Memórias Futuras
Olhar o futuro pelo espelho retrovisor da história. Qual história? Que futuro?
terça-feira, julho 07, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
GAL COSTA - GABRIELA (1975)
Música gravada para a novela "Gabriela" da TV Globo, baseada no romance de Jorge Amado "Gabriela, Cravo e Canela"

NEIL LESLIE DIAMOND
Nasceu numa família judaica no Brooklyn, Nova York, em 1941. Aprendeu a tocar guitarra após lhe oferecerem uma por ocasião do 16º aniversário.
Estudou com Bárbara Streisand na Escola Secundária Abraham Lincoln e chegou a cantar com ela no coro.
Começou a sua carreira compondo canções por encomenda como: “I Am a Believer” (1966) e “A Little Bit Me, a Litle Bit You” (1967), para o Grupo “The Monkees”.
- “Cracklin Rosie”, “Sweet Caroline”, “I Am I Said”, “Don’t Bring Me Flowers” (c/ Barbara Striesand), “Song Sung Blue”, “September Morning”, “Girl, you’ll Be A Woman Soon” e muitas outras canções suas constituíram enormes e merecidos sucessos musicais.
Muitos dos seus discos ganharam certificados de ouro e platina e recebeu diversos Grammys ao longo da carreira.
A crítica americana considerou-o um dos dez maiores cantores e compositores de todos os tempos.
Do primeiro casamento com a sua professora Jay Posner teve duas filhas. Do segundo casamento, também já terminado, teve mais dois filhos.
O seu CD mais recente foi lançado em 2008, intitulado Home Before Dark.
Estudou com Bárbara Streisand na Escola Secundária Abraham Lincoln e chegou a cantar com ela no coro.
Começou a sua carreira compondo canções por encomenda como: “I Am a Believer” (1966) e “A Little Bit Me, a Litle Bit You” (1967), para o Grupo “The Monkees”.
- “Cracklin Rosie”, “Sweet Caroline”, “I Am I Said”, “Don’t Bring Me Flowers” (c/ Barbara Striesand), “Song Sung Blue”, “September Morning”, “Girl, you’ll Be A Woman Soon” e muitas outras canções suas constituíram enormes e merecidos sucessos musicais.
Muitos dos seus discos ganharam certificados de ouro e platina e recebeu diversos Grammys ao longo da carreira.
A crítica americana considerou-o um dos dez maiores cantores e compositores de todos os tempos.
Do primeiro casamento com a sua professora Jay Posner teve duas filhas. Do segundo casamento, também já terminado, teve mais dois filhos.
O seu CD mais recente foi lançado em 2008, intitulado Home Before Dark.
TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 176
EPISÓDIO Nº 176
DA PRESSA E DA AMBIÇÃO DE LUCRO, CAPÍTULO ONDE O COQUEIRAL SE VALORIZA
Em casa, apenas chegam, antes mesmo de trocarem de roupa, Tieta com urgência de tirar o vestido negro e quente, Perpétua fazendo uma pausa nas lamúrias, afirma:
- Agora temos de tratar da herança.
- Herança? – surpreende-se Tieta – O Velho não deixou nada.
- Não deixou? É o que você pensa. Todo o mês ele encafuava o dinheiro mandado por você, menos um pingo de nada para a feira e o aluguel. Nunca tirou um tostão para oferecer um presente a mim ou a Elisa, aos netos. Só fazia visita na hora do almoço ou do jantar, você não reparou? Deve ter muito dinheiro escondido.
Economia de mais de dez anos, uns doze, bolada respeitável. Para fazer o quê com tanto dinheiro? Perpétua se exalta ao contar, a voz desagradável, sibilante, ainda mais ríspida devido ao tema da conversa:
- Várias vezes perguntei a ele o que pensava fazer com esse dinheiro, me respondia que me fosse meter com a minha vida. Aconselhei a colocar o dinheiro na Caixa Económica ou a botar na mão de seu Modesto, rendendo juros. Não quis, não tinha confiança em ninguém, muito menos em banco. Penso que guardava sem necessidade – baixa a voz – de ruim que era. Deus me perdoe.
- Tenha piedade, Perpétua. Não faz ainda uma hora que acabamos de enterrar o Velho; antes de pensar nos defeitos dele, a gente deve lembrar-se que era nosso pai.
Perpétua recua, não deseja desagradar a Tieta:
- Você tem razão. Padre Mariano também me diz que me falta o dom da misericórdia. Meu dever é estar chorando, eu sei. Mas o que é que você quer? Quando penso naquilo que a gente curtiu na mão dele… Tu é quem bem sabe.
- Sei, sim. Mas assim mesmo sinto a morte dele, era meu pai, tinha defeitos e qualidades, boas qualidades. Era franco e quando queria uma coisa sabia brigar por obtê-la.
- Qualidades? Te esconjuro. Mas morreu acabou-se. Voltando ao que interessa, é preciso descobrir onde escondia o dinheiro. Talvez mãe Tonha saiba. Encontrando, a gente retira uma parte para as despesas feitas com a sentinela e o enterro, tu não estava tive de pagar tudo; outra para mandar dizer as missa de sétimo e de trinta dias. O resto se divide entre mãe Tonha e nós três. Metade para ela, metade para nós. Se alguém quiser outras missas que as pague de seu bolso.
No receio de escandalizar irmã rica, a tia generosa, anuncia soberba prova de amor filial:
- Eu mesma vou mandar rezar mais três: uma em meu nome, duas em nome de cada um dos meninos. E todos os anos, enquanto Deus me der vida, mandarei celebrar missa no dia da morte dele – Não resiste e acrescenta: - Creio que isso é melhor do que inventar qualidades que ele não tinha.
Tieta sente-se cansada e farta. Não adianta discutir, tempo perdido: nenhum argumento mudará a opinião de Perpétua. Retira-se:
- Vou trocar de roupa, tomar banho e dormir, estou exausta.
- Agora temos de tratar da herança.
- Herança? – surpreende-se Tieta – O Velho não deixou nada.
- Não deixou? É o que você pensa. Todo o mês ele encafuava o dinheiro mandado por você, menos um pingo de nada para a feira e o aluguel. Nunca tirou um tostão para oferecer um presente a mim ou a Elisa, aos netos. Só fazia visita na hora do almoço ou do jantar, você não reparou? Deve ter muito dinheiro escondido.
Economia de mais de dez anos, uns doze, bolada respeitável. Para fazer o quê com tanto dinheiro? Perpétua se exalta ao contar, a voz desagradável, sibilante, ainda mais ríspida devido ao tema da conversa:
- Várias vezes perguntei a ele o que pensava fazer com esse dinheiro, me respondia que me fosse meter com a minha vida. Aconselhei a colocar o dinheiro na Caixa Económica ou a botar na mão de seu Modesto, rendendo juros. Não quis, não tinha confiança em ninguém, muito menos em banco. Penso que guardava sem necessidade – baixa a voz – de ruim que era. Deus me perdoe.
- Tenha piedade, Perpétua. Não faz ainda uma hora que acabamos de enterrar o Velho; antes de pensar nos defeitos dele, a gente deve lembrar-se que era nosso pai.
Perpétua recua, não deseja desagradar a Tieta:
- Você tem razão. Padre Mariano também me diz que me falta o dom da misericórdia. Meu dever é estar chorando, eu sei. Mas o que é que você quer? Quando penso naquilo que a gente curtiu na mão dele… Tu é quem bem sabe.
