Memórias Futuras
Olhar o futuro pelo espelho retrovisor da história. Qual história? Que futuro?
segunda-feira, setembro 07, 2009

GASTRONOMIA DARWINISTA
Neste campo pode dizer-se que o homem, ao longo da história, utilizou inteligentemente a capacidade de algumas plantas para combater micróbios e insectos invasores.
De acordo com a teoria evolucionista da culinária, a que alguns também chamam de “gastronomia darwinista” – é bem possível que os portugueses tenham tido um papel importante no aumento da longevidade de muitas populações, através do comércio das especiarias trazidas de países longínquos onde chegaram na época dos descobrimentos, no Sec. XVI (a primeira circum-navegação à terra data de 1520 e foi possível com as novas técnicas de navegação adoptadas no século XV).
E sabe-se que, entre essas especiarias, a pimenta era a “rainha” sendo paga, literalmente, a peso de ouro em balanças nas quais se punha ouro num dos pratos e pimenta no outro.
Quando os Godos cercaram Roma, em 408 D.C., pediram um resgate de 5.000 libras de ouro e 3.000 de pimenta.
Na nossa prática culinária ficaram-nos hábitos transmitidos desses tempos. Lembremo-nos, por exemplo:
- Do arroz doce polvilhado com canela, a qual tem uma acção anti microbiana;
- Da açorda de marisco com muitos alhos e coentros, bem picadinhos, que têm uma acção análoga;
- Dos camarões cozidos com muito piripiri ou caril;
- Dos orégãos espalhados sobre as pizas;
- Da carne temperada em vinha de alhos para se tornar mais tenra, sem esquecer que a presença do alho impede que a carne seja um meio para o desenvolvimento de micro-organismos.
O alho é um dos condimentos mais utilizados nos países mediterrâneos sendo um potente agente microbiano de reconhecidos efeitos terapêuticos. É muito natural que aquelas famílias que tradicionalmente mais utilizavam o alho na confecção dos seus pratos apresentassem uma menor incidência de doenças infecciosas.
Por isso, podemos imaginar que a existência de alguns de nós ter-se-á ficado a dever ao alho pela protecção que ao longo de muitas gerações proporcionou aos nossos antepassados.
As plantas, contrariamente aos animais, não dispõem de sistema imunitário. A sua protecção contra micro-organismos invasores reside nas fortes paredes celulares que contêm celulose e lenhina, no seu carácter ácido (baixo ph) e em certos compostos que sintetizam e que têm uma acção anti – microbiana constituindo uma defesa.
O caril é uma mistura de várias especiarias: cominhos, coentros, gengibre, pimenta preta, cártamo, cravinho, etc.
O chili é também uma mistura, mas de pó de pimentas, paprica (obtido de pimentão doce depois de seco e moído), alho, cominhos e orégãos.
O próprio sal, sendo um mineral, também se pode chamar de especiaria.
Para além do papel anti-microbiano, os condimentos têm, igualmente, uma acção anti-oxidante sobre os alimentos retardando a oxidação dos lípidos e proteínas, uma das causas da sua deterioração, tanto a nível nutricional como organolítico.
Mas como “não há bela sem senão” nem tudo são benefícios na utilização das ervas aromáticas e das especiarias que se consomem secas.
As ervas aromáticas devem ser muito bem lavadas em água corrente porque elas próprias podem ser portadoras de agentes patogénicos presentes na água da rega ou do solo.
As especiarias consomem-se secas e devem ser guardadas em frascos bem fechados para não perderem os aromas voláteis, para além de que hidratam favorecendo o crescimento de micróbios que podem conter.
De acordo com a teoria evolucionista da culinária, a que alguns também chamam de “gastronomia darwinista” – é bem possível que os portugueses tenham tido um papel importante no aumento da longevidade de muitas populações, através do comércio das especiarias trazidas de países longínquos onde chegaram na época dos descobrimentos, no Sec. XVI (a primeira circum-navegação à terra data de 1520 e foi possível com as novas técnicas de navegação adoptadas no século XV).
E sabe-se que, entre essas especiarias, a pimenta era a “rainha” sendo paga, literalmente, a peso de ouro em balanças nas quais se punha ouro num dos pratos e pimenta no outro.
Quando os Godos cercaram Roma, em 408 D.C., pediram um resgate de 5.000 libras de ouro e 3.000 de pimenta.
Na nossa prática culinária ficaram-nos hábitos transmitidos desses tempos. Lembremo-nos, por exemplo:
- Do arroz doce polvilhado com canela, a qual tem uma acção anti microbiana;
- Da açorda de marisco com muitos alhos e coentros, bem picadinhos, que têm uma acção análoga;
- Dos camarões cozidos com muito piripiri ou caril;
- Dos orégãos espalhados sobre as pizas;
- Da carne temperada em vinha de alhos para se tornar mais tenra, sem esquecer que a presença do alho impede que a carne seja um meio para o desenvolvimento de micro-organismos.
O alho é um dos condimentos mais utilizados nos países mediterrâneos sendo um potente agente microbiano de reconhecidos efeitos terapêuticos. É muito natural que aquelas famílias que tradicionalmente mais utilizavam o alho na confecção dos seus pratos apresentassem uma menor incidência de doenças infecciosas.
Por isso, podemos imaginar que a existência de alguns de nós ter-se-á ficado a dever ao alho pela protecção que ao longo de muitas gerações proporcionou aos nossos antepassados.
As plantas, contrariamente aos animais, não dispõem de sistema imunitário. A sua protecção contra micro-organismos invasores reside nas fortes paredes celulares que contêm celulose e lenhina, no seu carácter ácido (baixo ph) e em certos compostos que sintetizam e que têm uma acção anti – microbiana constituindo uma defesa.
O caril é uma mistura de várias especiarias: cominhos, coentros, gengibre, pimenta preta, cártamo, cravinho, etc.
O chili é também uma mistura, mas de pó de pimentas, paprica (obtido de pimentão doce depois de seco e moído), alho, cominhos e orégãos.
O próprio sal, sendo um mineral, também se pode chamar de especiaria.
Para além do papel anti-microbiano, os condimentos têm, igualmente, uma acção anti-oxidante sobre os alimentos retardando a oxidação dos lípidos e proteínas, uma das causas da sua deterioração, tanto a nível nutricional como organolítico.
Mas como “não há bela sem senão” nem tudo são benefícios na utilização das ervas aromáticas e das especiarias que se consomem secas.
As ervas aromáticas devem ser muito bem lavadas em água corrente porque elas próprias podem ser portadoras de agentes patogénicos presentes na água da rega ou do solo.
As especiarias consomem-se secas e devem ser guardadas em frascos bem fechados para não perderem os aromas voláteis, para além de que hidratam favorecendo o crescimento de micróbios que podem conter.
PAUL SHERMAN - Prof. de Biologia da Universidade de Cornel

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 226
EPISÓDIO Nº 226
Na piscina, bom nadador, saltando do trampolim, mergulhando, Ascânio se distende em companhia de Patrícia e Ismael, os noivos do ano, na escolha natalina de Dorian Gray Júnior, o trêfego cronista social. Bom relax, a moça tinha razão e ele estava necessitando, tenso e inseguro desde o desembarque do jipe na porta do hotel. Aos poucos começa a sentir-se à vontade, descontraído. Ali é como se todos se conhecessem de longa data. Participa de um grupo que brinca com enorme bola de plástico, conversa com um casal de jovens cariocas encantados com a Bahia, troca impressões com estranhos; acontece não entender certas locuções, uma frase inteira, mas ninguém repara, tratam-no de igual para igual, ele é parte daquele mundo em férias, rapaz rico e simpático.
Ismael sai da água, vai se estender numa chaise-longue. Patrícia nada em torno de Ascânio, provoca-o, busca afundá-lo, dá-lhe caldos, agarra-o pelos ombros e pelas pernas, monta-lhe no cangote, embola com ele, mergulha sob o seu ventre. Manhã agradável.
- Doutor Mirko já chegou. Com o doutor Lucena, avisa Pat.
Levanta-se Ismael Julião, vai saudá-los, serve-se de uísque, dose dupla, volta à piscina, com o copo na mão. Patrícia o acolhe, noiva terna. Ascânio correra a mudar a roupa, reaparece de paletó e gravata. A um aceno do Magnífico, toma lugar à mesa.
Rosalvo Lucena, cujos títulos universitários e empresariais Pat lhe soprara ainda dentro de água, pois seu dever era informá-lo, conquista Ascânio Trindade.
Diante do tecnocrata, cuja fisionomia transpira segurança e autoridade, quase tão jovem quanto ele e no entanto empresário empreendedor e arrojado, Ascânio sente-se um joão – ninguém. O relax obtido na piscina desaparece, encontra-se novamente tenso e inseguro. Aquele, sim, era um líder, um vitorioso, digno da mão de Leonora Cantarelli, para tanto possuía merecimentos, títulos e postos. Títulos em latim e em inglês, aos trinta anos director da companhia Brasileira de Titânio S. A., um portento! Não obstante a diferença de status a separá-los, Rosalvo Lucena o trata com cordialidade e consideração, amável e interessado.
