amigos beberam à sua saúde, não o fazendo Astério por ausente e bem casado. Foi tudo. Injustiça das maiores, busco compensá-la.

Não houvesse ela permanecido em Agreste, desprezando ofertas diversas e vantajosas, não uma ou duas, muitas, o que seria da alegria desse perdido burgo? Que restaria aos jovens (e aos menos jovens) além das cabras? Algumas catraias asquerosas mendigando no Beco da Amargura, no Buraco Fundo, nos cantos perdidos.

Citei a pensão de Zuleika na relação dos centros culturais de Agreste. Por tê-lo feito, mereci áspera crítica de Fúlvio D’Alembert, rigoroso na literatura e na moralidade. Mas pergunto: onde tomam contacto com a civilização dos grandes centros e se educam os tabaréus vindos das plantações e sítios de Rocinha, aos sábados, para a feira? Onde encontrar, em permanência, perfume e graça, música e baile, namoro e galanteio, tertúlia, canto, recitativo um tango no rigor dos floreados, além da teoria e prática da sexualidade, ciência tão em voga nos tempos actuais?

Bem mais tristes e solitários seriam as noites e os dias de Agreste, sobretudo as noites, se Zuleika, tentada pela avidez do dinheiro, seduzida pelo fausto, houvesse partido em busca de fortuna e renome nacional, para o que contava com os atributos necessários, físicos e morais. O quotidiano de Agreste não se caracterizaria pela boa convivência, a discórdia não teria esperado pela Brastânio para estabelecer seu reino. Zuleika Cinderela distribui aprazimento e cordialidade entre o povo, sendo inclusivé responsável pela harmonia de vários casais – não fossem as raparigas a oficiar na pensão, muitos maridos teriam desertado do lar em busca de plagas mais evoluídas.

Desde cedo Zuleika recusou convites. De donas de pensão de Esplanada, Mata de São João, Caldas do Cipó, Dias D’Ávila, Feira de Santana, Itabuna, Aracajú e Salvador, todas oferecendo boas condições pois ela era uma tentação de garota, um azougue. Apelidaram-na de Cinderela por ter chegado da cozinha da fazenda Tapitanga, onde o coronel Artur exercera o direito de pernada antes dela completar catorze anos. Quando mulher feita, estabelecida com a pensão, não lhe faltaram tampouco lucrativas propostas para transferir a centros mais populosos e adiantados sua capacidade de empresária e administradora: poderia enriquecer.

Igual a Comandante, a Barbozinha, a Ascânio, revelou-se irredutível patriota. Jamais admitiu a ideia de deixar Agreste, sabendo-se não apenas querida mas indispensável. Não lhe cabia quase sempre a delicada tarefa de iniciar os meninos de boa família? Pais conscienciosos, atentos à educação dos filhos varões, depositavam nas mãos de Zuleika Cinderela o futuro dos herdeiros, colocando-os aos seus cuidados, por vias travessas de parentes e amigos suplicando-lhe ocupar-se deles, fazendo-os homens íntegros e inteiros. Por bondade e apetite, iniciava também alguns moleques, de graça. Pequena de estatura, grande de alma.

Quando, aos onze anos de idade, levado por um primo, Osnar a procurou, ela cumprira vinte e já conquistara fama de especialista na matéria. Hoje, tendo atravessado com garbo a casa dos cinquenta, se contasse os cabaços que desfolhou no curso da existência, proclamaria um recorde. Não ostenta mais o viço de mocinha, a turbulência juvenil; fez-se pousada, mas a desenvoltura é a mesma, maior é a gentileza e conserva aquele primor de corpo bem feito, a sensualidade irresistível, as marcas da bexiga esvanecendo-se no rosto sempre em festa.

Houvesse justiça no mundo, não estivessem os cidadãos de Agreste amarrados à hipocrisia dos preconceitos, Zuleika e seu modelar estabelecimento teriam sido há muito proclamados de utilidade pública. Mas a vida é um repositório de injustiças – repita-se aqui esta verdade, juntando mais um lugar comum aos tantos outros que se acumulam nas deslustradas páginas deste folhetim



OLHOS NOS OLHOS…



Por que se diz que os olhos são o espelho da alma? – Porque, para além de serem órgãos de visão, no caso particular da espécie humana, eles evoluíram para órgãos de comunicação que permitem aos seus pares perceberem, através deles, pensamentos e estados de alma.