- Sei, sim. Mas assim mesmo sinto a morte dele, era meu pai, tinha defeitos e qualidades, boas qualidades. Era franco e quando queria uma coisa sabia brigar por obtê-la.
- Qualidades? Te esconjuro. Mas morreu acabou-se. Voltando ao que interessa, é preciso descobrir onde escondia o dinheiro. Talvez mãe Tonha saiba. Encontrando, a gente retira uma parte para as despesas feitas com a sentinela e o enterro, tu não estava tive de pagar tudo; outra para mandar dizer as missa de sétimo e de trinta dias. O resto se divide entre mãe Tonha e nós três. Metade para ela, metade para nós. Se alguém quiser outras missas que as pague de seu bolso.
No receio de escandalizar irmã rica, a tia generosa, anuncia soberba prova de amor filial:
- Eu mesma vou mandar rezar mais três: uma em meu nome, duas em nome de cada um dos meninos. E todos os anos, enquanto Deus me der vida, mandarei celebrar missa no dia da morte dele – Não resiste e acrescenta: - Creio que isso é melhor do que inventar qualidades que ele não tinha.
Tieta sente-se cansada e farta. Não adianta discutir, tempo perdido: nenhum argumento mudará a opinião de Perpétua. Retira-se:
- Vou trocar de roupa, tomar banho e dormir, estou exausta.
segunda-feira, julho 06, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
ROBERTO CARLOS e MARIA BETÂNIA - DESABAFO
Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Música do LP "Roberto Carlos" de 1979. Roberto Carlos é o artista brasileiro que mais discos vendeu e o mais querido do público. Ele e Erasmo conheceram-se em 1958 no Rio de Janeiro.

RUI VELOSO
Em 1996, integrou o agrupamento “Rio Grande”, formado por Tim (Xutos e Ponta Pés), João Gil (Ala dos Namorados), Jorge Palma e Vitorino e que possuía um estilo de música popular com influências alentejanas gravando 2 CD com grande sucesso.
Em 2003 a mesma formação voltou a juntar-se num outro projecto denominado “Cabeças no Ar” que teve igualmente muito sucesso, nomeadamente, com a canção “Primeiro Beijo.
Em 2006 cumpre 25 anos de carreira, ocasião que brinda com três concertos, dois no Porto e um no Pavilhão Atlântico que levaram o público à apoteose total.
Recentemente cumpriu o sonho de abrir a sua própria editora “Estúdio de Vale de Lobos”.
Respectivamente do “Rio Grande” e do “Cabeças no Ar”:
“Postal de Correio” e “Primeiro Beijo”.
Em 2003 a mesma formação voltou a juntar-se num outro projecto denominado “Cabeças no Ar” que teve igualmente muito sucesso, nomeadamente, com a canção “Primeiro Beijo.
Em 2006 cumpre 25 anos de carreira, ocasião que brinda com três concertos, dois no Porto e um no Pavilhão Atlântico que levaram o público à apoteose total.
Recentemente cumpriu o sonho de abrir a sua própria editora “Estúdio de Vale de Lobos”.
Respectivamente do “Rio Grande” e do “Cabeças no Ar”:
“Postal de Correio” e “Primeiro Beijo”.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 175
EPISÓDIO Nº 175
ONDE SE ENTERRA O VELHO ZÉ ESTEVES, LIVRANDO DE SUA RÚSTICA E INSOLENTE PRESENÇA AS APRAZÌVEIS PÁGINAS DESTE EMOCIONANTE FOLHETIM
O enterro de Zé Esteves serviu para provar o prestígio de Tieta. Tivesse o Velho batido as botas antes de ela voltar à cidade, paulista, viúva e rica e, além da família, talvez o acompanhamento não reunisse sequer uma dúzia de pessoas.
Devido à estada de Tieta transformou-se num acontecimento. Antes da saída do féretro, padre Mariano celebrou missa de corpo presente em casa de Elisa, rogando a Deus receber em seu seio aquela alma, amparando-a com a sua infinita misericórdia. De muita misericórdia precisa a alma de Zé Esteves, pensa o padre enquanto pronuncia palavras de louvor e sentimento. Buscou qualidades do finado a elogiar e, não as encontrando, elogiou as filhas, possuidoras as três de virtudes peregrinas, citando a devoção de Perpétua, um dos pilares da paróquia, modelo de mãe católica, a modéstia de Elisa e o seu devotamento ao marido, esposa exemplar e, por fim, os excelsos predicados de Antonieta, cujo cônjuge portara, devido a méritos excepcionais, título e consideração do Vaticano, concedido pelo Pai da Cristandade, Sua Santidade o Papa, o que a fazia pessoa da Igreja. Com sua frutuosa visita, propiciara a Agreste benfeitoria de incalculável valor, a luz de Paulo Afonso, e à Matriz concedera a nova instalação eléctrica. Dera, ademais, heróica prova de dedicação e amor ao próximo, atirando-se às chamas, com risco de vida, para salvar de morte horrível uma pobre anciã. Pouco faltou para os assistentes aplaudirem a eloquência do reverendo ma exaltação das virtudes das irmãs Esteves, a Batista, a Simas e a Cantarelli; da última as virtudes e os feitos.
A população compareceu em massa. Nas alças do caixão além de Astério, os notáveis da cidade: o vate Barbozinha, Modesto Pires, o comandante, Doutor Vilasboas, Osnar, Ascânio Trindade, Ascânio apresentara pêsames em nome do padrinho, coronel Artur de Figueiredo, prefeito em exercício que se deixara ficar na Tapitanga. Não comparece a enterro de velho. Morte e funeral de menores de sessenta não lhe fazem mossa. Mas falecimentos de ancião deixam-no amofinado. Manda pedir desculpa às irmãs e a Astério, aparecerá depois para as condolências.
Do bolso de Ascânio sobram as páginas dos jornais enviadas pelo doutor Mirko Stefano. Pretende esfregá-los nas fuças do Comandante, fazendo-o engolir o insulto, a acusação de desonestidade. Esfregar, engolir: força de expressão. Tais pretensões não em violências físicas e sim em reparação moral. Segurando a alça do caixão, ajudando a depositar na cova o corpo de Zé Esteves, Ascânio Trindade estufa o peito, eleva e exibe o altivo penacho de capitão dos mosquiteiros de Agreste, D’Artagnan da aurora.
O enterro de Zé Esteves serviu para provar o prestígio de Tieta. Tivesse o Velho batido as botas antes de ela voltar à cidade, paulista, viúva e rica e, além da família, talvez o acompanhamento não reunisse sequer uma dúzia de pessoas.
Devido à estada de Tieta transformou-se num acontecimento. Antes da saída do féretro, padre Mariano celebrou missa de corpo presente em casa de Elisa, rogando a Deus receber em seu seio aquela alma, amparando-a com a sua infinita misericórdia. De muita misericórdia precisa a alma de Zé Esteves, pensa o padre enquanto pronuncia palavras de louvor e sentimento. Buscou qualidades do finado a elogiar e, não as encontrando, elogiou as filhas, possuidoras as três de virtudes peregrinas, citando a devoção de Perpétua, um dos pilares da paróquia, modelo de mãe católica, a modéstia de Elisa e o seu devotamento ao marido, esposa exemplar e, por fim, os excelsos predicados de Antonieta, cujo cônjuge portara, devido a méritos excepcionais, título e consideração do Vaticano, concedido pelo Pai da Cristandade, Sua Santidade o Papa, o que a fazia pessoa da Igreja. Com sua frutuosa visita, propiciara a Agreste benfeitoria de incalculável valor, a luz de Paulo Afonso, e à Matriz concedera a nova instalação eléctrica. Dera, ademais, heróica prova de dedicação e amor ao próximo, atirando-se às chamas, com risco de vida, para salvar de morte horrível uma pobre anciã. Pouco faltou para os assistentes aplaudirem a eloquência do reverendo ma exaltação das virtudes das irmãs Esteves, a Batista, a Simas e a Cantarelli; da última as virtudes e os feitos.