- Mirko falou-me muito bem do senhor, disse-me da sua luta em prol do progresso do município de Agreste. Espero que possamos concorrer eficazmente para que suas ideias se transformem em realidade. Estou encarregado dos problemas técnicos e económicos relativos à instalação das nossas duas fábricas integradas, muito em breve irei conhecer a sua cidade e a praia tão falada, perto da qual, ao que tudo indica, se levantará o nosso conjunto industrial. No momento, deve estar chegando lá uma equipe nossa, encarregada de objectivos precisos. Passamos da fase dos estudos para a da implantação do projecto.
- Está chegando? Hoje?
- Saíram hoje pela manhã, em duas lanchas grandes e velozes. Se ainda não chegaram, devem estar chegando.
Levam todo o material necessário para acamparem uns dias na praia, quantos forem necessários. Vão resolver todos os problemas relativos à localização não só da fábrica como das residências do pessoal técnico e administrativo e da vila operária. Investimento imenso, meu caro. É necessário escolher o local ideal. Parece ser aquele onde há uma espécie de lago e um córrego, mais ou menos no centro do coqueiral – Sorri, contente de si: - Nunca estive lá mas é como se houvesse nascido ali, conheço tudo sobre Agreste e Mangue Seco, incluindo o contrabando. Um dos mais antigos entrepostos de contrabando do Nordeste. Queremos trabalhar em estreita colaboração com o senhor e as demais autoridades do município.
- Da minha parte os senhores terão todo o apoio. A instalação da Brastânio em Mangue Seco será a redenção do Agreste.
A frase merece o aplauso do Magnífico Doutor:
- Wonderful! Fine! Une trouvaille! Até parece uma frase minha. Não a esqueça, meu caro, vai ter de repeti-la em breve.
Ismael sai da água, vai se estender numa chaise-longue. Patrícia nada em torno de Ascânio, provoca-o, busca afundá-lo, dá-lhe caldos, agarra-o pelos ombros e pelas pernas, monta-lhe no cangote, embola com ele, mergulha sob o seu ventre. Manhã agradável.
- Doutor Mirko já chegou. Com o doutor Lucena, avisa Pat.
Levanta-se Ismael Julião, vai saudá-los, serve-se de uísque, dose dupla, volta à piscina, com o copo na mão. Patrícia o acolhe, noiva terna. Ascânio correra a mudar a roupa, reaparece de paletó e gravata. A um aceno do Magnífico, toma lugar à mesa.
Rosalvo Lucena, cujos títulos universitários e empresariais Pat lhe soprara ainda dentro de água, pois seu dever era informá-lo, conquista Ascânio Trindade.
Diante do tecnocrata, cuja fisionomia transpira segurança e autoridade, quase tão jovem quanto ele e no entanto empresário empreendedor e arrojado, Ascânio sente-se um joão – ninguém. O relax obtido na piscina desaparece, encontra-se novamente tenso e inseguro. Aquele, sim, era um líder, um vitorioso, digno da mão de Leonora Cantarelli, para tanto possuía merecimentos, títulos e postos. Títulos em latim e em inglês, aos trinta anos director da companhia Brasileira de Titânio S. A., um portento! Não obstante a diferença de status a separá-los, Rosalvo Lucena o trata com cordialidade e consideração, amável e interessado.
- Mirko falou-me muito bem do senhor, disse-me da sua luta em prol do progresso do município de Agreste. Espero que possamos concorrer eficazmente para que suas ideias se transformem em realidade. Estou encarregado dos problemas técnicos e económicos relativos à instalação das nossas duas fábricas integradas, muito em breve irei conhecer a sua cidade e a praia tão falada, perto da qual, ao que tudo indica, se levantará o nosso conjunto industrial. No momento, deve estar chegando lá uma equipe nossa, encarregada de objectivos precisos. Passamos da fase dos estudos para a da implantação do projecto.
- Está chegando? Hoje?
- Saíram hoje pela manhã, em duas lanchas grandes e velozes. Se ainda não chegaram, devem estar chegando.
Levam todo o material necessário para acamparem uns dias na praia, quantos forem necessários. Vão resolver todos os problemas relativos à localização não só da fábrica como das residências do pessoal técnico e administrativo e da vila operária. Investimento imenso, meu caro. É necessário escolher o local ideal. Parece ser aquele onde há uma espécie de lago e um córrego, mais ou menos no centro do coqueiral – Sorri, contente de si: - Nunca estive lá mas é como se houvesse nascido ali, conheço tudo sobre Agreste e Mangue Seco, incluindo o contrabando. Um dos mais antigos entrepostos de contrabando do Nordeste. Queremos trabalhar em estreita colaboração com o senhor e as demais autoridades do município.
- Da minha parte os senhores terão todo o apoio. A instalação da Brastânio em Mangue Seco será a redenção do Agreste.
A frase merece o aplauso do Magnífico Doutor:
- Wonderful! Fine! Une trouvaille! Até parece uma frase minha. Não a esqueça, meu caro, vai ter de repeti-la em breve.
domingo, setembro 06, 2009

DEZOITO ANOS DE IDADE ...
Com o passar dos dias sempre iguais
Perdi a noção do tempo.
Não sei que idade tenho,
esqueci o ano, o mês, o dia em que nasci
até ao dia em que te vi…
Estavas imóvel, serena e absorta á espera do elevador.
Olhei para ti, primeiro, normalmente, depois com atenção,
finalmente encantado.
Senti dentro de mim uma enorme ebulição,
estava apaixonado!
Apercebi-me, então, que acabara de fazer dezoito anos de idade.
Lamento, meu amor, não o poder comprovar com a apresentação do Bilhete de Identidade.
Mas se olhares para dentro dos meus olhos, com atenção,
verás dezoito estrelinhas, cada uma brilhando para ti.
E se visitares o meu jardim, encontrarás á tua espera
dezoito lindos botões de rosa que aguardam o conforto do teu olhar, a carícia dos teus dedos e o roçar dos teus lábios.
É falso dizer que o amor não tem idade.
Aquele de nós, que alguma vez se apaixonou, em qualquer momento da sua vida, fez nesse dia, precisamente, dezoito anos de idade…
Com o passar dos dias sempre iguais
Perdi a noção do tempo.
Não sei que idade tenho,
esqueci o ano, o mês, o dia em que nasci
até ao dia em que te vi…
Estavas imóvel, serena e absorta á espera do elevador.
Olhei para ti, primeiro, normalmente, depois com atenção,
finalmente encantado.
Senti dentro de mim uma enorme ebulição,
estava apaixonado!
Apercebi-me, então, que acabara de fazer dezoito anos de idade.
Lamento, meu amor, não o poder comprovar com a apresentação do Bilhete de Identidade.
Mas se olhares para dentro dos meus olhos, com atenção,
verás dezoito estrelinhas, cada uma brilhando para ti.
E se visitares o meu jardim, encontrarás á tua espera
dezoito lindos botões de rosa que aguardam o conforto do teu olhar, a carícia dos teus dedos e o roçar dos teus lábios.
É falso dizer que o amor não tem idade.
Aquele de nós, que alguma vez se apaixonou, em qualquer momento da sua vida, fez nesse dia, precisamente, dezoito anos de idade…

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 225
EPISÓDIO Nº 225
SEGUNDO EPISÓDIO DA ESTADA DE ASCÂNIO NA CAPITAL OU DA FORMAÇÂO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: AMBINÇÃO; IDEALISMO, UISQUE E NILSA, A DOS PEITOS GRANDES
De prontidão desde as nove e meia, á espreita, Ascânio se aproxima quando o grupo sai do elevador. Apressado, um dos senhores passa diante dele, desaparece num dos dois automóveis negros. Ascânio jamais ficou a saber de quem se tratava, se director ou não da Brastânio, notando apenas, de relance, o cabelo escovado á escovinha como se usou há muito tempo atrás. Doutor Mirko Stefano apresenta-lhe os outros dois, ali mesmo ao pé. A cerimónia dura apenas um instante pois estão de partida para o aeroporto, em cima da hora.
- Doutor Ângelo Bardi, nosso director-presidente.
O magnata – evidentemente era um magnata – estende a mão, esboça um sorriso:
- É esse o nosso homem? Muito bem – O sorriso se amplia, aprovativo, recomenda ao Magnífico: - Encarreguem-se de que nada lhe falte, resolva de vez os problemas pendentes, veja essa história da eleição. Falei ontem pelo telefone com São Paulo. A essas horas, o Tribunal Eleitoral já deve ter recebido um telegrama – Aperta novamente a mão de Ascânio: - Prazer, passe bem.
O outro, ainda jovem – doutor Rosalvo Lucena, também director, um crânio, segundo doutor Mirko – fica de vê-lo com mais tempo ao voltar do aeroporto para onde seguem todos, inclusive o Magnífico Doutor. Ascânio os acompanha até á porta, assiste á partida dos dois possantes automóveis negros.