Lembro bem, que quando era estudante, preferia as provas orais às escritas porque nestas faltavam-me os olhos dos professores para me orientarem na resposta.

Quando olhamos para uma pessoa, mesmo a uma distância razoável, graças ao contraste entre a esclerótica (o chamado branco do olho) e a íris, podemos ver com nitidez para onde os seus olhos estão a apontar, independentemente do sítio para onde o seu rosto está virado.

De mais perto, podemos ver se os olhos estão dilatados, graças ao contraste entre a íris e a pupila. Somos os únicos, entre os primatas, que possui janelas através das quais os outros podem olhar.

Os investigadores japoneses examinaram noventa e duas espécies de primatas e descobriram que somos a única na qual os contornos do olho e a posição da íris são claramente visíveis. Em todas as outras a esclerótica é pigmentada de modo a fornecer um contraste baixo. Além disso, em comparação com outros primatas, nos seres humanos a porção do olho visível é desproporcionalmente grande e alongada no sentido horizontal.

Os gorilas, por exemplo, sendo muito maiores que nós a dimensão do olho exposto é mais pequena o que faz com que os seus olhos se pareçam a contas, ou seja: enquanto os olhos dos outros primatas evoluíram para serem “difíceis” de ver, para “ocultarem” e não “revelarem” informação sobre eles próprios - qualquer coisa que será o equivalente natural, hoje, aos óculos escuros de sol ou de janelas com as cortinas corridas – os dos humanos abriram-se à “leitura” pelos outros do que vai dentro deles.

Com aqueles adereços pretendemo-nos ocultar, esconder, ver sem sermos vistos, por outras palavras, favorecem a segregação e não o igualitarismo que permitiu aos pequenos grupos humanos de caçadores recoletores estabeleceram entre os seus membros a cooperação desviando-se da sociedade dos chimpanzés.

Assim que o igualitarismo estabilizou o suficiente nas primeiras comunidades dos nossos antepassados, logo a evolução genética começou a conferir novas formas às nossas mentes e aos nossos corpos de modo a funcionarem como jogadores de uma equipa em vez de entrarem em competição com membros do nosso próprio grupo.

Um cientista americano, Michael Tomasello, está na linha da frente no estudo e investigação dos olhos dos primatas. A sua base de estudo e centro de investigação encontra-se no Jardim Zoológico de Leipzig onde comunidades de chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos, alojados separadamente em grandes instalações que recriam condições naturais, estão a ser observados e estudados podendo os estudiosos efectuar, paralelamente, investigação comportamental em crianças.

Mike desenvolveu aquilo que designa por “hipótese do olho cooperativo” para explicar como os nossos olhos se tornaram tão diferentes dos dos outros primatas.

Todos os símios estão profundamente cientes dos outros membros do seu grupo e atentos ao sítio para onde estão a olhar, com base na orientação da cabeça. Contudo, a sua utilização desta informação não é necessariamente cooperativa.

Numa sociedade onde os indivíduos dominantes fuzilam com os olhos os seus subordinados, que não se atrevem a devolver-lhes o olhar, a selecção natural favorece a ocultação da informação e já que a direcção da cabeça não pode ser ocultada, a direcção do olhar pode sê-lo minimizando a porção de olho exposta e o contraste entre a íris, a parte branca do olho e o resto do rosto.

Numa sociedade igualitária torna-se vantajoso para os membros da equipa partilhar informação, transformando os olhos, para além de órgãos de visão em órgãos de comunicação.

A páginas 240 e seguintes do livro A Evolução Para Todos, de David Sloan Wilson, encontrará a descrição do resultado deste interessante estudo.

Entretanto, continuemos a olharmo-nos, cada vez mais, “olhos nos olhos”porque talvez a informação que transmitimos através deles seja mais genuína e verdadeira do que a outra, a da palavra.

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