A população compareceu em massa. Nas alças do caixão além de Astério, os notáveis da cidade: o vate Barbozinha, Modesto Pires, o comandante, Doutor Vilasboas, Osnar, Ascânio Trindade, Ascânio apresentara pêsames em nome do padrinho, coronel Artur de Figueiredo, prefeito em exercício que se deixara ficar na Tapitanga. Não comparece a enterro de velho. Morte e funeral de menores de sessenta não lhe fazem mossa. Mas falecimentos de ancião deixam-no amofinado. Manda pedir desculpa às irmãs e a Astério, aparecerá depois para as condolências.
Do bolso de Ascânio sobram as páginas dos jornais enviadas pelo doutor Mirko Stefano. Pretende esfregá-los nas fuças do Comandante, fazendo-o engolir o insulto, a acusação de desonestidade. Esfregar, engolir: força de expressão. Tais pretensões não em violências físicas e sim em reparação moral. Segurando a alça do caixão, ajudando a depositar na cova o corpo de Zé Esteves, Ascânio Trindade estufa o peito, eleva e exibe o altivo penacho de capitão dos mosquiteiros de Agreste, D’Artagnan da aurora.
domingo, julho 05, 2009
Máquina de Som
Esta incrível máquina foi construida graças a um esforço entre o Conservatório de Música Robert M. Trammel e a Escola de Engenharia Sharon Wick, na Universidade de Iowa e representou 13.024 horas de trabalho nas tarefas de montagem, alinhamento, calibração e decoração antes de poder gravar este vìdeo.
Hoje em dia, pode ser observada em funcionamento no Matthow Gerhard Hall, da Indian University, Bloomington.
Repare que nenhuma bola cai ao chão. Espantosa de precisão!
CANÇÕES BRASILEIRAS
COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ - SIMONE e DANIEL GONZAGA (filho de Gonzaguinha)
Letra e Música de GONZAGUINHA (falecido precocemente aos 45 anos)

RUI VELOSO
De tal forma é evidente o seu gosto e preferência pelo ritmo dos “Blues” que, internacionalmente, é reconhecido como o mais autêntico “bluesman” português.
A sua obra é notável e foi reconhecida pelo Estado Português na figura do então Presidente da República, Mário Soares, que lhe atribuiu a Grã – Cruz da Ordem do Infante. É o segundo nome da música portuguesa que mais páginas tem na Enciclopédia da Música Portuguesa só ultrapassado por Amália Rodrigues.
Hoje escolhi duas das suas muitas canções que foram grandes sucessos: “Não Há Estrelas no Céu” e “Porto Covo”.
A sua obra é notável e foi reconhecida pelo Estado Português na figura do então Presidente da República, Mário Soares, que lhe atribuiu a Grã – Cruz da Ordem do Infante. É o segundo nome da música portuguesa que mais páginas tem na Enciclopédia da Música Portuguesa só ultrapassado por Amália Rodrigues.
Hoje escolhi duas das suas muitas canções que foram grandes sucessos: “Não Há Estrelas no Céu” e “Porto Covo”.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 174
EPISÓDIO Nº 174
Antes de entrar no assunto, relatou a Jarde e Josafá a aparição da máquina voadora, os homens de binóculos especulando os terrenos do coqueiral de Mangue Seco. Josafá ouviu atento mas não comentou, Jarde disse:
- É o pessoal da tal fábrica que acaba com os peixes. Não soube?
Mas Zé Esteves nem respondeu, ocupado em regatear o preço com Josafá, obteve pequena redução. Acertados os detalhes – ainda naquela tarde mandaria Pirica novamente a Mangue Seco com um recado para Tieta por causa do dinheiro a completar – sem poder esconder a satisfação foi com Jarde e Josafá ver as cabras no cercado. Enquanto discutiam haviam tomado uns tragos de cachaça para cortar o cansaço de Zé Esteves e desanuviar o rosto triste de Jarde.
No curral voltou a admirar o pai do rebanho, bode novo e bonito, de avantajado porte e berro forte, de nome Seu Mé. Josafá puxou o animal pelos chifres para que Zé Esteves melhor o observasse. Ao comentar-lhe as trouxas, quimbas de respeito, o novo dono abriu na gargalhada, o homem mais feliz do mundo. Tão feliz que lhe faltou a respiração; não cabendo no peito a alegria, o coração falhou sob o peso imenso.
Rindo estava, rindo arriou no chão, a mão estendida parta o bode, apontando-lhe os bagos; assim contara Jarde a Astério Simas ao lhe entregar o corpo do sogro.
Ia o velório em meio, entupida a pequena sala de Astério, gente conversando na calçada, quando, acompanhada por Ricardo, pelo Comandante Dário e por dona Laura, Tieta chegou de Mangue Seco onde a tinham ido prevenir.
- Teve o troço no meio da gaitada, nem sentiu – Astério repete à cunhada os detalhes ouvidos de Jarde e Josafá.
- Morreu de alegria… - diz Tieta.
Naquela hora não sabia ainda da participação – indirecta – da Brastânio na morte do velho Zé Esteves. Precedida pelo cunhado, anda para o caixão, se abraça com Tonha. As irmãs acorrem, alguém acorda Peto. Também Leonora se aproxima do grupo familiar e beija Mãezinha.
Para os parentes de Agreste a morte de Zé Esteves é uma carta de alforria. Tieta, porém, reencontrara o pai apenas há um mês. Durante vinte e seis anos não o vira, dele não sofreu agravo desde a surra e expulsão distantes e, nesses dias em Agreste, divertira-se com os seus repentes, alegrando-se ao vê-lo chegar mascando fumo, ranzinza e implicante, mas ainda capaz de ambição, de projectos e de alegria., sabendo rir, insolente comandante de cajado em punho. Reconhecia-se no Velho, tanto se pareciam pai e filha.
Astério enverga cara compungida, Elisa chora aos soluços, Perpétua enxuga os olhos com o lenço negro, clama aos céus a dor de filha inconsolável. Tieta não chora nem eleva a voz. Passa de leve a mão no rosto do pai, adusta face de pedra, escura. Das três irmãs, somente ela perdera bem precioso, ente querido, somente ela está órfã. Ela e Tonha a desvalida Tonha.
Morrera rindo para o bode, feliz com as suas novas cabras, em seu reconquistado pedaço de terra. Tieta se apodera do bordão abandonado a um canto da parede, anda para o passeio onde a conversa corre animada como convém a uma boa sentinela.
- É o pessoal da tal fábrica que acaba com os peixes. Não soube?
Mas Zé Esteves nem respondeu, ocupado em regatear o preço com Josafá, obteve pequena redução. Acertados os detalhes – ainda naquela tarde mandaria Pirica novamente a Mangue Seco com um recado para Tieta por causa do dinheiro a completar – sem poder esconder a satisfação foi com Jarde e Josafá ver as cabras no cercado. Enquanto discutiam haviam tomado uns tragos de cachaça para cortar o cansaço de Zé Esteves e desanuviar o rosto triste de Jarde.