Outra vez encontra-se no saguão sumptuoso, sem saber o que fazer. Turistas saem para visitar as igrejas, o Pelourinho, gastar dinheiro no Mercado Modelo, bandos palradores e eufóricos, velhas espantosas, anciãos artríticos, balzaquianas indóceis, moças deslumbradas. Ascânio afunda numa das muitas poltronas de couro, dedica-se à leitura de um prospecto de propaganda do hotel, impresso em cinco línguas, fica sabendo que o design daquela poltrona e dos demais móveis foram concebidos, sob encomenda, com exclusividade, por Leo Smarchewski – não sabe quem seja mas o nome do artista e a palavra design o impressionam. Relanceia o olhar em torno, enfia o prospecto no bolso, pensa exibi-lo no Aerópago. Ultimamente nem tem comparecido á Agência dos Correios. Para quê? Para ouvir desaforos de dona Carmosina? Vai estender a mão para um jornal quando Patrícia aparece – deixara-o por volta das oito, após café e ducha – pendurada no braço de um dos três fulanos que, na véspera, estiveram bebericando com o Magnífico á beira da piscina. Dessa vez houve apresentações:
- Doutor Ascânio Trindade, um amigo do doutor Mirko. Ismael Julião, o temido colunista dos grandes furos, com ele ninguém pode – declama, gaiata, conclui séria: - Meu noivo.
Estava Ascânio apertando a mão do rapaz, toma um susto. Noivo? Com certeza mais uma piada da jovem, mas Pat, muito romântica, encosta a cabeça no ombro do jornalista de barba por fazer, enfia-lhe os dedos na despenteada cabeleira e, como se adivinhasse a dúvida de Ascânio, comunica:
- Vamos nos casar daqui a pouco mais de um mês.
- Dois, benzoca. Depois do Carnaval – Adverte Ismael: - Lua-de-mel e Carnaval, ao mesmo tempo, não dá pé.
- Carnaval, cada qual para seu lado – concorda Pat – Ele é dos Internacionais, eu sou do Bloco do Jacu.
Ascânio não entende a graça nem ela explica, em compensação convida:
- Vá botar uma sunga e venha fazer um relax na piscina com a gente.
Doutor Mirko não vai aparecer antes do meio-dia, isso se vier directamente do aeroporto para aqui. Com ele nunca se sabe.
- Je suis l’imprevisible! – O jornalista imita a voz afectada do director de relações públicas.
É que eu não trouxe calção – Ascânio tenta furtar-se ao convite.
- Por isso não. Aqui alugam, venha comigo, vou lhe mostrar. – Pisca o olho para o noivo: - Te encontro no trampolim, carinho.
- É seu noivo, de verdade? – Ascânio ainda se imagina vítima de um gracejo.
- Havia de ser mentira? Já tenho o vestido de noiva, presente do Magnífico. Ele trouxe do Rio, da Lais Modas, um barato! A grinalda é um luxo, só vendo.
- Véu e grinalda! – Nascida do espanto, a exclamação sai sem ele querer. Pat, ri bem humorada:
- Véu, grinalda e flores de laranjeira, ao som da Marcha Nupcial, adoro!
Tu é um atrasado, neném, um careta. Um careta mas um pão, um pão doce. Ismael também é um pão, não acha? Um pedaço de mulato de ninguém botar defeito, hein? – Morde o beiço, ao elogiar os predicados físicos do rapaz:
- E tem a cuca limpa, não é cafona como você. Nós estamos em 1966, neném. Ou a notícia ainda não chegou à tua terra? Precisas actualizar o calendário.
De prontidão desde as nove e meia, á espreita, Ascânio se aproxima quando o grupo sai do elevador. Apressado, um dos senhores passa diante dele, desaparece num dos dois automóveis negros. Ascânio jamais ficou a saber de quem se tratava, se director ou não da Brastânio, notando apenas, de relance, o cabelo escovado á escovinha como se usou há muito tempo atrás. Doutor Mirko Stefano apresenta-lhe os outros dois, ali mesmo ao pé. A cerimónia dura apenas um instante pois estão de partida para o aeroporto, em cima da hora.
- Doutor Ângelo Bardi, nosso director-presidente.
O magnata – evidentemente era um magnata – estende a mão, esboça um sorriso:
- É esse o nosso homem? Muito bem – O sorriso se amplia, aprovativo, recomenda ao Magnífico: - Encarreguem-se de que nada lhe falte, resolva de vez os problemas pendentes, veja essa história da eleição. Falei ontem pelo telefone com São Paulo. A essas horas, o Tribunal Eleitoral já deve ter recebido um telegrama – Aperta novamente a mão de Ascânio: - Prazer, passe bem.
O outro, ainda jovem – doutor Rosalvo Lucena, também director, um crânio, segundo doutor Mirko – fica de vê-lo com mais tempo ao voltar do aeroporto para onde seguem todos, inclusive o Magnífico Doutor. Ascânio os acompanha até á porta, assiste á partida dos dois possantes automóveis negros.
Outra vez encontra-se no saguão sumptuoso, sem saber o que fazer. Turistas saem para visitar as igrejas, o Pelourinho, gastar dinheiro no Mercado Modelo, bandos palradores e eufóricos, velhas espantosas, anciãos artríticos, balzaquianas indóceis, moças deslumbradas. Ascânio afunda numa das muitas poltronas de couro, dedica-se à leitura de um prospecto de propaganda do hotel, impresso em cinco línguas, fica sabendo que o design daquela poltrona e dos demais móveis foram concebidos, sob encomenda, com exclusividade, por Leo Smarchewski – não sabe quem seja mas o nome do artista e a palavra design o impressionam. Relanceia o olhar em torno, enfia o prospecto no bolso, pensa exibi-lo no Aerópago. Ultimamente nem tem comparecido á Agência dos Correios. Para quê? Para ouvir desaforos de dona Carmosina? Vai estender a mão para um jornal quando Patrícia aparece – deixara-o por volta das oito, após café e ducha – pendurada no braço de um dos três fulanos que, na véspera, estiveram bebericando com o Magnífico á beira da piscina. Dessa vez houve apresentações:
- Doutor Ascânio Trindade, um amigo do doutor Mirko. Ismael Julião, o temido colunista dos grandes furos, com ele ninguém pode – declama, gaiata, conclui séria: - Meu noivo.
Estava Ascânio apertando a mão do rapaz, toma um susto. Noivo? Com certeza mais uma piada da jovem, mas Pat, muito romântica, encosta a cabeça no ombro do jornalista de barba por fazer, enfia-lhe os dedos na despenteada cabeleira e, como se adivinhasse a dúvida de Ascânio, comunica:
- Vamos nos casar daqui a pouco mais de um mês.
- Dois, benzoca. Depois do Carnaval – Adverte Ismael: - Lua-de-mel e Carnaval, ao mesmo tempo, não dá pé.
- Carnaval, cada qual para seu lado – concorda Pat – Ele é dos Internacionais, eu sou do Bloco do Jacu.
Ascânio não entende a graça nem ela explica, em compensação convida:
- Vá botar uma sunga e venha fazer um relax na piscina com a gente.
Doutor Mirko não vai aparecer antes do meio-dia, isso se vier directamente do aeroporto para aqui. Com ele nunca se sabe.
- Je suis l’imprevisible! – O jornalista imita a voz afectada do director de relações públicas.
É que eu não trouxe calção – Ascânio tenta furtar-se ao convite.
- Por isso não. Aqui alugam, venha comigo, vou lhe mostrar. – Pisca o olho para o noivo: - Te encontro no trampolim, carinho.
- É seu noivo, de verdade? – Ascânio ainda se imagina vítima de um gracejo.
- Havia de ser mentira? Já tenho o vestido de noiva, presente do Magnífico. Ele trouxe do Rio, da Lais Modas, um barato! A grinalda é um luxo, só vendo.
- Véu e grinalda! – Nascida do espanto, a exclamação sai sem ele querer. Pat, ri bem humorada:
- Véu, grinalda e flores de laranjeira, ao som da Marcha Nupcial, adoro!
Tu é um atrasado, neném, um careta. Um careta mas um pão, um pão doce. Ismael também é um pão, não acha? Um pedaço de mulato de ninguém botar defeito, hein? – Morde o beiço, ao elogiar os predicados físicos do rapaz:
- E tem a cuca limpa, não é cafona como você. Nós estamos em 1966, neném. Ou a notícia ainda não chegou à tua terra? Precisas actualizar o calendário.
sábado, setembro 05, 2009
OS ENJOOS DAS GRÁVIDAS
Na década de 1950 foi receitado às mulheres grávidas um medicamento chamado Talidomida para combater os enjoos matinais e indisposições características destas situações e que se julgava, então, não ter efeitos colaterais.
O resultado foi trágico com milhares de crianças deficientes em todo o mundo.
A produção deste medicamento foi suspensa mas continuou a pensar-se que os enjoos e indisposições da gravidez eram algo que tinha de ser curado.
Hoje, sabe-se que as mulheres estão biologicamente preparadas para protegerem os seus bebés durante o seu desenvolvimento.
Repare-se:
- As grávidas evitam, instintivamente, certos alimentos;
- Os alimentos ingeridos deslocam-se durante mais tempo ao longo dos intestinos;
- O fluxo sanguíneo para os rins aumenta;
- O fígado eleva gradualmente a produção de enzimas;
- O nariz torna-se mais sensível aos cheiros;
- Até o hábito, aparentemente bizarro, de comer argila ganha sentido porquanto está provado que a argila reduz a absorção de produtos químicos tóxicos sendo usada para tratar de problemas de estômago e náuseas.
Tudo isto configura um importante “Plano de Guerra” biológico que evoluiu durante milhões de gerações, muito antes do aparecimento da nossa espécie, para resolver um problema recorrente de sobrevivência e reprodução.
É que os enjoos da gravidez ocorrem principalmente durante aquele período em que no feto se desenvolvem os principais sistemas de órgãos e que constitui um momento mais sensível às toxinas.
Em 1940, um médico investigador referia que as mulheres que sofriam de enjoos graves durante a gravidez tinham menos propensão para abortar.
Os alimentos mais condimentados e amargos são mais susceptíveis de provocar enjoos do que os alimentos insípidos sabendo-se, como se sabe, que esses alimentos muito condimentados e amargos estão implicados em abortos e deficiências do feto.
Percebe-se, assim o motivo, porque sendo os enjoos, em si mesmo, desagradáveis à mulher e ao bebé que vai nascer, pelo qual milhões e milhões de mulheres em todo o mundo ficam misteriosamente “enjoadas” quando engravidam e isto, sabendo-se, que a selecção natural elimina as coisas que são desagradáveis.
Portanto, em resumo, os enjoos da gravidez não constituem um mal que deva ser curado, mas tão-somente um mecanismo testado e aprovado ao longo de milhões de gerações, dentro do processo de selecção natural, para ajudar a resolver o problema da sobrevivência e reprodução.
“A Evolução Para Todos” David Sloan Wilson
O resultado foi trágico com milhares de crianças deficientes em todo o mundo.
A produção deste medicamento foi suspensa mas continuou a pensar-se que os enjoos e indisposições da gravidez eram algo que tinha de ser curado.
Hoje, sabe-se que as mulheres estão biologicamente preparadas para protegerem os seus bebés durante o seu desenvolvimento.
Repare-se:
- As grávidas evitam, instintivamente, certos alimentos;
- Os alimentos ingeridos deslocam-se durante mais tempo ao longo dos intestinos;
- O fluxo sanguíneo para os rins aumenta;
- O fígado eleva gradualmente a produção de enzimas;
- O nariz torna-se mais sensível aos cheiros;
- Até o hábito, aparentemente bizarro, de comer argila ganha sentido porquanto está provado que a argila reduz a absorção de produtos químicos tóxicos sendo usada para tratar de problemas de estômago e náuseas.
Tudo isto configura um importante “Plano de Guerra” biológico que evoluiu durante milhões de gerações, muito antes do aparecimento da nossa espécie, para resolver um problema recorrente de sobrevivência e reprodução.
É que os enjoos da gravidez ocorrem principalmente durante aquele período em que no feto se desenvolvem os principais sistemas de órgãos e que constitui um momento mais sensível às toxinas.
Em 1940, um médico investigador referia que as mulheres que sofriam de enjoos graves durante a gravidez tinham menos propensão para abortar.
Os alimentos mais condimentados e amargos são mais susceptíveis de provocar enjoos do que os alimentos insípidos sabendo-se, como se sabe, que esses alimentos muito condimentados e amargos estão implicados em abortos e deficiências do feto.
Percebe-se, assim o motivo, porque sendo os enjoos, em si mesmo, desagradáveis à mulher e ao bebé que vai nascer, pelo qual milhões e milhões de mulheres em todo o mundo ficam misteriosamente “enjoadas” quando engravidam e isto, sabendo-se, que a selecção natural elimina as coisas que são desagradáveis.
Portanto, em resumo, os enjoos da gravidez não constituem um mal que deva ser curado, mas tão-somente um mecanismo testado e aprovado ao longo de milhões de gerações, dentro do processo de selecção natural, para ajudar a resolver o problema da sobrevivência e reprodução.
“A Evolução Para Todos” David Sloan Wilson
sexta-feira, setembro 04, 2009

A REMOÇÃO DO PAU
O Registo Civil de Beja recebeu o seguinte requerimento:
Beja, 5 de Fevereiro 2006.
Eu, Maria José Pau, gostaria de saber da possibilidade de abolir o sobrenome Pau do meu nome, já que a presença do Pau me tem deixado embaraçada em várias situações. Desde já agradeço a atenção despendida.
Peço Dedeferimento
O Registo Civil de Beja recebeu o seguinte requerimento:
Beja, 5 de Fevereiro 2006.
Eu, Maria José Pau, gostaria de saber da possibilidade de abolir o sobrenome Pau do meu nome, já que a presença do Pau me tem deixado embaraçada em várias situações. Desde já agradeço a atenção despendida.
Peço Dedeferimento
Maria José Pau.
Em resposta, recebeu a seguinte mensagem:
Cara Senhora Pau:
Sobre a sua solicitação da remoção do Pau, gostaríamos de lhe dizer que a nova legislação permite a remoção do Pau, mas o processo é complicado e moroso.
Em resposta, recebeu a seguinte mensagem:
Cara Senhora Pau:
Sobre a sua solicitação da remoção do Pau, gostaríamos de lhe dizer que a nova legislação permite a remoção do Pau, mas o processo é complicado e moroso.
Se o Pau tiver sido adquirido após o casamento, a remoção é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pau do cônjuge se não quiser.
Se o Pau for do seu pai, torna-se mais difícil, pois o Pau a que nos referimos é de família e tem sido utilizado há várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a remoção do Pau torná-la-ia diferente do resto da família.
Cortar o Pau do seu pai pode ser algo muito desagradável para ele. Outro senão está no facto do seu nome conter apenas nomes próprios, e poderá ficar esquisito, caso não haja nada para colocar no lugar do Pau.
Isto sem mencionar que as pessoas estranharão muito ao saber que a senhora não possui mais o Pau do seu marido. Uma opção viável seria a troca da ordem dos nomes.
Se a senhora colocar o Pau na frente da Maria e atrás do José, o Pau pode ser escondido, pois poderia assinar o seu nome como Maria P.José.
A nossa opinião é a de que o preconceito contra este nome já acabou há muito tempo e visto que a senhora já usou o Pau do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais.
Eu mesmo possuo Pau, sempre o usei e muito poucas vezes o Pau me causou embaraços.
Atenciosamente,
Bernardo Romeu Pau Grosso
Registo Civil de Beja
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TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 224
EPISÓDIO Nº 224
Mas ele próprio perguntou:
- Não vejo aqui a assinatura de dona Antonieta Cantarelli. A assinatura dela deve abrir a lista, se o Comandante deseja que o povo assine.
Barbozinha compõe poema sobre poema, já possui matéria para um livro que pretende publicar, os Poemas da Maldição, escreve cartas a Giovanni Guimarães mas como colector de assinaturas é um fracasso. Em troca, dona Milú é de rara eficiência, até agora é seu o recorde da colecta. Imprevisto aliado, Osnar, de tocaia no botequim, faz um esforço. Tudo isso soma apenas cento e dezasseis nomes, trinta e sete obtidos por dona Milú. Para os mil previstos, uma derrota. O Comandante balança a cabeça, preocupado.
- Minha boa Carmosina, não sei, não… Ou Tieta se decide a tomar a frente ou não iremos muito além disso. Volto amanhã para Mangue Seco, vou tentar convencê-la a vir nos ajudar. Não vai ser fácil: o curral está pronto, ela quer gozar um pouco da casa que lhe deu tanto trabalho e custou um bom dinheiro. Inclusive me encarregou de levar a enteada comigo. Me toco com Laura e Leonora amanhã cedo, vou suplicar a Tieta que venha nem que seja por uns dias e diga a todo o mundo, espalhe pela cidade inteira, que é contra a fábrica, que se a Brastânio se instalar em Mangue Seco nunca mais porá os pés aqui.
Dona Carmosina concorda, o sucesso da campanha depende de Tieta:
- Domingo apareço por lá para reforçar o seu pedido. Penso que entre nós dois vamos conseguir.
É lamentável. Com tanto advogado aqui, o cartório cheio de gente, toda a gente julga que se vai fartar de dinheiro com a Brastânio. Até em Rocinha o preço da terra subiu, imagine.
- Estive matutando nessa história dos advogados e dos herdeiros do coqueiral e cheguei à conclusão que tem um lado bom: enquanto eles brigam, a fábrica não tem onde se instalar. Até que o caso se resolva…
- Não se iluda, minha boa Carmosina. Esses advogados vão entrar logo em acordo, logo vai ver. Os herdeiros se unem e encarregam Modesto Pires, que é o mais sabido de todos os que estão metidos nisso, de negociar a venda do coqueiral à Brastânio. E não podemos fazer nada…
- Nesse caso, nem Tieta.
Mostra-se, à porta da agência, a figura bisonha de Fidélio. A ele, nem tinham pedido para assinar o memorial, pois o sabem um dos herdeiros das terras onde a Companhia Brasileira de Titânio S.A. cogita instalar a sua indústria, um dos que tem possibilidade real de ganhar dinheiro.
- Boa tarde, dona Carmosina. Boa tarde, Comandante. Queria trocar umas palavras com o senhor.