No curral voltou a admirar o pai do rebanho, bode novo e bonito, de avantajado porte e berro forte, de nome Seu Mé. Josafá puxou o animal pelos chifres para que Zé Esteves melhor o observasse. Ao comentar-lhe as trouxas, quimbas de respeito, o novo dono abriu na gargalhada, o homem mais feliz do mundo. Tão feliz que lhe faltou a respiração; não cabendo no peito a alegria, o coração falhou sob o peso imenso.
Rindo estava, rindo arriou no chão, a mão estendida parta o bode, apontando-lhe os bagos; assim contara Jarde a Astério Simas ao lhe entregar o corpo do sogro.
Ia o velório em meio, entupida a pequena sala de Astério, gente conversando na calçada, quando, acompanhada por Ricardo, pelo Comandante Dário e por dona Laura, Tieta chegou de Mangue Seco onde a tinham ido prevenir.
- Teve o troço no meio da gaitada, nem sentiu – Astério repete à cunhada os detalhes ouvidos de Jarde e Josafá.
- Morreu de alegria… - diz Tieta.
Naquela hora não sabia ainda da participação – indirecta – da Brastânio na morte do velho Zé Esteves. Precedida pelo cunhado, anda para o caixão, se abraça com Tonha. As irmãs acorrem, alguém acorda Peto. Também Leonora se aproxima do grupo familiar e beija Mãezinha.
Para os parentes de Agreste a morte de Zé Esteves é uma carta de alforria. Tieta, porém, reencontrara o pai apenas há um mês. Durante vinte e seis anos não o vira, dele não sofreu agravo desde a surra e expulsão distantes e, nesses dias em Agreste, divertira-se com os seus repentes, alegrando-se ao vê-lo chegar mascando fumo, ranzinza e implicante, mas ainda capaz de ambição, de projectos e de alegria., sabendo rir, insolente comandante de cajado em punho. Reconhecia-se no Velho, tanto se pareciam pai e filha.
Astério enverga cara compungida, Elisa chora aos soluços, Perpétua enxuga os olhos com o lenço negro, clama aos céus a dor de filha inconsolável. Tieta não chora nem eleva a voz. Passa de leve a mão no rosto do pai, adusta face de pedra, escura. Das três irmãs, somente ela perdera bem precioso, ente querido, somente ela está órfã. Ela e Tonha a desvalida Tonha.
Morrera rindo para o bode, feliz com as suas novas cabras, em seu reconquistado pedaço de terra. Tieta se apodera do bordão abandonado a um canto da parede, anda para o passeio onde a conversa corre animada como convém a uma boa sentinela.
sábado, julho 04, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
CLAUDETTE SOARES - O CRAVO BRIGOU COM A ROSA (1958)
Uma das principais vozes do Samba Rock e Bossa Nova
Uma das principais vozes do Samba Rock e Bossa Nova
sexta-feira, julho 03, 2009

RUI VELOSO
Cantor e compositor, natural de Lisboa, cresceu no Porto e iniciou-se na música aos seis anos de idade tocando harmónica.
Hoje está a caminho dos 30 anos de carreira depois de ter sido considerado o “Pai do Rock Português” movimento musical surgido na década de 80.
Em 1976 conhece Carlos Tê que se tornaria o autor das letras dos seus maiores sucessos.
Em 1979, assina contrato com a Valentim de Carvalho formando, no ano seguinte a “Banda Sonora” composta por Zé Nabo e Ramon Galarza na bateria.
O seu primeiro Álbum, “Ar de Rock", alcança de imediato grande sucesso e canções como “Sei de Uma Camponesa”, “Rapariguinha do Shopping” e “Chico Fininho” atingem o top das vendas.
Para mim, ele é dos melhores músicos portugueses e muitas das suas canções, nessa ligação “mágica” com o letrista Carlos Tê, são de uma beleza difícil de igualar.
As duas músicas que vamos colocar de seguida são do seu primeiro Álbum e revelam a influência e atracção que desde sempre sentiu pelo ritmo dos blues.
Em 1976 conhece Carlos Tê que se tornaria o autor das letras dos seus maiores sucessos.
Em 1979, assina contrato com a Valentim de Carvalho formando, no ano seguinte a “Banda Sonora” composta por Zé Nabo e Ramon Galarza na bateria.
O seu primeiro Álbum, “Ar de Rock", alcança de imediato grande sucesso e canções como “Sei de Uma Camponesa”, “Rapariguinha do Shopping” e “Chico Fininho” atingem o top das vendas.
Para mim, ele é dos melhores músicos portugueses e muitas das suas canções, nessa ligação “mágica” com o letrista Carlos Tê, são de uma beleza difícil de igualar.
As duas músicas que vamos colocar de seguida são do seu primeiro Álbum e revelam a influência e atracção que desde sempre sentiu pelo ritmo dos blues.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 173
EPISÓDIO Nº 173
O Velho ri, riso encatarrado, de fumo de corda, cavo e grosso, satisfeito e cúmplice. A areia voa sobre eles, entranha-se nos cabelos anelados de Tieta, na crespa carapinha de Zé Esteves.
- Guardei todos os meses uma parte do dinheiro que tu mandava, tirando o bastante para o aluguel e para a comida, juntando o resto na ideia de um dia comprar uma nesga de terra e um par de cabras. O que juntei dá para pagar bem mais de metade do que Josafá está pedindo pela criação de Jarde. Mas ele quer tudo à vista, não fia nem um vintém – Acrescenta, para animá-la:
- Vendo o dinheiro vivo é capaz de fazer uma redução.
- Quanto falta, Pai?
Tieta pensa na maleta, entupida de notas quando desembarcou, agora quase vazia. Fizera despesas grandes em Agreste, comprara uma casa, construíra outra, adquirira móveis, encomendara na Bahia banheiras, latrinas e espelhos, ajudara meio mundo. Um pedaço de terras, cabras e um bode inteiro para alegrar os últimos anos da vida do velho Zé Esteves, dinheiro jogado fora. Não já lhe deu segurança na velhice, não vai tirá-lo do buraco em que vive para residir em casa confortável, para Agreste luxuosa? Ainda quer mais? Um abuso. Tieta não gosta de abusos nem é de desperdícios.
Reflecte-se a aflição no rosto súplice do Velho, ali parado, à espera de resposta, no alto das dunas de Mangue Seco, nas mãos o bordão do tempo em que possuía rebanho grande e impunha sua vontade às filhas, baixando-lhes nas pernas e nas costas a taça de couro cru e aquele mesmo cajado de pastor. Ao senti-lo agoniado, Tieta recorda Filipe a lhe explicar quanto é mais profunda e pura a alegria de dar do que a de receber, quando, para satisfazer-lhe a fantasia e a vaidade, comprava-lhe caras e absurdas inutilidades. Felipe lhe ensinara o gosto singular de fazer os outros felizes. Se fosse necessário descontaria um cheque com Modesto Pires, o dono do curtume se pusera às ordens para o caso de ela vir a necessitar de dinheiro líquido.
- Pois vá e feche o negócio, Pai.