- Se é particular, vou lá para dentro – declara Carmosina, morta de curiosidade.
- Que é particular, é, mas não para a senhora – Devia ter pedido a Aminthas para acompanhá-lo. Calado de natureza, como há de se arranjar para expor assunto tão delicado? Não vá o Comandante se ofender: - É sobre essa história do coqueiral em que estou metido, sou um dos herdeiros, penso que o senhor sabe.
Curva-se dona Carmosina no balcão, para ouvir melhor.
- Não vejo aqui a assinatura de dona Antonieta Cantarelli. A assinatura dela deve abrir a lista, se o Comandante deseja que o povo assine.
Barbozinha compõe poema sobre poema, já possui matéria para um livro que pretende publicar, os Poemas da Maldição, escreve cartas a Giovanni Guimarães mas como colector de assinaturas é um fracasso. Em troca, dona Milú é de rara eficiência, até agora é seu o recorde da colecta. Imprevisto aliado, Osnar, de tocaia no botequim, faz um esforço. Tudo isso soma apenas cento e dezasseis nomes, trinta e sete obtidos por dona Milú. Para os mil previstos, uma derrota. O Comandante balança a cabeça, preocupado.
- Minha boa Carmosina, não sei, não… Ou Tieta se decide a tomar a frente ou não iremos muito além disso. Volto amanhã para Mangue Seco, vou tentar convencê-la a vir nos ajudar. Não vai ser fácil: o curral está pronto, ela quer gozar um pouco da casa que lhe deu tanto trabalho e custou um bom dinheiro. Inclusive me encarregou de levar a enteada comigo. Me toco com Laura e Leonora amanhã cedo, vou suplicar a Tieta que venha nem que seja por uns dias e diga a todo o mundo, espalhe pela cidade inteira, que é contra a fábrica, que se a Brastânio se instalar em Mangue Seco nunca mais porá os pés aqui.
Dona Carmosina concorda, o sucesso da campanha depende de Tieta:
- Domingo apareço por lá para reforçar o seu pedido. Penso que entre nós dois vamos conseguir.
É lamentável. Com tanto advogado aqui, o cartório cheio de gente, toda a gente julga que se vai fartar de dinheiro com a Brastânio. Até em Rocinha o preço da terra subiu, imagine.
- Estive matutando nessa história dos advogados e dos herdeiros do coqueiral e cheguei à conclusão que tem um lado bom: enquanto eles brigam, a fábrica não tem onde se instalar. Até que o caso se resolva…
- Não se iluda, minha boa Carmosina. Esses advogados vão entrar logo em acordo, logo vai ver. Os herdeiros se unem e encarregam Modesto Pires, que é o mais sabido de todos os que estão metidos nisso, de negociar a venda do coqueiral à Brastânio. E não podemos fazer nada…
- Nesse caso, nem Tieta.
Mostra-se, à porta da agência, a figura bisonha de Fidélio. A ele, nem tinham pedido para assinar o memorial, pois o sabem um dos herdeiros das terras onde a Companhia Brasileira de Titânio S.A. cogita instalar a sua indústria, um dos que tem possibilidade real de ganhar dinheiro.
- Boa tarde, dona Carmosina. Boa tarde, Comandante. Queria trocar umas palavras com o senhor.
- Se é particular, vou lá para dentro – declara Carmosina, morta de curiosidade.
- Que é particular, é, mas não para a senhora – Devia ter pedido a Aminthas para acompanhá-lo. Calado de natureza, como há de se arranjar para expor assunto tão delicado? Não vá o Comandante se ofender: - É sobre essa história do coqueiral em que estou metido, sou um dos herdeiros, penso que o senhor sabe.
Curva-se dona Carmosina no balcão, para ouvir melhor.
quinta-feira, setembro 03, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
JAIR RODRIGUES - DISPARADA (1965)
Letra de Geraldo Vandré e Música de Theo de Barros. Foi uma das principais composições da época dos Festivais da MPB. Venceu o Festival TV Record em 1965, dividindo o 1º lugar com "A Banda" de Chico Buarque.

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 223
EPISÓDIO Nº 223
DA CAMPANHA DE ASSINATURAS E DO PREJUIZO QUE ADVEM DA AUSÊNCIA DE TIETA
O memorial, redigido por dona Carmosina com a assistência crítica porém útil de Aminthas, recolhe certo número de assinaturas muito inferior contudo ao previsto e desejado pelos promotores da iniciativa. O Comandante Dário veio expressamente de Mangue Seco, para ajudar, saiu pela rua de lista em punho, pondo em jogo o prestígio e a simpatia que o cercam. Sua presença concorre para a adesão de pessoas antes indiferentes ao problema: ouviram falar do assunto sem lhe conceder maior importância. Escutam a explicação do conterrâneo ilustre, portador de dragonas, aceitam a caneta:
- Se o Comandante pede, não me furto.
Muitos, porém se furtam, desaparecem à sua aproximação. A par do significado polémico daquelas folhas de papel, somem das vistas do Comandante ou claramente recusam-se a assinar por se encontrarem convencidos das vantagens provenientes da instalação de uma grande fábrica nas vizinhanças da cidade, em terras do município. Os argumentos sobre os terríveis malefícios da poluição não os abalam nem os comovem. Esperam, não sabem ainda de que maneira, obter proveitos, um lucro qualquer com a vinda da Brastânio; a palavra progresso significa com certeza melhoria de vida.
A grande maioria, não obstante, é composta de indecisos que se retraem. As duas frases do memorial onde predominam palavras assustadoras – podridão, crime e morte – são lidas, relidas analisadas. Sucedem-se perguntas:
- Será mesmo assim? Nos jornais pregados na Prefeitura, a gente lê coisa muito diferente.
O Comandante argumenta, educado e paciente. Na Agência dos Correios dona Carmosina explode com facilidade quando encontra resistência, olhares de dúvida, interrogações:
- Quer viver na podridão, no chiqueiro pois que viva!
- Não é bem isso dona Carmosina, não se exalte. É que uns falam umas coisas, outros negam. A senhora é instruída, sabe o que diz. O Comandante, que correu mundo, diz a mesma coisa. Já Ascânio, que ninguém pode negar o ser devoto de Agreste e que não deveria querer um negócio tão ruim aqui, diz o contrário. Seu Modesto Pires também. Dona Carlota, professora dos meninos, essa nem se fala. Fica braba, igual à senhora.
Tanto o Comandante quanto dona Carmosina ouvem, da boca dos indecisos, a mesma repetida declaração:
- Sei não… Se pelo menos soubesse o que dona Antonieta acha disso tudo Ela é uma pessoa competente, o lado onde ela estiver deve ser o lado certo.
Não adianta dona garantir pela posição de Tieta, o comandante Dário afirmar-se conhecedor do pensamento da viúva paulista, tendo chegado de Mangue Seco onde ela é sua hóspede. Desejam ouvir dito por ela:
- Ela ainda não falou nada. Vou esperar o que ela vai dizer.
- Na agência dos Correios, os dois líderes principais da campanha dão um balanço no trabalho, contam as firmas recolhidas, o número lhes parece insuficiente prova da afirmativa contida no memorial: todo o povo de Agreste repudia a pretensão da nefanda indústria de dióxido de titânio. Sentem um começo de desânimo.
A ideia do memorial foi de dona Carmosina, partidária da acção. Bate-boca oral ou através dos murais, não conduz a nada. Aminthas, apesar do cepticismo habitual, aprovou e colaborou na redacção. O Comandante se encheu de entusiasmo, fez cálculos, tirou conclusões. Se recolhesse pelo menos mil assinaturas dentro dos nove mil habitantes do município, levando em conta as crianças e a imensa maioria de analfabetos, poder-se-ia dizer que a quase totalidade das pessoas capazes de reflectir sobre o problema tomara posição contra a Brastânio. Mas tinham colectado pouco mais de uma centena de nomes, após um trabalho estafante. Nomes importantes, poucos. Os comerciantes, na previsão de bons negócios com a instalação da fábrica, reservaram-se. Padre Mariano declarar-se neutro, as funções de pároco não lhe permitindo tomar partido em tão melindroso assunto.
O memorial, redigido por dona Carmosina com a assistência crítica porém útil de Aminthas, recolhe certo número de assinaturas muito inferior contudo ao previsto e desejado pelos promotores da iniciativa. O Comandante Dário veio expressamente de Mangue Seco, para ajudar, saiu pela rua de lista em punho, pondo em jogo o prestígio e a simpatia que o cercam. Sua presença concorre para a adesão de pessoas antes indiferentes ao problema: ouviram falar do assunto sem lhe conceder maior importância. Escutam a explicação do conterrâneo ilustre, portador de dragonas, aceitam a caneta:
- Se o Comandante pede, não me furto.
Muitos, porém se furtam, desaparecem à sua aproximação. A par do significado polémico daquelas folhas de papel, somem das vistas do Comandante ou claramente recusam-se a assinar por se encontrarem convencidos das vantagens provenientes da instalação de uma grande fábrica nas vizinhanças da cidade, em terras do município. Os argumentos sobre os terríveis malefícios da poluição não os abalam nem os comovem. Esperam, não sabem ainda de que maneira, obter proveitos, um lucro qualquer com a vinda da Brastânio; a palavra progresso significa com certeza melhoria de vida.