Zé Esteves ficou mudo e por um átimo a face se lhe contraiu num ríctus doloroso, tanta alegria semelhando dor aguda. Empunhando o bordão, num esforço levanta-se e desce das dunas com a filha ao lado, ela sorrindo contente ao vê-lo sem palavras. Andam juntos até à praia onde o barco de Pirica estava à espera. Antes de embarcar o Velho tenta beijar as mãos da filha mas Tieta não consente. O ruído do motor dando a partida foi abafado por outro muito maior: um helicóptero vindo do mar, sobrevoou o coqueiral, tão baixo a ponto de se poder ver três pessoas na cabine, duas delas de binóculos examinando os arredores.
Ao chegar a Agreste, Zé Esteves não parou sequer em casa, tampouco na casa nova para ver o andamento das obras, nem no bar para contar do helicóptero. Do desembarcadouro saiu directo para a estrada de Rocinha, tomando pela terceira vez no mesmo dia o caminho das terras de Jarde. Apoiava-se no cajado, a subida das dunas deixara-lhe as pernas trôpegas e a respiração curta.
- Guardei todos os meses uma parte do dinheiro que tu mandava, tirando o bastante para o aluguel e para a comida, juntando o resto na ideia de um dia comprar uma nesga de terra e um par de cabras. O que juntei dá para pagar bem mais de metade do que Josafá está pedindo pela criação de Jarde. Mas ele quer tudo à vista, não fia nem um vintém – Acrescenta, para animá-la:
- Vendo o dinheiro vivo é capaz de fazer uma redução.
- Quanto falta, Pai?
Tieta pensa na maleta, entupida de notas quando desembarcou, agora quase vazia. Fizera despesas grandes em Agreste, comprara uma casa, construíra outra, adquirira móveis, encomendara na Bahia banheiras, latrinas e espelhos, ajudara meio mundo. Um pedaço de terras, cabras e um bode inteiro para alegrar os últimos anos da vida do velho Zé Esteves, dinheiro jogado fora. Não já lhe deu segurança na velhice, não vai tirá-lo do buraco em que vive para residir em casa confortável, para Agreste luxuosa? Ainda quer mais? Um abuso. Tieta não gosta de abusos nem é de desperdícios.
Reflecte-se a aflição no rosto súplice do Velho, ali parado, à espera de resposta, no alto das dunas de Mangue Seco, nas mãos o bordão do tempo em que possuía rebanho grande e impunha sua vontade às filhas, baixando-lhes nas pernas e nas costas a taça de couro cru e aquele mesmo cajado de pastor. Ao senti-lo agoniado, Tieta recorda Filipe a lhe explicar quanto é mais profunda e pura a alegria de dar do que a de receber, quando, para satisfazer-lhe a fantasia e a vaidade, comprava-lhe caras e absurdas inutilidades. Felipe lhe ensinara o gosto singular de fazer os outros felizes. Se fosse necessário descontaria um cheque com Modesto Pires, o dono do curtume se pusera às ordens para o caso de ela vir a necessitar de dinheiro líquido.
- Pois vá e feche o negócio, Pai.
Zé Esteves ficou mudo e por um átimo a face se lhe contraiu num ríctus doloroso, tanta alegria semelhando dor aguda. Empunhando o bordão, num esforço levanta-se e desce das dunas com a filha ao lado, ela sorrindo contente ao vê-lo sem palavras. Andam juntos até à praia onde o barco de Pirica estava à espera. Antes de embarcar o Velho tenta beijar as mãos da filha mas Tieta não consente. O ruído do motor dando a partida foi abafado por outro muito maior: um helicóptero vindo do mar, sobrevoou o coqueiral, tão baixo a ponto de se poder ver três pessoas na cabine, duas delas de binóculos examinando os arredores.
Ao chegar a Agreste, Zé Esteves não parou sequer em casa, tampouco na casa nova para ver o andamento das obras, nem no bar para contar do helicóptero. Do desembarcadouro saiu directo para a estrada de Rocinha, tomando pela terceira vez no mesmo dia o caminho das terras de Jarde. Apoiava-se no cajado, a subida das dunas deixara-lhe as pernas trôpegas e a respiração curta.

MANUEL PINHO
Vi em directo e, num primeiro momento, por distracção minha, pensei presenciar uma cena vulgar de um baile do entrudo mas os papelinhos e as serpentinas não apareceram vindas do lado contrário e, reparando melhor, aquilo era mesmo o hemiciclo da Assembleia da República no dia do Debate do Estado da Nação.
Mas então, que aconteceu?
Como pode um ministro, em plena sessão, quando o chefe do governo debate com a oposição em luta renhida de “bola cá, bola lá”, chamar por gestos bem explícitos, cornudo ao deputado do PCP Bernardino Soares?
De que espécie de consistência emocional é este homem dotado?
Que mecanismos de controle tem sobre ele próprio para incorrer num disparate daqueles?
As gafes verbais de Manuel Pinho já eram conhecidas, os seus argumentos e explicações primárias e inconvenientes, foram salpicando o seu mandato de ministro que decidiu encerrar agora com “chave d’ouro” empalitando o “oponente”, em gíria tauromáquica.
Uma nota de boa disposição, mesmo em momentos solenes como é o debate da Nação, não tem mal nenhum: descomprime, alegra, baixa a tensão, mas nem todo o bom humor deste mundo e do outro, de acordo com os nossos padrões actuais, poderia justificar a atitude de Manuel Pinho.
Pior ainda, é que o senhor, interpelado sobre a ocorrência de que tinha sido o autor afirmou, com toda a ingenuidade dos seus olhinhos marotos que não via razão nenhuma para pedir a demissão.
Claro que, no futuro, quando se fizer referência o Dr. Manuel Pinho, que foi ministro da Economia e da Inovação do governo de maioria de Sócrates, não irão dizer, pelo menos em primeiro lugar, que foi o ministro que inspirou o programa tecnológico, colocou em andamento a construção das barragens em falta no nosso país, deu vida às eólicas para aproveitar as fontes de energia renováveis e diminuir, assim, a extrema dependência do petróleo com impacto terrível na nossa dívida ao exterior.
Muito menos, será lembrado pela sua enorme capacidade de trabalho ou pelo seu empenho e voluntarismo para salvar da falência empresas importantes do país.
Em tempos, falava-se muito em governos sombra. Foi pena que Manuel Pinho não tivesse sido capaz de se manter na sombra ou tivesse recrutado demasiado tarde um assessor para cuidar da sua imagem.
Mas estamos no fim da legislatura, nada está perdido, amanhã é um novo dia e o país vai sobreviver.
Sócrates perdoou-lhe. À noite levou-o a jantar com António Costa.
Mas então, que aconteceu?
Como pode um ministro, em plena sessão, quando o chefe do governo debate com a oposição em luta renhida de “bola cá, bola lá”, chamar por gestos bem explícitos, cornudo ao deputado do PCP Bernardino Soares?
De que espécie de consistência emocional é este homem dotado?
Que mecanismos de controle tem sobre ele próprio para incorrer num disparate daqueles?
As gafes verbais de Manuel Pinho já eram conhecidas, os seus argumentos e explicações primárias e inconvenientes, foram salpicando o seu mandato de ministro que decidiu encerrar agora com “chave d’ouro” empalitando o “oponente”, em gíria tauromáquica.
Uma nota de boa disposição, mesmo em momentos solenes como é o debate da Nação, não tem mal nenhum: descomprime, alegra, baixa a tensão, mas nem todo o bom humor deste mundo e do outro, de acordo com os nossos padrões actuais, poderia justificar a atitude de Manuel Pinho.
Pior ainda, é que o senhor, interpelado sobre a ocorrência de que tinha sido o autor afirmou, com toda a ingenuidade dos seus olhinhos marotos que não via razão nenhuma para pedir a demissão.
Claro que, no futuro, quando se fizer referência o Dr. Manuel Pinho, que foi ministro da Economia e da Inovação do governo de maioria de Sócrates, não irão dizer, pelo menos em primeiro lugar, que foi o ministro que inspirou o programa tecnológico, colocou em andamento a construção das barragens em falta no nosso país, deu vida às eólicas para aproveitar as fontes de energia renováveis e diminuir, assim, a extrema dependência do petróleo com impacto terrível na nossa dívida ao exterior.
Muito menos, será lembrado pela sua enorme capacidade de trabalho ou pelo seu empenho e voluntarismo para salvar da falência empresas importantes do país.
Em tempos, falava-se muito em governos sombra. Foi pena que Manuel Pinho não tivesse sido capaz de se manter na sombra ou tivesse recrutado demasiado tarde um assessor para cuidar da sua imagem.
Mas estamos no fim da legislatura, nada está perdido, amanhã é um novo dia e o país vai sobreviver.
Sócrates perdoou-lhe. À noite levou-o a jantar com António Costa.
...Também, logo com o Bernardino do PCP, que tece elogios ao regime esquizofrénico e psicopata da Coreia do Norte, o do "amado líder"...!!!
quinta-feira, julho 02, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
IVETE SALGADO e JORGE ARAGÃO - LOUCURAS DE UMA PAIXÃO
Música e Letra de Mauro Dinis e Ratinho. Música lançada no LP/CD "Sambista a Bordo" de 1997 de Jorge Aragão
Música e Letra de Mauro Dinis e Ratinho. Música lançada no LP/CD "Sambista a Bordo" de 1997 de Jorge Aragão

ANTÓNIO
VARIAÇÕES
Em 1981, antes de ter lançado qualquer disco, vai ao Programa de TV “O Passeio dos Alegres” de Júlio Isidro e a sua música e presença inconfundível, granjearam-lhe de imediato fama considerável.
Editou o seu primeiro Single com o tema “Povo que Lavas no Rio” de Amália Rodrigues que era a sua maior referência e “Estou no Além”.
Em 1984 lançou o seu segundo trabalho “Dar e Receber”. Era Fevereiro e em 22 de Abril, Variações daria o seu último concerto. Depois disso apareceu apenas mais uma vez, no programa “A Festa Continua”, de Júlio Isidro.
Quando “Canção do Engate” invade as rádios, já António Variações se encontrava internado no Hospital Pulido Valente devido a um problema brônquico-asmático. Transferido para a clínica da Cruz Vermelha morreu a 13 de Junho, vítima de broncopneumonia, provavelmente causada pela sida. O actor holandês Jelle Balder, com quem manteve um relacionamento amoroso, foi seu companheiro até à morte.
Especula-se que terá sido a primeira figura pública a morrer de sida. Vinte anos depois da sua morte, em Dezembro de 2004, foi lançado um Álbum com canções da sua autoria que nunca tinham sido editadas.
Sete conhecidos músicos portugueses formaram a banda Humanos e gravaram 12 músicas seleccionadas de um conjunto de cassetes “perdidas” no património de Variações administradas pelo irmão Jaime Ribeiro.
Editou o seu primeiro Single com o tema “Povo que Lavas no Rio” de Amália Rodrigues que era a sua maior referência e “Estou no Além”.
Em 1984 lançou o seu segundo trabalho “Dar e Receber”. Era Fevereiro e em 22 de Abril, Variações daria o seu último concerto. Depois disso apareceu apenas mais uma vez, no programa “A Festa Continua”, de Júlio Isidro.
Quando “Canção do Engate” invade as rádios, já António Variações se encontrava internado no Hospital Pulido Valente devido a um problema brônquico-asmático. Transferido para a clínica da Cruz Vermelha morreu a 13 de Junho, vítima de broncopneumonia, provavelmente causada pela sida. O actor holandês Jelle Balder, com quem manteve um relacionamento amoroso, foi seu companheiro até à morte.
Especula-se que terá sido a primeira figura pública a morrer de sida. Vinte anos depois da sua morte, em Dezembro de 2004, foi lançado um Álbum com canções da sua autoria que nunca tinham sido editadas.
Sete conhecidos músicos portugueses formaram a banda Humanos e gravaram 12 músicas seleccionadas de um conjunto de cassetes “perdidas” no património de Variações administradas pelo irmão Jaime Ribeiro.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 172
EPISÓDIO Nº 172
Também Tieta esconde um sorriso ao contar do caibro escapando-lhe das mãos. Adorado caibro, além dos lábios e dentes vorazes; a juventude, a areia, as ondas. Ah!, o amor na praia, na fímbria do mar, carícia de espumas. Anjo revel, terei forças para desprender-me dos teus braços e partir?
Sob a canícula do começo da tarde, pai e filha sobem as dunas, em silêncio, ela pensando nas sublimes estrepolias de Ricardo, ele buscando a palavra precisa para colocar a premente questão. Resolve-se:
- Tenho um pedido a te fazer, minha filha.
- Peça, meu pai que, se eu puder, atendo, vosmicê sabe.
- É a coisa que mais desejo no mundo mas tu tem sido tão boa comigo, tem me dado tanta satisfação que fico com medo de abusar. – Ora, pai, deixe disso, que vosmicê nunca foi de cerimónias. Quando vosmicê queria uma coisa só não pedia se pudesse tomar. Vá peça.
Diante deles se abre passo a passo a paisagem violenta, fascinante e infinita. Naquele mar-oceano pai e filha temperam a alma, crestaram a pele ao contacto do vento de areia, cortante fio de punhal. O cajado, inútil no chão movediço, atrapalha mais que ajuda na subida. O Velho sente o esforço, já não possui a agilidade e a resistência de antes quando, atrás de raparigas, escalava os cômoros a correr e saltava sobre as pedras dos cabeços para segurar e montar cabras em cio, não lhe bastando a mulher jovem e bonita trazida dos roçados. Ainda assim avança sem se queixar do escaldante sol de verão, o pensamento no pedido e na resposta.
Lá em cima, depois de contemplar por instante o panorama insólito, sentam-se sobre uma palma de coqueiro. Tieta se ajeita para encobrir outra mancha ainda maior. Felizmente a ventania varreu a marca dos corpos sobre a areia e na praia o mar lavou a lembrança nocturna dos embates. Imagine vosmicê, Pai, sua filha e seu neto na descaração. Assim como eu vi vosmicê se pondo nas cabras.
Tu bem sabes minha filha que passei a vida criando cabras. Depois que tu partiu as coisas desandaram, acho que foi castigo de deus – coça a cabeça, a areia incrusta-se nos cabelos brancos e crespos, duros capuchos de algodão – por minha ruindade te botando para fora de casa. Só pode ter sido.
- Não fale nisso, Pai. Ninguém se lembra mais, esqueça também.
- Castigo, sim. Acabei perdendo tudo e se tu não tivesse vindo em meu auxílio, ia acabar mendigando porque se dependesse de Perpétua eu morria de fome e Elisa não tem onde cair morta. Tu me deu de um tudo mas, antes que Deus me chame, queria ainda ter uma alegria, além dessa de te ver que eu não merecia.