A grande maioria, não obstante, é composta de indecisos que se retraem. As duas frases do memorial onde predominam palavras assustadoras – podridão, crime e morte – são lidas, relidas analisadas. Sucedem-se perguntas:
- Será mesmo assim? Nos jornais pregados na Prefeitura, a gente lê coisa muito diferente.
O Comandante argumenta, educado e paciente. Na Agência dos Correios dona Carmosina explode com facilidade quando encontra resistência, olhares de dúvida, interrogações:
- Quer viver na podridão, no chiqueiro pois que viva!
- Não é bem isso dona Carmosina, não se exalte. É que uns falam umas coisas, outros negam. A senhora é instruída, sabe o que diz. O Comandante, que correu mundo, diz a mesma coisa. Já Ascânio, que ninguém pode negar o ser devoto de Agreste e que não deveria querer um negócio tão ruim aqui, diz o contrário. Seu Modesto Pires também. Dona Carlota, professora dos meninos, essa nem se fala. Fica braba, igual à senhora.
Tanto o Comandante quanto dona Carmosina ouvem, da boca dos indecisos, a mesma repetida declaração:
- Sei não… Se pelo menos soubesse o que dona Antonieta acha disso tudo Ela é uma pessoa competente, o lado onde ela estiver deve ser o lado certo.
Não adianta dona garantir pela posição de Tieta, o comandante Dário afirmar-se conhecedor do pensamento da viúva paulista, tendo chegado de Mangue Seco onde ela é sua hóspede. Desejam ouvir dito por ela:
- Ela ainda não falou nada. Vou esperar o que ela vai dizer.
- Na agência dos Correios, os dois líderes principais da campanha dão um balanço no trabalho, contam as firmas recolhidas, o número lhes parece insuficiente prova da afirmativa contida no memorial: todo o povo de Agreste repudia a pretensão da nefanda indústria de dióxido de titânio. Sentem um começo de desânimo.
A ideia do memorial foi de dona Carmosina, partidária da acção. Bate-boca oral ou através dos murais, não conduz a nada. Aminthas, apesar do cepticismo habitual, aprovou e colaborou na redacção. O Comandante se encheu de entusiasmo, fez cálculos, tirou conclusões. Se recolhesse pelo menos mil assinaturas dentro dos nove mil habitantes do município, levando em conta as crianças e a imensa maioria de analfabetos, poder-se-ia dizer que a quase totalidade das pessoas capazes de reflectir sobre o problema tomara posição contra a Brastânio. Mas tinham colectado pouco mais de uma centena de nomes, após um trabalho estafante. Nomes importantes, poucos. Os comerciantes, na previsão de bons negócios com a instalação da fábrica, reservaram-se. Padre Mariano declarar-se neutro, as funções de pároco não lhe permitindo tomar partido em tão melindroso assunto.
quarta-feira, setembro 02, 2009
Uma empresa de telefone móvel, inglesa, promoveu esta mobilização na Trafalgar Square em Londres reunindo mais de 13.000 pessoas. A Empresa mandou um convite pelo celular: "esteja na Trafalgar Square no dia tal a tal hora" e nada mais. No dia e hora distribuiram microfones, muitos, e o resultado foi este: momentos em que sentimos que a humanidade poderia ser feliz...
TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 222
Depois do almoço, no luxuoso restaurante do hotel, Patrícia o deixou para que ele repousasse, tendo ela própria compromisso. Mas voltaria às três para levá-lo a passear ou às compras, conforme preferisse.
No fusca dirigido por Patrícia, Ascânio percorreu a cidade onde não punha os pés há mais de sete anos, agora cortada por novas avenidas, estendendo-se pela orla marítima, pululante de movimento, a população duplicada. Mudara demais nesses anos, transformara-se. Onde a velha urbe modorrenta dos seus tempos de universitário, vivendo das glórias do passado, da tradição de cidade histórica, célula mater, berço de nacionalidade e outras retóricas, capital de um estado de economia atrasada, agro pastoril? Para definir a estagnação, a decadência da Bahia, Máximo Lima vociferava na faculdade:
- Não tem sequer fábrica de cerveja e em breve não terá mesmo ruínas antigas para mostrar.
Precisava de ver Máximo antes de regressar, comentar com ele a transformação que ia atingir agora o longínquo município de Sant’Ana do Agreste. Para isso viera, para a grande decisão.
De moto próprio ou obedecendo ordens, após haver percorrido as novas avenidas, Patrícia dirigiu-se à rodagem e o conduziu ao centro industrial de Aratu, empreendimento tão badalado em todo o país, apontado como exemplo devido à infra-estrutura estabelecida à base de estudos de especialistas, planificada sob a direcção de Sérgio Bernardes, nome famoso. Um imenso canteiro de obras, no qual algumas indústrias recém instaladas começavam a produzir, enquanto muitas outras, em vias de instalação, levantavam blocos de fábricas.
Na véspera, Ascânio passara por ali no jipe mas, no escuro e no silêncio da noite, as grandes chaminés e as estruturas dos edifícios eram apenas vultos imprecisos. Agora, ele as via, as chaminés lançando fumaça, as estruturas crescendo em ritmo acelerado, um barulho de batalha. Na extensão de muitos quilómetros, enormes placas com o nome das empresas anunciavam os produtos que estão sendo ou serão em breve manufacturados no pólo industrial de Aratu. Máquinas ciclópicas e centenas de homens removem toneladas de terra nas escavações, erguem paredes de tijolos e de concreto, soldem e fundem metais brilhantes.
O fusca parou à margem da estrada. Ascânio, boquiaberto, sentiu a pressão da coxa de Patrícia contra a sua, desviou a vista das chaminés. A moça sorria:
- Mais adiante, no caminho para Camaçari, ficará a petroquímica. Um colosso, não é? – Uma afirmação, não uma pergunta.
Ascânio voltou-se para ela, os olhos brilhando de entusiasmo, Patrícia lhe ofereceu a boca. Ao beijá-la era como se beijasse a nova Bahia.
Retornaram pela orla marítima. Diante da beleza do mar e das praias, em terrenos anteriormente descampados, sucediam-se hotéis, restaurantes, bares, boates, clubes, residenciais faustosas e moderníssimas, um panorama novo e sumptuoso. Pararam num bar. Alegre e sequiosa, Patrícia reclamou cerveja – de fabricação baiana com know–how dinamarquês, a melhor do mundo, esclareceu a informada cicerone – comprou cigarros americanos. Quando Ascânio quis puxar da carteira para pagar a pequena despesa, ela já estendia uma cédula para o caixa, sem dar importância aos protestos do rapaz ofendido no seu amor-próprio masculino:
- Não seja machista, neném, isso caiu de moda e quem paga é a Brastânio.
Andaram até à praia, sentaram-se na areia, trocaram beijos.
Você é um amor neném.
Antes do jantar aconteceu o anunciado contacto com o doutor Mirko Stefano e telefónico, porém extremamente cordial. O Magnífico continuava ocupadérrimo, pardon, mon cher ami, não ia poder reunir-se com Ascânio senão no dia seguinte, enquanto isso Pat se ocuparia dele. Quis saber como transcorrera a tarde, Ascânio contou-lhe a ida ao Centro Industrial, o impacto:
- Grandioso! Eu sabia que era uma realização importante, mas superou de muito a minha expectativa. É exaltante!
- Não é? Tudo aquilo de um dia para o outro não passava de um matagal abandonado. Pior que as praias de Agreste. Já imaginou como será o coqueiral de Mangue Seco muito em breve? Bem, divirta-se porque amanhã teremos muito que fazer. Esteja na portaria às dez em ponto da manhã, quero lhe apresentar alguns amigos.
Patrícia deixara Ascânio na porta do hotel, fora a casa mudar de traje, iam jantar fora. Chegou tão chique a ponto dele sentir-se um pouco constrangido no batido e mal talhado terno azul, obra de seu Miguel Rosinha que corta e cose paletós e calças do coronel Artur de Tapitanga há mais de quarenta anos. Antes de saírem, Patrícia avisara que não se coçasse para pagar nenhum gasto, as despesas corriam por conta da Brastânio. Comeram num restaurante da orla, depois ela propôs uma boate onde dançaram de rosto colado até depois da meia-noite. As contas assombraram-no. Se lhe competisse pagar, não teria dinheiro suficiente, passaria vergonha.
Tendo estacionado o carro ao lado do passeio do hotel, Patrícia subiu no elevador junto com Ascânio, no quarto pediu-lhe que puxasse o ziper nas costas do vestido, um longo verde malva com aplicações de renda branca. De dentro dele saiu nuinha pois o tapa sexo não tapava nada. Tinha um sinal de beleza no alto da coxa. Depois do duche, Pat o esperou na cama. Por conta da Brastânio, pensou o aprendiz de dirigente.
EPISÓDIO Nº 222
Depois do almoço, no luxuoso restaurante do hotel, Patrícia o deixou para que ele repousasse, tendo ela própria compromisso. Mas voltaria às três para levá-lo a passear ou às compras, conforme preferisse.