Pai pare com essas galantezas, não são de seu feitio nem precisa me gabar tanto. Diga logo qual é essa alegria que vosmicê tanto deseja. Se eu puder lhe satisfaço.
- Poder você pode não sei se vai querer. Como lhe disse dou a vida por meio metro de terra e um casal de cabras. Um casal, três ou quatro, meia dúzia e já é demais, dá para ocupar meus dias.
- Se bem entendo, vosmicê quer ter outra vez, uns alqueires de terra e umas cabeças de cabras, é isso?
- E mais um bode, um bodastro bem inteiro, parecido com Inácio, tu te recorda dele? Nunca mais houve um bode igual em Agreste.
- Se me recordo? Botei o nome dele na minha biboca: Curral do Bode Inácio. Ele não atendia a ninguém, nem a vosmicê, mas vinha comer na minha mão. Então, o Pai quer terá e rebanho, de novo. A gente pode pensar nisso. Ou vosmicê já tem alguma coisa em vista e veio de trato feito?
- Ninguém lhe pode esconder nada, minha filha, você nasceu inteligente, saiu a mim. Elisa é tola, saiu a Tonha. Perpétua é enrolona e tratante…
Sob a canícula do começo da tarde, pai e filha sobem as dunas, em silêncio, ela pensando nas sublimes estrepolias de Ricardo, ele buscando a palavra precisa para colocar a premente questão. Resolve-se:
- Tenho um pedido a te fazer, minha filha.
- Peça, meu pai que, se eu puder, atendo, vosmicê sabe.
- É a coisa que mais desejo no mundo mas tu tem sido tão boa comigo, tem me dado tanta satisfação que fico com medo de abusar. – Ora, pai, deixe disso, que vosmicê nunca foi de cerimónias. Quando vosmicê queria uma coisa só não pedia se pudesse tomar. Vá peça.
Diante deles se abre passo a passo a paisagem violenta, fascinante e infinita. Naquele mar-oceano pai e filha temperam a alma, crestaram a pele ao contacto do vento de areia, cortante fio de punhal. O cajado, inútil no chão movediço, atrapalha mais que ajuda na subida. O Velho sente o esforço, já não possui a agilidade e a resistência de antes quando, atrás de raparigas, escalava os cômoros a correr e saltava sobre as pedras dos cabeços para segurar e montar cabras em cio, não lhe bastando a mulher jovem e bonita trazida dos roçados. Ainda assim avança sem se queixar do escaldante sol de verão, o pensamento no pedido e na resposta.
Lá em cima, depois de contemplar por instante o panorama insólito, sentam-se sobre uma palma de coqueiro. Tieta se ajeita para encobrir outra mancha ainda maior. Felizmente a ventania varreu a marca dos corpos sobre a areia e na praia o mar lavou a lembrança nocturna dos embates. Imagine vosmicê, Pai, sua filha e seu neto na descaração. Assim como eu vi vosmicê se pondo nas cabras.
Tu bem sabes minha filha que passei a vida criando cabras. Depois que tu partiu as coisas desandaram, acho que foi castigo de deus – coça a cabeça, a areia incrusta-se nos cabelos brancos e crespos, duros capuchos de algodão – por minha ruindade te botando para fora de casa. Só pode ter sido.
- Não fale nisso, Pai. Ninguém se lembra mais, esqueça também.
- Castigo, sim. Acabei perdendo tudo e se tu não tivesse vindo em meu auxílio, ia acabar mendigando porque se dependesse de Perpétua eu morria de fome e Elisa não tem onde cair morta. Tu me deu de um tudo mas, antes que Deus me chame, queria ainda ter uma alegria, além dessa de te ver que eu não merecia.
Pai pare com essas galantezas, não são de seu feitio nem precisa me gabar tanto. Diga logo qual é essa alegria que vosmicê tanto deseja. Se eu puder lhe satisfaço.
- Poder você pode não sei se vai querer. Como lhe disse dou a vida por meio metro de terra e um casal de cabras. Um casal, três ou quatro, meia dúzia e já é demais, dá para ocupar meus dias.
- Se bem entendo, vosmicê quer ter outra vez, uns alqueires de terra e umas cabeças de cabras, é isso?
- E mais um bode, um bodastro bem inteiro, parecido com Inácio, tu te recorda dele? Nunca mais houve um bode igual em Agreste.
- Se me recordo? Botei o nome dele na minha biboca: Curral do Bode Inácio. Ele não atendia a ninguém, nem a vosmicê, mas vinha comer na minha mão. Então, o Pai quer terá e rebanho, de novo. A gente pode pensar nisso. Ou vosmicê já tem alguma coisa em vista e veio de trato feito?
- Ninguém lhe pode esconder nada, minha filha, você nasceu inteligente, saiu a mim. Elisa é tola, saiu a Tonha. Perpétua é enrolona e tratante…
quarta-feira, julho 01, 2009

ANTÓNIO VARIAÇÕES
Filho de pessoas simples, do campo, nasceu em 1944, numa pequena aldeia da freguesia de Fiscal, Concelho de Amares, distrito de Braga, no seio de uma família numerosa, com mais sete irmãos.
O pai, Jaime Ribeiro, toca cavaquinho e acordeão e animava festas e romarias tendo sido fonte de inspiração para o filho.
O seu primeiro emprego foi aos onze anos, em Caldelas e um ano depois parte para Lisboa onde teve vários empregos: barbeiro, balconista e caixeiro.
Seguiu-se o serviço militar em Angola e a aventura pelo estrangeiro: Londres, em 1975 e meses depois Amesterdão onde descobriu um novo mundo. Foi nesta cidade que aprendeu a profissão de cabeleireiro.
Com a ajuda do seu amigo Fernando Ataíde, Variações foi admitido na Ayer, primeiro cabeleireiro unisexo em Portugal.
Ataíde era igualmente seu amante e Variações assumiu essa forma de orientação sexual.
Entretanto, deu início aos espectáculos com o grupo Variações atraindo rapidamente as atenções pelo seu visual excêntrico e o seu estilo musical que combinava vários géneros: rock, pop, blues e fado.
Em 1978 assinou contrato com a Valentim de Carvalho.
O pai, Jaime Ribeiro, toca cavaquinho e acordeão e animava festas e romarias tendo sido fonte de inspiração para o filho.
O seu primeiro emprego foi aos onze anos, em Caldelas e um ano depois parte para Lisboa onde teve vários empregos: barbeiro, balconista e caixeiro.
Seguiu-se o serviço militar em Angola e a aventura pelo estrangeiro: Londres, em 1975 e meses depois Amesterdão onde descobriu um novo mundo. Foi nesta cidade que aprendeu a profissão de cabeleireiro.
Com a ajuda do seu amigo Fernando Ataíde, Variações foi admitido na Ayer, primeiro cabeleireiro unisexo em Portugal.
Ataíde era igualmente seu amante e Variações assumiu essa forma de orientação sexual.
Entretanto, deu início aos espectáculos com o grupo Variações atraindo rapidamente as atenções pelo seu visual excêntrico e o seu estilo musical que combinava vários géneros: rock, pop, blues e fado.