No fusca dirigido por Patrícia, Ascânio percorreu a cidade onde não punha os pés há mais de sete anos, agora cortada por novas avenidas, estendendo-se pela orla marítima, pululante de movimento, a população duplicada. Mudara demais nesses anos, transformara-se. Onde a velha urbe modorrenta dos seus tempos de universitário, vivendo das glórias do passado, da tradição de cidade histórica, célula mater, berço de nacionalidade e outras retóricas, capital de um estado de economia atrasada, agro pastoril? Para definir a estagnação, a decadência da Bahia, Máximo Lima vociferava na faculdade:
- Não tem sequer fábrica de cerveja e em breve não terá mesmo ruínas antigas para mostrar.
Precisava de ver Máximo antes de regressar, comentar com ele a transformação que ia atingir agora o longínquo município de Sant’Ana do Agreste. Para isso viera, para a grande decisão.
De moto próprio ou obedecendo ordens, após haver percorrido as novas avenidas, Patrícia dirigiu-se à rodagem e o conduziu ao centro industrial de Aratu, empreendimento tão badalado em todo o país, apontado como exemplo devido à infra-estrutura estabelecida à base de estudos de especialistas, planificada sob a direcção de Sérgio Bernardes, nome famoso. Um imenso canteiro de obras, no qual algumas indústrias recém instaladas começavam a produzir, enquanto muitas outras, em vias de instalação, levantavam blocos de fábricas.
Na véspera, Ascânio passara por ali no jipe mas, no escuro e no silêncio da noite, as grandes chaminés e as estruturas dos edifícios eram apenas vultos imprecisos. Agora, ele as via, as chaminés lançando fumaça, as estruturas crescendo em ritmo acelerado, um barulho de batalha. Na extensão de muitos quilómetros, enormes placas com o nome das empresas anunciavam os produtos que estão sendo ou serão em breve manufacturados no pólo industrial de Aratu. Máquinas ciclópicas e centenas de homens removem toneladas de terra nas escavações, erguem paredes de tijolos e de concreto, soldem e fundem metais brilhantes.
O fusca parou à margem da estrada. Ascânio, boquiaberto, sentiu a pressão da coxa de Patrícia contra a sua, desviou a vista das chaminés. A moça sorria:
- Mais adiante, no caminho para Camaçari, ficará a petroquímica. Um colosso, não é? – Uma afirmação, não uma pergunta.
Ascânio voltou-se para ela, os olhos brilhando de entusiasmo, Patrícia lhe ofereceu a boca. Ao beijá-la era como se beijasse a nova Bahia.
Retornaram pela orla marítima. Diante da beleza do mar e das praias, em terrenos anteriormente descampados, sucediam-se hotéis, restaurantes, bares, boates, clubes, residenciais faustosas e moderníssimas, um panorama novo e sumptuoso. Pararam num bar. Alegre e sequiosa, Patrícia reclamou cerveja – de fabricação baiana com know–how dinamarquês, a melhor do mundo, esclareceu a informada cicerone – comprou cigarros americanos. Quando Ascânio quis puxar da carteira para pagar a pequena despesa, ela já estendia uma cédula para o caixa, sem dar importância aos protestos do rapaz ofendido no seu amor-próprio masculino:
- Não seja machista, neném, isso caiu de moda e quem paga é a Brastânio.
Andaram até à praia, sentaram-se na areia, trocaram beijos.
Você é um amor neném.
Antes do jantar aconteceu o anunciado contacto com o doutor Mirko Stefano e telefónico, porém extremamente cordial. O Magnífico continuava ocupadérrimo, pardon, mon cher ami, não ia poder reunir-se com Ascânio senão no dia seguinte, enquanto isso Pat se ocuparia dele. Quis saber como transcorrera a tarde, Ascânio contou-lhe a ida ao Centro Industrial, o impacto:
- Grandioso! Eu sabia que era uma realização importante, mas superou de muito a minha expectativa. É exaltante!
- Não é? Tudo aquilo de um dia para o outro não passava de um matagal abandonado. Pior que as praias de Agreste. Já imaginou como será o coqueiral de Mangue Seco muito em breve? Bem, divirta-se porque amanhã teremos muito que fazer. Esteja na portaria às dez em ponto da manhã, quero lhe apresentar alguns amigos.
Patrícia deixara Ascânio na porta do hotel, fora a casa mudar de traje, iam jantar fora. Chegou tão chique a ponto dele sentir-se um pouco constrangido no batido e mal talhado terno azul, obra de seu Miguel Rosinha que corta e cose paletós e calças do coronel Artur de Tapitanga há mais de quarenta anos. Antes de saírem, Patrícia avisara que não se coçasse para pagar nenhum gasto, as despesas corriam por conta da Brastânio. Comeram num restaurante da orla, depois ela propôs uma boate onde dançaram de rosto colado até depois da meia-noite. As contas assombraram-no. Se lhe competisse pagar, não teria dinheiro suficiente, passaria vergonha.
Tendo estacionado o carro ao lado do passeio do hotel, Patrícia subiu no elevador junto com Ascânio, no quarto pediu-lhe que puxasse o ziper nas costas do vestido, um longo verde malva com aplicações de renda branca. De dentro dele saiu nuinha pois o tapa sexo não tapava nada. Tinha um sinal de beleza no alto da coxa. Depois do duche, Pat o esperou na cama. Por conta da Brastânio, pensou o aprendiz de dirigente.
terça-feira, setembro 01, 2009
CANÇÕES BRASILEIRAS
MAYZA - O BARQUINHO
Roberto Menescal e Romaldi Boscoli - Um dos maiores êxitos da Bossa-Nova 1961

OS “PEQUENINOS” PREDADORES
A nossa imaginação guarda em lugar de destaque os grandes predadores, os leões e os tigres, estes em especial, talvez por reminiscências de um passado recuado em que fazíamos parte da dieta dos tigres “Dente de Sabre”, mas os predadores pequeninos, minúsculos e microscópicos são muito mais perigosos e mortais, para além de que nos acompanham permanentemente invadindo os nossos corpos sempre que respiramos ou comemos.
Quando morremos, o nosso sistema imunitário deixa de funcionar e de imediato somos literalmente devorados por milhares de milhões de micróbios como se fossem outras tantas hienas saltando sobre a carcaça de um elefante.
É o nosso Sistema Imunitário que mantém esses predadores à distância, mas como?
- Uma possibilidade consiste num grande número de “planos de guerra” que evoluíram anteriormente. Por exemplo: o micróbio x invade o nosso corpo, é detectado por processos químicos e é imediatamente atacado com o plano de guerra x do arsenal do Sistema Imunitário.
Claro que isto é apenas uma parte da história, pois não existe apenas uma espécie de micróbios como também cada espécie evolui a uma grande velocidade.
Assim, a única forma de combater uma tal diversidade de inimigos que se modificam tão depressa é combater o fogo com o fogo, ou seja, a evolução com a evolução.
O cerne do Sistema Imunitário é a produção aleatória de anticorpos e a selecção daqueles que se associam com êxito no combate aos organismos de doenças do nosso corpo.
O Sistema Imunitário é um processo de ritmo rápido da evolução de anticorpos, criado pelo processo de ritmo lento da evolução genética.
Ele resolve o problema da “dança com fantasmas”. Suponhamos que um determinado tipo de micróbio, completamente novo, chegado de Marte ou da Galáxia mais próxima, invade o nosso corpo.
O facto de o Sistema Imunitário, em si mesmo, ser um processo evolutivo com soluções adaptativas rápidas e não à escala do tempo da evolução genética permite-lhe forjar a solução.
Supor, agora, que alguém afirma ser possível compreender o Sistema Imunitário sem nos preocuparmos em pensar na evolução, estaria profundamente errado e por dois motivos:
- Em primeiro lugar porque ignoraria o facto de o Sistema Imunitário no seu cerne ser um processo de evolução de ritmo rápido;
- Em segundo lugar, ignoraria, igualmente, o facto do Sistema Imunitário chegar a soluções adaptativas apenas porque ele se insere numa arquitectura vasta e complicada que se desenvolveu ao longo dos tempos por meio da evolução genética.
Sem se perceber que o sistema de evolução se processa em duas escalas de tempos diferentes não se consegue compreender o Sistema Imunitário.
Não será o Sistema Imunitário o único processo evolutivo de ritmo rápido. A maioria dos processos que associamos à singularidade humana, desde o desenvolvimento flexível do cérebro até ao pensamento simbólico e à diversidade cultural reflectem também processos evolutivos de ritmo rápido que se verificaram na arquitectura criada pela evolução genética.
Quando morremos, o nosso sistema imunitário deixa de funcionar e de imediato somos literalmente devorados por milhares de milhões de micróbios como se fossem outras tantas hienas saltando sobre a carcaça de um elefante.
É o nosso Sistema Imunitário que mantém esses predadores à distância, mas como?
- Uma possibilidade consiste num grande número de “planos de guerra” que evoluíram anteriormente. Por exemplo: o micróbio x invade o nosso corpo, é detectado por processos químicos e é imediatamente atacado com o plano de guerra x do arsenal do Sistema Imunitário.
Claro que isto é apenas uma parte da história, pois não existe apenas uma espécie de micróbios como também cada espécie evolui a uma grande velocidade.
Assim, a única forma de combater uma tal diversidade de inimigos que se modificam tão depressa é combater o fogo com o fogo, ou seja, a evolução com a evolução.
O cerne do Sistema Imunitário é a produção aleatória de anticorpos e a selecção daqueles que se associam com êxito no combate aos organismos de doenças do nosso corpo.
O Sistema Imunitário é um processo de ritmo rápido da evolução de anticorpos, criado pelo processo de ritmo lento da evolução genética.
Ele resolve o problema da “dança com fantasmas”. Suponhamos que um determinado tipo de micróbio, completamente novo, chegado de Marte ou da Galáxia mais próxima, invade o nosso corpo.
O facto de o Sistema Imunitário, em si mesmo, ser um processo evolutivo com soluções adaptativas rápidas e não à escala do tempo da evolução genética permite-lhe forjar a solução.
Supor, agora, que alguém afirma ser possível compreender o Sistema Imunitário sem nos preocuparmos em pensar na evolução, estaria profundamente errado e por dois motivos:
- Em primeiro lugar porque ignoraria o facto de o Sistema Imunitário no seu cerne ser um processo de evolução de ritmo rápido;
- Em segundo lugar, ignoraria, igualmente, o facto do Sistema Imunitário chegar a soluções adaptativas apenas porque ele se insere numa arquitectura vasta e complicada que se desenvolveu ao longo dos tempos por meio da evolução genética.
Sem se perceber que o sistema de evolução se processa em duas escalas de tempos diferentes não se consegue compreender o Sistema Imunitário.
Não será o Sistema Imunitário o único processo evolutivo de ritmo rápido. A maioria dos processos que associamos à singularidade humana, desde o desenvolvimento flexível do cérebro até ao pensamento simbólico e à diversidade cultural reflectem também processos evolutivos de ritmo rápido que se verificaram na arquitectura criada pela evolução genética.
"Evolução Para Todos" de David Slown Wilson

TIETA DO AGRESTE
EPISÒDIO Nº 221
EPISÒDIO Nº 221
Um dia terrível. O aeroporto de São Paulo fechado, o avião só pôde sair depois das nove, ou seja na hora em que devia estar pousando aqui. Venha comigo.
Enquanto andava, o Magnífico Doutor ia apertando mãos, acenando com os dedos, dizendo uma palavra a esse e àquele. Ao chegarem à borda da piscina, três indivíduos os acompanhavam. Um deles, cego de um olho, perguntou, num sussurro de conspirador:
- Quem chegou?
- Doutor Bardi.
- Sozinho? E os outros, quem são? Vi um grupo na recepção.
Mentira, pois os viajantes não haviam parado na recepção, entraram directamente no elevador, Ascânio os acompanhara com os olhos desde a descida do automóvel. O Magnífico Doutor sorriu para o bisbilhoteiro, passou-lhe a mão no rosto, de leve, num gesto quase feminino:
- Indiscretozinho…
Todas as moças – pelo menos um certo número – em mergulhos ou exposta ao sol eram propriedade do Magnífico Doutor (ou da Brastânio, ninguém pode ser tão poderoso a ponto de possuir tão variada colecção de vedetas; uma grande empresa, talvez). Precipitaram-se para a mesa que ele ocupou. Os três aderentes contemplaram Ascânio, curiosos, à espera quem sabe de apresentação ou notícia, mas como o Doutor Mirko esqueceu ou fez-se de esquecido, logo se entregaram a tarefas bem mais agradáveis: uísque e garotas. Bebiam com valentia, namoravam com rudeza, modos grosseiros, descorteses, na opinião de Ascânio. Jornalistas, os três, soube depois pelo próprio Magnífico. Mas as moças pareciam gostar dos palavrões e das propostas realistas.
Durou pouco o encontro, o doutor levantou-se, ocupadíssimo, deixando com os três vorazes a nova garrafa quase cheia e o mulherio.
- Amanhã ou depois terei notícias para vocês. Antes, nem uma palavra. Ninguém chegou, reina a paz na City e em Wall Street.
- E se A Tarde der o furo? – reclama o zarolho.
- Melhor, assim vocês terão notícia e desmentido.
Tomou Ascânio pelo braço, arrastando-o consigo até aos elevadores. Obedecendo a um gesto seu, uma das moças os acompanhou.
- Hoje estarei reunido a tarde toda. A você posso dizer: reunião decisiva da directoria. Somente no fim da tarde, antes do jantar, poderei lhe ver e lhe falar. Mas vou-lhe deixar em boas mãos. Patrícia vai ficar às suas ordens, vai lhe servir de secretária e de chofer. Passei, divirta-se. Antes do jantar conversaremos – Da porta do elevador, dirigiu-se à moça: - Cuide dele, Pat, com carinho. Um dia você se orgulhará de tê-lo acompanhado, de ter sido sua cicerone.
Patrícia sorriu e tomou posse de Ascânio:
- Almoçaremos aqui no hotel ou quer ir a um restaurante? Vou enfiar o cafetã, volto num segundo.
Patrícia também era loura mas não se parecia com Leonora. O verso do trigal maduro não se aplica aos seus cabelos, Barbozinha não a compararia a uma síflide. Bonita, sim, porém não aquela formosura única, incomparável, aquela distinção a denotar classe e família, filha de pai milionário e comendador do Papa, nascida em berço de ouro, educada nos melhores colégios, flor da alta sociedade paulista. Elegância e finura reveladas não apenas no bom gosto dos trajes mas em cada gesto, na delicadeza, no recato, na graça infinita. Na boniteza chamativa de Patrícia há um quê de vulgaridade e em sua inegável gentileza transparece vestígio de serviço prestado, um toque profissional.
Enquanto andava, o Magnífico Doutor ia apertando mãos, acenando com os dedos, dizendo uma palavra a esse e àquele. Ao chegarem à borda da piscina, três indivíduos os acompanhavam. Um deles, cego de um olho, perguntou, num sussurro de conspirador:
- Quem chegou?
- Doutor Bardi.
- Sozinho? E os outros, quem são? Vi um grupo na recepção.
Mentira, pois os viajantes não haviam parado na recepção, entraram directamente no elevador, Ascânio os acompanhara com os olhos desde a descida do automóvel. O Magnífico Doutor sorriu para o bisbilhoteiro, passou-lhe a mão no rosto, de leve, num gesto quase feminino:
- Indiscretozinho…
Todas as moças – pelo menos um certo número – em mergulhos ou exposta ao sol eram propriedade do Magnífico Doutor (ou da Brastânio, ninguém pode ser tão poderoso a ponto de possuir tão variada colecção de vedetas; uma grande empresa, talvez). Precipitaram-se para a mesa que ele ocupou. Os três aderentes contemplaram Ascânio, curiosos, à espera quem sabe de apresentação ou notícia, mas como o Doutor Mirko esqueceu ou fez-se de esquecido, logo se entregaram a tarefas bem mais agradáveis: uísque e garotas. Bebiam com valentia, namoravam com rudeza, modos grosseiros, descorteses, na opinião de Ascânio. Jornalistas, os três, soube depois pelo próprio Magnífico. Mas as moças pareciam gostar dos palavrões e das propostas realistas.
Durou pouco o encontro, o doutor levantou-se, ocupadíssimo, deixando com os três vorazes a nova garrafa quase cheia e o mulherio.
- Amanhã ou depois terei notícias para vocês. Antes, nem uma palavra. Ninguém chegou, reina a paz na City e em Wall Street.
- E se A Tarde der o furo? – reclama o zarolho.
- Melhor, assim vocês terão notícia e desmentido.
Tomou Ascânio pelo braço, arrastando-o consigo até aos elevadores. Obedecendo a um gesto seu, uma das moças os acompanhou.
- Hoje estarei reunido a tarde toda. A você posso dizer: reunião decisiva da directoria. Somente no fim da tarde, antes do jantar, poderei lhe ver e lhe falar. Mas vou-lhe deixar em boas mãos. Patrícia vai ficar às suas ordens, vai lhe servir de secretária e de chofer. Passei, divirta-se. Antes do jantar conversaremos – Da porta do elevador, dirigiu-se à moça: - Cuide dele, Pat, com carinho. Um dia você se orgulhará de tê-lo acompanhado, de ter sido sua cicerone.
Patrícia sorriu e tomou posse de Ascânio:
- Almoçaremos aqui no hotel ou quer ir a um restaurante? Vou enfiar o cafetã, volto num segundo.
Patrícia também era loura mas não se parecia com Leonora. O verso do trigal maduro não se aplica aos seus cabelos, Barbozinha não a compararia a uma síflide. Bonita, sim, porém não aquela formosura única, incomparável, aquela distinção a denotar classe e família, filha de pai milionário e comendador do Papa, nascida em berço de ouro, educada nos melhores colégios, flor da alta sociedade paulista. Elegância e finura reveladas não apenas no bom gosto dos trajes mas em cada gesto, na delicadeza, no recato, na graça infinita. Na boniteza chamativa de Patrícia há um quê de vulgaridade e em sua inegável gentileza transparece vestígio de serviço prestado, um toque profissional.