Em 1978 assinou contrato com a Valentim de Carvalho.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 171
EPISÓDIO Nº 171
Ao saber da decisão da venda, anunciada por Josafá no Bar dos Açores e transmitida ao sogro por Astério, Zé Esteves se pôs imediatamente a caminho percorrendo os três quilómetros e meio a separar as terras de Jarde das ruas da cidade. O preço não lhe pareceu alto, apenas o pagamento tinha de ser à vista. De volta a Agreste Zé Esteves contou e recontou o dinheiro escondido, pé-de-meia escondido em cerca de doze anos, a partir do primeiro cheque enviado pela filha rica de São Paulo. Tem para pagar mais de metade mas ainda falta um bocado de dinheiro.
No mesmo passo retornou à presença de Jarde e Josafá. Propôs entrar com a maior parte e completar o restante mês a mês. Josafá recusou: quer o dinheiro todo de uma vez, não se dispondo a financiar nem um tostão. Por que não pede à sua filha? Para ela não é nada, uma ridicularia – perguntou enquanto o velho Jarde, calado, se retirava, deixando a conversa por conta dos dois.
Foi ver as cabras sob o sol, por seu gosto morreria ali, nos outeiros calvos perto dos bichos indóceis.
Pedir à filha, fácil de dizer, difícil de fazer. Zé Esteves coça a cabeça. Tieta no pouco tempo que leva em Agreste, comprara a mansão de dona Zulmira, uma das melhores residências da cidade, onde ele e Tonha vão viver como lordes, mandara nela fazer obras – na opinião de Zé Esteves dispensáveis, onde já se viu em Agreste moradia com dois banheiros, cada qual o maior? – adquiriu terreno em Mangue Seco onde construía casa de veraneio, gastos enormes, um dinheirão e tudo pago no contado. Tieta não mede despesas para ter conforto; toca o bonde para a frente, exigindo o melhor: móveis, utensílios, banheiras mandadas vir da Bahia. Banheiras, imagine-se! Para que diabo? Essa gente do sul não sabe mais o que inventar.
Quando Tieta quer uma coisa, não discute, vai pagando. Mas Zé Esteves nunca soube que ela quisesse encostas de morro plantadas de mandioca, outeiros de figo da índia e pedras onde saltam cabras. Josafá deu-lhe prioridade até ao dia seguinte. Não vendo outra solução, Zé Esteves almoça às carreiras, aluga o bote de Pirica, desce o rio para Mangue Seco.
- Por aqui meu Pai? Que foi que deu em vosmicê? – Tieta leva-o a ver a casinha quase pronta onde Ricardo, de brocha em punho, ajudando na caiação lhe pede a bênção. O velho repara no neto: o corneta desasnou, nem parece o rato da sacristia do começo das férias.
Tieta prossegue enquanto visitam a obra:
- Alguma novidade nos trabalhos da casa? Aperte seu Liberato, tome o exemplo de Cardo que botou o pessoal daqui para trabalhar a toque de caixa.
Quero dormir em nossa casa em Agreste, antes de ir embora.
E tu está querendo ir?
- Assim liguem a luz nova. Só espero a festa. Vim por um mês, vou passar quase dois, já pensou?
- Para a festa tu tem de ficar pois foi tu minha filha, quem botou essa luz em Agreste. A quem se deve agradecer o benefício? Tieta sente por trás do elogio, a agitação e o acanhamento do pai:
- A que veio, Pai? Me diga.
Quero tratar um assunto com você.
- Pois fale que eu lhe ouço.
- Aqui não – diz em voz baixa, apontando com os olhos Ricardo, os trabalhadores, a Toca da Sogra onde o Comandante Dário, que o acolheu à chegada, está estirado na rede, lendo.
- Então venha comigo, vamos ver se vosmicê ainda tem pernas para subir um cômoro.
O minúsculo maiô deixa à vista mancha escura e recente na parte interna na coxa de Tieta que explica: pancada de um caibro, ali, na obra. Ela e Ricardo, para dar o exemplo, trabalham de operários. Ouvindo a explicação, Ricardo sorri à socapa. Sorte o maiô cobrir a bunda, o ventre, o entre pernas. Recorda a voz da tia entre gemidos.
- Doido, tu não vai acabar me obrigando andar de calças compridas aqui na praia.
No mesmo passo retornou à presença de Jarde e Josafá. Propôs entrar com a maior parte e completar o restante mês a mês. Josafá recusou: quer o dinheiro todo de uma vez, não se dispondo a financiar nem um tostão. Por que não pede à sua filha? Para ela não é nada, uma ridicularia – perguntou enquanto o velho Jarde, calado, se retirava, deixando a conversa por conta dos dois.
Foi ver as cabras sob o sol, por seu gosto morreria ali, nos outeiros calvos perto dos bichos indóceis.
Pedir à filha, fácil de dizer, difícil de fazer. Zé Esteves coça a cabeça. Tieta no pouco tempo que leva em Agreste, comprara a mansão de dona Zulmira, uma das melhores residências da cidade, onde ele e Tonha vão viver como lordes, mandara nela fazer obras – na opinião de Zé Esteves dispensáveis, onde já se viu em Agreste moradia com dois banheiros, cada qual o maior? – adquiriu terreno em Mangue Seco onde construía casa de veraneio, gastos enormes, um dinheirão e tudo pago no contado. Tieta não mede despesas para ter conforto; toca o bonde para a frente, exigindo o melhor: móveis, utensílios, banheiras mandadas vir da Bahia. Banheiras, imagine-se! Para que diabo? Essa gente do sul não sabe mais o que inventar.
Quando Tieta quer uma coisa, não discute, vai pagando. Mas Zé Esteves nunca soube que ela quisesse encostas de morro plantadas de mandioca, outeiros de figo da índia e pedras onde saltam cabras. Josafá deu-lhe prioridade até ao dia seguinte. Não vendo outra solução, Zé Esteves almoça às carreiras, aluga o bote de Pirica, desce o rio para Mangue Seco.
- Por aqui meu Pai? Que foi que deu em vosmicê? – Tieta leva-o a ver a casinha quase pronta onde Ricardo, de brocha em punho, ajudando na caiação lhe pede a bênção. O velho repara no neto: o corneta desasnou, nem parece o rato da sacristia do começo das férias.
Tieta prossegue enquanto visitam a obra:
- Alguma novidade nos trabalhos da casa? Aperte seu Liberato, tome o exemplo de Cardo que botou o pessoal daqui para trabalhar a toque de caixa.
Quero dormir em nossa casa em Agreste, antes de ir embora.
E tu está querendo ir?
- Assim liguem a luz nova. Só espero a festa. Vim por um mês, vou passar quase dois, já pensou?
- Para a festa tu tem de ficar pois foi tu minha filha, quem botou essa luz em Agreste. A quem se deve agradecer o benefício? Tieta sente por trás do elogio, a agitação e o acanhamento do pai:
- A que veio, Pai? Me diga.
Quero tratar um assunto com você.
- Pois fale que eu lhe ouço.
- Aqui não – diz em voz baixa, apontando com os olhos Ricardo, os trabalhadores, a Toca da Sogra onde o Comandante Dário, que o acolheu à chegada, está estirado na rede, lendo.
- Então venha comigo, vamos ver se vosmicê ainda tem pernas para subir um cômoro.
O minúsculo maiô deixa à vista mancha escura e recente na parte interna na coxa de Tieta que explica: pancada de um caibro, ali, na obra. Ela e Ricardo, para dar o exemplo, trabalham de operários. Ouvindo a explicação, Ricardo sorri à socapa. Sorte o maiô cobrir a bunda, o ventre, o entre pernas. Recorda a voz da tia entre gemidos.
- Doido, tu não vai acabar me obrigando andar de calças compridas aqui na praia.
